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Relatos de falhas e mortes de pacientes marcam debate sobre a Core Saúde MG

Audiência reuniu gestores, profissionais de saúde e representantes do governo para discutir nova plataforma de regulação de leitos hospitalares do Estado.

- Atualizado em 09/07/2026 - 15:48
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Rebeca Cardoso Tenente Molina tinha 32 anos quando faleceu em Oliveira (Centro-Oeste), no dia 6 de junho, após ter passado cinco dias internada em São João Nepomuceno (Zona da Mata) à espera de um leito de UTI. A internação da psicóloga, por pedras na vesícula, ocorreu logo no início da implantação da Central de Operações para Regulação Estadual do SUS (Core Saúde MG), plataforma que passou a organizar a fila de internações, transferências e leitos na rede pública de saúde estadual.

“O meu sentimento é de que a minha irmã foi um teste na implementação desse sistema”, disse emocionada a irmã gêmea de Rebeca, a advogada Sâmela Cardoso Tenente. “Eu vi os médicos desesperados, pois tentavam alimentar o sistema e ele não respondia proporcionalmente à gravidade do quadro da minha irmã”, contou.

O relato aconteceu durante audiência pública da Comissão de Participação Popular da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), na manhã desta quinta-feira (9/7/26). Solicitada pelos deputados Lucas Lasmar (Rede) e Doutor Jean Freire (PT), a reunião debateu os impactos da Core Saúde MG para o Sistema Único de Saúde (SUS).

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Desde a implantação da plataforma, em 19 de maio deste ano, prefeitos, secretários municipais de saúde, hospitais e trabalhadores do setor relatam dificuldades como lentidão no processamento das solicitações, falhas no sistema e demora na transferência de pacientes.

O deputado Lucas Lasmar informou ter recebido um relatório de mais de vinte páginas de inconsistências logo nos primeiros dias de funcionamento da Core Saúde MG, de profissionais com dificuldades para localizar e aceitar pacientes nas unidades de saúde. “Um sistema de R$ 23 milhões implantado de forma precoce, sem operação de testes”, criticou o parlamentar.

Já o deputado Doutor Jean Freire apresentou relatos de outros pacientes, além da psicóloga Roberta Cardoso, que sofreram consequências enquanto aguardavam transferência por meio da Core Saúde MG. Todos na região do Vale do Jequitinhonha e Mucuri.

O parlamentar citou o caso de Cláudio Ferreira dos Santos, de 31 anos, que esperou oito dias por uma vaga e morreu na madrugada de 8 de julho no Hospital do Vale do Jequitinhonha. Também mencionou Maria de Lourdes Teixeira dos Santos, que faleceu em 14 de junho, após permanecer 24 dias internada à espera de transferência no Hospital Santa Rita, em Medina, e Silma da Silva Pereira, de 64 anos, que morreu em 3 de junho, no mesmo hospital, depois de 22 dias internada com um quadro de AVC.

Doutor Jean Freire afirmou ainda que havia um paciente em Itamarandiba aguardando transferência há 22 dias e uma paciente em Almenara que esperava por uma vaga há 55 dias.

Governo defende plataforma

“É sempre mais fácil estancar a ferida, mas nós escolhemos tratar a ferida”, afirmou a secretária-adjunta da Secretaria de Estado de Saúde (SES), Poliana Cardoso Lopes, sobre a implantação do novo sistema. A representante do governo apresentou o histórico de implementação da Core Saúde MG em substituição ao sistema SUSFácil, responsável pela regulação anteriormente. “Estamos orgulhosos do que estamos colhendo”, afirmou.

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De acordo com a apresentação da secretária-adjunta, o Core Saúde MG foi desenvolvido após diagnóstico realizado em 2021, que identificou problemas como demora nas internações, falta de transparência e instabilidade do sistema de regulação. A nova plataforma começou a ser construída em 2023 e passou a funcionar em todo o Estado em maio deste ano, com a proposta de modernizar a gestão das vagas hospitalares.

A secretaria informou que o sistema permite acompanhar a ocupação dos hospitais em tempo real, reorganizar o trabalho das centrais de regulação e ampliar o acesso de profissionais e órgãos de controle. Como resultados iniciais, apresentou mais de 143 mil internações realizadas, cerca de 4 mil solicitações diárias e redução de 26% no tempo mediano de permanência dos pacientes na fila de regulação.

Para Poliana Cardoso Lopes, o sistema “coloca um holofote” sobre o problema e a situação do paciente. A gestora se comprometeu, contudo, a ampliar o diálogo para avaliar melhorias no Core Saúde MG. Em resposta a questionamentos do deputado Lucas Lasmar, a secretária-adjunta também assegurou que está prevista a oferta constante de capacitações dos profissionais reguladores e a integração da Core com os demais sistemas do SUS-MG. “O importante é colocar o paciente no leito certo, no menor tempo possível”, concluiu.

Para participantes, implementação foi prematura 

Luidy Luciano Cardoso, coordenador Estadual de Regulação de Leitos, falou sobre a experiência como médico regulador. Para ele, não restam dúvidas de que o Core é um sistema mais assertivo do que o SUSFácil. “Não havia, por exemplo, priorização dos casos conforme sua urgência. As solicitações eram avaliadas em ordem cronológica. Começávamos por aquela que já estava aguardando há mais tempo, às vezes, por 20 dias”, ressaltou Cardoso. 

Ele afirmou que o treinamento para operacionalizar o novo sistema foi realizado, de fato, on-line. Com a implementação da Core, os profissionais passaram a trabalhar de forma presencial. Cardoso acredita que a mudança exige adaptação e melhorias dos espaços destinados à acomodação dos médicos. 

Para a promotora Josely Ramos Pontes, titular da 2ª Promotoria de Justiça de Defesa da Saúde do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), a implantação da atual central de regulação deveria ter se iniciado pelas cirurgias eletivas (aquelas que não exigem intervenção imediata), nos moldes de como foi feito pela Prefeitura de Belo Horizonte (PBH).

A secretária de Saúde do município, Marcela Nunes Silvério Pimenta, reforçou esse ponto. Ela acrescentou que “quando a implementação da nova ferramenta da PBH incluiu os serviços de urgência, recuamos diante das primeiras falhas a fim de não deixar os pacientes em situação de insegurança”. Ela também ressaltou que não houve, até o momento, integração entre o sistema de regulação municipal e a Core.

Lourdes Aparecida Machado, presidente do Conselho Estadual de Saúde, classificou como prematura a implementação do novo sistema. Ela lembrou que o órgão de controle sempre esteve de acordo com a substituição do SUSFácil, contudo, orientou que a implantação da ferramenta fosse gradativa, começando pelas macrorregiões, sobretudo quanto aos serviços de urgência e emergência. 

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Ela enumerou ainda demandas e reclamações recebidas pelo conselho, relativas ao funcionamento da Core: falha na migração de dados, deslocamentos de pacientes considerados desnecessários, leitos inexistentes na unidade de saúde indicada, serviços não prestados pela unidade indicada, demora das respostas, não atendimento dos contatos telefônicos com a Core, horas de espera para regular as solicitações.

Ao final da audiência pública, o deputado Doutor Jean Freire anunciou como encaminhamentos da reunião pedidos para a realização de monitoramentos periódicos sobre a implantação da Core, capacitações contínuas e levantamentos acerca da carga horária de trabalhadores e dos casos judicializados. Outra visita técnica à Central de Operações também deve ser feita pela comissão.

Comissão de Participação Popular - debate sobre a nova regulação do SUS

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