Pronunciamentos

SR. NILSON ARAÚJO DE SOUZA, Mestre em economia rural, doutor e pós-doutor em economia. Professor da Universidade Federal da Integração Latino- Americana.

Discurso

Comenta o tema: "Panorama da crise e perspectiva de solução da situação econômica no Brasil e em Minas Gerais."
Reunião 58ª reunião ESPECIAL
Legislatura 18ª legislatura, 1ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 09/01/2016
Página 8, Coluna 1
Evento Ciclo de Debates: Retomada do Desenvolvimento Econômico.
Assunto AGROPECUÁRIA. INDÚSTRIA, COMÉRCIO E SERVIÇOS. TRABALHO EMPREGO E RENDA.
Proposições citadas RQC 3300 de 2015

58ª REUNIÃO ESPECIAL DA 1ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 18ª LEGISLATURA, EM 3/12/2015

Palavras do Sr. Nilson Araújo de Souza

Boa noite. Quero inicialmente congratular-me com o deputado Antônio Carlos Arantes pela organização deste evento. Este é um momento muito apropriado para organizarmos um evento sobre a retomada do desenvolvimento. Estamos despencando para uma grande depressão no País, e não há momento mais apropriado que este para pensarmos no futuro, no desenvolvimento do País. Quero me congratular com os deputados por esta iniciativa.

Agradeço pelo convite. Apesar de estar meio adoentado, decidi vir de qualquer maneira porque já havia me comprometido e também pela importância que vocês estão dando a essa temática em Minas Gerais.

Para mim, é sempre uma satisfação vir a Minas. Já estive aqui várias outras vezes para participar de eventos dessa natureza, em universidades e em movimentos sociais, empresariais e sindicais. É sempre um prazer vir a Minas Gerais, pois este estado é a síntese do Brasil. Sempre acreditei nessa ideia, que já ficou expressa na luta pela independência e em muitos outros momentos. Aqui nasceu Tancredo, que, em algum momento, foi a síntese de como superar os problemas do Brasil. Minas Gerais deve ficar registrada na história do País com esse papel importante.

O meu tema é “Panorama da crise e perspectiva de solução”. Não é segredo para ninguém que estamos em um momento particularmente difícil da economia brasileira. O conjunto do País passa por esse momento particularmente difícil, que, de ontem para hoje, se precipitou com a decisão tomada pelo presidente da Câmara; contudo, não tratarei das questões políticas, pois o meu tema é a questão econômica, por mais que a economia esteja intimamente relacionada com o questão política. Em outro momento, poderia falar sobre política, mas, fundamentalmente, tratarei da economia.

Os dados revelam, com profundidade, esse momento particularmente difícil da economia brasileira. O IBGE, de ontem para hoje, encarregou-se de divulgar mais dados ainda, jogando mais lenha na fogueira, com novas informações contundentes. De um lado, o produto interno bruto, a produção de riquezas do País, a produção de bens e serviços. Comparando-se o trimestre anterior, que é o terceiro trimestre do ano, com o equivalente trimestre do ano anterior, caiu 4,5%. Essa queda ocorreu poucas vezes na história do Brasil. Isso aconteceu no trimestre equivalente na crise de 1930, com a grande depressão, e no trimestre equivalente de 1981, com o programa adotado pelo Delfim Neto. Ocorreu algo semelhante no programa adotado pelo Collor, que sequestrou a poupança popular em 1990. O que ocorreu foi semelhante, mas não teve a profundidade atual. Por que digo isso? O setor que deveria ser o mais dinâmico da economia, que alavanca a economia, que é o setor industrial, caiu nesse terceiro trimestre, comparando-se com o trimestre equivalente do ano anterior, 11,2%. Isso já é depressão.

Qual a diferença entre depressão e recessão? A recessão é quando a economia para de crescer e começa a declinar. O PIB, em vez de crescer, diminui um pouco.

Depressão é quando essa queda é muito violenta. Todos os que já sofreram depressão sabem como é. Depressão é uma crise muito violenta e braba. É nessa direção que caminhamos, ou seja, na direção de uma grande depressão.

O primeiro rebate da queda da produção acontece no emprego. Para se ter uma ideia, quando começou a cair a taxa de emprego no final do ano passado, já foram destruídos 2 milhões de empregos no País, sendo uma parte, próximo da metade, de empregos formais, com carteira assinada, e a outra parte, de empregos informais. Foram destruídos 2 milhões de novos empregos em menos de um ano. Imaginem a situação dessas famílias de desempregados que, há vários anos, sempre tiveram emprego. De repente, além de não empregarem os que entravam no mercado de trabalho, demitiram as pessoas que já estavam trabalhando.

Qual é a alegação do governo? O governo alega que isso é consequência da crise mundial. Não é isto que o governo diz, que o Brasil entrou em crise devido ao impacto da crise mundial? Então, por que os outros países estão crescendo? O Brasil faz parte de um bloco denominado Brics, que compreende Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, mas somente o nosso país e a Rússia não crescem. A Rússia não está crescendo por uma razão bastante caracterizada: está sob bloqueio econômico. Ela é uma grande fornecedora de commodities, basicamente de petróleo e gás, cujos preços caíram violentamente. A Índia, a China e a África do Sul seguem crescendo.

O Brasil faz parte da América do Sul, onde dois países pequenos, que, supostamente, não teriam ampla condição de crescer em plena crise mundial, estão crescendo, que são a Bolívia e o Equador. Por que os países do Brics e da América do Sul crescem, e o Brasil não cresce? O problema não é da crise mundial. O Brasil já enfrentou outras crises mundiais, a de 1930 e a de 1970, que se agravou em 1981, e as aproveitou como oportunidade para o desenvolvimento. O problema não é a crise mundial, mas como o governo reagiu nessa situação de crise. Como o governo reagiu? Primeiro, elevou a taxa de juros básica de 14% para 25%, que é a taxa Selic, praticada pelo Banco Central. E as outras taxas, cada vez mais, elevaram-se. Há o chamado spread, que é a diferença entre a captação e a aplicação. As demais taxas de juros praticadas no mercado são gigantescas, astronômicas. Já a taxa básica é muito grande. Ela é a maior do mundo.

Por que o Brasil tem de praticar a maior taxa de juros do mundo? Qual é a consequência disso? De um lado, o governo tem de reservar uma parcela muito grande daquilo que arrecada para pagar juros. Se considerarmos os nove primeiros meses do ano, até setembro, o Brasil já pagou de juros R$408.000.000.000,00. No ano passado, até dezembro, ele pagou R$311.000.000.000,00. No ano anterior, pagou, até dezembro, mais ou menos, R$245.000.000.000,00. Agora, só até setembro, já pagou R$408.000.000.000,00. O que o governo faz para pagar esses juros? Ele corta gastos e aumenta impostos, ou seja, retira da sociedade para pagar juros e drenar os recursos para os banqueiros, que são os credores da dívida pública. Esta é a consequência: o governo tem de tirar dinheiro da sociedade para pagar os juros.

Há outra consequência direta do mundo empresarial. Como uma empresa tomará dinheiro emprestado a juros tão elevados? Ela não consegue, pois o que ganha não é suficiente para cobrir juros elevados. As empresas que têm recursos financeiros não investirão na atividade produtiva, pois, se aplicarem no mercado financeiro, ganharão mais. Está presente o companheiro da Fiemg. O produtor, em vez de desenvolver a atividade produtiva, prefere jogar dinheiro na atividade especulativa, pois ganha mais, já que os juros estão tão elevados. Essas taxas de juros são proibitivas para a atividade econômica produtiva.

Por um lado, o governo fica sem dinheiro para investir, e, por outro, a atividade produtiva também fica sem condições de investir produtivamente. A única saída para o País é gerar depressão e desemprego e drenar dinheiro para os bancos. Para vocês terem uma ideia, até setembro – dados mais recentes – os três principais bancos privados do País, o Bradesco, o Itaú e o Santander, dois nacionais e um estrangeiro, aumentaram o seu lucro em 25%. Enquanto a indústria, ou seja, a atividade produtiva encolhe, os bancos ganham cada vez mais. Não há crise para os bancos. Eles ganham muito mais na crise do que ganhavam antes.

Essa é a única alternativa para o País? Essa alternativa significa agravar um quadro que o Brasil apresenta desde 1981. Desse ano para cá, o País esteve estagnado fundamentalmente. Houve alguns momentos de expansão, mais particularmente nos dois primeiros anos do governo Sarney, quando houve o Plano Cruzado e o plano anterior. O Brasil cresceu durante dois anos do governo Itamar, durante um ou dois anos do governo Fernando Henrique e durante três anos no segundo mandato do governo Lula. Tirando a média desse período, vemos que o País estava estagnado. O crescimento do PIB foi de pouco mais de 2% ao ano. Isso significa que ele foi um pouco acima do crescimento da população. Se o crescimento da população é mais ou menos semelhante ao crescimento do PIB, isso significa que a produção per capita ficou estagnada. Dá para afirmar que, de 1981 para cá, o País esteve estagnado.

Isso acabou gerando desesperança. As pessoas passaram a acreditar que essa é a realidade, que o Brasil não pode crescer e que a sua economia tem de ficar estagnada, pois há 34 anos ela não cresce. Houve apenas um ou outro crescimento, mas, fundamentalmente, a economia não cresceu. O pessoal passou a acreditar que essa é a realidade brasileira, ou seja, que o Brasil está fadado a não crescer. Alguns economistas passaram a teorizar sobre o teto do crescimento do Brasil. Um economista do governo Fernando Henrique, que foi presidente do Banco Central na reta final, Gustavo Franco, elaborou uma tese que, depois, foi retomada pelo Marcos Lisboa, que foi assessor do Palocci no começo do governo Lula. Disseram que o Brasil só pode crescer no máximo 3% ao ano. Esse é o potencial do País. Por que o Brasil está fadado a crescer somente 3% ao ano? Quem decretou isso? Foi Deus que decretou isso? Os economistas pensam que são donos da verdade. Sou economista, mas sou o maior crítico dos economistas.

Uma vez escrevi um artigo e, no final, encerrei dizendo o seguinte: essa ideia é muito simples para um economista entender, mas, se fosse complexa, eu também não entenderia. Um amigo, que é médico, disse: “Nilson, gostei, pois você criticou a sua profissão, os economistas”. Disse a ele: você diz isso porque não conhece a minha opinião sobre os médicos. Se conhecesse, não me elogiaria, pois não é tão boa também, não. Como aqui há médicos, não posso falar mal de médico. Lá também tem o Francisco, que é médico.

Os economistas pensam que são donos da verdade e que podem definir o limite de crescimento de um país. A realidade não é essa, e o Brasil já passou por outras experiências. Poderíamos dividir a fase contemporânea da economia brasileira em dois momentos. A fase contemporânea é a da industrialização, a partir dos anos 1930. O Brasil deixou de ser um país primário exportador para ser um país predominantemente industrial. O primeiro momento vai de 1930 a 1980, e o segundo, de 1981 para cá.

De 1981 para cá, a economia cresceu, em média, um pouco acima dos 2% ao ano. De 1930 a 1980, vocês sabem qual foi a taxa média de crescimento do PIB brasileiro? Ela foi de 7% ao ano. Durante 50 anos, o Brasil cresceu 7% ao ano. Foi a economia que mais cresceu no mundo durante aquele período, deixando de ser 37ª economia para ser a 8ª. Sempre diziam que o Brasil tinha a 8ª economia do mundo, mas não se sabia por que ele não entrava no grupo do G-7. Na verdade, era G-7, e não G-8 para que o Brasil não fosse incluído.

O Brasil chegou a ser a 8ª economia do mundo e cresceu durante 50 anos. Somente a China conseguiu essa façanha, mas ainda não completou 50 anos. A China vem crescendo a uma taxa um pouco acima disso de 1979 para cá, ou seja, ela ainda não completou 50 anos. No Japão, ocorreu o milagre japonês. O Japão cresceu 25 anos a uma taxa maior. O Brasil cresceu durante 50 anos. Como conseguiu fazer isso a uma taxa tão elevada? O País fez algo que o levou a isso. As decisões tomadas o levaram a isso. Não foi algo espontâneo. Há alguns elementos importantes naquele período que eu destacaria. Basicamente citarei cinco elementos. Sei que estou tomando o tempo, mas acredito que conseguirei expor o que pretendo.

Primeiro, houve o compromisso com o desenvolvimento. Naquele período dos anos 1930 aos anos 1980, apesar de vários governos diferentes, o do Getúlio, o do Juscelino, a crise do Jânio, a ditadura e o do Geisel, havia o compromisso com o desenvolvimento. Esse compromisso esteve presente em basicamente três governos, mas também esteve um pouco nos outros. Ele esteve presente nos dois governos do Getúlio, quando a ideia do desenvolvimento era muito profunda.

Ela se tornou forte no mundo inteiro no período do pós-guerra, mas no Brasil começou na década de 1930. A ideia de desenvolvimento, as comissões que Getúlio criava na década de 1930 já eram basicamente voltadas para o desenvolvimento. Aquilo que se tornou algo generalizado no pós-guerra na periferia do mundo capitalista, que é a ideia de desenvolvimento, no Brasil, já começou na década de 1930, assim como na Argentina e no México.

Compromisso com o desenvolvimento. Quais governos tiveram esse compromisso? Getúlio, nos seus dois governos, Juscelino e Geisel. Foram os governos que mais trabalharam durante aqueles 50 anos em função do desenvolvimento.

Segunda ideia: ideia de não pensar em curto prazo, mas em longo prazo. Pensar em longo prazo significa planejar. Se você pensa em curto prazo, não precisa planejar, vai agindo de acordo com as circunstâncias, de acordo com a conjuntura. Como vai ser amanhã, como vai ser a próxima geração, como vão ser meus filhos? Para isso tem de planejar, e a ideia do planejamento era muito forte naquele período. Começou com o Getúlio nas comissões que ele criava, para as quais ele convidava representantes da sociedade civil, pensadores, empresários. Há dois economistas brasileiros, Eugênio Gudin, engenheiro que virou economista, e Roberto Simonsen, engenheiro, empresário, também virou economista; foi presidente da Fiesp, fundador da Confederação Nacional da Indústria, que disseram que a culpa de terem virado economistas foi de Getúlio, que os convidava para todas as comissões que ele criava. Convidava o Simonsen, que estava de acordo com ele, e convidada o Eugênio Gudin, que era contra ele, para gerar o embate dentro das comissões. O planejamento começou aí. Houve o plano de meta do Juscelino – um plano bem estruturado, com começo, meio e fim, inteiramente colocado em prática; e houve o plano do Geisel, segundo PND – Plano Nacional de Desenvolvimento. Então, a ideia de planejar, de pensar em longo prazo, de pensar estrategicamente o País estava muito forte naquele período.

Terceira ideia: o controle predominante nacional da economia nacional. Isso não significa que não havia de fato o capital estrangeiro, porém o controle era predominantemente nacional. Aí temos dois aspectos importantes: o controle da atividade produtiva, ou seja, a atividade produtiva estava sobretudo nas mãos nacionais; e por outro lado o controle do mercado interno. O mercado interno estava comandado sobretudo pela produção interna, e não pela importação. A importação era complementar. Importava-se aquilo que não se produzia internamente. Não se importava aquilo que se produzia internamente. Havia uma proteção interna com tarifa de importação e outras medidas para que não se importasse aquilo que se produzia internamente. Esse foi o terceiro elemento importante que caracterizou aquele período.

Um quarto elemento: o papel que o Estado cumpriu. O Estado cumpriu três papéis fundamentais naquele período. De um lado montar a indústria de base e a infraestrutura. Começou aqui em Minas com a companhia Vale do Rio Doce, criada por Getúlio. Depois foi criada a Companhia Siderúrgica Nacional no Rio de Janeiro. Depois, criou-se a Petrobras. Mais à frente foi criada a Eletrobras. Mais para frente foi criada a Telebras nos governos ditatoriais. Então, montagem de infraestrutura de base e indústria de base para servir de alavanca para o capital privado.

Uma questão importante: isso não foi o Brasil que criou. Esse papel do Estado de entrar como produtor da indústria de base para servir de fundamento para a indústria de bens de consumo no geral não foi o Brasil que inventou. Todos os países do mundo que se industrializaram tardiamente tiveram de fazer isso. O único país que quase não fez isso foi a Inglaterra, que foi o primeiro que se industrializou. Mas a segunda geração de países industrializados, que foi basicamente Estados Unidos, França, Itália, Alemanha, Japão e Rússia, teve de colocar o Estado como um instrumento importante, ajudando e contribuindo para montar a indústria de base para servir de alavanca para a indústria privada. Depois, os países de terceira geração, aqui na América Latina: Brasil, México, Argentina, Chile, Colômbia e Uruguai. Esses seis países se industrializaram no mesmo período, também usando o Estado como instrumento importante de produção para impulsionar o resto da indústria, o resto da economia nacional.

Mas o Estado não entrou apenas assim, entrou também financiando a juros baixos. Para isso foi criado o BNDES, que na época tanto do Getúlio quanto do Geisel financiava basicamente a empresa nacional. Do Collor para cá passou a financiar empresa estrangeira. A empresa estrangeira diz que vem para cá para trazer poupança. Se vem para trazer poupança, por que tem de obter financiamento interno? Esse financiamento deve ser para as empresas nacionais, foi para isso que o BNDES foi criado. Então o Estado entra financiando e com encomendas governamentais. O Estado tem suas obras, tem sua produção. Vou dar um exemplo. A Petrobras compra navios, compra plataforma. O que é melhor para a Petrobras? Importar navios e plataformas ou produzir internamente ou comprar de quem produz internamente para gerar produção e emprego dentro do País? Então a encomenda governamental tem um peso importante no processo de desenvolvimento.

Por último, o fortalecimento do mercado interno. Ninguém é contra a exportação. O País necessita importar algumas coisas; então, tem de exportar para contrabalançar. Mas qualquer país do mundo, para se desenvolver, tem de ter como fundamento principal o mercado interno, sobretudo países grandes, como o Brasil. Países como a Índia, a China, os Estados Unidos, países continentes não podem pensar em se desenvolver baseados em mercado externo. Mercado externo é complementação. O fundamental tem de ser o mercado interno. E isso foi feito durante aquele período.

Esses foram elementos que levaram o Brasil a crescer durante 50 anos da forma como cresceu. E, se vinha crescendo dessa forma, por que parou de crescer? O que houve? Que primeiro elemento levou a essa paralisação do crescimento? A crise da dívida. Os mais coroas se lembram da crise da dívida. Essa crise estourou aqui no Brasil e em toda a América Latina em 1981. Essa crise da dívida se deveu a duas coisas importantes. De um lado, países da América Latina se endividaram além do que poderiam se comprometer. O Brasil, na época do milagre, tomou bastante dinheiro emprestado. Só que, quando os países se endividaram, a taxa de juros era baixa. Eram os chamados eurodólar e petrodólar. Como havia dólar sobrando na Europa e nos Estados Unidos provindos do petróleo, os juros ficavam baixos, a 4% ao ano. Juros baixos dava para pagar; porém, de repente, os juros aumentaram no mercado mundial. Os juros que eram de 4% aumentaram para 12% e depois para 20%. Os Estados Unidos os elevaram para 20%, e consequentemente o resto do mundo também os elevou. Os juros eram variáveis. Você toma dinheiro emprestado a 4%, mas, se os juros estiverem a 20% na hora de pagar, você vai pagar os 20%. Então, em quatro anos, de 1978 a 1982, o Brasil duplicou a dívida externa tão somente para fazer face a essa elevação da taxa de juros; tomar dinheiro emprestado a juros mais elevados para cobrir os empréstimos que estavam vencendo. E foi aí que estourou. Estourou com a moratória do México. O México, não aguentando pagar, suspendeu os pagamentos. A crise se agravou mais ainda porque os bancos deixaram de emprestar dinheiro para os demais que estavam pagando, e estourou a crise da dívida aqui no Brasil. Com isso havia dois caminhos para enfrentar a crise da dívida. O Geisel, o Juscelino e o Getúlio já tinham enfrentado.

O primeiro caminho seria encontrar uma forma de passar a produzir cada vez mais internamente aquilo que se importava para enfrentar a crise da dívida com crescimento. O outro caminho era parar de crescer para pagar a dívida. O primeiro caminho tinha sido adotado por Getúlio, por Juscelino e por Geisel, ou seja, se você passa a produzir internamente aquilo que você importa, gera superávit na balança comercial via redução da importação. Uma vez que você passou a produzir internamente, você pode pagar a dívida. Esse é o caminho que era para ter sido adotado antes.

O outro caminho era parar de crescer para pagar a dívida. Parar de crescer significava adotar um programa de contenção do gasto público, do crédito, do salário para com isso reduzir a demanda. E, ao reduzir a demanda, reduzir as importações. Ao reduzir as importações, gerar superávit comercial e pagar a dívida; porém, ao reduzir a demanda, você contém a economia. A economia para de crescer. E qual foi o resultado? A famosa década perdida. O Brasil ficou a década de 1980 inteira estagnado, sem crescer, cresceu a 2% ao ano, exatamente porque estava juntando dinheiro para pagar apenas os juros da dívida. Apesar de a economia ter ficado uma década sem crescer, os juros não foram pagos integralmente. Foi pago só uma parte, e a dívida, apesar disso, aumentou.

Veio a década de 1990. Começou com o Collor, depois Fernando Henrique. No fundamental, esse mesmo programa foi mantido, e acrescentaram-se coisas novas. Entre as coisas novas que foram acrescentadas, o instrumento de combate à inflação adotado por Fernando Henrique foi a chamada abertura comercial, que tinha dois elementos: o barateamento do dólar, ou seja, a valorização do real, que significava a chamada âncora cambial, que era você comprar mais barato lá fora, e, por outro lado, a redução da tarifa de importação, que significava comprar o produto estrangeiro mais barato. Trouxe um efeito benéfico. Combateu a inflação porque a produção estrangeira entrou barata e a produção nacional não conseguia aumentar o preço. Mas qual foi o resultado? A produção estrangeira barata inviabilizou a produção interna. Aí começou a desindustrialização, a economia ficou sem crescer. Então, do ponto de vista da inflação foi um sucesso, mas do ponto de vista da atividade econômica foi a segunda década perdida. Mais uma vez, cresceu-se 2,3% ao ano.

O Lula veio e manteve no seu primeiro mandato a mesma política. A economia quase não cresceu. No segundo mandato ele acrescentou o PAC, que melhorou um pouco o crescimento. Mas, com a manutenção de juros altos, como o governo manteve, corte de gastos e aumento de impostos, o PAC ajudava a crescer, mas ao mesmo tempo era contido pela elevação dos juros. Então a economia cresceu, mas pouco. Veio a Dilma e foi um fracasso total. Durante os quatro primeiros anos da Dilma a economia não cresceu absolutamente nada, cresceu em torno de 1% ao ano; e, do ano passado para cá, iniciou-se uma recessão que caminha para uma depressão.

Então, esse período de estagnação que veio de 1981 para cá não foi algo inevitável, foi o resultado de ações provocadas pelo caminho adotado. Adotou-se um caminho que significava conter a economia. Caminho de juros altos, de aumento de impostos, de cortes de investimento público; ao ter juros altos, corta-se o investimento privado. O caminho poderia ter sido outro, como o adotado no período anterior. Aí se diz: “Mas hoje não dá mais para adotar o caminho anterior porque o Brasil tem de manter os juros altos porque necessita da poupança externa, do dinheiro que vem de fora”. Nosso problema fundamental hoje não é trazer dinheiro de fora para especular aqui dentro, porque dinheiro que vem em função dos juros altos vem para especular. Dinheiro que vem para atividade produtiva não vem em função de juros altos, vem, ao contrário, em função de juros baixos, vem para atividade produtiva. O que precisamos não é trazer esse dinheiro que vem em função de juros altos, ao contrário, precisamos evitar a drenagem de recursos da atividade produtiva para a atividade especulativa financeira, e boa parte dessa atividade especulativa financeira é mantida por fundo de investimento estrangeiro, que manda o dinheiro lá para fora. A drenagem de recursos da atividade produtiva para a atividade financeira termina levando também a drenagem da atividade financeira para o exterior.

Então, a intenção é evitar essa drenagem. Como é feita essa drenagem? Baixando-se a taxa de juros. Então, o caminho é o oposto do que está sendo feito. O caminho não é aumentar a taxa de juros, mas baixá-la. Alguém pode dizer: “Mas, se baixar, o capital não virá”. Vejam bem: qual a taxa de juros média anual dos demais países? Qual a taxa real descontada a inflação? Ela é negativa. A taxa de juros real no mundo é negativa.

Então, por que o Brasil precisa de uma taxa real que hoje está em torno de 5%? A nominal é 14,25%, mas devemos levar em conta a taxa de inflação que está em torno de 9% e indo para 10%. Então, a taxa real está em torno de 5%, ou seja, muitas vezes maior que a mundial. O Brasil é campeão de taxa de juros no mundo. Por que o Brasil é campeão de taxa de juros no mundo? Por que temos uma taxa de juros tão elevada? Não há nenhuma justificativa teórica, nenhuma justificativa econômica, nenhuma justificativa técnica para juros tão elevados; e, na última reunião do Copom, ainda havia pessoas querendo aumentá-la. Duas pessoas votaram para não se manter a taxa. Queriam aumentá-la mais ainda, mais que 14,25%, e diziam que era para combater a inflação e atrair o capital de fora. Não precisamos de capital que quer especular, mas de capital produtivo. Por outro lado, se a nossa taxa fosse bem maior que as outras, o capital especulativo viria de qualquer maneira. Contudo, eles dizem também que é para combater a inflação. Se os juros estiverem elevados, as pessoas comprarão menos. Ao comprar menos, deixarão de pressionar a oferta, e isso vai gerar o combate à inflação. Essa tese foi desgastada e desmoralizada por várias vezes.

O inglês Keynes, considerado o maior economista do século passado, dizia que a inflação apenas é gerada pela demanda em circunstâncias em que se tem a plena capacidade produtiva do país. Se a economia de um país está funcionando em plena capacidade produtiva, se não existe capacidade ociosa, se aumenta a demanda, haverá, então, essa pressão, pois a estrutura produtiva não tem condições de, em um curto prazo, aumentar a sua oferta. Por isso, haverá a pressão, e os preços aumentarão. Contudo, se a economia está com capacidade ociosa e existe o aumento da demanda, em vez de subir a inflação, crescerá a produção.

O Brasil está com uma capacidade ociosa elevadíssima, e os companheiros da Fiemg sabem disso. A capacidade ociosa do Brasil é uma das mais elevadas, e agora está mais elevada ainda. Então, não existe inflação de demanda. Como não existe inflação de demanda, não há por que combatê-la cortando a demanda. Devemos combater a inflação aumentando a oferta, e como você aumenta a oferta? Baixando a taxa de juros. Baixando a taxa de juros, temos uma dupla consequência na atividade produtiva. Por um lado, o Estado pode investir mais, pode haver mais investimentos públicos. O Estado vai ter mais recursos para investir nas estruturas que servem de fundamento para a atividade produtiva. Por outro lado, o empresariado poderá também investir mais. Ele não apenas poderá como também vai querer investir mais. O empresário, com juros mais baixos, pegará dinheiro emprestado para investir. Com juros mais baixos, ele deixará de aplicar no mercado financeiro o dinheiro que tem e o colocará na atividade produtiva.

Então, o segredo da retomada do desenvolvimento está na redução da taxa de juros a patamares internacionais. Ninguém está pedindo nada exagerado. As taxas de juros internacionais estão em patamares que fazem com que a economia mundial, apesar da crise, funcione de alguma maneira. Vários países emergentes cresceram porque eles estão praticando taxas civilizadas, vamos chamá-las assim. Então, vejam bem: essa é a questão básica. A partir daí, discutiremos as outras questões, como, por exemplo, onde investiremos. Devemos pensar em reativar a atividade produtiva anterior, porque o Brasil está desindustrializando-se. Para vocês terem uma ideia, a produção industrial no Brasil chegou a representar – e falo apenas sobre a indústria de transformação, sem considerar a construção civil – 1/3 da atividade produtiva do País. Atualmente ela está em torno de 10%. O País está desindustrializando-se, está voltando a ser primário exportador, e isso também está acontecendo em Minas.

O Francisco me dizia que 55% da exportação de Minas são grãos e minério de ferro. Junto a São Paulo e Rio de Janeiro, Minas é um polo de industrialização do País, mas está desindustrializando-se. Estão fechando em Minas alto-forno de aço, e o Brasil está importando aço. O Brasil, que havia se tornado exportador de aço, está voltando a importá-lo, como fazia até os anos 1970. Devemos incentivar o retorno da atividade produtiva. Devemos fazê-la voltar a funcionar e, para isso, precisamos de financiamentos e juros baixos. Precisamos também de proteção, se for o caso. Por outro lado, devemos também incentivar as atividades produtivas novas, de tecnologia de ponta. As pessoas dizem: “Se o Brasil é um país de terceiro mundo, como vamos pensar em tecnologia de ponta?”. O Brasil fabrica avião, o Brasil descobriu o raio laser – foi o brasileiro César Lattes que descobriu o raio laser, quem aperfeiçoou a fibra ótica foi o Brasil e foi um brasileiro que inventou o avião. Então, por que não podemos desenvolver no Brasil tecnologia de ponta? A Índia, que era e ainda é – mas era muito mais antes – mais atrasada que o Brasil, muitas vezes mais atrasada, pegou um nicho na área de informática e está desenvolvendo tecnologia de ponta. Por que o Brasil não pode fazer a mesma coisa? Há tecnologia de ponta em várias áreas, como informática, comunicações, química fina e biotecnologia. Precisamos desenvolver essas novas áreas, porque um país que não tem indústria de base, máquinas, equipamentos, indústria de base petroquímica, aço, indústria de ponta, etc., não consegue desenvolver-se de maneira autônoma.

Então, primeiro devemos baixar os juros e tirar o dinheiro da especulação, colocando-o na atividade produtiva. Feito isso, vamos discutir onde investiremos. Estou sugerindo que devemos investir não apenas para reativar as atividades que estão desaparecendo mas também, e ao mesmo tempo, para desenvolver atividades novas. Como se coloca um estado nessa situação? O estado de Minas, por exemplo, tem aquele ditado popular que diz que uma andorinha só não faz verão. Então, um estado só não faz verão; não pode o Brasil inteiro estar indo na direção da depressão e um estado sozinho crescer. O estado faz parte da nação, e, se existe uma política clara para gerar depressão, com juros altos, aumento de imposto, corte de investimentos públicos e privados, etc., todos os estados serão afetados. Então, o que o estado pode fazer? Ele não pode parar, deve fazer alguma coisa. O estado tem de utilizar o seu poder político para pressionar o governo federal a alterar a política econômica. Para mim essa questão é fundamental, e Minas Gerais não é um estado qualquer, não é apenas um dos três estados mais desenvolvidos do País. Minas Gerais tem uma história. Minas Gerais teve um grande presidente, o Juscelino. Tenho alguns reparos quanto a ele, mas no fundamental acho que ele foi pelo caminho certo e seguiu o processo de desenvolvimento. Minas Gerais teria um outro grande presidente, o Tancredo. Escrevi um livro chamado Revolução brasileira de Tiradentes a Tancredo, logo depois da morte de Tancredo. Mostrei que Tancredo seguia a senda de Tiradentes; a ideia básica de Tiradentes – e não é à toa que eles são da mesma terra – fora retomada pelo Tancredo.

Então, Minas tem um papel a cumprir na esfera nacional. O seu papel fundamental é usar o seu poder político para pressionar a mudança da política econômica. A seguir essa política econômica que está aí, não haverá saída para a crise. Não há perspectiva de solução com esse caminho, que apenas nos leva a agravar cada vez mais a crise. Para solucioná-la, devemos buscar outro caminho, e aí vem a questão: a presidente Dilma buscaria outro caminho? Acho que ela se comprometeu muito com o que temos agora. Ela, na campanha eleitoral, disse que quem adotaria esse caminho seriam o Aécio e a Marina, que ela faria outra coisa. Terminou a campanha eleitoral, e o próprio Lula disse: “Falamos uma coisa na campanha e estamos fazendo outra, começamos a fazer outra”. Eles se comprometeram demais com esse caminho, e agora surgiu o impeachment. Tirar Dilma e colocar o Temer vai resolver o problema? Para mim o Temer é pior que a Dilma. Pior como? Conheço o Temer de perto. Fui do PMDB durante muitos anos, fui da fundação do PMDB, que acabou de elaborar um plano. O plano do PMDB implica cortar mais gastos, aumentar mais juros, manter o crédito ao incentivo e tirar mais direitos. Quem o elaborou foi o Marcos Lisboa. Como existe o fundamentalismo religioso, existe também o fundamentalismo econômico. O Marcos Lisboa é fundamentalista, porque ele copia o que está escrito na cartilha do Milton Friedman. Um programa como esse implica retirar qualquer possibilidade de ação estatal na busca pela promoção do desenvolvimento. O Estado não é problema na história. Contudo, se se tira o Estado da economia, estão não cresce. O Estado tem o seu papel a cumprir. Então, com Temer também não resolveremos o problema.

Disse que não falaria sobre política, mas isso é impossível ao participar de um evento como este no dia seguinte ao pedido de impeachment. Então, eu acho que deveriam sair os dois. Aliás, deveriam sair os três. Deveria sair também o presidente da Câmara dos Deputados. Devem sair os três. Assim teríamos uma nova eleição, uma eleição limpa. Quem ganhar levará. Seria um processo eleitoral em que se discutiria a economia. Cada um mostraria claramente o seu projeto, e este deveria ser um que retomasse o desenvolvimento. A ideia de desenvolvimento é muito cara e fundamental. Ela não deve meramente procurar o crescimento do PIB. Celso Furtado, o maior economista do Brasil, disse que o desenvolvimento não é meramente fazer crescer o PIB. Devemos ter um processo de transformação que implique fazer crescer o PIB e a renda per capita, distribuir melhor a renda e desenvolver a cultura, a sociedade e a política. Devemos ter um processo geral que implique o desenvolvimento econômico, social, político e cultural. Para isso, devemos ter um governo comprometido com o País, um governo comprometido com os interesses do País e da atividade produtiva brasileira, um governo comprometido com o povo brasileiro. Devemos buscar o caminho que implique fazer uma certa limpa, o caminho que permita irmos nessa direção. Acho que já falei demais. Falei por mais de 40 minutos. Acho que falei um pouco acima do meu prazo. Obrigado pela atenção. Estou disposto a responder as perguntas que me forem feitas.