Integrantes do Movimento Hip-Hop reivindicam políticas de financiamento
O fortalecimento das ações formativas pautou audiência pública nesta quinta-feira (9).
A palavra de ordem que atravessou a audiência pública, nesta quinta-feira (9/7/26), da Comissão de Cultura, foi “Ocupar o Orçamento do Estado”. MCs, DJs, B-boys e demais integrantes do Circuito Metropolitano de Hip-Hop reivindicaram o acesso a financiamento e políticas públicas destinadas à promoção das atividades culturais do “povo preto”.
O Auditório José Alencar da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) recebeu batalhas de rimas, apresentações de breakdance, além do debate a respeito de ações como oficinas de grafite, rap, mixagem de músicas e rodas de conversa, que buscam promover a formação cultural, artística e social nas escolas da rede pública. A reunião foi solicitada pela deputada Andréia de Jesus (PT).
O Circuito Metropolitano de Hip-Hop, que percorreu escolas de Belo Horizonte, Ribeirão das Neves e Divinópolis, é realizado pelo Instituto Macunaíma e pelo Instituto Vamos Juntos Periferia, com produção da Nação Hip-Hop Brasil.
Frederico Eustáquio Maciel, o Negro F, coordenador do Circuito Metropolitano de Hip-Hop, falou sobre a presença dos educadores do programa em territórios vulneráveis e do potencial transformador das ações. Ele contou que o evento, em sua 4.ª edição, pôde ser realizado neste ano de forma profissional, com financiamento público, inclusive para pagamento dos atores que atuam nas atividades formativas.
Negro F afirmou que, enfim, o reconhecimento chegou juntamente à destinação de recursos. “Para ocuparmos os espaços públicos, é necessária a implementação de políticas como aquelas criadas por meio do Programa Escola Nacional de Hip Hop e que viabilizaram o próprio circuito”, destacou o ativista.
A iniciativa do Governo Federal tem como objetivo a inovação curricular, a formação continuada de professores e o fortalecimento da implementação da Lei 10.639 de 2003 e da Lei nº 11.645 de 2008, que tornaram obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira, africana e indígena na educação básica, no ensino fundamental e médio.
Elizane Flávia Santos, a Zane, idealizadora do Projeto H2OR-Hip Hop Oficina de Rua, explicou que o projeto deixou de realizar o evento “Hip-Hop pela paz” por mais de 15 anos por falta de recursos financeiros. Segundo ela, os editais públicos não são suficientes para a continuidade das atividades: “Em um ano tem, no outro, não”. Sem financiamento, a difusão da cultura enfrenta entraves, lamentou Zane.
Hip-Hop é resposta ao racismo
Marcos Vinícius, o Mc Saúva, presidente estadual da Nação Hip Hop Brasil, explicou como o movimento contribuiu para sua trajetória. “O Hip-Hop me formou como homem, me deu uma identidade, me deu um futuro”, ressaltou o ativista. Ele fez coro com os demais participantes ao expor os impasses de se trabalhar com arte-educação: “O investimento é muito pouco”. É preciso levar o circuito para dentro das escolas, transformar a realidade dessas crianças, mas não se faz isso sem dinheiro”, pontuou o MC.
“Disputar o orçamento também é enfrentar o racismo”, defendeu a deputada Andréia de Jesus. Para ela, ainda faltam investimentos na “produção cultural do povo preto”. De acordo com a parlamentar, atores políticos e movimentos precisam se organizar em torno da conquista de uma fatia maior das verbas públicas. “Nossa forma de falar, de vestir, de dançar é pedagógica e tem a função de descolonizar os corpos pretos”, salienta Andréia.
Misael Avelino dos Santos, representante da Rádio Favela, falou sobre a resistência histórica da emissora na difusão do Hip-Hop e demais gêneros musicais criados por artistas negros”. Ao celebrar os 50 anos da rádio, ele destacou que a “nossa cultura não era retratada nos meios de comunicação convencionais”. Para ele, a história do Hip-Hop segue viva e merece reconhecimento da sociedade.
Ao final da reunião, a deputada Andreia de Jesus entregou certificados a dezenas de rappers (MCs, DJs e b-boys), coletivos, escolas e entidades que atuam em prol do circuito do Hip-Hop. Juntos, trabalham promovendo a formação cultural, artística e social de jovens e adultos, especialmente estudantes de escolas públicas da periferia.
Houve batalha de rima com vários MCs improvisando versos ao vivo, além de apresentação de street dance (dança de rua), com os dançarinos do hip-hop, os chamados b-boys. Por sua vez, Fred Negro F entregou a Andreia de Jesus um certificado em que ela é intitulada “Madrinha do hip-hop mineiro”.