Pronunciamentos

ANTÔNIO MARCOS NOHMI, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais - IHGMG

Discurso

Presta homenagem à memória do ex-presidente Juscelino Kubitschek, por ocasião dos 50 anos de sua morte. Agradece a homenagem recebida pela atuação do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais - IHGMG - na preservação da memória e do acervo histórico de Minas Gerais.
Reunião 25ª reunião ESPECIAL
Legislatura 20ª legislatura, 4ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 11/08/2026
Página 10, Coluna 1
Indexação
Proposições citadas RQN 19052 de 2026

25ª REUNIÃO ESPECIAL DA 4ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 20ª LEGISLATURA, EM 6/8/2026

Palavras do Sr. Antônio Marcos Nohmi

Cumprimento o Exmo. Sr. Deputado Roberto Andrade, que representa, nesta solenidade, o presidente desta Casa, o querido amigo deputado Tadeu Leite; a Exma. Sra. Deputada Maria Clara Marra, autora do requerimento que deu origem a esta homenagem e uma das deputadas mais atuantes na defesa das causas da cultura de Minas Gerais. Apesar da sua jovialidade, confesso que, com o recente contato que tivemos, foi uma deputada que buscou o instituto com uma das pautas mais nobres: a de defender a memória e a história de Minas Gerais. Muito obrigado pelo seu trabalho e parabéns pelo que vem desempenhando nesta Casa Legislativa. Também cumprimento a Exma. Sra. Desembargadora Ana Paula Nannetti Caixeta, que representa o presidente do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais, desembargador Vicente de Oliveira Silva, que, com uma alegria e uma coincidência muito grandes, passou por Diamantina e, naquela linda terra, representou o nosso Tribunal de Justiça; o Exmo. Sr. ex-Governador do Estado de Minas Gerais, Eduardo Azeredo, meu confrade e um dos maiores governadores que Minas Gerais já teve, um homem de bem, um homem probo, um homem que defende a cultura, um homem simples, um exemplo de político mineiro; o Exmo. Sr. Serafim Melo Jardim, fundador e presidente do Museu Casa de JK, em Diamantina, meu amigo, posso assim dizer com muita alegria, um dos homens que mais defende, que mais luta pela memória e pela conservação do legado de JK. Parabéns, Serafim, por tudo o que faz, pelo seu trabalho maravilhoso e incansável à frente da belíssima Casa de JK. É uma honra sermos mineiros e termos essa casa confiada a você. Cumprimento ainda o Exmo. Sr. Presidente emérito do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, meu amigo José Carlos Serufo, que representa, nesta solenidade, a Academia Mineira de Medicina de Minas Gerais, um homem que é amigo da história, é amigo de Minas Gerais, um homem que sabe ser o candeeiro, portanto, das boas causas da memória de Minas Gerais. Muito obrigado por sua presença. Também gostaria de agradecer a todos os amigos, aos confrades, às confreiras e a todos os amigos de Juscelino, que aqui vieram para render homenagem à sua memória.

Permitam-me iniciar registrando, em nome do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, o nosso profundo agradecimento à Assembleia Legislativa pela realização desta reunião especial. Ao fazê-lo, o Parlamento mineiro homenageia a memória de um dos maiores brasileiros de todos os tempos e demonstra que, na terra dos inconfidentes, ainda guardamos o bom hábito de preservar a memória daqueles que engrandecem nossa terra e nossa gente.

O Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, a Casa de João Pinheiro, fundada, como bem disse a deputada Maria Clara, em 1907, é a mais antiga instituição cultural e de preservação da memória em funcionamento contínuo em Minas Gerais. Há quase 120 anos, reúne historiadores, escritores, pesquisadores e homens públicos em torno de uma missão que permanece atual: preservar a memória, proteger o patrimônio cultural e lembrar às novas gerações que nenhum povo constrói o futuro quando perde a consciência do seu passado. Afinal, o culto à memória não se alimenta apenas da saudade de tempos idos. Ela tem significado muito maior: o de reconhecer exemplos capazes de iluminar o nosso presente. É exatamente isso que fazemos nessa noite, ao recordar os 50 anos da morte do mineiro Juscelino Kubitschek de Oliveira. Poucos homens públicos brasileiros conseguiram reunir, numa mesma existência, a simplicidade das origens, a grandeza da obra e a permanência do seu legado.

Juscelino não nasceu cercado de privilégios. Nasceu no ano de 1902, no antigo Arraial do Tijuco, a nossa querida Diamantina, filho de João César de Oliveira, caixeiro-viajante que faleceu quando ele ainda era menino, e de D. Júlia Kubitschek, professora primária que, viúva, sustentou sozinha a família. Teve duas irmãs: Eufrosina e Maria da Conceição, mais conhecida como Naná. Pela linhagem materna, herdou as raízes da família Kubitschek, de origem tcheca, cujos antepassados se estabeleceram em Minas Gerais no século XIX. Foi naquela casa simples da Rua São Francisco, nº 241, hoje cuidadosamente preservada pelo nosso querido amigo Serafim Jardim, que se formou o caráter daquele que, mais tarde, governaria Minas e o Brasil. D. Júlia talvez seja uma das personagens mais importantes da biografia de Juscelino. Foi ela quem lhe ensinou que a educação era o maior patrimônio de um homem, que o trabalho dignifica e que nenhuma adversidade é maior do que a perseverança. Juscelino aprendeu, dentro de casa, o valor da palavra empenhada, da disciplina, da honestidade e da esperança.

Ainda jovem, ao mudar-se para Belo Horizonte, no início dos anos de 1920, continuou a viver de forma modesta em pensões estudantis e repúblicas no centro da nossa capital. Foi aprovado em concurso público para telegrafista da Repartição dos Correios e Telégrafos, em Belo Horizonte, e foi tal emprego que lhe permitiu custear os estudos de medicina. Formou-se médico em 1927, a 11ª turma da Faculdade de Medicina de Belo Horizonte, atual UFMG, ao lado de 19 outros colegas, entre os quais destaco Odilon Behrens e Pedro Nava. Em 1931, casou-se com Sarah Lemos, com quem teve duas filhas: Márcia e Maria Estela. Escolheu uma profissão dedicada ao cuidado da vida.

Como médico da gloriosa Polícia Militar de Minas Gerais, durante a Revolução Constitucionalista de 1932, conheceu de perto o sofrimento provocado pelos conflitos políticos. Ali percebeu que nenhuma disputa de poder pode valer mais do que a vida humana. Talvez tenha nascido, naquele momento, a convicção que o acompanharia por toda a existência: a de que a política deve servir para unir o povo; jamais para dividi-lo.

Entrou para a vida pública pelas mãos de Benedito Valadares, sem abandonar a sensibilidade do médico – do médico que escuta, do médico que acolhe e do médico que procura soluções efetivas para os problemas. Juscelino levou esse espírito para a política. Em 1934, elegeu-se como o deputado federal mais votado de Minas Gerais, cargo que exerceu até o fechamento do Congresso, com o Golpe de 1937. Em 1940, foi nomeado prefeito de Belo Horizonte. Conhecido como Prefeito Furacão, transformou a Pampulha em um dos maiores símbolos da arquitetura moderna, reunindo talentos como Niemeyer, Burle Marx, Portinari e Ceschiatti. A Pampulha representou uma nova forma de pensar as cidades, a cultura e o futuro. De 1946 a 1950, exerceu o mandato de deputado federal por Minas Gerais, mas foi no governo de Minas que Juscelino revelou plenamente sua dimensão de estadista.

Em 1951, assumiu um estado de imensas potencialidades, mas marcado por limitações estruturais. Minas possuía riquezas extraordinárias, porém carecia da infraestrutura necessária para transformá-las em desenvolvimento. Faltava energia para impulsionar a industrialização. Faltavam estradas capazes de integrar regiões inteiras. Faltava planejamento para permitir que o crescimento econômico alcançasse todos os mineiros. Juscelino, talvez inspirado pelo que conheceu em 1930, quando, após especializar-se em urologia em Paris, viajou por diversos países da Europa e do Oriente Médio, compreendeu que governar significava preparar o futuro. Seu histórico Binômio: Energia e Transporte foi uma verdadeira transformação na visão de Estado. Fortaleceu a expansão da energia elétrica, criando a Cemig, em 1952, como um instrumento estratégico do desenvolvimento mineiro. Ampliou a malha rodoviária, incentivou a industrialização, valorizou o planejamento governamental e lançou as bases do processo de modernização econômica que transformaria Minas Gerais nas décadas seguintes.

Sua capacidade de reunir pessoas talvez tenha sido uma de suas maiores virtudes. Ao seu lado, estavam homens públicos da estatura de Israel Pinheiro, Lucas Lopes, José Maria Alkmin, Américo Renné Giannetti, Bias Fortes, Renato Azeredo e tantos outros que entendiam que grandes realizações nunca são obras individuais; são fruto de equipes comprometidas com um projeto maior que seus interesses pessoais. Este talvez seja um dos maiores ensinamentos de Juscelino: líderes verdadeiros não centralizam talentos; despertam talentos.

Em 1955, renunciou ao cargo de governador, tendo assumido as funções seu vice, Clóvis Salgado. No mesmo ano, o Brasil escolheu JK, do PSD, para a presidência da República, numa eleição em que venceu o udenista Juarez Távora e o paulista Ademar de Barros. Sua posse, entretanto, como vimos no vídeo, não foi simples. O País vivia um dos momentos políticos mais delicados de sua história. Tentativas de impedir o cumprimento da vontade popular, encabeçadas por Carlos Lacerda, Carlos Luz e Café Filho, ameaçavam a normalidade constitucional, até que a firme atuação do Gen. Henrique Teixeira Lott assegurou o respeito à Constituição e a soberania do voto.

Desde o primeiro dia de governo, Juscelino encontrou enormes desafios: inflação elevada, limitações financeiras, pressões políticas, desconfianças nacionais e internacionais. Porém, nada disso diminuiu sua capacidade de sonhar. Juscelino jamais confundiu sonho com improvisação. Seu sonho tinha planejamento, tinha método e tinha metas. E seu Plano de Metas sintetizou essa visão extraordinária de País: energia, transporte, indústria de base, alimentação e educação. E, coroando esse projeto, a meta-síntese: a construção de Brasília e a mudança da capital federal para o interior como verdadeira afirmação de confiança no Brasil. Foi a demonstração de que uma nação pode decidir seu próprio destino quando acredita em si mesma. Ao lado de Niemeyer, Lúcio Costa, Bernardo Sayão, Israel Pinheiro e tantos brasileiros anônimos que ergueram a nova capital, Juscelino mostrou ao mundo que o Brasil era capaz de realizar aquilo que muitos consideravam impossível.

Mas a história também reserva momentos de profunda injustiça. Após o movimento político-militar de 1964, Juscelino teve seus direitos políticos cassados. Foi obrigado ao exílio. Aquele homem que havia inaugurado Brasília, recebido chefes de Estado e conduzido um dos períodos mais transformadores da história nacional passou a viver longe da terra que tanto amava. E, mesmo assim, não pregou o ressentimento, não alimentou o ódio, não incentivou a divisão. Continuou defendendo a democracia, o diálogo e a reconciliação nacional. Essa talvez tenha sido a sua maior vitória moral. Afinal, a grandeza de um estadista não se mede apenas quando exerce o poder; mede-se, sobretudo, na forma como enfrenta a adversidade.

Vivemos hoje tempos em que a política frequentemente se deixa consumir pelos extremos, pela intolerância, pelas respostas fáceis e pelas divisões permanentes. Juscelino nos recorda exatamente o contrário. Ele nos ensina que política é construção e diálogo, é capacidade de reunir pessoas diferentes em torno de objetivos comuns, é pensar nas próximas gerações e não apenas nas próximas eleições. Minas Gerais sempre ofereceu ao Brasil essa escola de equilíbrio. Foi assim com João Pinheiro e Afonso Pena, foi assim com Milton Campos e Pedro Aleixo, foi assim com Bias Fortes e Gustavo Capanema, foi assim com Renato Azeredo e Tancredo Neves, foi assim com Juscelino Kubitschek.

O chamado jeito mineiro de fazer política jamais significou omissão; significa responsabilidade, temperança, capacidade de ouvir, respeito à palavra dada, construção paciente de consensos. Talvez esteja justamente aí uma das maiores contribuições que Minas pode voltar a oferecer ao Brasil. Nosso estado precisa reassumir seu protagonismo nacional, não pela imposição, não pelo confronto, mas pela inteligência política, pela capacidade de diálogo, pelo compromisso com as instituições e pela construção de grandes projetos nacionais. O Brasil continua necessitando de líderes que pensem grande, que inspirem confiança, que compreendam que nenhuma nação alcança seu destino quando permanece aprisionada em conflitos menores.

Senhoras e senhores, Juscelino frequentou inúmeras vezes o Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais. Ali participou de solenidades e encontros intelectuais. Foi presidente de honra de nossa instituição e sempre foi um grande entusiasta do trabalho desenvolvido pela Casa de João Pinheiro. Essa relação muito nos honra. O instituto acredita exatamente naquilo que inspirou a vida de JK. As grandes transformações nascem do conhecimento, da cultura, da ética e da consciência histórica. Nosso trabalho não é apenas o de preservar documentos históricos. Preservamos ideias, preservamos exemplos, preservamos valores, porque o povo sem memória perde sua identidade, e uma sociedade sem identidade dificilmente encontrará seu futuro.

Senhoras e senhores, há homens cuja biografia pertence à sua família. Outros pertencem ao seu tempo. Pouquíssimos pertencem definitivamente à história. JK pertence à história. Enquanto houver brasileiros capazes de acreditar que desenvolvimento e democracia caminham juntos, enquanto houver homens públicos que compreendam que governar é servir, enquanto Minas Gerais continuar oferecendo ao Brasil o exemplo da moderação, do diálogo e da construção coletiva, Juscelino permanecerá entre nós.

Permitam-me concluir com palavras atribuídas ao próprio presidente Juscelino, que sintetizam sua extraordinária visão de mundo: “O otimista pode errar. O pessimista já começa errando”. Cinquenta anos após sua partida, o Brasil continua precisando desse mesmo otimismo. Não de um otimismo ingênuo, mas daquele que trabalha, constrói, une e realiza. Esse foi o legado de Juscelino. Que saibamos honrar seu legado e manter viva a esperança no Brasil que ele sonhou e ajudou a construir. Muito obrigado.