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Saberes tradicionais ressignificam vidas e universidades mineiras 

Participantes de audiência pública da Comissão de Educação defendem a inclusão de práticas e conhecimentos populares no ensino formal.

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O mestre de Saber, Adão Máximo Moreira, nunca havia imaginado que a preparação de chás ou que a benzeção de uma criança fossem um dia adentrar a universidade. Ele falou, emocionado, de como o reconhecimento dessas práticas ressignificou sua vida. “A gente não sabia que nosso cotidiano continha tanta sabedoria”, ressaltou o professor do programa Encontro de Saberes da Universidade do Estado de Minas Gerais (Uemg).

Adão Moreira e outros 164 mestres, professores e lideranças comunitárias foram diplomados com votos de congratulação em audiência pública da Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), nesta segunda-feira (23/3/26).

Criado na Uemg em 2019, o programa Encontro de Saberes integra as ações de extensão universitária da instituição e busca aproximar a universidade de conhecimentos tradicionais, populares e periféricos. A iniciativa promove cursos, oficinas, rodas de conversa e disciplinas com a participação de mestres e mestras de saberes tradicionais, como lideranças de comunidades indígenas e afro-brasileiras, artistas populares e representantes de manifestações culturais como o Congado e o Reinado.

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A professora de Uso do Território e Mestre de Saber da Uemg, Liderjane Gomes da Mata, falou sobre o aprendizado ancestral que compartilha com os estudantes do projeto. Ela explicou que, quando criança na comunidade indígena Kaxixó, localizada na região Centro-Oeste de Minas, enquanto caminhava com avós e pais até o roçado, foi ensinada a “ler” o território no qual pisava.

Ela soube, por exemplo, que a urtiga era uma planta da qual deveria manter distância e que o solo quente e úmido poderia atrair animais de sangue frio: “Ali podia ter uma cobra”. Segundo Liderjane, esse é um conhecimento que está se perdendo porque estamos apartados da convivência com as gerações anteriores.

Para ela, a escola, sobretudo aquela não indígena, deve levar para as salas de aula esse saber que se constrói no tempo e na experiência com a própria terra. Ela defende que o ensino integre outras lógicas, saberes, visões de mundo e temporalidades.

Já a deputada Beatriz Cerqueira (PT) disse que, em geral, a Assembleia de Minas se configura como um espaço de disputa política. Por isso, muitas vezes, é hostil a pautas como a valorização do ensino, em especial, de processos de aprendizagem que incluem outras formas de educar. “Mas, hoje, o Parlamento mineiro se tornou palco de celebração da cultura popular”, salientou.

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Professores reivindicam orçamento próprio para o programa 

Embora a iniciativa tenha se consolidado no âmbito da Uemg, o professor e coordenador do programa Encontro de Saberes, Rafael Otávio Fares Ferreira, lembra que a atividade ainda não possui recursos da universidade para o programa.

Ele informou que o projeto só se tornou possível por meio de emendas parlamentares. Rafael Ferreira agradeceu nominalmente às deputadas Beatriz Cerqueira, Andreia de Jesus (PT), Bella Gonçalves (Psol) e Ana Paula Siqueira (Rede) pelos valores já aplicados. “Mas eu espero que os “Saberes tradicionais" contem, um dia, com orçamento próprio”, enfatizou.

Beatriz Cerqueira afirmou que já destinou ao programa R$ 486 mil e endossou a reivindicação do professor. “Emenda não substitui políticas públicas”, acrescentou a deputada, que reconheceu a necessidade de formalizar o custeio das atividades.

Saberes populares transformam a produção de conhecimento

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“As cotas tornaram o ambiente acadêmico mais colorido, mas os estudantes não se veem representados nos professores”, destacou Ferreira. Isso quer dizer que as políticas afirmativas abriram as portas das universidades para indígenas, quilombolas, pessoas periféricas, mas que ainda é raro encontrar entre os docentes pessoas dessas populações.

O coordenador do programa problematizou as referências ainda muito “eurocêntricas” presentes nas pesquisas científicas. O adjetivo é atribuído à tendência cultural e ideológica de colocar a Europa e seus valores como centro, referência e padrão superior de civilização para o mundo.

Rafael explicou que o ingresso dos mestres e professores de Saber mudou a universidade. “Meu trabalho acadêmico hoje não tem mais referenciais teóricos europeus, mas brasileiros e outros autores latinos, inclusive oriundos de coletivos como o grupo Mahku (Movimento de artistas e pesquisadores Huni Kuin, povo indígena que vive na Amazônia, entre o Estado brasileiro do Acre e o Peru).

Segundo ele, não só a Uemg, mas a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) conta também, desde 2015, com o Programa de Formação Transversal em Saberes Tradicionais. Ambos partem do princípio de que o saber não se limita ao ambiente acadêmico e que experiências construídas em comunidades, territórios e práticas culturais têm valor formativo e científico.

Já o pró-reitor de extensão da Uemg, Moacyr Laterza Filho, afirmou que, ao tecer alianças entre a sociedade e a academia, alcança-se a geração de um conhecimento novo. Para ele, a educação passa de modelo transmissivo à produção de um conhecimento mais ativo e dialógico.

Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia - debate sobre a importância do programa Encontro de Saberes
Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia - debate sobre a importância do programa Encontro de Saberes
Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia - debate sobre a importância do programa Encontro de Saberes
Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia - debate sobre a importância do programa Encontro de Saberes

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