Morte de bebê de Buritis é denunciada como negligência em audiência
Pais de Isadora se emocionam em relatos sobre peregrinação para salvar filha de três meses. CRM e Conselho de Farmácia anunciam investigação.
"Ei, Isa, calma que a mamãe vai levar você e Deus vai curar." Era dezembro de 2025 e Jéssica Pereira da Costa tentava se manter firme dentro de um táxi, levando no colo a pequena Isadora. Estavam na estrada entre Buritis e Unaí (Noroeste), buscando nessa última um atendimento melhor para a bebê, então com três meses.
Isadora acabou falecendo no Hospital Municipal de Unaí, após uma peregrinação por unidades de Buritis, onde a bebê teria sido medicada no Hospital São Lucas em três ocasiões com plasil, contraindicado para crianças menores de um ano. E com fentanil em Unaí, um forte sedativo, conforme relatos da família em audiência pública nesta quinta-feira (9/7/27), na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG).
A reunião sobre o caso foi realizada na Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, a pedido de sua presidenta, deputada Ana Paula Siqueira (PT). Os pais da bebê denunciaram negligência médica nas unidades por onde passaram. Eles acionaram a justiça contra os dois hospitais e uma CPI sobre o caso chegou a ser criada na Câmara Municipal de Buritis.
Na audiência, eles ouviram de representantes dos Conselhos Regionais de Medicina (CRM) e de Farmácia (CRF) presentes à ALMG que o caso está em procedimento de investigação e apuração. E da Secretaria de Estado de Saúde (SES) que o Comitê de Enfrentamento à Mortalidade Materno-infantil acompanha situações como as relatadas, para verificar medidas de intervenção voltadas à prevenção e melhoria dos serviços de saúde.
Peregrinação
Os pais queriam entender a razão de uma febre alta. Isadora foi levada à Unidade Mista de Saúde, conhecida como Postão, em Buritis, onde foi dito que a causa poderia ser uma inflamação no ouvido. Foi receitado antibiótico e a família, liberada.
A febre não cedeu, vieram vômitos, e a bebê foi levada novamente ao Postão e depois ao Hospital São Lucas, onde teriam sido identificados “um pouco de infecção de urina e um pouco de anemia”, contou a mãe. Aí a bebê teria recebido três doses de plasil.
Segundo Jéssica, a filha continuou quieta, teve convulsões e “entortou o olhinho e o pescoço, que ficou duro”.
Como o médico teria desconsiderado o quadro, dizendo que a bebê estava estressada - ao que a avó materna presente teria rebatido, dizendo que isso não existe em bebê -, o táxi para Unaí foi providenciado pela família. Nesse meio tempo, a família ainda chegou a pagar uma consulta particular.
“Já em Unaí a gente chamava, e ela não acordava”, se emocionou a mãe. Segundo ela, na unidade foram retirados 80 ml de urina da bebê, com pus.
No dia seguinte, Isadora teve uma primeira das três paradas cardíacas que sofreu e, no hospital, chegou a ir para a UTI. Foi sedada para entubação e passou por exames de meningite bacteriana, que teriam dado negativo, segundo teria sido informado à família. Até que, dois meses à frente, um resultado positivo teria sido encaminhado à família, conforme relatou Jéssica, que ainda quer respostas.
Deputada cobra apuração
"Recebemos esse caso de forma bastante inquieta, numa atitude de prestar solidariedade aos familiares e de trabalhar na perspectiva de evitar que qualquer outra família passe pelo mesmo", frisou a presidenta da comissão.
A deputada Ana Paula Siqueira disse esperar que o caso de Isadora seja acompanhado com seriedade pelos hospitais e conselhos profissionais.
“Precisamos garantir que todos os fatos sejam devidamente apurados, que a família seja ouvida e, se houve falhas, identificar os responsáveis”, frisou.
A deputada alertou que a morte de Isadora não é um caso isolado e obriga a uma reflexão sobre a qualidade do atendimento prestado em Minas.
Conforme pontuou, o Estado tem 11,31 óbitos para cada mil nascidos vivos, ou seja, cerca de 2.500 mortes com menos de um ano de idade, levando em conta a média anual de nascimentos, sendo mais preocupante que 63,45% são óbitos evitáveis.
Conselhos apontam diligência e investigação
Danyella Domingues, do Conselho Regional de Farmácia, informou que o órgão não conseguiu muita informação sobre o caso antes dos relatos feitos na audiência. Segundo ela, é difícil julgar os critérios clínicos usados no caso, ainda que, a princípio, a substância do plasil não seja indicada como primeira escolha para bebês. E uma vez prescrito, demanda cuidados como diluição e velocidade de aplicação, registrou.
Segundo ela, efeitos neurológicos como a rigidez relatada pela mãe podem ter agravado o quadro se a bebê já estivesse com uma infecção grave. O fentanil, segundo ela, pode ser usado, mas num bebê de três meses o cuidado deve ser triplicado e pode piorar o quadro. “Mas, sem o prontuário, fica difícil julgar”, ponderou.
Segundo a conselheira, uma diligência no Hospital São Lucas foi pedida para verificar a presença de somente um farmacêutico que trabalharia somente uma hora por dia.
Na Unidade Mista de Saúde, o Postão, não há registro em cadastro da existência de leitos de internação nem de farmácia privativa. Já o Hospital Municipal de Unaí teria 101 leitos e cinco farmacêuticos, contando a priori com assistência adequada, o que deve ser verificado, expôs Danyella.
Representante do CRM, o médico Augusto de Castro Guerra disse que os relatos apontam para a necessidade de uma apuração pormenorizada de todos os fatos.
Segundo ele, o órgão tem a obrigação de acompanhar automaticamente denúncia que é de conhecimento público, situação em que já é aberta uma sindicância interna para apurar os fatos e responsabilidades.
No caso de Isadora, disse que já foi aberto um procedimento preliminar de apuração. Mas, segundo ele, é um processo longo e complexo, que demanda ouvir as partes, inclusive podendo ter a participação da família, e verificar registros, prontuários e prescrições.
O deputado Ricardo Campos (PT) endossou, defendendo uma análise de corresponsabilidade envolvendo a morte de Isadora e avaliando que se trataria de um "caso muito grave".
A deputada Ana Paula Siqueira anunciou ao final uma série de requerimentos da comissão relacionados ao caso, incluindo uma visita técnica ao Hospital de Buritis.
A deputada disse que, no mínimo, teria que ter sido assegurado a Isadora um deslocamento entre as duas cidades num veículo de saúde, e com profissional de saúde acompanhando.
Segundo Lírica Pereira, diretora de Gestão da Integralidade do Cuidado (SES), a garantia de transporte sanitário é de responsabilidade do município.
Ela explicou que o Comitê Estadual de Enfrentamento à Mortalidade Materno-infantil é uma instância de avaliação técnica acerca dos serviços prestados na rede de saúde.