Pronunciamentos

ODAIR JOSÉ DA CUNHA, ministro do Tribunal de Contas da União – TCU.

Discurso

Agradece, na condição de homenageado, o título de Cidadão Honorário do Estado de Minas Gerais. Agradece a homenagem recebida por sua eleição para o cargo de ministro do Tribunal de Contas da União – TCU.
Reunião 19ª reunião ESPECIAL
Legislatura 20ª legislatura, 4ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 23/06/2026
Página 7, Coluna 1
Indexação
Proposições citadas RQN 17748 de 2026
RQN 17749 de 2026

Normas citadas RAL nº 5662, de 2026

19ª REUNIÃO ESPECIAL DA 4ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 20ª LEGISLATURA, EM 18/6/2026

Palavras do Sr. Odair José da Cunha

Exmo. Sr. Presidente da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, deputado Tadeu Leite; Exmo. Deputado Ulysses Gomes, autor do requerimento, em cuja pessoa gostaria de cumprimentar todos os deputados estaduais e deputadas estaduais aqui presentes; Exmo. Sr. Desembargador Raimundo Messias Júnior, corregedor-geral de justiça eleito para o biênio 2026-2028, aqui representando o presidente do Tribunal de Justiça de Minas Gerais; Exmo. Sr. Desembargador Carlos Henrique Perpétuo Braga, presidente do Tribunal Regional Eleitoral; Exmo. Sr. Antônio Sérgio Tonet, procurador de justiça, aqui representando o procurador-geral de justiça; Exmo. Sr. Conselheiro Durval Ângelo, presidente do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais; Exma. Dra. Karina Rodrigues Maldonado, subdefensora pública-geral administrativa, aqui representando a defensora pública-geral, Dra. Caroline; Exmo. Sr. Deputado Federal Pinheirinho, aqui representando a Câmara dos Deputados; dona Alice, minha mãe; meus amigos e minhas amigas; prefeitos; vereadores; amigos de caminhada; venho a esta Casa do povo mineiro, com muita alegria, desta vez para receber o título de cidadão mineiro. Como eu disse aqui ao deputado Ulysses, várias pessoas, em diversas situações, meu querido Durval Ângelo, já me indagaram: “Uai, você não é mineiro?” Bom, de hoje em diante, direi, sem explicar, sem hesitar, que sim, de papel passado. Esta expressão sintetiza o que sinto hoje: mineiro de papel passado. Muito obrigado às Sras. Deputadas e aos Srs. Deputados por esta honraria.

Este título me fez refletir sobre o nosso estado, sobre o nosso povo, sobre a nossa gente. Afinal, o que é ser mineiro, o que é Minas Gerais? Muitos dos nossos escritores se empenharam nessa grande e difícil tarefa. Recorro primeiro a Carlos Drummond de Andrade, que disse, em um dos seus poemas: “Ninguém sabe Minas. Só mineiros sabem. E não dizem nem a si mesmos o irrevelável segredo de Minas”. Pois bem, quando meus pais retornaram de Boa Esperança, ainda na minha primeira infância, aliás quando meus pais retornaram para Boa Esperança, ainda na minha primeira infância, este irrevelável segredo foi-se mostrando e – por que não dizer? – me moldando. Essa multiplicidade de Minas Gerais, a sua pluralidade cultural sempre me encantou. Ao longo da vida, pude estar em todas as regiões do nosso estado. Vi e vivi bastante por Minas e pelos Gerais.

Apenas uma curiosidade que muito me orgulha: o meu amigo, ex-deputado Virgílio Guimarães, gostava de me provocar, presidente Tadeu, dizendo que nunca havia conhecido alguém que fosse de tantos lugares assim. Mas vejam vocês se não tenho razão de contar. Como hoje faço 50 anos, peço a paciência de vocês para um resumo. Meus pais, quando voltaram de São Paulo, primeiro foram morar em Lavras. Mas, ainda criança, quando eu tinha 3 anos, nos mudamos para Boa Esperança. Lá fiquei até os 16 anos. Depois fui para uma comunidade religiosa chamada Magnificat, em Cambuquira. Lá terminei o ensino médio. Depois, fui diretor de uma rádio diocesana na cidade de Campanha. Em seguida, cursei direito em Varginha. Fui advogado em São Bento Abade, onde morei e fui procurador do município. Em Três Corações, morei também. Aliás, a minha primeira subseção da OAB foi a de Três Corações. Lá conheci e me casei com a Ivanilda, que aqui está, que é de Pedralva, mas nasceu em Conceição das Pedras. Por isso eu falava: “Tenho raízes por aí”. Não é, Vinícius? Voltando para Boa Esperança, tivemos nossa primeira filha, Ana Clara, que aqui está. Depois nos mudamos para Pouso Alegre, onde morei e onde nasceram as minhas gêmeas, Alice e Elisa, nessa ordem.

Enfim, deputado Ulysses, o fato é que me orgulho de cada lugar em que vivi, de cada amizade que fiz. E, no meio de tudo isso, ainda tive a minha vida pública, que vocês conhecem. Não vou me deter aqui a falar da minha vida no período em que fui parlamentar, pois ela é pública. Mas agradeço a cada um e a cada uma dos senhores e senhoras que estão aqui hoje, porque, de alguma forma, o nosso mandato naquele tempo chegou até vocês, chegou a esses territórios de Minas Gerais. Mas o que talvez alguns não saibam, presidente Tadeu Leite — mais uma vez agradecendo a sua presença, que muito me honra, presidindo esta reunião —, é que tudo começou aqui.

Eu morava nessa comunidade religiosa em Cambuquira, nesta Casa Legislativa vou explicar, e o Adriano Ventura, que foi vereador aqui em Belo Horizonte, apresentou a Maria Tereza Lara à nossa comunidade. Nós a apoiamos e, quando ela assumiu o mandato nesta Casa, pediu ao Pe. Pepê, fundador da nossa comunidade, que indicasse um dos jovens da comunidade para assessorá-la em assuntos eclesiásticos. Vejam só o que aconteceu. Não me contive a assessorá-la apenas em assuntos da Igreja Católica. Quando vi, já era assessor político dela, ajudando a organizar o partido na região. Eu até trouxe para ela e já mostrei a minha carteira, deputado Professor Cleiton, de agente de serviços de gabinete desta Assembleia Legislativa. Ela é de 1º/3/1999. Eu queria pedir que a Maria Tereza, que está aqui, se levantasse, e a gente desse uma salva de palmas. Eu digo, Maria, e é o ditado – esta é uma prova –, que “Deus escreve certo por linhas tortas”. Eu estou aqui e o meu objetivo era outro, sua intenção era outra, mas tudo conflui para o bem daqueles que amam a Deus. Obrigado, Tereza. Tenho aqui também o meu cartão de assessor parlamentar dela. Isso me foi dado por um amigo de Lambari, o Ronaldo. Ele guardou até hoje, Tereza.

Enfim, o fato é que, em 2002, senhoras e senhores, o núcleo estratégico do mandato da Maria Tereza decidiu que era importante ela ter uma dobrada eleitoral no Sul de Minas, e me convenceram de que eu teria a chance de ser eleito, Durval, deputado federal, pasmem vocês. Está aqui inclusive o Nilson Almeida, que era chefe de gabinete nesta Assembleia e que foi um dos que me convenceu, Leninha e Beatriz, de que eu teria condições de ser eleito deputado federal.

Lembro-me bem do secretário de Finanças do nosso partido, Márcio Greco. Ele falava comigo: “Odair, não faça dívida, por favor”. “Não, mas eu preciso de…”. “Não faça dívida, Odair.” Enfim. E Deus ajudou e eu pude honrar a confiança do povo mineiro por seis mandatos consecutivos, o que me fez ainda mais mineiro.

Rubem Alves, nosso conterrâneo de Boa Esperança, nos ensinava que a identidade mineira não é uma questão geográfica, mas sim um estado de espírito marcado por um profundo encantamento pelo cotidiano. Muitas são as pessoas, Minas são as pessoas. É o seu jeito de viver, de sentir, de falar e de enxergar a vida. Limitar Minas a apenas o seu território seria como reduzir o oceano a um pequeno lago.

Encerro pensando no encantamento de Carlos Drummond de Andrade, ao dizer: “Minas não é palavra montanhosa. É palavra abissal”. E, diante deste abismo, me inclino, sinto respeito e admiro.

Sr. Presidente, muito obrigado. É como se, no dia do meu aniversário, esta Casa me desse uma segunda certidão de nascimento. Mineiro de papel passado. Muito obrigado.