Escola estadual de Lagoa Santa rejeita transformação em Colégio Tiradentes
Durante visita da Comissão de Educação, alunos e professores da Reparata Dias de Oliveira relatam angústia com possível mudança.
Angústia, incerteza e desrespeito foram sentimentos expostos por alunos e professores da Escola Estadual Reparata Dias de Oliveira, durante visita da Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, na noite desta segunda-feira (24/8/26), para ouvir a comunidade escolar sobre a possível transformação da unidade em Colégio Tiradentes da Polícia Militar (PM).
Com 41 anos de história e situada em área de vulnerabilidade social, a escola fica no Bairro Vila Maria, em Lagoa Santa, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Oferece ensino fundamental, médio regular, profissionalizante e Educação de Jovens e Adultos (EJA) no período noturno, recebendo 380 alunos de 14 bairros da região.
Segundo a direção e a presidenta da comissão, deputada Beatriz Cerqueira (PT), que pediu a visita, a escola foi citada pelo governador Mateus Simões, inicialmente na rede social, entre aquelas que poderiam vir a se tornar uma unidade do Colégio Tiradentes.
De lá para cá, a Secretaria de Estado de Educação (SEE) "nem confirma nem nega" a possibilidade, conforme relatou à comissão o diretor Thiago Luiz Oliveira. Segundo ele, somente um contato, via telefone, chegou a ser feito pela Superintendência Regional, comunicando que três militares à paisana visitariam a escola para verificar o espaço.
Outra informação mais recente do órgão central da pasta veio confundir ainda mais a comunidade, dando conta de que a Reparata passará a oferecer o ensino médio na modalidade tempo integral profissionalizante (EMTI Profissional), o que, segundo o diretor, surpreendeu alunos e professores e foi anunciado sem o prévio conhecimento do Serviço de Inspeção Escolar.
Foi dado à escola o prazo de 48 horas para que escolhesse um curso da modalidade, entre os listados pela SEE, o que foi feito às pressas, optando-se pela área de administração, disse ele.
Para o diretor, a modalidade do médio integral profissionalizante não condiz com o perfil do aluno atendido pela escola, em que a maioria trabalha, e provocaria evasão e a consequente extinção gradativa do ensino fundamental e da modalidade EJA, já em desmantelamento progressivo, segundo os relatos.
"Virou tudo uma loucura, ficamos sem saber até o que falar", criticou o diretor da Reparata sobre a dificuldade de lidar com informações conflitantes vindas do governo e tentar esclarecer a comunidade sobre o destino da escola.
Ele antecipou que o ensino integral deve afastar ainda mais o aluno da escola. "Mais de 80% dos alunos trabalham, e só com o sexto horário que tivemos que adotar já sofremos evasão", frisou.
Da mesma forma, o diretor pontuou que o Colégio Tiradentes atende prioritariamente filhos e netos de policiais militares e bombeiros militares, o que afetaria o acesso a uma escola estadual importante para toda a região.
"É angústia o tempo todo, sai uma coisa, depois vem outra pior. O integral, por exemplo, não serve ao perfil daqui, porque a maioria dos alunos trabalha", também frisou o professor de Ciências e Biologia, Reinaldo França.
A sensação é de "opressão, revolta e falta de respeito", acrescentou Mauro Soares, professor de História, em crítica à ausência de diálogo do governo com a comunidade sobre os rumos da escola.
Apego à escola
Alunos saíram em defesa da escola nos moldes atuais, demonstrando apego à rotina vivenciada na Reparato, o que, para o professor Thiago de Almeida, de Geografia, explica o sentimento de "coração apertado" de todos diante das incertezas recentes.
"Já estou no 3º ano e o que acontecer não vai me afetar mais. Mas estou na Reparata há três anos e lutando para mostrar a importância da escola", frisou a estudante Amanda Alves dos Santos.
Eduardo Fernandes de Carvalho, hoje no 3º ano do EJA, contou ter retornado à Reparata no ano passado, após uma primeira experiência pessoal ruim, entre 2017 e 2018.
"Voltei, e é surreal o que essa escola melhorou, como foi toda recuperada", frisou Eduardo, ao elogiar os professores que encontrou e lembrar que, da primeira vez, havia matagal e muros caindo, onde hoje há espaço de convivência e quadra coberta.
"Para que um Colégio Tiradentes aqui? Sem sentido isso, a escola se reconstruiu e faz parte da gente", rebateu o estudante.
Escuta da comunidade e diagnóstico são cobrados
Para a deputada Beatriz Cerqueira, a visita comprovou in loco a falta de diagnóstico por parte do governo para justificar a possível transformação da escola em Colégio Tiradentes, junto com outras instituições estaduais que também serão visitadas pela comissão.
"O que ouvimos das escolas sobre essa transformação é sempre ´fomos surpreendidos, não fomos ouvidos e não queremos´. O que só mostra a necessidade de um diagnóstico e de escuta da comunidade", cobrou a presidenta da comissão.
Sobre a preocupação relatada na visita em Lagoa Santa, quanto ao ensino médio integral profissionalizante, a deputada destacou a existência da Lei 24.482, de 2023, que institui a política estadual de prevenção e combate ao abandono e à evasão escolar e garante à escola o direito de ter o ensino médio regular onde houver demanda.
"Já houve situação em que a Secretaria de Educação teve que reabrir o ensino médio regular. O integral tem causado sim evasão, começa assim e daqui a pouco fecha a escola, não é um temor em vão", criticou ela.