Pronunciamentos

DEPUTADA MARIA CLARA MARRA (PSDB), autora do requerimento que deu origem à homenagem

Discurso

Presta homenagem à memória do ex-presidente Juscelino Kubitschek, por ocasião dos 50 anos de sua morte. Presta homenagem ao Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais - IHGMG - pela preservação da memória e do acervo histórico de Minas Gerais.
Reunião 25ª reunião ESPECIAL
Legislatura 20ª legislatura, 4ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 11/08/2026
Página 7, Coluna 1
Indexação
Proposições citadas RQN 19052 de 2026

25ª REUNIÃO ESPECIAL DA 4ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 20ª LEGISLATURA, EM 6/8/2026

Palavras da presidente (deputada Maria Clara Marra)

Boa noite a todos. Não, gente, esta não é a alegria do Juscelino, não! Boa noite, gente! Estou muito feliz de estar aqui, neste momento tão importante, com cada um de vocês. Presidente, a mim foi confiada a árdua missão de resumir os 50 anos em 5 minutos. Eu quero agradecer-lhe a oportunidade de também homenageá-lo, a oportunidade de receber tantas pessoas que cuidam, com muito esmero, da memória do nosso povo, da memória da nossa política em tempos de tanta superficialidade, de tanta banalização, de tanta liquidez dos fatos. Realmente fico muito feliz por poder estar aqui na sua companhia, na companhia de uma pessoa que, como brinco, é o nosso ministério da verdade. Ao contrário do que diz a distopia de Orwell de 1984, é sim uma pessoa que cuida das nossas fontes, uma pessoa que cuida, com carinho, dos fatos históricos. Então, parabéns pela missão que o senhor assume à frente do instituto.

Quero cumprimentar, de forma muito especial, o nosso deputado, presidente Roberto Andrade. Obrigada pela oportunidade de presidir esta reunião. Na sua pessoa, quero cumprimentar o nosso presidente da Assembleia, deputado Tadeuzinho. Sem dúvida nenhuma, daqui a alguns anos, nós também veremos grandes feitos desta Casa Legislativa, sob a condução dele, jovem, dialógico, eternizados nas palavras e nas obras guardadas pelo Instituto Histórico e Geográfico. Quero cumprimentar ainda o nosso presidente do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais, desembargador Vicente de Oliveira, aqui muito bem representado pela Sra. Desembargadora Ana Paula Nannetti. Muito obrigada pela oportunidade de compartilhar este momento tão importante com a senhora. Quero cumprimentar também o meu correligionário de partido, conhecido e lembrado pela política pragmática, o nosso eterno governador Eduardo Azeredo, que muito nos honra pela sua presença, pela sua história e pelo seu carinho com o instituto. Quero cumprimentar, de forma muito especial, uma pessoa que nos recebeu lá em Diamantina: o Sr. Serafim não deve se lembrar de mim, porque fui uma das milhares de pessoas a quem ele teve a oportunidade de ensinar na Casa de Juscelino. Estou muito feliz e honrada com a presença do senhor aqui hoje, nosso fundador e presidente do Museu Casa de Juscelino Kubitschek, em Diamantina. Quero cumprimentar, de forma muito especial também, o Sr. José Carlos Serufo, presidente emérito do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, representando a Academia Mineira de Medicina. E agora, de forma especial, na pessoa do já cumprimentado, do já mencionado presidente Antônio Marcos, quero cumprimentar cada um de vocês, membros entusiastas dessa atividade tão bonita desenvolvida pelo instituto.

Esta reunião se destina, com muito carinho e admiração, a homenagear a memória do ex-presidente Juscelino Kubitschek, por ocasião dos 50 anos da sua morte. Nós estamos falando de um humilde cidadão de Diamantina, nascido no interior de Minas, no século passado, que deixou um legado que influencia até hoje a política de Minas e a política do Brasil.

Órfão de pai e criado desde os três anos de idade apenas pela mãe, uma professora primária, dedicou-se com rigor à leitura, à disciplina e aos estudos. Ingressou no Seminário de Diamantina, com a certeza de que essa era a única opção de ensino secundário de qualidade disponível para jovens de pouca posse, como era a sua realidade à época. Ousado, seguiu para a Faculdade de Medicina de Minas Gerais, carreira associada às elites, e cursou, com dedicação, uma graduação complexa, ao mesmo tempo que trabalhava como telegrafista nos turnos da noite e da madrugada para conseguir se sustentar em Belo Horizonte. Mesmo privado de sono e de descanso, dividindo o quarto em pensões, estudando de dia e trabalhando de noite, formou-se no tempo regular e logo começou a atuar na Santa Casa de Misericórdia. Seus traços de determinação e clareza de objetivos se fizeram ainda mais evidentes quando se organizou para cursar a pós-graduação em urologia em Paris e Berlim, tendo conseguido consolidar-se como um grande especialista aqui, na capital mineira.

Sua guinada para a vida pública aconteceu de forma natural, quando exercia com maestria a medicina. A vida tem dessas coisas. A atuação como oficial-médico do Hospital da Polícia Militar de Minas Gerais fez com que, durante a Revolução Constitucionalista de 1932, Juscelino fosse enviado para a divisa entre Minas e São Paulo, na região do Túnel da Mantiqueira, para cuidar dos soldados feridos no conflito. Nesse cenário, a sua competência, aliada à sua postura e ao seu carisma, chamaram a atenção das autoridades políticas que o acompanhavam, o que lhe rendeu, no ano seguinte, um convite para a chefia do Gabinete Civil do então interventor do Estado, Benedito Valadares. Tal qual toda a sua trajetória até então, a sua entrada na vida pública foi marcada por eficiência e dedicação. Isso fez com que, já no ano seguinte, fosse eleito deputado federal; após, foi nomeado prefeito de Belo Horizonte e, posteriormente, foi eleito governador de Minas. Por fim, chegou à Presidência da República.

Nesta solenidade em que homenageamos a sua memória, a sua governança é um paradigma para encararmos os desafios estruturais que o Brasil ainda enfrenta, especialmente quando se fala em planejamento de médio e longo prazo, integração territorial e fortalecimento das nossas instituições democráticas. A cultura do diálogo, o compromisso com o Estado de Direito, o respeito aos opositores políticos e a defesa da liberdade de imprensa são exemplos de que grandes transformações estruturais devem ser conduzidas dentro da legalidade democrática. O idealismo sobre o crescimento econômico foi sustentado por metas claras e coordenadas entre setor público e iniciativa privada, fazendo do seu Plano de Metas um projeto de execução rigoroso, com investimentos em setores essenciais para o desenvolvimento, como energia, transporte e indústria de base.

A mudança do eixo político do nosso país para o Planalto Central foi fundamental para a integração e para a descentralização nacional, impulsionando a abertura de rodovias de grande porte, que alteraram, em definitivo, o fluxo da riqueza, interiorizando o desenvolvimento, povoando regiões isoladas e conectando os diversos eixos econômicos do Brasil. Não há como falar em redução de desigualdades regionais e sociais sem combater as disparidades que a falta de integração nacional trazia, uma vez que, naquela época, todas as grandes decisões eram concentradas no Sudeste brasileiro.

A coragem de construir Brasília e fazer com que a marcha do desenvolvimento se deslocasse pelo Cerrado e pelo sertão brasileiro só poderia vir de um contemporâneo e amigo de Guimarães Rosa. “O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.” “Sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte que o lugar.” “Viver é negócio muito perigoso.” Por falar em Guimarães Rosa, não podemos esquecer a bagagem cultural de Juscelino, que fez com que nossa arquitetura e urbanismo fosse internacionalmente conhecida pela qualidade, originalidade, identidade. Ainda hoje nos enche de orgulho falar sobre Lúcio Costa, Athos Bulcão, Candido Portinari e Niemeyer, eternizados no Complexo Arquitetônico da Pampulha e em Brasília.

E revendo as passagens da vida de Juscelino, podemos perceber o quanto sua atuação pública ainda influencia o desenvolvimento da política mineira. Ora, como constituinte de 1946, Juscelino atuou fortemente para o fortalecimento do pacto federativo, notadamente pela autonomia financeira dos municípios, defendendo propostas que garantiam a arrecadação municipal e a redistribuição de tributos federais para incentivar o desenvolvimento das diversas regiões. Aliás, seu desenvolvimentismo pragmático revelou na Constituição as garantias civis e políticas e um fazer estatal que serviria como instrumento indutor do crescimento econômico, coordenando grandes obras de infraestrutura, que, mais tarde, transparecem no seu Plano de Metas da Presidência, especialmente nas áreas de energia, transporte e industrialização.

Com sua contribuição, a Carta de 1946, ao tratar da Ordem Econômica e Social, alinhou-se a teses exitosas que previam a convivência harmônica entre o capital nacional, a iniciativa privada e o capital estrangeiro, com a devida mediação regulatória do Estado. Foi essa estrutura jurídica que possibilitou que, ao longo da década seguinte, grandes montadoras e indústrias viessem para o nosso país. Tudo isso só foi possível pela sua capacidade de mediação política e pelo trânsito entre diferentes correntes partidárias, que garantiam um consenso pragmático, em vez de se apegar a debates ideológicos inflamados. O que ele conseguiu foi viabilizar grandes acordos executivos, consolidando seu estilo conciliador de liderança e de quem realmente alcança aquilo que se propõe como homem público.

Hoje estamos reunidos na Casa do povo mineiro, no Plenário Juscelino Kubitschek, para homenagear a memória desse grande político mineiro. Estamos caminhando para o fim de uma legislatura que ficou marcada pelo diálogo, pelo avanço em importantes pautas econômicas e sociais para Minas Gerais, e poder homenagear o legado de JK faz passar um filme na mente de cada um de nós deputados sobre como, mesmo que indiretamente, sua atuação ainda nos pauta. Estudar o nosso passado contribui para entender as nossas raízes e nos permite aprumar o nosso futuro. Por isso, esta homenagem será entregue ao Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais que, desde 1907, cuida da nossa memória, dos nossos arquivos, dos nossos documentos. Agradeço a cada um dos membros dessa importante associação que prioriza dividir seus conhecimentos com a sociedade e dedica tempo voluntariamente pela preservação do nosso acervo material e imaterial, em prol de uma formação educativo-cultural embasada na ética, na verdade e na justiça. Que a memória de Juscelino continue nos guiando em sábias decisões e que sempre nos lembre de que as grandes transformações nascem da coragem, do compromisso e do diálogo democrático, além da fé inabalável no trabalho a serviço do povo mineiro.

Parabéns a todos os membros desse instituto. Em seu nome, Dr. Antônio, parabéns pela coragem de cuidar da memória coletiva. Sr. Serafim, de nada adiantaria Deus ter escrito com linhas douradas o destino do menino Juscelino se não pudéssemos hoje confiar em quem cuidasse dessa memória, para que sirva de fato como embasamento aos que hoje aqui se colocam. Então a cada um de vocês o meu muito obrigada. Parabéns.