FRANCISCO CÉSAR GONÇALVES (CHICO CÉSAR), cantor e compositor
Discurso
Legislatura 20ª legislatura, 4ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 25/08/2026
Página 4, Coluna 1
Indexação
Proposições citadas RQN 16946 de 2026
RQN 17897 de 2026
Normas citadas RAL nº 5661, de 2026
30ª REUNIÃO ESPECIAL DA 4ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 20ª LEGISLATURA, EM 21/8/2026
Palavras do Sr. Francisco César Gonçalves
“Não precisam mais temer / Não precisam da solidão / Todo dia é dia de viver / Eu sou da América do Sul / Eu sei, vocês não vão saber / Mas agora sou cowboy / Sou do ouro, eu sou vocês / Sou do mundo, sou Minas Gerais.”
Bom dia, gente querida. Bom dia a todas as pessoas aqui presentes. Em primeiro lugar, quero agradecer a generosa presença de vocês. Agradeço a esta Mesa maravilhosa, formada só por mulheres – isso melhora muito o nosso mundo: deputada Leninha, deputada Andréia de Jesus, deputada federal Célia Xakriabá, deputada federal Dandara. Em particular, quero agradecer à deputada Andréia de Jesus por tomar a iniciativa de me oferecer tamanha honraria. Na pessoa dela, saúdo os outros parlamentares, presentes e ausentes.
Hoje me torno mineiro honorário. Como diria Fernando Sabino: “Se sou mineiro? Bem, é conforme, dona”. Já Guimarães Rosa diz: “Minas: patriazinha. Minas — a gente olha, se lembra, sente, pensa. Minas – a gente não sabe”. Se Guimarães não sabe, quem sou eu para saber, não é? Fiquei estes dias todos pensando: e aí, o que é ser mineiro? Fui dar umas pesquisadinhas. Existe uma sucinta tentativa de definição por parte de Drummond, em que ele diz que o mineiro é reservado, observador e modesto. Nessa definição do poeta itabirano, penso que já não me enquadro bem. Sou um pouco reservado, sou bastante observador – me julgo –, mas muito pouco modesto, devo admitir. Agora então, mineiro, me julguem: como é que eu posso ser modesto com um título deste de mineiro?
Valei-me, Maurício Tizumba! Meu companheiro, irmão, diz: “Minas são várias, e as maneiras também. É barroco e sertanejo ao mesmo tempo, conservador e moderno, na Sagarana de Guimarães Rosa ou na pedra no caminho de Drummond”. E continua o meu irmão, quase sósia. Depois explico essa história do irmão quase sósia. Não, vou explicar logo. As pessoas da Paraíba que vinham a Belo Horizonte, a Minas, no começo dos anos 1980, voltavam dizendo: “Rapaz, encontrei um cara que é você lá em Minas Gerais”. As pessoas daqui de Minas que iam à Paraíba voltavam dizendo para ele: “Encontrei um cara na Paraíba que é exatamente você”. Já no começo dos anos 1990, creio que por meio de Titane, eu e Tizumba nos encontramos. Eu vim aqui, e não precisou que ninguém nos apresentasse. Quando nós nos vimos, assim como em um filme, saímos correndo um em direção ao outro, de braços abertos: “É você, é você!”. Um já sabia que o sósia era aquele outro.
Tizumba diz: “Acredito que a minha contribuição” – a contribuição dele, como artista preto de Minas – “seja a de continuar o legado que minha mãe e minha avó, benzedeira de mão cheia, deixaram”. Quando olho para uma Mesa como esta, sinto muito a presença forte da mulher, da mulher preta, da mulher indígena, que é uma Minas que aparece pouco. Um dos repórteres que me entrevistou antes falou: “De cara, parece que você não tem tanto a ver com Minas”. Eu pensei e respondi: “É porque eu tenho a ver com uma Minas que foi invisibilizada, silenciada, ocultada”. O que eu sinto é que, nos últimos 30, 20 anos, essa Minas tem aparecido mais, tem reivindicado o seu lugar, e sinto que é aí que eu entro.
Há um historiador, o Walderez Ramalho, que fala que (– Lê:) “Definir a mineiridade, ou uma identidade regional do mineiro, como um conjunto de características fixas que fazem o povo ser o que ele é seria um erro. Ele entende que essa identidade é o que se fala do mineiro, e isso muda constantemente. Diz Walderez: ‘Os discursos são tão antigos quanto a própria Capitania de Minas Gerais. E eles não passam disso, discursos’. Ele diz que esses discursos estão historicamente ligados a interesses políticos. Ele aponta que políticos conservadores criaram uma identidade pacífica do mineiro, ‘a ideia de que o mineiro é disposto à ordem, é hospitaleiro e pacífico’. E continua: ‘Quando a gente se depara com os usos da mineiridade, temos que nos perguntar quem é que está falando. A meu ver, essa atenção para interpretar esses discursos é relevante para evitar que as tradições não sejam apropriadas e manipuladas para fins políticos’.”.
Nesta madrugada... Aliás, não era madrugada, já eram 6 horas da manhã. Eu acordei e estava com uma coisa na minha cabeça. Aí resolvi escrever isso, que diz assim: “Ser Minas, não ter Minas, pois não terminas nas garras de seu predador, a mineradora, tola senhora com seus minérios, mas os mistérios não, pois aí te indeterminas; os mistérios, não. Minas Gerais, Manos Gerais, Monas Gerais”. O que eu sinto é que, cada vez mais, essa complexidade diversa e rica aflora no País inteiro, e Minas, como um estado tão importante, não poderia ficar de fora. Tudo o que foi silenciado será dito, será cantado, será dançado, será festejado.
Eu tenho um orgulho imenso da Rádio Inconfidência, por exemplo, lá de trás, do jeito de formar que tem essa rádio. Aqui anoto alguns nomes com os quais me relacionei neste tempo em que conheço Minas. Minas foi o primeiro estado do Sudeste onde eu pisei. Primeiro vim para Belo Horizonte. De Belo Horizonte, fui para Ouro Preto, onde passei um mês e compus duas músicas, uma delas muito presente no meu repertório. Dê um sol maior para mim, meu irmão, por gentileza.
– Procede-se à apresentação artística.
O Sr. Francisco César Gonçalves – Obrigado! Façamos desta Assembleia um terreiro de alegria, um lugar de celebrar a vida. A outra música que compus nesse mês que passei em Ouro Preto, e gravei recentemente, se chama Pobre Vila Rica. E diz assim: “Eu estava em Ouro Preto, e saí na foto do americano, a Super 8 apontada contra o peito, bacamarte escravizador da imagem minha. Eu sempre quis fazer cinema, ser um visual poema, meu belicoso sedutor – el rey mandou: ‘Carece desfocar um pouco, pra que esse ar de louco mostre o que é ser nativo, patrimônio mundial, lata de lixo e cartão-postal’.”. Pobre Vila Rica.
E aqui eu agradeço. Eu sei que, a partir daí, foi se estabelecendo uma colaboração com Titane, com Pererê, com Tizumba, com tantos artistas maravilhosos, com a Família Alcântara. (– Intervenção fora do microfone.) É, exatamente. Muito obrigado por essa lembrança. Eu quis gravar o meu terceiro disco com a Família Alcântara. Mais de quarenta pessoas. O produtor, o Marco Mazzola, falou: “Chico, mas isso é uma loucura! Trazer todos para o Rio...”. Aí foram todos para o Rio, gravaram. Depois foram todos para o lançamento do disco lá em São Paulo. Depois foram todos para a turnê lá em Portugal, e era uma maravilha aquele avião cheio de pretos, e eu pensando: “Poxa, nós, que viemos nos navios negreiros, agora voltando todos de avião, e cantando dentro desse avião...”. Era uma beleza! Desde a avó até a netinha, que tinha poucos meses, ia todo mundo para o palco. Era uma festa. Eu lembro que Lokua Kanza, músico africano que estava conosco, ficou muito admirado e falou: “Poxa, Chico, você é um homem de sorte, por poder cantar e reunir assim o nosso povo”.
Sem mais delongas, agradeço de coração essa honraria. Levo para a minha vida. Eu me sinto a cada dia, cada vez mais, um mineiro, desses mineiros que estão ligados à contestação, os mineiros que estão ligados ao lema da bandeira: “Liberdade, ainda que tardia”. É isso que nós queremos, “nós” o povo das periferias, o povo negro, o povo indígena, os artistas, a gente simples dos bairros. Muito obrigado, gente.