DEPUTADA ANDRÉIA DE JESUS (PT), autora do requerimento que deu origem à homenagem
Discurso
Legislatura 20ª legislatura, 4ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 25/08/2026
Página 2, Coluna 1
Indexação
Proposições citadas RQN 16946 de 2026
RQN 17897 de 2026
Normas citadas RAL nº 5661, de 2026
30ª REUNIÃO ESPECIAL DA 4ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 20ª LEGISLATURA, EM 21/8/2026
Palavras da deputada Andréia de Jesus
Bom dia a todas as pessoas. Cumprimento a Exma. Sra. 1ª-Vice-Presidenta da Assembleia Legislativa, deputada Leninha, representando o presidente, deputado Tadeu Leite; o Sr. Francisco César Gonçalves, o Chico César; a Exma. Sra. Deputada Federal Célia Xakriabá. Bom dia a todos.
Quero pedir primeiro bênção às minhas mais velhas, às minhas mais novas. Quero cumprimentar toda a Mesa e agradecer à deputada Leninha por abrir mão de algumas agendas hoje para estar aqui com a gente presidindo esta cerimônia. Quero cumprimentar, de maneira muito especial, o nosso homenageado Chico César, que hoje se torna cidadão mineiro por uma lei desta Casa, mas que, na verdade, já tem uma trajetória de longa data aqui em Minas Gerais. Hoje nós celebramos esse encontro. Quero também saudar todas as autoridades presentes e registrar também a presença de autoridades populares. Cumprimento a cantora Titane, que está aqui, e a imprensa, que também colaborou muito ao dar visibilidade a um cantor negro. Quero agradecer à minha equipe, que trabalhou muito, em especial ao jovem Iuri, lá de Montes Claros, que provocou a gente para este grande encontro, para este reconhecimento. Quero cumprimentar também todos que estão nos acompanhando de Casa.
Chico, hoje este Plenário está cheio, e eu tenho certeza de que a maioria dos negros e negras deste estado, neste momento, estão na labuta. É um desafio para a nossa base social poder acompanhar eventos, porque ocorrem sempre no horário de trabalho. Com certeza, há pessoas acompanhando pelo celular, pela TV, e quero cumprimentá-las.
É com imensa alegria que compartilho este momento com todos vocês que estão aqui, com todos vocês que estão acompanhando de casa. Mais uma vez, o povo negro está aquilombando a Assembleia Legislativa! Ocupamos esta Casa com o objetivo de abrir as portas, mas abrir as portas para os nossos, Pereira da Viola, para a gente naturalizar a presença de pessoas negras aqui como autoridades.
Olhem a composição da Mesa: em quase duzentos anos, não se via isto na Assembleia Legislativa. Isto é mais do que simbólico, é histórico. E momentos como este só são possíveis porque mulheres como eu, a deputada Leninha, a deputada Ana Paula, a deputada Macaé estamos aqui. Somos as primeiras mulheres negras, e isso não vai parar por aí, a ocupar esta Casa. Desde o início do nosso mandato, o nosso compromisso é colocar o povo negro no centro da política. Essa é a minha prioridade, e isso eu não negocio.
Chico querido, nosso saudoso Nêgo Bispo, que já ancestralizou, nos ensinou uma coisa que carrego comigo: “Eu vou falar de nós ganhando, porque, para falar de nós perdendo, eles já falam”. E é sobre isso que quero falar hoje. Hoje vamos falar de nós ganhando. Vamos falar de nós fazendo música, fazendo cultura, fazendo arte. Vamos falar de nós ocupando o Parlamento, criando leis. Vamos falar de nós contando a nossa própria história, porque o racismo estrutural já fala de nós perdendo, já conta uma história que não é nossa.
Então, hoje, Chico, esta homenagem é para celebrar você, a sua história, a sua trajetória; é para celebrar um artista negro nordestino que carrega na poesia e na história a memória e também a indignação da injustiça social, mas também fala de amor, de sentimentos, escreve livros e nos ensina, a cada obra, que, apesar de tudo, também é uma referência para nós, uma inspiração. Eu jamais vou deixar que se apague o legado daqueles que se foram, mas é muito importante a escolha política e a tarefa ancestral de homenagear e celebrar as pessoas vivas que seguem de pé.
Esta homenagem não é reparação, porque a dívida não é nossa, a dívida é deles. O que nós fazemos hoje é reconhecer aquilo que é devido, que é legítimo, que é incontestável mundialmente. É uma honra para esta Casa. E, assim como homenageamos você, Chico, também já homenageamos Sérgio Pererê e outros cantores negros e artistas negros deste estado, do grupo de cultura de rua, congado, terreiro, reinado, hip-hop, funk. Hoje você se torna oficialmente cidadão mineiro, cidadão das Minas e das Gerais: das Minas cuja riqueza não se resume ao ouro, ao diamante, às terras-raras, ao minério, mas sobretudo à beleza e à força do nosso povo; das Minas Gerais do povo geraizeiro, dos terreiros, onde o sol e o calor não impedem ninguém de festejar, de dançar, de cantar. Eu quero falar das Minas Gerais dos congadeiros, dos reinadeiros, dos catopês, do Carnaval, dos blocos, da capoeira, das benzedeiras, das cirandeiras, das ciganas; das Minas Gerais quilombolas e indígenas, dos povos de tradição e de matriz africana; das Minas Gerais da diversidade do povo LGBTQIA+, das sambadeiras, das escritoras, da Conceição Evaristo, das professoras, dos cientistas, das pessoas que defendem os direitos humanos. E, sobretudo, quero falar das Minas Gerais de todas as fazedoras e de todos os fazedores de cultura, gente que, na diversidade de seus territórios, leva lazer, diversão, orgulho, reza e magia, gente que faz da cultura uma alternativa para permanecer vivo.
O Estado é um território negro. O nosso estado é um território negro. E quem diz isso não sou eu; é o último censo demográfico do IBGE, que registrou que 58% da população de Minas Gerais se autodeclara negra. É uma vitória! A gente já não se esconde mais; a gente se declara. Meu trabalho com os povos de tradição me ensinou uma coisa: registrar é não deixar morrer. E você, Chico, faz muito bem isso, talvez da forma mais bonita que existe: mantendo viva a oralidade, não é, Tizumba? Eu preciso dizer uma coisa que sempre digo e não vou deixar ninguém esquecer: foram 350 anos de chibatadas, 350 anos de escravidão contra o povo negro, 350 anos de tentativas de silenciamento. Foi preciso criar uma lei, em 2003, para garantir o ensino da história da África e dos afrodescendentes. Essa foi uma vitória para o povo negro, porque, lá atrás, quando já não podiam mais nos chicotear, tentaram tirar a nossa oralidade. E o povo segue. O povo sem história não é povo, não existe.
E, por isso, hoje, eu me emociono também, porque fui autora dessa lei e porque o microfone que hoje está aqui dando voz a esta homenagem raramente trazia nomes negros para serem registrados nesta Casa e deixar marcada uma história que pudesse inspirar outros jovens, esses que estão acompanhando de casa. Precisamos levar para os nossos jovens negros, das periferias e das ocupações a inspiração de que é possível nós marcarmos a nossa trajetória de vida, deixando legados importantes como esse de Chico, uma autoridade legitimada pela própria história.
Eu digo com toda a certeza: é impossível falar de música popular brasileira sem falar de Chico César. É verdade que muitos de nós conhecemos as músicas mais famosas, como Mama África e Deus me proteja, mas nós estamos falando de um artista de 30 anos de carreira, com 11 álbuns e 4 livros publicados, de um jornalista e de inúmeras colaborações, turnês e eventos que levantam outros artistas. Quem conhece a história de Chico sabe que ele sempre andou do lado certo da história, e é por isso que ele recebe hoje essa honraria com as mãos limpas.
Querido Chico, assim como você inspira tantos outros artistas, tantas outras gerações, eu desejo que você continue sendo expoente para quem vem depois, para que a sensibilidade da arte continue chegando aos corações das pessoas; para que a genialidade seja reconhecida e preservada; para que a arte continue sendo uma escola; para que a ancestralidade siga nos reconhecendo e nos marcando como patrimônio deste estado. Esta homenagem não se resume só a uma reunião especial ou a uma placa; ela é um símbolo, é simbólica e é importante para nós. Eu quero que este dia seja lembrado, sobretudo, como registro de uma trajetória linda, potente e motivadora, porque a cultura do povo é aquilo que o mantém vivo e talvez seja a maneira mais singular de justificar o que estamos fazendo aqui, hoje: estamos fazendo cultura dentro do campo político. Hoje nós estamos celebrando a cultura, celebrando a memória, celebrando a ancestralidade. Hoje estamos falando de nós ganhando, e é assim que eu quero seguir falando.
Muito obrigada, Chico. Muito obrigada a todos vocês, muito queridos. Que você venha mais vezes para Minas, agora, como cidadão: toda casa mineira está aberta para você.