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Mineração em terras raras gera medo e desconfiança entre moradores de Poços de Caldas

Deputadas ouviram relatos de previsão de escavações a apenas 300 metros de casas e escolas em audiência pública.

- Atualizado em 14/08/2026 - 17:59
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A população de Poços de Caldas (Sul de Minas) vive sob o medo dos impactos que a exploração de terras raras possa causar no município. O temor é ainda ampliado pela desinformação a respeito dos projetos e pelo assédio que a empresa tem feito em busca de apoio dos moradores. Relatos da comunidade escolar na zona Sul da cidade foram feitos à Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), que visitou oito escolas municipais e estaduais na quinta-feira (13/8/26). 

O Sul de Minas se tornou destino de mineradoras interessadas na exploração de terras raras, conjunto de 17 elementos químicos utilizados como matéria-prima para as indústrias de tecnologia e do setor energético. Poços de Caldas fica dentro da cratera de um vulcão extinto há 80 milhões de anos. A formação geológica peculiar proporciona essa riqueza mineral.

Mas a exploração não ocorre sem impacto ambiental e social. Até porque as áreas ficam próximas a escolas e hospitais. A preocupação da presidenta da comissão, deputada Beatriz Cerqueira e da deputada Bella Gonçalves, ambas do PT, que ouviram a comunidade, é como isso vai afetar a comunidade escolar.

A área mais impactada é a zona sul da cidade, que abriga 60 mil moradores e onde está prevista a instalação do Projeto Colossus, da mineradora australiana Viridis. São 373 hectares e estimativa de produção de 5 milhões de toneladas por ano, além do uso de 3 milhões de litros de água por dia. A área destinada à exploração fica a cerca de 300 metros de residências, escolas e hospital.

“Tem escolas públicas ao lado das cavas. Isso é muito assustador. Mais assustador ainda é a falta de informação", indigna-se a deputada Beatriz Cerqueira. Após a escuta nas oito escolas, ela listou as reclamações mais impactantes e criticou a prática da empresa de tentar convencer a comunidade com práticas como patrocinar eventos culturais e falar de forma técnica “para as pessoas não compreenderem quais são os impactos”.

Bella Gonçalves também criticou a falta de informações sobre os impactos na saúde respiratória, os riscos da radioatividade, a contaminação das águas, o fluxo de caminhões, os níveis de ruído e outras consequências que a atividade pode gerar.

A deputada citou que o Ibama soltou uma nota técnica apontando a necessidade de mais estudos para o licenciamento ambiental da mineração. “O documento mostra que mesmo os órgãos públicos precisam de mais informações”, atentou.

Risco ambiental assusta professores

O professor Reinaldo Souza, da Escola Estadual Professor José Castro de Araújo, uma das visitadas, afirma que o grande temor da comunidade é a proximidade das cavas à área urbana. Ele diz que estudos independentes apontam que a atividade vai causar impacto no recurso hídrico da cidade, que é totalmente dependente da água da chuva. Como a mineração utiliza grande quantidade de água, o receio é aprofundar o problema de escassez já vivido em algumas épocas do ano.

“Gera essa preocupação também, além da contaminação, a poluição atmosférica, a perda de biodiversidade, várias outras questões que estão envolvidas com a exploração”, complementa o professor.

Quérima Franco, professora da Escola Municipal Maria Ovídia Junqueira, escolheu morar na região há 30 anos para ter mais qualidade de vida. Ela relata que os moradores sempre consideraram o local “uma minicidade dentro de uma cidade grande”. Até dois anos atrás, contava com comércio e serviços que facilitavam a vida dos moradores.

A professora lamentou que o bairro perdeu equipamentos como o banco, a unidade policial e o Samu. Segundo ela, a propaganda entre a comunidade é de que, se a mineração for aceita, tudo vai melhorar. “Parece que foi uma moeda de troca. Parece que nós estamos recebendo uma imposição", desconfia ela.

Quérrima lembra que a qualidade do ar é muito boa e o temor dos moradores é com as mudanças que possam advir da mineração. “Da porta da janela da minha casa, eu vejo aquela mata, vejo água, vejo tudo e agora tudo vai se acabar porque, a 300 metros da minha casa, vai acontecer a mineração e tudo vai ser retirado de lá”.

Mineradora tem assediado escolas e comunidade

Professor da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio, a Escola Padrão, Vinícius Hilário de Lima, reclama que a chegada da mineração pegou a comunidade de surpresa e as informações ainda não são muito transparentes.

De acordo com o professor, representantes da empresa têm feito propagandas em veículos locais e procurado escolas e a comunidade, fazendo assembleias para convencimento dos benefícios da atividade. “Só que ela (a empresa) sempre deixava de explicar como seria feita essa exploração. E aí a gente foi descobrindo depois, por iniciativa dos próprios moradores e da comunidade escolar e comunidade dos bairros aqui da Zona Sul, qual seria a proporção da cava dessa mineradora, a proximidade que estaria aqui da nossa escola”, conta ele.

Vinícius Hilário diz que a mineradora também tem procurado moradores em casa, além de instituições, fazendo propostas e promessas de empregos e de benefícios que seriam trazidos para a comunidade.

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O professor reclama, ainda, da falta de transparência no processo de instalação da mineradora. A prefeitura já teria  autorizado a instalação de equipamentos da empresa, sem consultar ou comunicar à comunidade. “A gente começou a perceber o tanto que a comunidade não só não sabia que isso aconteceria, que poderia acontecer, muito menos das consequências negativas de devastação ambiental e do assédio que já tinha começado”.

Na Escola Municipal Vitalina Rossi, uma turma chegou a receber camisas com patrocínio da Viridis, o que chamou a atenção da Comissão. Para Beatriz Cerqueira, um problema grave é a desinformação da população sobre o que está acontecendo na região. Os questionamentos feitos pelas comunidades escolares serão encaminhados para os órgãos ambientais e uma audiência pública deve ser marcada para debater os resultados da visita e cobrar das autoridades esclarecimentos.

Carrossel
Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia - visita a escolas de Poços de Caldas
Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia - visita a escolas de Poços de Caldas
“Quando a gente compara com os riscos que a gente tem para a nossa saúde, devastação ambiental, falta de água, não tem nada que compense. Não tem número de empregos que compense os riscos e a devastação que a gente vai ter que sofrer”
Vinícius Hilário
Professor da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio, a Escola Padrão

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