Defasagem salarial asfixia servidores da Emater
Audiência sobre assistência técnica rural recebeu sindicatos das categorias nesta quarta (15).
Defasagem de salários, plano de carreira obsoleto e descumprimento de pisos salariais no âmbito da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado (Emater-MG) pautaram as reivindicações das entidades sindicais presentes em audiência pública da Comissão de Agropecuária e Agroindústria da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), nesta quarta-feira (15/4/26).
“Os trabalhadores da Emater estão adoecidos”, alertou Henrique Queiroz Borges, diretor de Assuntos de Agricultura e Reforma Agrária do Sindicato dos Trabalhadores em Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais. Ele explicou que a defasagem salarial, somada a metas de desempenho que desconsideram a atual redução do quadro de pessoal, deixou a saúde física e mental dos servidores fragilizada.
Segundo Borges, as perdas inflacionárias chegam a 21%. Além da remuneração defasada, não há qualquer expectativa de se implementar políticas de valorização ou atualização do plano de cargos e salários dos técnicos da empresa, lamentou.
Ele exemplificou o descompasso histórico que afeta as carreiras da Emater com sua própria trajetória. O dirigente sindical contou que, ao ingressar na instituição em 1998, sua remuneração correspondia a nove salários mínimos; hoje, depois de 28 anos de serviços prestados, tendo se capacitado inclusive com um mestrado, recebe os mesmos nove salários mínimos em valores atualizados, cerca de R$ 14.500 (valor bruto, sem os descontos devidos).
De acordo com Borges, a Emater já chegou a ter mais de 3.800 servidores e, atualmente, conta apenas com aproximadamente 1.800. Para ele, isso se deve aos salários abaixo do mercado: “muitas vezes, os técnicos contratados recentemente por concurso deixaram a empresa porque não recebiam sequer o piso salarial da profissão”.
“A Emater não paga o mínimo profissional para engenheiros, técnicos agrícolas ou veterinários”, ressaltou Tadeu Ribeiro Tavares de Melo, diretor-presidente da Associação dos Amigos da Extensão Rural Pública (Adaerp) e diretor-administrativo do Sindicato dos Técnicos Agrícolas no Estado de Minas Gerais (Sintamig).
“São oito anos de não na cara”, afirmou Tadeu Melo sobre as recusas do Governo do Estado em atender as demandas das categorias. Ele explicou que o valor do auxílio-alimentação também está defasado, e que o convênio médico está sob risco, uma vez que a remuneração dos servidores não acompanha os reajustes da operadora.
Ao falar da assistência técnica prestada aos agricultores familiares, Tadeu Melo disse que presencia recorrentemente o crescimento da produção e da qualidade dos alimentos, mas, em contrapartida, o padrão de vida dos técnicos tem deixado a desejar. “A gente não tem condição de comprar os produtos para os quais prestamos assistência. "Como vou comprar um queijo de 70 reais?", questionou.
Em Minas Gerais, a Emater é vinculada à Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento. A empresa atua em parceria com o governo estadual e prefeituras para a execução de políticas no setor agrícola. Está presente em 821 municípios mineiros, sendo responsável pelo atendimento a aproximadamente 350 mil produtores rurais.
A empresa trabalha junto aos produtores, especialmente agricultores familiares, oferecendo orientação técnica, capacitação e apoio à organização produtiva.
Defesa da Emater é unânime entre parlamentares
A ampliação da Assistência Técnica e Extensão Rural (Ater) para o desenvolvimento sustentável da agricultura e a valorização dos servidores da Emater foram defendidas pelos deputados presentes na audiência: Carlos Henrique (Republicanos), Raul Belém (Cidadania), Antonio Carlos Arantes (PL) e Dr. Maurício (Novo).
Carlos Henrique, presidente de frente parlamentar em defesa da Ater, destacou a trajetória da empresa no fortalecimento da agricultura familiar, na promoção da segurança alimentar, na geração de renda e na difusão de tecnologias apropriadas às realidades regionais.
O parlamentar anunciou a realização de seis encontros para avaliar a assistência técnica e extensão rural no âmbito do Estado. Além de Belo Horizonte, as cidades que receberão os debates serão: Capelinha, Governador Valadares, Alfenas, Viçosa ou Muriaé, Unaí e Montes Claros.
Ao final, a partir dos dados coletados e discutidos nas reuniões regionais, será formalizada uma “carta de intenções” a ser apresentada ao Executivo estadual e aos pré-candidatos ao Governo de Minas, para que as atividades de extensão rural e as demandas dos técnicos da empresa pautem também as propostas de campanha.
“Fortalecer a Emater é uma escolha política, que já uniu todos os deputados da Casa”, lembrou Raul Belém ao se referir à pressão parlamentar para retirar o prédio da empresa do “PL dos Imóveis”, Projeto de Lei (PL) 3.733/2025, que integra o Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag).
A proposta faz parte do pacote enviado pelo então governador Romeu Zema (Novo) no âmbito do programa, autorizando o Governo de Minas a transferir imóveis do Estado — incluindo bens de autarquias e fundações — para a União como forma de abatimento da dívida estadual.
Everton Augusto Paiva Ferreira, gerente do Departamento de Planejamento e Gestão Estratégica da Emater, reconheceu a defasagem do quadro de pessoal diante do desafio de se ampliar os atendimentos no Estado e a necessidade de se repensar as fontes de financiamento da empresa. Ele anunciou a realização de concurso público com 120 vagas e admitiu que o plano de cargos e salários é da década de 1980.