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Pressão leva a suspensão de licença para mineradora em Queimadas

Convidados comemoram, mas apontam irregularidades na reunião de 2025 considerada pela Sedese como consulta prévia, livre e informada. 

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Graças à pressão exercida pela comunidade quilombola de Queimadas, no Serro (Central), por autoridades e movimentos sociais que apoiam a causa, o Tribunal Regional Federal de Minas Gerais (6ª Região) suspendeu a Licença de Operação da Conemp/Herculano Mineração no município. A decisão atendeu à ação da Federação das Comunidades Quilombolas de Minas Gerais N’Golo devido à falta de consulta prévia, livre e informada (CPLI) à comunidade afetada pelo projeto.

A notícia foi comemorada em reunião da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), nesta quarta-feira (5/8/26). Solicitada pela presidenta da comissão, deputada Bella Gonçalves (PT), a audiência pública discutiu os impactos da mineração em Queimadas, especialmente as denúncias de violações de direitos humanos relacionadas a esse processo de licenciamento ambiental.

Convocado para o evento, o titular da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (Sedese), Marcelo Couto Dias, considerou a reunião de 19/1/25 como uma consulta prévia, livre e informada (CPLI) da comunidade atingida. Diante dessa postura e das várias denúncias de irregularidades apontadas na audiência desta quarta (5), Bella Gonçalves anunciou que pretende solicitar à Sedese cópias da ata e da gravação da reunião do ano passado. Também vai pedir informações ao Incra e ao Ministério Público sobre a validação da audiência. 

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A deputada lembrou que a CPLI é um direito das comunidades e povos tradicionais, como prevê a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da qual o Brasil é signatário. Ela saudou as várias representações de quilombos presentes na audiência pública, que vieram se solidarizar com a Comunidade de Queimadas.

Muitos participantes da reunião questionaram a validade da reunião de 2025 como CPLI. Juliana Deprá Stelzer, do Movimento pela Soberania Popular na Mineração, lembrou que, à época, a Sedese, a princípio, afirmava que ele não funcionaria como uma consulta prévia, livre e informada, mas, por pressão da mineradora, havia mudado o entendimento.

“Não teve nenhuma abertura para as pessoas falarem e não havia controle sobre quem era ou não da comunidade. Além disso, o Incra não estava presente. Ainda assim, a Sedese disse que a comunidade, de forma unânime, tinha aprovado a operação da mineração”, criticou.

Jonas Vaz Leal, do Centro de Apoio Operacional às Promotorias de Justiça de Apoio Comunitário, Inclusão e Mobilização Sociais (Cimos) do Ministério Público Estadual, afirmou que o órgão não reconheceu a reunião de 2025 como uma CPLI.

Também Valderes Quintino Brandão, diretor da Federação Quilombola de Minas Gerais, afirmou que o encontro foi convocado pela Sedese apenas como uma reunião de trabalho para tratar do processo consultivo e não como uma CPLI.

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Críticas à associação

Durante a audiência, vários presentes criticaram a atuação da Associação Comunitária Quilombola de Queimadas,  considerada pela Sedese como representante oficial da comunidade. Valderes Brandão comentou que ficou decepcionado quando pessoas da diretoria da associação, criada por ele e outros moradores, se voltaram contra a comunidade, ao darem aval à reunião do ano passado.

Jonas Vaz Leal completou que, em 2024, houve uma mudança de abordagem por parte da associação comunitária, que quis simplificar o protocolo, sem atender aos interesses da comunidade. “Fomos instados por outras parcelas dos moradores que não se sentiam atendidos. Então, vimos a necessidade de fazer escutas de outras pessoas além daquelas da associação”, relatou.

Ele complementou que foram ouvidos membros dos 16 núcleos que compõem a comunidade de Queimadas, levando ao pedido de CPLI. “Contratamos um perito antropólogo para atuar nesse processo e aí fomos surpreendidos pela decisão anterior da justiça, que dava aval à reunião de 2025, passando por cima de tudo que vinha sendo construído”, questionou.

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Documento da mineradora tem inconsistências

Frederico Alves Gonçalves, coordenador do Projeto Quilombo Vivo, que atua no Serro, afirmou que analisou a documentação que a Mineração Herculano entregou ao Conselho Municipal de Meio Ambiente (Codema) local: “Vimos um monte de mentiras que tentaram aplicar no Codema”.

Ele destacou que a operação da mineradora seria em uma cava rasa, com 30 metros de profundidade, não interferindo no nível de água subterrânea. “Analisamos o mapa apresentado e mostramos que, sim, haveria impacto na água subterrânea. Vão ter que retirar água para continuar escavando”, rebateu. Além disso, o local que a mineradora pretende explorar estaria dentro de área de manancial hídrico.

Sedese considera válida reunião de 2025

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Em resposta aos questionamentos apresentados na reunião, o titular da Sedese, Marcelo Couto Dias, disse que a pasta acompanhou todo o processo no Serro. “Servidores se reuniram na comunidade, com representantes de 13 dos 16 núcleos de Queimadas”, disse. Além disso, a reunião de janeiro de 2025 foi realizada em data marcada, após entendimentos com a comunidade, sem interferência da secretaria.

“Oficiamos todos os entes que julgamos importante participarem desse processo; e a Sedese entendeu que estava sendo representada a vontade da comunidade por meio da Associação Comunitária Quilombola de Queimadas”, afirmou. Segundo o gestor, os documentos do processo administrativo sob responsabilidade da Sedese mostram que a CPLI foi realizada com a representação de 13 dos 16 núcleos e com acompanhamento técnico, conferindo legitimidade institucional.

“Àquela época, a associação era representante legítima da comunidade; não podemos desconstituir o que foi feito em virtude de divergências internas na associação”, opinou. E completou que as divergências posteriores à realização da reunião não têm o condão de anular a CPLI.

Ainda assim, Marcelo Dias orientou que os moradores insatisfeitos formalizassem uma contestação da ata da reunião de 2025 junto à Sedese. Juliana Stelzer respondeu que a contestação havia sido apresentada ao Incra, que seria o órgão competente para o caso.

A deputada Bella Gonçalves anunciou requerimentos de pedido de providências ao Incra e ao MP para que os fatos sejam esclarecidos e a comunidade possa exercer, de fato, o direito à consulta prévia, livre e informada.

ALMG investiga impactos da mineração em Queimadas desde 2019

Pelo menos, desde 2019, a ALMG vem debatendo os impactos da atividade minerária na região. Em 2019, visita da Comissão de Direitos Humanos registrou o temor de moradores com os riscos à agricultura familiar, ameaçando o cultivo de mandioca, milho, feijão e mel.

Em 2022, a pedido do MP, a Justiça anulou documento que permitia à Conemp avançar com o projeto Serro, devido à falta de estudos sobre os impactos ambientais e de diálogo com a comunidade. Em 2023, a Comissão de Administração Pública questionou a construção de estrada ligando a MG-010 a Queimadas, para beneficiar a atividade minerária. Um mês depois, as obras foram suspensas.

Já em 2024, em reunião da ALMG junto ao VII Colóquio Internacional de Povos e Comunidades Tradicionais, foi denunciado assédio de seis mineradoras à comunidade de Queimadas. Com ameaças e ofertas de vantagens econômicas para lideranças, representantes empresariais estariam tentando silenciar moradores locais.

Em 16 de julho de 2026, o Diário Oficial divulgou a concessão das licenças prévia, de instalação e de operação para a Conemp, com autorização para supressão de cobertura vegetal em área de preservação permanente (APP). Essa decisão levou Bella Gonçalves a convocar a audiência pública desta quarta (5).

Comissão de Direitos Humanos - debate sobre a violação de direitos humanos da comunidade quilombola de Queimadas, no Serro, pelo processo de licenciamento ambiental da Herculano Mineiração
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Quilombolas de Queimadas, no Serro, comemoraram decisão que suspendeu o licenciamento ambiental da Herculano Mineração, mas denunciam falta de diálogo com a empresa TV Assembleia
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