Pronunciamentos

GUSTAVO PEREIRA MARQUES ("DJONGA"), rapper, escritor e compositor

Discurso

Agradece a homenagem recebida por sua trajetória artística singular, marcada pela luta contra as desigualdades e o racismo e pela celebração da força e da resistência da população negra, bem como por sua relevante contribuição para a difusão e a valorização da cultura e da identidade das comunidades das periferias do Município de Belo Horizonte, projetando a arte do Estado para o País e o mundo.
Reunião 12ª reunião ESPECIAL
Legislatura 20ª legislatura, 4ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 13/05/2026
Página 4, Coluna 1
Indexação
Proposições citadas RQN 10254 de 2025

12ª REUNIÃO ESPECIAL DA 4ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 20ª LEGISLATURA, EM 11/5/2026

Palavras do Sr. Gustavo Pereira Marques

É isso aí! Boa noite, gente. Eu sei lá, eu não gosto muito desse negócio, eu fico um pouco com vergonha. Apesar de não parecer, eu sou uma pessoa tímida, mas vou tentar falar aqui e ler inclusive. Vamos lá! Primeiramente, quero agradecer à Ana Paula a homenagem e a todos os representantes que estão nesta Mesa. Quero dizer que, sem Deus, sem meus orixás, nem aqui eu estaria. Eu também não estaria aqui sem a fé da minha avó, sem a criação dos meus pais, sem a minha irmã, sem os meus irmãos do dia a dia, sem a minha quadrilha, sem a minha namorada, sem as mães dos meus filhos. Na moral, sem o Jorge e a Iolanda me deixando doido, depois me deixando orgulhoso, depois me deixando confuso, o que seria de mim? Sem a vibe da minha família, que é família mesmo… Eu nem digo pelos padrões tradicionais e pelas caixinhas que querem nos colocar, até porque, por onde a gente mora, lá na zona leste, há todo tipo de gente. Mas digo família porque nós somos juntos, e mais do que juntos, nós somos felizes juntos, muito felizes. Quero deixar um abraço especial, um salve para quem não cola comigo mais, para os que ficaram pelo caminho, para os que não gostam mais de mim e para aqueles com quem eu não interesse mais de trocar ideia. Não falo isso por humildade, até porque, os meus sentimentos ainda são confusos em relação a várias dessas coisas. O que sei é que, para o mal ou para o bem, eu valorizo tudo o que eu vivi e tudo o que eu vivo. Fiquem felizes. Vocês também fazem parte disso. Um beijo no coração de vocês.

Quando ouvi o meu primeiro disco de rap, eu tinha 7 anos de idade. Foi mais ou menos na época em que eu tomei a primeira batida da polícia. Hoje eu penso que se passei por isso e que mesmo sem entender nada que os racionais falavam naquelas músicas, eu sentia que era para mim. O nome do disco é Sobrevivendo no inferno, autoexplicativo. Quando andava por BH e via os “pixos” nos topos dos prédios, do Goma principalmente, e os grafites nas empenas, eu, que tenho medo de altura, ficava pensando: como essa galera tem coragem de fazer isso? Talvez o hip-hop também seja sobre isto: coragem. Eu vi os b-boys e as b-girls pela primeira vez dançando num filme de que eu não lembro o nome – o pessoal fica lá competindo com o outro e tal – e depois na minha escola, no Iemg, que contribuiu muito para o meu processo de virar gente. Algumas vezes foi duro. A questão é que eu fiquei maravilhado com a beleza dos movimentos de quem transformou o corpo em resistência. A maior emoção foi quando eu vi os DJs e MCs, tipo o Sweet de um lado e a Clara Lima do outro, rimando no palco do viaduto, enquanto o Monge, o PDR, o Ozléo ou alguém da Família de Rua estava xingando a gente por alguma coisa, num processo de educação que a gente nem tinha noção que estava acontecendo ali. Ali, inclusive, iniciei o processo de cura da minha síndrome do pânico, que devo ter desenvolvido de tanto ver coisa ruim ao redor. Esse processo de cura se concluiu no primeiro Duelo de MCs Nacional, ou seja, graças ao hip-hop.

Na real, que bom que existe o hip-hop, porque sem ele eu não ia ter vivido do lado de FBC, Coyote, Oreia, Clara, Hot – todo mundo que formava o nosso bonde do DV –, o André, enfim. Sem ele não existiria “fogo nos racistas”, a frase que mudou minha vida, que deve ter mudado a percepção de muita gente por aí. Sem ele a gente não tinha empregado esse tanto de família por aí. Sem ele nem sei se eu me olharia no espelho e me acharia capaz como eu me acho hoje. O triste é pensar que o hip-hop nasceu para ser remédio para a doença que é o descaso do Estado com as populações de baixa renda, desde antes, com as mulheres e mães solo, principalmente se a pele for preta. O hip-hop foi o caminho que os jovens negros do mundo acharam de denunciar as desigualdades e de se expressar também. Até porque foi através do hip-hop que a gente entendeu o poder que tem quando quem vem de onde a gente vem fala de amor e de coisas leves também, certo?

E, apesar de parecer que já deu tudo certo, a gente ainda está engatinhando. Com todas as minhas contradições, com todos os problemas que eu trago, não posso achar normal a guerra que se vive nas periferias, resultando em 63 mortes de jovens negros por dia. Não dá para achar normal a epidemia de violência contra a mulher, contra a população LGBT, baseada num discurso de ódio que é quase institucionalizado. Não dá para achar normal a fome, a violência policial, o descaso. Por isso, um recado para os meus amigos rappers também: não vamos esquecer a função disso aqui, não. Não vamos esquecer por que a gente começou a fazer isso – e não só nós, não vamos esquecer por que que quem veio antes da gente começou a fazer isso aqui.

Eu peço, inclusive para vocês, deputadas, deputados, nossos representantes de um modo geral, todo mundo que faz parte do Estado, para não se esquecerem de quem está lá embaixo, nunca. Eu agradeço e recebo, com muito carinho e muito amor, esta sua homenagem, mas a maior homenagem de todas, não só para mim, mas para qualquer cidadão que se preze, é cuidar de quem precisa, como se fosse a última coisa da vida de vocês, certo? (– Palmas.) De resto, queria agradecer de novo todo mundo, todo mundo, todo mundo, todas e todos que estão aí, por terem saído das suas casas nesta segunda-feira – vários, com certeza, de ressaca ainda – para vir me ver, para me dar um abraço. Estou muito feliz de estar aqui, de verdade. Estou muito feliz de meus filhos estarem aqui. Eu saí de casa para fazer o curso de história lá na Ufop e não sabia que, no último período, eu iria continuar fazendo isso para sempre. É isso. Essa aí é por quem veio antes de mim e me ensinou isso tudo aqui. E fui. Beijo.