Pronunciamentos

VIRGÍNIA AFONSO DE OLIVEIRA MORAIS DA ROCHA, advogada

Discurso

Agradece, na condição de homenageada, o título de Cidadã Honorária do Estado de Minas Gerais.
Reunião 17ª reunião ESPECIAL
Legislatura 20ª legislatura, 4ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 13/06/2026
Página 4, Coluna 1
Indexação
Proposições citadas RQN 13416 de 2025

Normas citadas RAL nº 5647, de 2025

17ª REUNIÃO ESPECIAL DA 4ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 20ª LEGISLATURA, EM 11/6/2026

Palavras da Sra. Virgínia Afonso de Oliveira Morais da Rocha

Exma. Sra. Deputada Carol Caram, minha amiga, representando o presidente da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, deputado Tadeu Leite; Exmo. Sr. Desembargador Vicente de Oliveira Silva, presidente eleito do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais, um grande amigo da nossa família e muito amigo do meu saudoso pai; Exmo. Sr. Antônio Carlos de Alvarenga Freitas, delegado-geral de polícia, representando a Polícia Civil do Estado de Minas Gerais; Exmo. Sr. Sanders Barão, meu querido amigo, secretário-geral da OAB, representando o presidente da OAB de Minas Gerais, Gustavo Chalfun; Exmo. Sr. Lincoln Drumond, ex-deputado, boa noite.

Receber nesta Casa o título de Cidadã Honorária de Minas Gerais é uma das maiores honrarias da minha vida. Há reconhecimentos que nos alegram. Há homenagens que nos emocionam. E há momentos como este que nos atravessam de maneira profunda, porque não dizem respeito apenas a uma trajetória profissional, a um percurso público ou a uma história individual; dizem respeito a pertencimento. E pertencimento não se mede apenas pelo lugar onde nascemos; mede-se pelo lugar que nos forma, que nos acolhe, que nos ensina, que nos transforma e que passa a habitar definitivamente nossa identidade.

Eu nasci em Brasília. Nasci na capital da República, cidade que simboliza o projeto de futuro de um país inteiro. Brasília é, por vocação, o lugar das decisões nacionais, da arquitetura voltada para o horizonte, das instituições republicanas, da esperança desenhada em concreto e do céu aberto. Mas foi Minas Gerais que me deu a profundidade das raízes. Foi Minas que me ensinou que grandeza não precisa fazer ruído, que firmeza pode caminhar junto com delicadeza, que política, direito, cultura e trabalho não são abstrações distantes, mas expressões concretas da vida de um povo. Por isso recebo este título com a consciência emocionada de quem sabe: eu nasci em Brasília, mas sou, de corpo e alma, mineira. Talvez exista uma ligação mais profunda entre Brasília e Minas em sua origem, não apenas porque Juscelino Kubitschek, esse mineiro de Diamantina, teve a coragem de transformar em realidade uma aspiração histórica do Brasil, mas também porque Brasília carrega uma virtude profundamente mineira: a capacidade de conciliar tradição e futuro.

JK, médico, prefeito, governador, presidente, visionário, foi um dos maiores símbolos da força transformadora de Minas Gerais. De Diamantina ao Planalto Central, levou consigo a ousadia serena dos mineiros – aquele olhar que enxerga além da montanha, mas que nunca despreza o caminho de pedra que leva até o alto. Juscelino compreendeu que o Brasil precisava interiorizar-se, integrar-se, olhar para dentro de si mesmo. Esse também é um traço essencial de Minas. Minas é interior; é centro moral, cultural, político e afetivo do Brasil. Minas Gerais não precisa estar no litoral para ser porto. Minas não precisa ter mar para ser travessia; Minas é travessia pela palavra, pela memória, pelo trabalho e pela esperança.

É impossível falar de Minas sem falar de seus grandes homens e mulheres públicos. Minas ofereceu ao Brasil lideranças que compreenderam o peso da palavra pública; lideranças que sabiam governar não apenas ocupando um cargo, mas também respondendo pela história. Minas deu ao Brasil Carlos Drummond de Andrade, que fez da palavra “Minas” uma montanha literária; deu Guimarães Rosa, que transformou o sertão em linguagem universal; deu Aleijadinho, cuja obra em pedra-sabão continua a nos lembrar de que a beleza pode nascer da dor, da fé e da genialidade; deu Milton Nascimento, o nosso Bituca, cuja música parece sair diretamente das montanhas para alcançar o mundo; deu tantos artistas, escritores, músicos, poetas; e deu a minha família.

Sou filha de dona Magda, Magdinha, Divina Magda, para os íntimos. Mas, para a minha mãe, o mais importante é ser de Campanário, uma cidadezinha que pertence ao Vale do Mucuri e que possui uns três mil e quinhentos habitantes, contando a população rural. É uma cidade em que os moradores têm muito orgulho da sua terra. Minha mãe sempre diz, quase como um mantra: “Sou mineira de Campanário”. Já o meu amado pai, Elder Afonso, era de Pompéu. Que saudade eu tenho do meu ínclito pai! A cidade de Pompéu, no Centro-Oeste de Minas, é a cidade de dona Joaquina, a Dama do Sertão, que, segundo a Forbes, estaria entre as seis mulheres mais poderosas do mundo do passado. Pompéu também foi berço do meu primo José Afonso da Silva, que foi, sem a menor dúvida, o maior constitucionalista deste país.

Minas me deu o meu querido e armado irmão Gustavo, belo-horizontino, médico, fazendeiro, morador de Curvelo e de Corinto. Ele é um típico mineiro. Minas Gerais me deu minha madrinha, Sônia Diniz Viana, uma das mulheres mais inteligentes e destacadas deste país. Ela foi desembargadora federal; ganhou a medalha Rio Branco, da UFMG; foi aprovada em mais de dez concursos públicos, tendo sido aprovada duas vezes em 1º lugar para o concurso da magistratura estadual. Além disso, é detentora da medalha concedida pela União por ter exercido 50 anos de serviço público, honraria que pouquíssimas pessoas alcançaram no País. Minas Gerais me deu o meu amado marido, porque quem é filho de mineira mineiro também é, e se o Eduardo ostenta, em seu gabinete, em Brasília, no TRF1, a bandeira de Minas, mineiro ele é. Eduardo, você representa o melhor de Minas Gerais no mundo jurídico; você entrega trabalho, eficiência e qualidade técnica. Idealizador do projeto Gabinete Zero conseguiu zerar 42 mil processos em apenas dois anos e meio, e sem inteligência artificial, consolidando-se como um dos magistrados mais produtivos da Justiça brasileira, coisa de um bom mineiro. Talvez, por isso, eu me sinta tão profundamente vinculada a esta terra.

Receber o título de Cidadã Honorária de Minas Gerais não é para mim uma chegada, mas, sim, uma convocação para continuar servindo com responsabilidade. Hoje eu só posso agradecer. Agradeço a esta Casa, em especial ao deputado Lincoln, grande liderança do Vale do Aço, mais especificamente de Coronel Fabriciano, e pai zeloso do querido Olavo. Agradeço à minha querida amiga Carol Caram, que representa tão bem a mulher mineira. Também faço um agradecimento especial ao estimado amigo Bruno Rodrigo, que uma vez me perguntou “Virgínia, o que lhe falta nesta vida?”, e eu rapidamente respondi “ser oficialmente cidadã mineira”.

E hoje estamos aqui! Que eu seja digna deste título e que Minas Gerais siga sendo aquilo que sempre foi para o Brasil: consciência, equilíbrio, democracia, esperança e liberdade. Como diz nossa poetisa Adélia Prado, “o que a memória ama fica eterno”, e Minas, hoje, fica eterna para mim no meu coração e na minha alma. No apagar das luzes, só posso me remeter a Guimarães Rosa, que enfatizava: “Só, e no mais: sem ti, jamais nunca — Minas, Minas Gerais”. Muito obrigada.