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Novo sistema da Fhemig afeta atendimentos de urgência

Nova plataforma Tasy foi discutida em audiência na ALMG, com denúncias de burocratização de procedimentos e atrasos na liberação de medicamentos e materiais.

- Atualizado em 02/06/2026 - 14:18
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"O paciente morreria de qualquer jeito, se não fosse a fila da farmácia para a retirada de material? Eu não sei, mas chorei nesse dia". Entre desabafo e denúncia, o relato de Carolina Guedes da Silva, técnica de enfermagem do centro de tratamento intensivo (CTI) do Hospital Júlia Kubitschek, resumiu em audiência pública nesta terça-feira (2/6/26) as dificuldades enfrentadas por profisisonais da saúde desde a instalação de novo software de gestão em unidades da Fhemig, a Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais.

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Chamado de Tasy, o software substituiu o sistema SIG na gestão hospitalar do Estado. A instalação teria demandado do Governo do Estado o investimento de R$ 23,6 milhões. 

Diante de uma série de denúncias envolvendo o sistema, o assunto foi discutido em audiência na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), realizada a pedido do deputado Lucas Lasmar (Rede) na Comissão de Direitos Humanos. Participaram do encontro representantes da fundação, de sindicatos e de diferentes categorias profissionais da área de saúde. 

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No caso da morte relatada por Carolina, ela disse que o paciente, do box 35 do CTI do Júlia Kubitschek, deu entrada na unidade numa madrugada, com bradicardia severa. A medicação prescrita pelo plantonista e lançada no sistema foi retirada, mas faltou o número do lote do dispositivo de silicone usado para administrar o soro e o remédio prescrito. O número do lote passou a ser uma exigência no Tasy.

Quando o material foi conseguido, o paciente já tinha falecido. "Ainda que ele de qualquer jeito viesse a óbito depois, o fato é que faleceu sem nem receber o medicamento a que tinha direito, e isso por causa de um silicone de 20 centímetros", expôs a técnica de enfermagem.

Ela lembrou que o hospital é uma unidade de porta aberta, que não pode ter burocracias extremas prejudicando o atedimento. Em outra situação, foi relatado o caso de uma paciente hiperglicêmica que, desde cedo em certa manhã, aguardava a liberação de insulina. Até as 11 horas, quando o sistema caiu, a insulina não havia sido liberada, porque a farmácia precisaria consultar o lote lançado.

"Quantas vidas valem, até esse sistema ficar adequado? Porque dizem que mudanças assim levam de 8 a 12 meses para adequação, mas eu não tenho esse tempo, e nem o paciente", frisou a técnica de enfermagem.

Burocracia impediria agilidade

Uma queixa recorrente exposta por servidores foi quanto à operacionalização do Tasy, que burocratizou procedimentos que não condizem com atendimentos de urgência e emergência, obrigando enfermeiros e técnicos a verificações demoradas em prescrições lançadas no sistema e gerando filas na farmácia para a retirada de materiais e medicamentos.

Silvana Teixeira Fiel, enfermeira do Hospital Regional de Barbacena, relatou problemas de adoecimento mental dos servidores para dar conta da burocracia exigida pelo sistema, em meio à falta de pessoal.

“O Estado está acabando com a nossa saúde mental”, resumiu ela, ao contar que um paciente da unidade, com medicação controlada, teve prescritas pelo sistema, por falha, seis ampolas de um remédio, uma superdosagem que poderia ter sido fatal se a capacidade técnica do servidor em ação não tivesse detectado o erro.

"Em 32 anos na Fhemig, essa é a pior gestão que vejo. Fazem pactuações sem nos consultar", afirmou Silvana. Segundo ela, o novo sistema obriga técnicos e enfermeiros a ficarem por horas em consultas na plataforma. "Sem falar nas vezes que o sistema cai em hora de medicação", pontuou.

Para Rilke Novato Públio, presidente do Sindicato dos Farmacêuticos do Estado de Minas Gerais e diretor da Federação Nacional dos Farmacêuticos (Fenafar), o caos e a burocratização vieram com o sistema Tasy fariam parte de um processo de redução do Estado empreendido pelas últimas gestões do governo estadual.

"Os relatos indicam aqui um show de horrores. Dados no País mostram que a Fhemig hoje seria o pior lugar para o farmacêutico trabalhar", comparou ele.

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Assédio e pressão

De acordo com Carlos Augusto Martins, presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Fhemig (Sindpros), a adoção do sistema Tasy complicou uma situação já desgastante para os servidores, que convivem com sobrecarga de trabalho, falta de pessoal na rede e situações de assédio moral.

Ele disse que há plantonistas na Maternidade Odete Valadares sendo convocados para trabalho extra, sofrendo assédio moral com pressões para o comparecimento e ameaças de sorteios para cobrir demandas que o quadro de pessoal não dá mais conta.

“Estamos sendo tratados de forma abusiva e de imposição, para trabalharmos a mais sem receber por isso, porque alguém da Fhemig acordou um dia e achou que o plantonista tem que trabalhar mais e sem receber”, afirmou ele. 

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Gestão defende o sistema

Érika Inácio, assessora estratégica do Complexo de Especialidades da Fhemig, explicou o que é o Tasy, sistema de prontuário eletrônico, que registra todos os passos, transcrições e evoluções do paciente digitalmente.

“Ele veio para trazer mais segurança tanto para os pacientes, quanto para os servidores. Vem sendo implementado gradativamente nos hospitais. É um momento novo, que exige uma curva de aprendizado, algumas pessoas lidam melhor, outras não, mas melhorias estão sendo feitas”, disse a gestora.

Ela relatou que foram sendo incorporadas melhorias e parametrizações de acordo com as necessidades das unidades hopitalares. Usuários-chaves do sistema definiram as parametrizações e realizaram os treinamentos, antes da implementação. 

Em relação à segurança do paciente, Érika destacou principalmente a necessidade da rastreabilidade, desde o momento em que o paciente tira a senha até o momento que é medicado, fica registrado. O que serve para embasar a tomada de decisões estratégicas no hospital.

Para ela, com três meses de implantação do sistema no Júlia Kubitschek, os gestores também estão aprendendo a lidar com o sistema e 45 pontos de melhorias já foram coletados por meio do formulário Tasy tá on, com reuniões semanais para tratar o assunto.

Ponto focal do Tazy há dois meses, Débora Vasconcelos explicou que a mudança de sistema se deu porque o antigo software estava obsoleto e que a Fhemig foi cobrada pela Vigilância Sanitária e outros órgãos para se adequar às novas legislações.

“As dores de vocês também são as nossas porque sabemos que precisamos melhorar para a melhoria chegar aos servidores e pacientes. Temos referências técnicas e pontos focais em todas as unidades, porque se a informação não está chegando, vamos fazê-la chegar”, afirmou.

Melhorias

O coordenador do Tasy na Fhemig e servidor da área de TI, Lincoln Chaves, trabalhou na implementação do software em três hospitais e narrou os desafios do processo especialmente no Júlia Kubitschek. Para ele, o Tasy supera as limitações da Fhemig e serviu, por exemplo, para mostrar a necessidade de mais servidores.

O sistema também motivou outras melhorias, disse ele. “Foi necessário colocar fibra ótica em todo o hospital e o link da internet foi trocado poucas semanas após a implantação do sistema. Para resguardar o servidor, nada pode ser alterado no sistema e, se for, fica registrado quem e quando foi alterado”, exemplificou. 

O gestor reconheceu a necessidade de melhorias e reafirmou que as equipes estão dedicadas para solucionar o tempo de espera da farmácia e para integrar outros sistemas ao Tasy. Demaiss soluções que estão sendo providenciadas vão permitir a dispensação eletrônica de medicamentos e o acesso mais ágil dos pacientes aos exames de imagem.

Sobre a dúvida a respeito da escolha do sistema, Lincoln disse que o Tasy, desenvolvido pela Philips se adéqua melhor às necessidades da Fhemig, pois é mais robusto que o outro sistema usado para os mesmos fins, além de atender às legislações nacionais e internacionais. Sobre os computadores do Júlia, afirmou que, em 2025, 340 computadores do hospital foram trocados, e outros 100 haviam sido substituídos em 2024.

Em relação às equipes de TI do hospital, não houve substituição, mas o acréscimo de uma empresa contratada para garantir o atendimento mesmo nos finais de semana. “É importante destacar que o sistema é para registro e não deve ser uma barreira para o atendimento ao paciente da melhor forma possível. Para cada contigência, existe um plano. Se houver alguma falha técnica, a prioridade precisa ser o paciente e não o sistema”, lembrou o gestor. 

Lucas Lasmar considerou a fala dos gestores da Fhemig romantizada, diante da realidade observada durante visita feita para verificar o funcionamento do sistema há 15 dias, quando nenhuma impressora estava funcionando. Para ele, os servidores não estão sendo ouvidos.

Citação

 

Comissão de Direitos Humanos - debate sobre novo sistema da Fhemig
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A lentidão no sistema pode atrasar a administração de medicamentos, o que pode ser fatal. TV Assembleia
“Ninguém é contra a atualização do sistema. Ou vamos colocar em prática a fala de vocês, ou vamos viver no país das maravilhas esperando que o sistema funcione daqui a três anos. Sabemos que é preciso implementar a dupla checagem, mas as unidades não têm a quantidade de servidores para isso."
Lucas Lasmar
Dep. Lucas Lasmar

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