Comissão questiona modelo de parceria em escolas estaduais
Leilão prevê investimentos em infraestrutura em unidades de ensino que já teriam sido contempladas com repasses expressivos do governo.
Depois de seis visitas técnicas para verificar as condições de infraestrutura de escolas públicas sujeitas a parceria com a iniciativa privada, a Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) debateu, em audiência nesta quarta-feira (6/5/26), os impactos da concessão dos serviços não pedagógicos em 95 unidades de ensino localizadas na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH) e no Norte do Estado.
Além de questionarem a necessidade de investimento externo em escolas já estruturadas, autoridades e representantes de entidades de classe demonstraram preocupação com a manutenção de empregos e o processo de gestão das unidades.
Essas 95 escolas integram edital de concorrência internacional relacionado ao modelo de parceria público-privada (PPP), com a concessão administrativa de serviços como limpeza, vigilância, reforma, aquisição de mobiliário e conservação dos imóveis, por 25 anos.
O leilão foi vencido pelo fundo de investimento IG4, em parceria com o banco BTG Pactual, com a previsão de pagamento de R$ 23,3 milhões por mês por parte do Estado, como contraprestação pelos serviços.
Escolas selecionadas receberam milhões em investimentos
A audiência pública foi solicita pela deputada Beatriz Cerqueira (PT), presidenta da comissão. Ela destacou que nas visitas foram verificadas escolas equipadas, bem administradas e obras em andamento.
Levantamento da parlamentar indica investimentos milionários nas unidades antes de serem leiloadas. As 34 escolas do lote do Norte de Minas teriam recebido R$ 52,7 milhões de recursos públicos de 2019 a 2025, enquanto os repasses para o lote de 61 estabelecimentos de ensino da RMBH alcançariam R$ 134 milhões.
Beatriz Cerqueira ainda questionou a possibilidade de bonificação do fundo de investimento com base em índices pedagógicos, apesar de teoricamente ele não se envolver nesta seara, o compromisso de pagamento aos vencedores do leilão independentemente do andamento dos serviços contratados, assim como o risco de demissões e precarização das condições de trabalho nas escolas incluídas na PPP.
De acordo com a parlamentar, a bonificação por desempenho educacional excepcional pode chegar a R$ 1,1 milhão além do limite previsto de R$ 22,3 milhões mensais. Quanto à manutenção e gestão dos serviços concedidos, na pior das hipóteses, mesmo sem a qualidade esperada e o cumprimento de prazos, o contrato garante R$ 20,2 milhões mensais ao fundo, ressaltou.
Para a deputada Lohanna (PV), o que se vê é o andamento de um projeto “entreguista” do Governo do Estado, a exemplo de medidas semelhantes nas áreas de saúde, infraestrutura, energia e saneamento básico.
O deputado federal Rogério Correira (PT-MG), por sua vez, comparou os cerca de R$ 5 bilhões estimados em investimentos no leilão do Executivo estadual com o novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do governo federal, o qual prevê R$ 7,1 bilhões para a construção de 685 escolas em todo o País.
Coordenadora-geral do Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais (Sind-UTE-MG), Denise Romano manifestou apreensão especial com a situação dos auxiliares de serviço de educação básica (ASBs), contratados para atuar em portarias e na cozinha, por exemplo. Esses profissionais não têm estabilidade e são os mais ameaçados de demissão. São hoje 1.934 ASBs em atividade no Estado.
Governo defende eficiência da PPP
Os subsecretários Silas Carvalho e Vitor Augusto Costa, representando as Secretarias de Estado de Educação e de Infraestrutura, Mobilidade e Parcerias, respectivamente, salientaram os ganhos proporcionados em capacidade de investimento e agilidade com a PPP.
Vitor argumentou que o modelo de parceria proposto em Minas segue um modelo suprapartidário, estruturado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), adotado em diferentes estados e de comprovada eficiência.
Ele citou benefícios com a redução da burocracia com um contrato único para delegação da manutenção e reforma das escolas, ao garantir que a educação continua 100% pública, com toda a atividade pedagógica reservada ao Estado.
Silas Carvalho ponderou que, mesmo investindo na infraestrutura dos estabelecimentos de ensino, o governo não consegue abranger as necessidades de aproximadamente 4 mil escolas estaduais, as quais, além de tudo, exigem reparos e atualizações constantes.
A concessão exige do vencedor do leilão estrutura adequada para salas de aula, banheiros, cozinha, refeitório, quadra coberta, pátio, biblioteca, laboratórios de informática e de ciência, auditório e sala multiuso.
O gestor garantiu que o fundo de investimento deverá renovar todos os equipamentos e mobiliários, de forma que aqueles já em utilização e em bom estado serão distribuídos para outras unidades da rede.
O prazo para entregar os investimentos iniciais nas escolas é de 49 meses, com um cronograma de entregas por período. Além disso, a PPP deverá construir três novas escolas, em locais ainda a serem definidos.
Nove empresas disputaram o leilão e os serviços prestados serão avaliados periodicamente pelo diretor de cada escola e a própria Secretaria de Educação, concluiu Silas.