TANCREDO AUGUSTO TOLENTINO NEVES, filho do ex-presidente Tancredo Neves, representando a família do homenageado
Discurso
Legislatura 10ª legislatura, 4ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Publicado em 22/05/1986
Indexação
10ª REUNIÃO ESPECIAL DA 4ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 10ª LEGISLATURA, EM 18/4/1986
PALAVRAS DO DR. TANCREDO AUGUSTO TOLENTINO NEVES
O DR. TANCREDO AUGUSTO TOLENTINO NEVES - Exmo. Sr. Deputado Dálton Canabrava, DD. Presidente da Assembléia Legislativa do Estado de Minas Gerais; Exmo. Sr. Deputado Carlos Cotta, DD. Secretário de Estado de Governo e Coordenação Política, representando S. Exa., o Sr. Governador do Estado, Dr. Hélio Garcia; Exmo. Sr. Dr. Paulo Brossard, DD. Ministro da Justiça e orador oficial desta solenidade; Exmo. Sr. Desembargador Hélio Armond Werneck Cortes, DD. Presidente do Tribunal de Justiça de Minas Gerais; Exmo. Sr. Deputado Sérgio Ferrara, DD. Prefeito Municipal de Belo Horizonte; Exmo. Sr. Deputado João Pedro Gustin, DD. 2º-Secretário da Assembléia Legislativa do Estado de Minas Gerais; D. Risoleta, minha querida mãe; Srs. Deputados; Srs. Vereadores; demais autoridades, minhas senhoras e meus senhores.
Em nome dos familiares do Presidente Tancredo, digo-lhes muito obrigado. Foi nesta Casa de Felipe dos Santos e dos Inconfidentes que o jovem constituinte eleito por São João del-Rei pode demonstrar suas qualidades parlamentares e receber orgulhosas tarefas, como a de relatar a Constituição mineira de 1947 e a de conduzir a bancada de seu partido na oposição ao Governo de outro singular mineiro, o Sr. Mílton Campos.
Ele teve grandes companheiros entre correligionários, como os teve nas fileiras adversárias. Podiam ser, e quase sempre foram, acesos os debates naquela histórica estação política, mas eles não impediam o cavalheirismo dos contendores. Passados os embates, reuniam-se os adversários na festa do convívio democrático. Tal como nestes nossos dias, o País passava pela fase do retorno às liberdades públicas, depois de longa temporada no limbo da ditadura.
Sei o quanto marcaram a personalidade política de meu pai estes anos na Assembléia Legislativa de Minas. A eles sempre se referia com humor, muitas vezes, mas também com a grave memória das lições políticas. Tancredo estava naquela idade em que a impetuosidade do jovem cede lugar a uma reflexão mais severa sobre a vida e seus estatutos. Se nunca lhe faltara o convívio dos livros, as responsabilidades políticas dele exigiam, naquela fase, cuidadosa análise da realidade nacional. A partir dessa época, acentuou-se a sua preocupação com os problemas econômicos e sociais. Ele trazia, da banca de advogado em São João del-Rei, o desagrado com a injustiça social. Defensor dos trabalhadores, sobretudo dos ferroviários, arrostara a repressão policial durante uma greve na antiga estrada de ferro Oeste de Minas.
Não houve surpresa quando ele se colocou em ala de vanguarda dentro do PSD e se tornou um dos defensores da política de aliança com os trabalhistas de Vargas.
Senhoras e senhores, Tancredo foi mineiro. A frase pode soar modesta, quase vulgar, mas é séria. Muito séria. Ser mineiro, como ele era, e a nossa província entende, é assumir, com todas as conseqüências, as responsabilidades de cidadão, porque, seja pelas razões históricas, seja pela situação geográfica, nós sempre estivemos no centro de gravidade da Nação brasileira. Nós somos, de alguma maneira, o lastro que mantém firmes as instituições permanentes deste País.
Ser mineiro, em política, é ser leal aos princípios, e colocá-los acima dos choques partidários acidentais e dos efêmeros interesses do poder.
Tancredo era mineiro em sua forma de ver o mundo. Ele sempre desconfiava dos êxitos rápidos e fáceis e se punha de atalaia quando encontrava interlocutores falastrões, desses que costumam esconder seu jejum intelectual, quando não seu jejum ético, atrás de adjetivos sonoros e citações pomposas.
Quando lhe coube ocupar altas funções no Ministério, nas instituições financeiras, na Chefia do Governo da República, durante o parlamentarismo, e na mais gratificante de suas missões, que foi a de governar Minas, Tancredo moveu-se com excessivo rigor. Era difícil convencê-lo de que devia dedicar um pouco de tempo ao descanso. Se lhe sobravam escassos minutos, entre duas audiências, consumia-os no estudo. Seus olhos atentos ciscavam os papéis oficiais e, se os houvesse, identificavam rapidamente os interesses contrabandeados na palavra marota, na pontuação acumpliciada, nos números aparentemente imparciais.
Mas, com todas as suas responsabilidades, ainda encontrava tempo para constante atualização. Não havia uma nova obra que tratasse da História Política ou de Economia que não merecesse sua atenção. Folheava rapidamente os livros e nele identificava a qualidade. Se merecessem, acompanhá-lo-iam nas madrugadas insones ou nas viagens aéreas mais longas.
Essa seriedade intelectual e o profundo compromisso ético do cristão que ele foi fizeram dele o estadista que todos pranteamos.
Srs. Deputados, nossa família vê, nesta manifestação, um ato de reverência do grande povo mineiro, que os Srs. representam nesta Casa.
Tancredo dedicou toda a sua vida ao serviço de Minas e só o entusiasmo dos mineiros o levou disputar a Presidência da República. Ele iria exercê-la em nome de Minas e de seus valores, que sempre serviram a Nação de coragem e equilíbrio.
Em seu discurso de despedida do Governo, logo depois de escolhido candidato pela convenção do PMDB, ele disse que, como Bueno Brandão, preferia cair com Minas a cair em Minas.
Não podia faltar ao encontro com as esperanças nacionais. Minas, em 1964, iniciara o movimento político-militar que nos conduziria ao arbítrio de 21 anos. Cabia a Minas o dever de lutar para a recuperação da liberdade.
Porque, conforme seu discurso nos balcões do Palácio do Governo, em 15 de março de 1983, о primeiro compromisso de Minas é com a liberdade. Tancredo lutou, viveu e morreu pela liberdade e pela paz.
E, se assim o fez e assim o foi, é porque nunca lhe faltou este magnânimo povo mineiro. Esta homenagem após sua morte vem provar isso.
Em nome de minha mãe, minhas irmãs e toda nossa família, quero exteriorizar nossa profunda emoção e nosso agradecimento ao Sr. Presidente desta Casa Deputado Dálton Canabrava, aos Srs. Deputados representantes dos diversos partidos políticos que, irmanados, como sempre desejou meu pai, aqui vieram e, com suas palavras de apreço e respeito, souberam, tão bem, dignificá-lo.
Agradeço também, e em especial, a S. Exa., o Sr. Ministro Paulo Brossard, companheiro de Tancredo no Congresso Nacional, amigo leal de tantas batalhas comuns, a quem ele sempre se referia como um dos homens públicos mais dignos, retos e competentes desta República, que conosco partilha este momento de saudade.
A todos vocês, o meu muito obrigado.