Regularização de ocupação em Uberlândia pode ter solução inédita no País
Centenas de famílias da Ocupação Fidel Castro lutam pela regularização de moradias desde 2016.
Um impasse jurídico de dez anos, relativo a um terreno de propriedade da Construtora Centro-Oeste (CCO) penhorado por dívidas da empresa, é o principal obstáculo para que centenas de famílias que vivem na Ocupação Fidel Castro, no município de Uberlândia (Triângulo), tenham as moradias regularizadas.
O assunto foi debatido na segunda-feira (3/8/26) em audiência pública realizada na comunidade pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). Durante a reunião, o secretário nacional de periferias do Ministério das Cidades, Vitor Araripe Pacheco, disse ter a expectativa de que a questão seja resolvida por meio de uma adjudicação (transferência de um terreno para pagamento de uma dívida) urbana, algo inédito no País.”Será a primeira adjudicação urbana do Brasil. Vocês vão fazer história para todo o País”, afirmou Pacheco.
A reunião foi realizada pela Comissão de Direitos Humanos da ALMG por iniciativa de sua presidenta, deputada Bella Gonçalves (PT). Centenas de moradores acompanharam a reunião, muitos de pé, alguns usando os celulares para gravar as falas das autoridades, revelando a ansiedade por uma solução para o problema de anos.
A Ocupação Fidel Castro foi criada em 2016, quando cerca de 700 famílias do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) ocuparam a área próxima ao Parque do Sabiá, em Uberlândia. Atualmente, aproximadamente 1,5 mil famílias vivem no local.
Segundo informações do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional autorizou, em 2024, a doação dos imóveis ao município, mas a proposta foi recusada pela Prefeitura de Uberlândia, por falta de recursos para promover a regularização.
Em 2025, a proposta da Prefeitura de regularização da área, utilizando cerca de R$ 111 milhões de recursos federais, por meio do programa Novo PAC Periferia Viva, foi habilitada pelo Governo Federal.
No entanto, a execução do projeto depende da solução para o processo de penhora do terreno da CCO, que representa quase a metade da área da Ocupação Fidel Castro. O restante do terreno é dividido por outros cinco proprietários, mas há divergências sobre os limites de cada área.
O diretor de Habitação do Município de Uberlândia, Elias Pimenta, disse que a Prefeitura solicitou um estudo do cartório de imóveis responsável pela região para sanar as dúvidas relativas à sobreposição de áreas.
O coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), Jairo dos Santos Pereira, disse que o parecer favorável da Advocacia-Geral da União à adjudicação do terreno ocupado pela comunidade Fidel Castro, em fevereiro deste ano, deixou mais próxima a realização do sonho da regularização fundiária.
“A gente custou a aprender uma palavra aqui na ocupação, que é a adjudicação. A troca da dívida pelo imóvel. O primeiro caso de adjudicação urbana no Brasil será o da Ocupação Fidel Castro”, afirmou o coordenador do MTST, lembrando que há outras situações semelhantes no País. A deputada Bella Gonçalves defendeu que o caso da Ocupação Fidel Castro se torne um exemplo.
O secretário nacional Vítor Pacheco explicou que o parecer da Advocacia-Geral da União viabilizou a adjudicação urbana e eliminou a necessidade do Ministério responsável pagar a Procuradoria da Fazenda Nacional. Para que o procedimento se concretize, no entanto, ainda é necessário um decreto federal para regulamentar o processo.
Pacheco afirmou que o Governo Federal planeja destinar R$ 290 milhões para a regularização fundiária em Uberlândia, sendo R$ 111 milhões para o Fidel Castro, R$ 80 milhões para a ocupação Maná e R$ 98 milhões para a ocupação Glória.
O procurador-seccional da Fazenda Nacional em Uberlândia, Lucas Dornelas, afirmou que o órgão aguarda a regulamentação da adjudicação urbana para agir. “Estamos aguardando a regulamentação por um decreto do presidente da República. Após o decreto, vamos iniciar o procedimento administrativo para a adjudicação”, declarou.
O deputado estadual Leonídio Bouças (PSDB), que também acompanhou a reunião, defendeu a transferência do terreno para a prefeitura como a melhor alternativa para regularizar a comunidade Fidel Castro. “É preciso ter habitação para ter dignidade. Viemos aqui para ser o elo a fim de buscar uma solução", declarou.
Coordenadora do MTST, Joana Gama lembrou que os moradores da comunidade buscam há dez anos realizar o sonho da casa própria, regularizada. “Nossa luta é pelo preconceito que enfrentamos lá fora. As crianças não têm ônibus escolar porque eles não entram na comunidade”, lamentou. Ela ressaltou o esforço da comunidade, principalmente das mulheres, que criaram um grupo para produção de crochê, com o objetivo de ampliar a renda.
Falta de energia elétrica já causou uma morte na comunidade
Além da regularização fundiária, outra reivindicação urgente dos moradores da comunidade Fidel Castro é o fornecimento de energia elétrica para todas as casas. Ao cobrar uma solução, a deputada Bella Gonçalves lembrou que já ocorreu um assassinato na ocupação em decorrência de uma ligação clandestina. “Garantir energia elétrica é garantir saúde, educação e segurança alimentar”, afirmou ela.
O superintendente regional da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), Wellington Cancian, leu uma mensagem do presidente da empresa, Alexandre Peixoto, na qual afirma que a solução depende da articulação de diversas instituições. Isso porque a Cemig assinou, em 2014, um termo de compromisso com o Ministério Público que impede legalmente a empresa de realizar ligações elétricas em áreas não regularizadas. Portanto, a solução depende da flexibilização dessa regra.