Água o ano inteiro pode ir do sonho à realidade com barraginhas em Virgem da Lapa
Cidade do Vale do Jequitinhonha recebeu dia de campo de projeto da ALMG para aprender práticas que podem fazer o verde voltar ao semiárido mineiro.
Passado, presente e futuro se conectaram em mais um dia de campo promovido pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), desta vez em Virgem da Lapa (Jequitinhonha/Mucuri), para apresentar a pequenos produtores rurais, lideranças regionais e estudantes dos ensinos médio, técnico e superior um conjunto de práticas de conservação de água e do solo.
Entre as práticas estão as barraginhas, esperança de uma vida melhor na região semiárida em que o acesso à água é questão de sobrevivência.
O Projeto Construção de Barraginhas e outras Práticas Mecânicas de Conservação de Água e Solo integra o Plano Legislativo de Articulação e Monitoramento de Ações Relacionadas à Crise Climática (Plam Crise Climática), que propõe a implantação de unidades demonstrativas para incentivar práticas de conservação hídrica e recuperação ambiental no meio rural.
Além das barraginhas, fazem parte das tecnologias a instalação de terraços em nível, adequação de estradas vicinais e o cercamento de nascentes, matas ciliares e topo de morros. Por meio de ações simples, baratas e seguras, o Projeto Barraginhas promete transformar em realidade o sonho de ter água o ano inteiro no semiárido mineiro.
O que foi apresentado pela equipe técnica da ALMG na última sexta-feira (20/6/26), na Comunidade do Córrego da Onça, onde vivem cerca de 90 famílias na zona rural de Virgem da Lapa, reforça a esperança de conectar o passado ao futuro.
Um passado em que a água fluía pelo hoje seco e pedregoso leito do Córrego do Onça, que servia para aplacar a sede deste felino que habitava a região num passado ainda mais distante.
“Onça eu mesmo nunca vi, mas água tinha muita quando a gente chegou por aqui”, relata Luiz Gonzaga Pereira de Oliveira, o “Seu Nem”, 85 anos, quase 80 deles vividos às margens do Córrego do Onça, que até a década de 1980 tinha água o ano inteiro e foi até cenário de afogamento.
“Duas crianças vieram nadar e morreram num poço bonito que tinha aqui no fundo, todo mundo ficou muito triste”, contou “Seu Nem”, com um olhar no passado em que água na propriedade da família não era artigo de luxo.
“Agora só tem um pouco de água de novembro a março. No resto do ano fica tudo seco. "Aqui no Jequitinhonha, a única solução é prender a água", receita o produtor rural, que, em 80 hectares de terra, conta com uma caixa coletora de água da chuva para complementar o que consegue extrair de um poço artesiano. Foi o jeito encontrado para manter o gado e a plantação de cana, de onde tira o sustento.
E a ideia de “prender” a água do “Seu Nem” resume bem as práticas preconizadas pelo Projeto Barraginhas, que tiveram na propriedade de “Seu Nem” uma espécie de vitrine na última sexta (20).
Com a ajuda de tratores, lá foram implantadas uma sequência de barraginhas e curvas de nível ao longo do morro em frente à casa do “Seu Nem”, situado aos pés do vale formado pelo Córrego da Onça. Na próxima temporada de chuvas, no final do ano, as práticas vão começar a mostrar seu valor.
Pela manhã e à tarde, cerca de 400 pessoas percorreram a propriedade do "Seu Nem" e receberam as explicações da equipe técnica da ALMG. Muitos deles já fizeram o curso gratuito oferecido à distância pela Escola do Legislativo, ainda disponível. A maquete, baseada em uma propriedade real em que o projeto foi implantado pela Embrapa, em Sete Lagoas (Central), serviu de apoio à “aula prática”.
Uma barraginha nada mais é do que um piscinão escavado na terra com borda homogênea e fundo nivelado de seis a oito metros de diâmetro e em torno de dois metros de altura, com um “ladrão” 80 centímetros abaixo da crista para possibilitar que o excesso de água vá para a próxima barraginha.
Com a devida orientação técnica, é possível construí-la em apenas 1h30 com um trator ao custo de R$ 600 cada. As informações estão no curso on-line oferecido pela ALMG.
Várias barraginhas em sequência, combinadas com os terraços em nível, com ou sem cochinhos (assim como o local onde os animais se alimentam, minibarraginhas intercaladas para permitir a passagem do gado), além das outras práticas indicadas, fazem a umidade ficar retida e promovem em pouco tempo uma grande transformação no terreno. E sem necessidade de manutenção por até cinco anos.
O engenheiro agrônomo Luciano Cordoval de Barros, da Embrapa, é considerado o “pai das barraginhas”. A ideia que virou livro, segundo ele, surgiu em 1982 a partir da observação de uma barragem natural produzida por chuvas torrenciais depois de uma seca severa em uma fazenda em Janaúba (Norte).
O Projeto Barraginhas da ALMG prevê a implantação de unidades demonstrativas de práticas mecânicas de conservação de água e solo em pequenas propriedades rurais em três regiões do Estado, que contam com diferentes situações de clima, bioma e acesso à água. A intenção é mostrar a possibilidade de multiplicar as práticas em condições diversas.
Seminário legislativo deu origem ao projeto
Um dos “alunos” na apresentação da equipe técnica da ALMG foi o deputado Doutor Jean Freire (PT), que é da região e foi a Virgem da Lapa reforçar a importância do Projeto Barraginhas. “Conheço bem o desafio para segurar essa água, porque aqui chove pouco e num intervalo de tempo pequeno. A região já é muito empobrecida e então precisamos de políticas públicas para isso”, destacou.
“Ouvimos muitos relatos de moradores sobre como eram os rios e os riachos daqui no passado e a tristeza de como estão hoje. Nenhum deles é mais como foi na nossa infância, e, por causa disso, também aumentou a dificuldade do acesso à água”, completou Doutor Jean Freire.
O parlamentar destacou ainda que a maquete apresentada aos participantes do evento é um espelho do que já aconteceu de verdade em uma comunidade. “Ela é uma vitrine do que pode acontecer no futuro aqui em Virgem da Lapa. Basta acreditar e investir. Construir barraginhas vai muito além de furar um buraco para segurar a água. O mais importante é envolver a comunidade e fazê-la entender o que está por trás, a água que infiltra e recupera o solo e o lençol freático", explicou.
O Plam Crise Climática, instituído pela atual Mesa da ALMG, busca concretizar sugestões apresentadas durante o seminário técnico “Crise Climática em Minas Gerais: Desafios na Convivência com a Seca e a Chuva Extrema”, realizado no ano passado.
O Projeto Barraginhas é desenvolvido pela ALMG em parceria com a Emater-MG, a Embrapa, a Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento e a Federação da Agricultura de Minas Gerais (Faemg), com apoio da Associação Mineira de Municípios (AMM).
Do campo para a padaria, e de Virgem da Lapa para o mundo
Se a propriedade do “Seu Nem” simboliza o presente do projeto, na propriedade vizinha, a implantação de barraginhas já faz parte do passado, mas os efeitos já são bem visíveis.
Há oito anos, Paulo César Dutra, mais conhecido como “Paulinho da Padaria”, 58 anos, cansado da paisagem árida em tons de cinza e marrom, ficou sabendo pela internet das tais barraginhas desenvolvidas por pesquisadores da Embrapa e resolveu dar uma chance à nova tecnologia.
Com o apoio da filha Paula Cristina Vieira Dutra, que é veterinária, ele construiu seis barraginhas e oito curvas de nível em um dos lados do morro que termina em dois pequenos açudes, um pouco antes no leito seco do Córrego da Onça. Com isso, a água que antes ia embora rápido em enxurradas e danificava o solo, passou a correr controladamente e se infiltrar em até 90%, conforme estima, promovendo a retenção úmida e a revitalização hídrica.
Hoje são pastagens verdes e as duas represas com água o ano todo, sem precisar de poço artesiano. Sem as melhorias, a lâmina de água acumulada poderia evaporar até 0,7 centímetro nos dias de mais calor.
Agora, é essa água que hidrata o gado e irriga a plantação de cana e outras culturas para alimentar os animais, garantindo a produção de leite que se transforma em queijo, doce e até iogurte vendidos em sua padaria na cidade, um círculo virtuoso no qual a natureza, e ele também, agradecem.
O sucesso foi tanto que Paulinho agora está implantando as mesmas melhorias em outra parte da propriedade, que tem 30 hectares, do outro lado do mesmo morro.
“Antes, todo ano tinha que renovar a pastagem. A seca aqui é muito brava. O semiárido não é brincadeira. Tinha que comprar silagem para os animais, aumentava muito o custo da produção. A incidência solar é alta e o período de estiagem é muito extenso”, explica
“Segurar a água para segurar o povo”
O futuro do Projeto Barraginhas? Se depender do prefeito Averaldo Moreira Martins, o popular “Dim Passarinho”, de 61 anos, Virgem da Lapa, de 11,9 mil habitantes, vai virar um “mar de barraginhas” nas mais de 40 comunidades rurais do município.
No terceiro mandato no Executivo municipal, o principal desafio, segundo ele, é interromper o êxodo da cidade para outras regiões do País, sobretudo dos jovens. Uma zona rural com água de sobra o ano todo, mais verde e produtiva, pode ajudar.
Segundo ele, os destinos principais da migração são as colheitas do café no Sul do Estado e em São Paulo e o comércio nas praias da Bahia e do Sudeste. “Se a gente conseguir segurar a água, preservar nossos mananciais e nossas nascentes para podermos produzir com sustentabilidade, com certeza vamos conseguir segurar nosso povo aqui”, sentencia o prefeito de Virgem da Lapa.
“Eu nadava aqui e até pescava traíra. Tinha água o ano inteiro”, contou “Dim Passarinho”, apontando para o leito seco do Córrego da Onça. Após uma vida inteira em Virgem da Lapa, ele tem na ponta da língua o que causou o sumiço da água na maior parte do ano, que teria começado nos anos 1980.
“Foram construindo estrada vicinal, desmatando a mata ciliar, jogando terra para dentro dos rios. O resultado é que entupiram tudo. A água agora vem na época da chuva e logo vai embora. E tem a monocultura do eucalipto, que tomou conta das nossas chapadas”, lamenta.
O raciocínio, segundo o consultor legislativo da ALMG, Júlio Bedê, está correto, daí o potencial do Projeto Barraginhas. “A lógica é que a água que cai nessa fazenda fique nessa fazenda. Que ela desça pelo lençol freático por dentro da terra”, explicou.
O efeito benéfico em cadeia da iniciativa também deve ser considerado, segundo avalia. A água que no futuro voltar a correr o ano inteiro no Córrego do Onça vai parar no Rio Araçuaí, ainda com água nessa época do ano, mas bastante assoreado, e de lá para o Rio Jequitinhonha, do qual é afluente.
Com menos danos e terra mais produtiva, o dinheiro público, segundo ele, poderá ser investido depois em outras regiões e novas bacias hidrográficas.
Da mesma forma, em cada propriedade, o conjunto de tecnologias preconizado pelo projeto Barraginhas, que é adaptável a cada condição de solo, relevo e volume de precipitação, precisa sempre atuar em conjunto para gerar um efeito de recuperação da natureza em termos de ciclo hidrológico.
