Prontuário eletrônico da Fhemig é questionado em audiência
Servidores denunciaram que o novo sistema atrasa o serviço e sobrecarrega os profissionais; pagamento de direitos e assédio moral também foram citados.
Mais uma vez, o prontuário eletrônico Tasy, em implantação nas unidades de saúde da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), pautou debate da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG).
Em audiência pública nesta quinta-feira (25/6/26), servidores apontaram falhas constantes do sistema, que está sobrecarregando os profissionais e afetando o atendimento de pacientes.
A enfermeira do Hospital Regional de Barbacena, Silvana Teixeira Fiel, afirmou que o software cai constantemente, seja por falta de sinal de internet ou de luz elétrica. Citou exemplo do dia em que o prontuário eletrônico zerou o estoque de medicação da farmácia e os servidores tiveram que liberar os remédios sem protocolar. “Se alguma coisa desse errada, não tinha como comprovar se foram ou não liberados os medicamentos”.
Carolina Guedes da Silva, técnica de enfermagem do CTI do Hospital Júlia Kubitschek, complementou que o novo sistema afetou a qualidade do atendimento aos pacientes. Ela afirmou que aumentou o número de infecções registradas na instituição. “O técnico fica preso em frente a um computador, a prescrição fica presa, há registro de medicamento duplicado e muito tempo perdido para resolver os problemas”, reclamou.
Presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Rede Fhemig, Carlos Augusto Martins, ressalvou que os servidores não são contra o sistema ou a informatização. O que questionam é que o Tasy foi implantado sem as adequações necessárias, sejam estruturais ou de recursos humanos. “Ampliou as funções para os servidores e isso exige novo dimensionamento”.
Ele se mostrou preocupado com a implantação no Hospital João XXIII nas mesmas condições. Segundo Carlos Martins, já começaram as obras no hospital, mas na semana passada houve necessidade de arrancar tubulações inadequadas para o ambiente hospitalar para passar cabos. “Dinheiro e serviço desperdiçados”, declarou.
Diversas reclamações
Os servidores apontaram outras reclamações na audiência pública. Carolina Guedes, do Hospital Júlia Kubitschek, lamentou o corte de ponto dos dias paralisados no salário de quem participou da greve, que ainda não foi julgada. Também reclamou de abandono da instituição, que precisa de várias obras, tem setores fechados e leitos vazios.
O sindicalista Carlos Martins acrescentou que a administração da Fhemig não concede abono de insalubridade a profissionais que trabalham com doenças infectocontagiosas, demora a pagar benefícios como adicional de férias e gratificações, é muito rígida em punições de falhas dos servidores e há muitas denúncias de assédio moral.
Reclamou de “dois pesos e duas medidas” na avaliação de erros cometidos por servidores ou pelos gestores. Citou como exemplos a falta de lançamentos na folha de pagamento, falha tolerada sem qualquer cobrança; a execução errada de obras, como um banheiro e um protetor de macas no Hospital João XXIII, que foram refeitos, causando prejuízo, sem qualquer punição dos responsáveis.
Gestores respondem a algumas questões
Sobre o prontuário eletrônico, a presidente da Fhemig, Renata Ferreira Leles Dias, afirmou que o sistema está dando certo nas unidades hospitalares em que foi instalado. A afirmação gerou protestos da plateia, que interrompeu a profissional várias vezes.
Renata Dias admitiu algumas instabilidades no sistema, mas ressalvou que queda de internet e de luz não estão relacionadas à ferramenta. Ela assegurou que o Estado investiu na compra de equipamentos, data center, cabeamento e obras para adaptar o sistema.
A presidente creditou a dificuldade à fase de adaptação do sistema, que tem mais funções. “Não é fácil viver um novo sistema”, observou. Segundo ela, o objetivo é ampliar o número de dados coletados, reduzir as impressões de papel e aprimorar o serviço. Ela disse que vai solicitar à comissão que cuida do Tasy para analisar as demandas.
A gestora apresentou melhorias feitas com base na última pesquisa de clima organizacional. De acordo com ela, algumas mudanças foram implementadas, como a troca de um diretor em um hospital da rede que não era servidor. Citou diversas iniciativas voltadas à capacitação das equipes, além da realização de concurso público e da redução da carga horária.
Sobre o pagamento dos plantões, Renata afirmou que faltas injustificadas são descontadas. “A legislação é clara nesse ponto. Para não haver desconto, é preciso repor as horas restantes. É o que está na lei", declarou Renata.
A gestora do Hospital Júlia Kubitschek, Cláudia de Andrade, deu retornos sobre a implementação do Tasy. Disse que, até o momento, os esforços se concentram em aperfeiçoar a gestão, por meio de qualificação. Ela não identificou reações contra o Tasy, mas contra a forma de implementar. Mencionou a expectativa de o sistema funcionar tão bem como nas redes privadas que o utilizam.
A gestora disse que a plena adaptação ainda vai demorar a ocorrer e que isso faz parte do processo. Segundo ela, a farmácia é a “maior dor” identificada no momento, mas existe uma comissão para discutir melhorias, formada também por pessoas que assistem pacientes.
“Quando estudamos sobre implementação de novo sistema, é preciso considerar a administração de crises, porque essa novidade precisa de mudança de cultura e saída da zona de conforto. As crises precisam ser enfrentadas", disse Cláudia de Andrade.
Caio Magno, subsecretário da Secretaria de Planejamento, Gestão e Finanças do Estado (Seplag), falou que a Secretaria sempre está aberta ao diálogo e disposta a fazer as adaptações na norma, quando possíveis, mas que precisa agir de acordo com a legalidade. Deu exemplos da situação de emergência causada pelas chuvas na Zona da Mata, onde foi feita uma adaptação para manter a ajuda de custo dos servidores da região.
O deputado Lucas Lasmar (Rede), solicitante da audiência, disse que apresentou projeto de lei que assegura a presença de uma companhia em conversas entre servidores e gestores, para reduzir casos de assédio. A proposta também exclui a obrigatoriedade do 11º plantão para os servidores que trabalham 30 horas, além de regulamentar horários de lanche e almoço para eles.
O parlamentar questionou o uso da Lei de Responsabilidade Fiscal para justificar melhorias aos servidores da saúde, mas não ser mencionada em outras secretarias, como a de segurança pública. Ele cobrou o mesmo tratamento para todos os servidores.
Como um dos encaminhamentos do encontro, Lucas Lasmar agendou visita ao Tribunal de Contas, no dia 30/6, com a presença de sindicalistas e de representantes dos técnicos operacionais de saúde (TOS), para dialogar sobre melhorias para os servidores da área.
