Padre Pigi se tornou símbolo da luta por terra e moradia
Criação de comenda que leva o seu nome, em tramitação na Assembleia, foi tema de audiência pública nesta terça-feira (18).
Um homem justo, mais preocupado com o próximo do que consigo mesmo, com a vida dedicada aos mais vulneráveis e à luta por moradia para todos. Esse foi o retrato do Padre Pier Luigi Bernareggi, conhecido como Padre Pigi, construído a partir dos depoimentos em audiência pública sobre a proposta de criação de uma comenda que leva o seu nome.
A condecoração, prevista no Projeto de Resolução (PRE) 133/26, de autoria do deputado Leleco Pimentel (PT), seria instrumento de reconhecimento público às pessoas e instituições que atuam em favor da promoção do direito à moradia digna. A proposta foi discutida em reunião da Comissão Extraordinária de Defesa da Habitação e da Reforma Urbana, nesta terça-feira (18/8/26), na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG).
Na justificativa do projeto, Leleco Pimentel argumenta que a aprovação reforçaria o compromisso da Assembleia com os valores da solidariedade, da justiça social, da participação democrática e da efetivação dos direitos fundamentais previstos na Constituição da República e na Constituição do Estado.
Além disso, a homenagem seria uma forma de preservar a memória da personalidade cuja atuação transcendeu a assistência social, contribuindo para o fortalecimento da cidadania e a construção de uma sociedade mais justa e igualitária.
Aguardando parecer da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), o projeto de resolução prevê a concessão anual da comenda, em duas modalidades: Comenda Padre Pigi, apresentada pelos deputados estaduais, e Comenda Especial Padre Pigi, apresentada pelos movimentos, entidades e organizações sociais organizados formalmente.
Padre Pigi, um italiano de família rica, trocou Milão por Belo Horizonte em 1964, abrindo mão do conforto para se dedicar aos mais necessitados. Conhecido como o "padre das favelas", ele liderou a luta por moradia popular na Grande BH, ajudando a garantir teto para milhares de famílias.
Memória reforça compromisso com a luta permanente
Admiradores, amigos próximos e discípulos do Padre Pigi destacaram o legado para as novas lideranças de compromisso com os mais pobres.
“Ele revestiu o sacerdócio em entrega total a Cristo, na imagem dos sem-casa, sem-moradia, sem-teto e sem-terra”, descreveu o padre Roberto da Silva, da Arquidiocese de Belo Horizonte.
Karla França, assessora do Vicariato Episcopal para Ação Social, Política e Ambiental da Arquidiocese de Belo Horizonte, ressaltou que Padre Pigi continuará presente em cada comunidade organizada, cada família que conquista a moradia e nas políticas públicas construídas com a participação popular. “Que a comenda seja mais do que uma homenagem, a responsabilidade de continuidade da sua luta”, afirmou.
De forma semelhante, o deputado federal Padre João (PT-MG) salientou a importância da Comenda Padre Pigi para fomentar o debate sobre o acesso à moradia no Parlamento mineiro e a importância da política para garantir ao cidadão o necessário.
Frei Gilvander, da Comissão Pastoral da Terra de Minas Gerais, lembrou o apoio e a injeção de ânimo de Padre Pigi às famílias em luta nas ocupações Dandara e Izidora, da Capital, ameaçadas de despejo. Como exemplo, ele citou o périplo do padre por cartórios, durante três meses, para levantar documentação comprovando irregularidades na titulação das terras na região da Izidora.
“Um semeador do bem”, resumiu Carlos Alberto da Silva, coordenador-geral da Pastoral Metropolitana dos Sem Casa.
No final da audiência, Leleco Pimentel informou que pretende solicitar consulta pública sobre o PRE 133/26. "A cidade enferma precisa de moradia. Padre Pigi vive na luta do povo", assim, ele encerrou a reunião.
Trajetória do “Padre das Favelas”
Padre Pigi nasceu em Milão, na Itália, em 1939, e faleceu em Belo Horizonte, em 2021. Doutor em Filosofia pela Universidade Católica Del Sacro Cuore (Milão), mudou-se para o Brasil em 1964, onde cursou Teologia na Universidade Católica de Minas Gerais. Em Belo Horizonte, foi professor na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) e atuou nas paróquias Santo Antônio (Avenida do Contorno) e Todos os Santos (Bairro Providência). Em Contagem, atuou na Paróquia Nossa Senhora da Glória.
Consagrou-se como o “padre das favelas” ao coordenar a Pastoral Metropolitana dos Sem-Casa, na Arquidiocese de Belo Horizonte. Tornou-se figura histórica na capital mineira, cumprindo papel fundamental na desapropriação da antiga Fazenda Tamboril – que deu origem ao bairro Jardim Felicidade – e na proteção de ocupações urbanas históricas de Belo Horizonte, como a Izidora e a Dandara. Nos últimos anos, viveu acolhido no Convivium Emaús, na Arquidiocese de Belo Horizonte.
Participou ativamente da criação do Programa Municipal de Regularização de Favela (Profavela), em 1983, sendo o primeiro coordenador. Foi um dos criadores da Central Metropolitana dos Sem Casa (Cemcasa) e do projeto do Bairro Metropolitano, sendo decisivo para que cerca de 20 mil pessoas tivessem um lar. Atuou também na Pastoral de Vilas e Favelas da Arquidiocese de Belo Horizonte, dedicando-se para efetivar um Plano Metropolitano de Habitação Popular.