Notícias

Violência contra a mulher cresce e cria cenário de guerra 

O aumento do feminicídio é analisado em ciclo de debates na Assembleia de Minas.

Imagem

Peito. Mutilada. Face. Asfixia. Cabeça. Espancada. Mãos. Queimada. Pescoço. Estrangulada. O conjunto de palavras descreve feminicídios noticiados pela imprensa entre 2015 e 2025. “Existe de fato uma guerra contra nós”, o alerta foi feito, na tarde desta quinta-feira (12/3/26), na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), durante o Ciclo de Debates “Educar, decidir, efetivar: bases para enfrentar o feminicídio e as violências contra as mulheres e garantir direitos”. O evento integra a programação do Sempre Vivas 2026 que comemora, anualmente, o Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março. 

A constatação de que as mulheres enfrentam mais do que nunca uma disposição bélica da sociedade é de Cláudia Maia, professora do Departamento de História da Unimontes e coordenadora do Observatório Norte-mineiro de Violência de Gênero. A primeira palestrante da Mesa "Da violência ao feminicídio: falhas na prevenção e na proteção da mulher" traçou o panorama sobre o crescimento da violência e apontou causas sociais e culturais dessa mazela. 

Botão

Segundo ela, não há espaço seguro. O feminicídio alcança lares, escolas, ruas e até mesmo locais de trabalho. Ao mostrar a "nuvem de palavras" com os termos mais encontrados nas matérias que noticiaram as ocorrências, ela destacou que os níveis de crueldade também geram perplexidade.

Citação

O Brasil registrou, no último ano, cerca de 1.470 casos de feminicídio, o maior número desde a tipificação do crime em 2015, de acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025. Cláudia informou que, durante a pandemia, foram criadas 106 leis no País para combater o feminicídio, mas, paradoxalmente, os números aumentaram.

Para ela, o grande desafio é desnaturalizar essa violência. A professora contou que as pesquisas orientadas por ela indicam, muitas vezes, certa banalização do feminicídio pela imprensa, inclusive os nomes dos agressores não são registrados e os crimes são descritos de forma estereotipada como uma “briga entre marido e mulher”.

“Feminicídio não é simplesmente um crime passional, é um crime de poder”, destaca pesquisadora 

Imagem

Ela esclareceu que o exercício do poder e a masculinidade ainda são associados pela sociedade patriarcal. A mulher que exerce sua autonomia pode se tornar alvo de violência justamente por atingir a noção de dominação cultivada por muitos homens: “Não é à toa que os crimes escalam para a morte quando mulheres que vivem em situação de abuso decidem terminar o relacionamento”, salienta a pesquisadora.

Cláudia Maia afirmou que é também uma forma dos homens demonstrarem poder aos pares. “Por isso é indispensável criarmos políticas de prevenção, conter os grupos de misoginia na internet como os Redpill (movimento associado à disseminação de ódio contra mulheres, tratando-as como manipuladoras ou inimigas) e os Incell (comunidades de homens, em especial jovens, que desejam ter relações sexuais, mas não conseguem encontrar parceiras, atribuindo às mulheres predicados misóginos)”, defendeu. 

A presidenta da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, deputada Ana Paula Siqueira (Rede), lembrou o caso recente de um grupo de adolescentes que participou de um estupro coletivo, no Rio de Janeiro. “E quando um desses jovens chega à delegacia, ele está vestido com uma camisa, cujo dizeres remetem ao “lema” atribuído à comunidade Redpill: não se arrepender de nada”, lamenta a parlamentar.

Transfobia também mata mulheres 

Imagem

Pesquisadora em políticas públicas e direitos humanos e especialista em advocacy e incidência política, Anna Tulie, falou sobre o transfeminicídio (assassinato de travestis e mulheres transexuais por razão de gênero) e as falhas das instituições de Segurança Pública, no Brasil, em notificar o crime.

Ela defendeu a criação de um “sistema único da segurança” para articular e unificar os dados sobre a violência contra mulheres e mulheres trans". “Sabemos que cerca de 80% das pessoas trans assassinadas são negras. O recorte racial precisa ser considerado na elaboração de políticas públicas”, acrescentou Tulie.

Também ressaltou a falta de dados oficiais sobre as mortes de mulheres trans porque as instituições ignoram as identidades que fogem à cisnormatividade (presunção social de que todas as pessoas se identificam com o gênero atribuído ao nascer, tratando essa identidade como a única válida). "O Poder Público institucionalizou o apagamento da nossa identidade”, enfatizou.

Anna Tulie recordou o espancamento de Alice Martins Alves, de 33 anos, na madrugada de 23 de outubro de 2025,  na Savassi, na Região Centro-Sul da Capital mineira. Alice, uma mulher trans, morreu depois de receber alta do hospital com uma fratura interna que não foi tratada e provocou uma infecção generalizada, informou Anna.

Para ela, os sistemas de saúde e de segurança falharam com Alice: “Só quando o vídeo do pai, chorando a perda de sua filha e apontando a negligência das instituições, viralizou nas redes sociais, as investigações de fato avançaram”.

Vídeo

Parlamento mineiro defende o enfrentamento à violência contra as mulheres 

A presidenta da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, deputada Ana Paula Siqueira (Rede), leu o pronunciamento do presidente da ALMG, deputado Tadeu Leite (MDB). Ele destacou que as flores “sempre vivas” são símbolo da resiliência da mulher e reconheceu a importância de se criar leis e defendeu "efetivar a equidade de gênero, decidindo com as mulheres e não pelas mulheres”.

Lamentou que a cada 2 dias, uma mulher é morta em Minas Gerais e que as mulheres negras são as mais atingidas pela violência. Enumerou as iniciativas da ALMG no enfrentamento às desigualdades de gênero como a comissão e a procuradoria da mulher. “Temos a maior bancada feminina da história”, o que para o deputado é motivo de esperança no futuro.

Lista
Ciclo de Debates Educar, Decidir, Efetivar: bases para enfrentar o feminicídio e as violências contra as mulheres e garantir direitos (tarde)
“Aqui estão as partes do corpo feminino mais agredidas. Esses homens buscam atingir aquilo que marca o feminino, por isso, o rosto das mulheres, por exemplo, se torna alvo preferencial. É um crime de ódio ao feminino."
Cláudia Maia
Professora da Unimontes
Ciclo de Debates Educar, Decidir, Efetivar: bases para enfrentar o feminicídio e as violências contra as mulheres e garantir direitos (tarde)

Escaneie o QR Code com o celular para conferir este video
Ministério das Mulheres propõe união das esferas de poder TV Assembleia

Receba as notícias da ALMG

Cadastre-se no Boletim de Notícias para receber, por e-mail, as informações sobre os temas de seu interesse.

Assine