Política específica para combater doença de Chagas é cobrada em Espinosa
Participantes de audiência pública avaliam resultado de programas federais para enfrentar a moléstia, que é endêmica na região
A implantação de uma política pública específica para a doença de Chagas, garantindo o tratamento digno a todos os infectados foi a principal demanda apresentada na audiência pública que a Comissão de Saúde da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) realizou na segunda-feira (23/2/26), em Espinosa (Norte), município mineiro que está entre os mais afetados ela enfermidade no País.
A política deveria incluir, entre outras ações, aplicação em larga escala do teste rápido e ampliação do atendimento de média e alta complexidade, na região.
Solicitada pelo presidente da comissão, deputado Arlen Santiago (Avante), a reunião buscou avaliar o resultado das ações de controle da doença de Chagas na cidade e na região, na qual a moléstia é endêmica. Contou com a participação de profissionais de saúde locais e do Ministério da Saúde e de pessoas que sofrem com a doença.
Em outubro do ano passado, foi realizada a primeira audiência sobre o tema, essa na sede do Legislativo mineiro. Nas duas reuniões, buscou-se também avaliar o andamento de dois recentes programas federais criados para dimensionar e enfrentar o problema: o Integra Chagas Brasil e o Cuida Chagas.
Devido aos altos índices de infecção, Espinosa foi escolhida como um dos focos dos programas, que disponibilizam testes rápidos para diagnóstico precoce e tratamento, priorizando mulheres em idade fértil.
A cardiologista Michella Assunção Roque, que atua em Espinosa, afirmou que vários exames necessários aos chagásicos fazem parte do atendimento de média e alta complexidade: “Os pacientes precisam de consultas com cardiologista e gastroenterologista; de exames específicos da parte cardíaca, do sistema gastrointestinal; e muitas vezes o município é obrigado a gastar recursos próprios para isso e ainda assim não é suficiente”.
Ela ressaltou que o problema não está circunscrito apenas a Espinosa, mas atinge boa parte da região Norte de Minas, que precisa do suporte dos governos estadual e federal. “Hoje estamos pedindo uma política pública específica para a doença de Chagas, para que essas pessoas tenham o cuidado que merecem”, reivindicou.
A médica ainda julgou essencial a implantação em larga escala do teste rápido, criado pela Biomanguinhos da Fiocruz, que ainda só é utilizado em Espinosa. “A partir do teste positivo, realiza-se o exame de sangue; uma vez confirmada a doença, os pacientes sem as formas crônicas passam ao tratamento etiológico, com medicamentos fornecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), e aqueles com formas digestivas e cardíacas fazem tratamento específico.
Doença se tornou endêmica
Apesar de descoberta em 1909, em Lassance (Norte), a doença de Chagas apresenta até hoje índices altos de infecção nessa região. O nome vem do médico sanitarista Carlos Chagas, que identificou o agente causador no sangue de uma menina de dois anos de idade. O Trypanosoma cruzi, protozoário transmitido pelo barbeiro, ainda é bastante comum no norte mineiro.
A moléstia tem uma fase aguda, com febre e inchaço em partes do corpo, e uma crônica, quando órgãos como intestino e coração são atingidos. Por isso, o diagnóstico precoce é fundamental para o sucesso do tratamento.
Integra Chagas Brasil atua em quatro estados
Alberto Novaes Ramos destacou que o Projeto Integra Chagas Brasil (UFC), o qual coordena, é estratégico dentro do Ministério da Saúde. “O projeto foi desenvolvido para ampliar o acesso ao diagnóstico e ao tratamento da doença em áreas endêmicas, a partir da atenção primária, da atenção básica das equipes de saúde da família, mas fazendo uma articulação com a vigilância”, destacou.
Ainda segundo ele, o Integra Chagas foi estrategicamente pensado para cinco municípios de quatro estados do País (além de Minas, Bahia, Goiás e Pernambuco), sendo dois mineiros, Espinosa e Porteirinha. Os cinco municípios foram selecionados porque são áreas reconhecidamente endêmicas. A partir deles, pensa-se em alcançar os demais municípios. “A expectativa é de que municípios, regiões e estados incorporem os aprendizados alcançados nos territórios a partir do trabalho das equipes”, disse.
O gestor acrescentou que o projeto em Minas mostrou a experiência sobre como implementar o teste rápido na rotina do SUS, a partir das equipes de atenção primária: “De fato, aprendemos que é possível fazer com que o teste rápido seja implementado em escala no País a partir do seu uso”, entusiasmou-se.
Alberto Ramos completou que o projeto alcançou até o momento 11 mil pessoas em Espinosa, cerca de um terço da população. Foram diagnosticados 777 casos, número próximo ao de Porteirinha, quase 700. “É um movimento estruturante do SUS e de resgate da dignidade desses pacientes”, valorizou.
Outros números apresentados por ele mostram que menos de 10% das pessoas com Chagas sabem que têm a doença e dessas, menos de 1% tem acesso ao tratamento. “Espinosa e Porteirinha quebraram esse ciclo - quase 80% dos diagnosticados podem ser cuidados na atenção primária.
Por fim, o coordenador ressaltou que uma questão central para o MS e para a Organização Mundial da Saúde é fazer com que poucas crianças em área endêmica nasçam expostas a Chagas.
Paciente fala do convívio difícil com a moléstia
Edivar Pereira da Silva, presidente da Associação das Pessoas com Doença de Chagas (APDChagas), comparou o convívio com Chagas a um campo de concentração: “É um sofrimento terrível e uma incerteza se amanhã estarei vivo; sabendo de todos os efeitos que ela traz e da possibilidade da morte súbita na fase crônica, me sinto como um sobrevivente a cada dia”.
Para a liderança, instituições negligenciam a doença. “Há 115 anos, ela foi descoberta por Carlos Chagas e o que evoluiu depois disso? Tem um remédio com 50 anos de mercado e não tem investimento em ciência para a descoberta de novos medicamentos e novos tratamentos. Então, é uma doença esquecida no tempo”, reclamou.
Negligência
Na avaliação do presidente da Comissão de Saúde, deputado Arlen Santiago, o governo federal parece desconsiderar a doença e acabar com os projetos voltados para ela. “Temos testes rápidos fornecidos única e exclusivamente pela Fiocruz e pelo Ministério da Saúde; aí, se o programa acabar, como é que fica essa questão, se os testes não são nem vendidos para outras entidades?”, questionou.
O parlamentar informou que vai pressionar o Ministério da Saúde para que o projeto não acabe, de modo a não negligenciar ainda mais a doença de Chagas. “Como não chega aos grandes centros, essa enfermidade não cria impacto para a imprensa e acaba sendo esquecida; aqui em Espinosa, as autoridades não estão deixando a doença ser negligenciada; cabe, então, à Assembleia apoiar essas ações”, finalizou.