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Escola em Betim está entre a ameaça de militarização e a de privatização

Em visita da Comissão de Educação à Escola Estadual João Paulo I, comunidade mostra mobilização para que excelência no ensino profissionalizante seja mantido. 

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De um lado, a ameaça de ser extinta para dar lugar a uma unidade do Colégio Tiradentes, da Polícia Militar. Do outro, a perspectiva, mais próxima de se tornar realidade, de ser “privatizada” por meio de parceria público-privada (PPP) da infraestrutura escolar.

Em meio à falta de informações oficiais, está a comunidade escolar da Escola Estadual João Paulo I, no Bairro Santa Inês, em Betim (RMBH), visitada na noite desta segunda-feira (31/8/26) pela Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), por meio da sua presidenta, deputada Beatriz Cerqueira (PT).

A deputada concluiu que o governo estadual prioriza, para iniciativas assim, instituições de ensino organizadas, com bom desempenho pedagógico, bem estruturadas e que foram reformadas recentemente com dinheiro público.

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No caso do Colégio João Paulo, como é mais conhecido, trata-se de uma escola dedicada ao ensino médio integral profissional, uma das poucas no Estado.

São 350 alunos que, além de concluir o Ensino Médio, deixam a unidade com o diploma de uma profissão nos seis cursos técnicos oferecidos: desenvolvimento de sistemas, segurança do trabalho, química, mecatrônica, automação e manutenção de máquinas industriais.

A instituição tem laboratórios bem equipados, biblioteca, quadra coberta, acessibilidade, refeitório que serve quatro refeições diárias e 70 funcionários, metade deles professores. Os estudantes chegam às 7 horas e saem às 16h20. Ainda podem participar de oficinas de esporte, lazer e cultura. A escola se destaca pelo alto índice de sucesso no Enem e até além das fronteiras nacionais.

Três estudantes dali foram selecionados em um programa de intercâmbio e estão cursando parte do Ensino Médio na Austrália (2) e na Argentina. Outro aluno acaba de retornar do Uruguai. Atualmente, outros 84 podem concorrer a uma vaga no mesmo programa devido ao bom desempenho.

Segundo o relato feito à deputada Beatriz Cerqueira, a unidade é referência para a comunidade em que está inserida e parte importante da história de Betim. Fundada em 1967, no Bairro Decamão, em um prédio de madeira, foi transferida para o Bairro Santa Inês há 56 anos.

Um susto a cada anúncio pelas redes sociais

O anúncio de que ela e outras 31 escolas estaduais seriam transformadas em unidades do Colégio Tiradentes teria sido feito ainda em maio, por meio das redes sociais do Executivo. Até o momento, conforme relato da direção do Colégio João Paulo, não houve comunicação formal com a escola.

O Colégio Tiradentes integra o Sistema de Ensino da Educação Básica da Polícia Militar de Minas Gerais, entidade mantenedora que define as diretrizes educacionais e prioriza familiares de militares na distribuição de vagas. Ou seja, além de interromper a formação profissionalizante, quem hoje estuda no Colégio João Paulo I teria chance inexistente de continuar ali.

No último dia 24 de agosto, mais um susto para a comunidade escolar. O Executivo anunciou que o destino do Colégio João Paulo seria a privatização da gestão. Um total de 95 escolas estaduais foram incluídas na PPP, que deve durar 25 anos, gerando gastos de R$ 6,7 bilhões ao Governo do Estado.

Na opinião de Beatriz Cerqueira, quem vai lucrar são os vencedores da concorrência internacional em um leilão na B3, a Bolsa de Valores de São Paulo, no dia 30 de março deste ano. A empresa vencedora do certame foi a Opy, controlada pelo fundo de investimento em infraestrutura IG4 Capital, associado a parceiros ligados ao banco BTG Pactual.

O contrato foi assinado no dia 30 de junho. Uma comitiva da empresa já visitou o Colégio João Paulo para verificar a infraestrutura. A direção da escola ainda se queixa da falta de informações por parte do Executivo.

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Mesmo sem saber o futuro, comunidade escolar segue unida

Não somos contra o Colégio Tiradentes, só não o queremos aqui. Nós não queremos sair, aqui está a nossa história”. Assim, o professor de História, Verivaldo Rodrigues Lopes, há quase 30 anos no Colégio João Paulo, resumiu a indignação da comunidade escolar.

Durante a visita da deputada Beatriz Cerqueira, cerca de 100 pessoas relataram a apreensão com o futuro. Estavam reunidos no pátio da escola estudantes, pais, funcionários, líderes comunitários e representantes de entidades como a União Municipal dos Estudantes Secundaristas (Umes) e do Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais.

Entre os servidores presentes estavam muitas auxiliares de serviço de educação básica, mais conhecidas pela sigla ASB. A maioria delas pode ser demitida assim que a PPP começar a operar em janeiro de 2027. A exceção é daquelas que trabalham nas cantinas.

Na roda de conversa, além de elogios à escola e aos funcionários, o questionamento comum foi sobre o interesse do Executivo em uma escola profissionalizante de tempo integral, já que haveria opções "menos traumáticas" disponíveis na cidade.

Há alguns anos, a prefeitura teria disponibilizado um terreno na Avenida Juiz Marco Túlio Isaac, no Bairro Betim Industrial, para a instalação do Colégio Tiradentes. O espaço continuaria desocupado.

Recentemente, foi fechada uma escola pública no Bairro Citrolândia, com infraestrutura necessária para início de funcionamento imediato do Colégio Militar. “Mas o governo estadual parece preferir mesmo é essa confusão toda para dificultar que a gente se organize”, critica Beatriz Cerqueira.

Por que não procuram outra escola que não tenha ensino integral? Eu mudei meu filho de escola para ele fazer um curso profissionalizante aqui. E agora? Se acabar a escola, para onde ele vai? O que ele já estudou vai ser perdido?”, questiona Ronaldo Celso da Silva, que tem um filho de 17 anos no curso de manutenção de máquinas industriais.

Vamos reunir o colegiado escolar para pedir a posição oficial da superintendência de ensino e da Secretaria de Estado de Educação. Precisamos de esclarecimento por escrito para levar para a comunidade, uma resposta do que vai acontecer com a nossa escola”, pede a diretora do Colégio João Paulo, Janaína de Paula Oliveira.

“Mas, até hoje, a gente não sabe direito, e isso provoca uma ansiedade e um desgaste muito grande em todo mundo”, lamenta a gestora.

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Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia - visita a Escola Estadual João Paulo I, em Betim
Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia - visita a Escola Estadual João Paulo I, em Betim
“Temos um governo que parece gostar de brincar de telefone sem fio, uma total falta de respeito. Nessa visita, percebemos o quanto a escola é importante para a comunidade e o quanto ela batalhou para ter essa excelência. Por que o governo quer acabar com uma escola assim, que está dando tão certo? E sem estabelecer um canal de comunicação a respeito do próprio futuro da escola? De um governo assim, a gente pode esperar tudo.”
Beatriz Cerqueira
Dep. Beatriz Cerqueira

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