DEPUTADA ANA PAULA SIQUEIRA (PT), autora do requerimento que deu origem à homenagem
Discurso
Legislatura 20ª legislatura, 4ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 13/05/2026
Página 2, Coluna 1
Indexação
Proposições citadas RQN 10254 de 2025
12ª REUNIÃO ESPECIAL DA 4ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 20ª LEGISLATURA, EM 11/5/2026
Palavras da deputada Ana Paula Siqueira
Boa noite. Sejam todas e todos muito bem-vindos à Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Cumprimento a Exma. Sra. 1ª-vice-presidenta da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, minha colega deputada Leninha. Obrigada, Leninha, pela presença, neste ato representando o presidente da Assembleia, deputado Tadeu Leite. Cumprimento também o Sr. Gustavo Pereira Marques, Djonga, nosso homenageado. Vamos falar mais sobre você daqui a um pouquinho, Djonga. Cumprimento também a Exma. Sra. Deputada Federal Duda Salabert. Que bom, Duda, ter você conosco. Cumprimento ainda o Exmo. Sr. Txai Silva Costa, amigo, ex-servidor desta Casa, do nosso gabinete na Assembleia de Minas, e prefeito de Nova Era, nosso prefeito da região do Médio Piracicaba. Cumprimento a Sra. Fernanda Takai, cantora, compositora e editora da União Brasileira de Compositores. Quero já dizer, Fernanda, que é uma alegria ter você aqui conosco. Que honra! Que honra tê-la conosco aqui.
Bom, hoje é um dia muito simbólico. Um dia depois do Dia das Mães, esta Casa abre as suas portas para homenagear um artista que sempre honrou e exaltou suas raízes, seu território e sua família. Homenagear o Djonga é também homenagear duas mulheres fundamentais na construção da sua caminhada: Rosângela Pereira Marques, sua mãe – já queria que ficasse de pé; uma salva de palmas para ela –, e Maria Eni Viana, sua avó, que está aqui, no auge de seus 90 anos de idade, para ver mais uma página da história ser escrita. Antes de a coragem existir no palco, ela existiu dentro de casa, dentro da sua casa, Djonga. Dona Maria Eni, hoje com 90 anos, tinha apenas 26 anos, quando se tornou viúva e mãe solo de três meninas, e escolheu fazer da educação um caminho de liberdade. Quando o mundo tentava impor limites, ela ensinou suas filhas a sonhar, e a sonhar grande. O que mais me emociona nessa trajetória é perceber que o sucesso do Djonga não começou na música. Começou no colo, começou na luta silenciosa das mulheres negras.
Esta reunião especial da Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais segue um rito muito bem definido. São muitos protocolos, e a gente não pode quebrar quase nenhum, não é, presidenta? Mas peço desculpas aqui aos meus queridos colegas servidores desta Casa, porque hoje eu vou quebrar o protocolo. Enquanto presidenta da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, preciso estender esta homenagem também à Rosângela e à Maria Eni. Durante este discurso, quero entregar-lhes duas flores como homenagem de todos que estão aqui presentes e dos que estão nos acompanhando, porque elas são peças fundantes dessa construção.
– Procede-se à entrega de flores.
A deputada Ana Paula Siqueira – Quebramos esse protocolo para dizer que, para gente como a gente chegar até aqui, foi preciso quebrar muitas regras, atravessar portas que se apresentaram fechadas e transformar ausência em presença. E para que nós, gente da gente, possamos continuar nesses espaços de destaque e referência na nossa sociedade, muitas vezes precisamos trabalhar duas, três, quatro vezes mais para enfrentar uma sociedade machista, racista, patriarcal, misógina e violenta.
Além de sermos da periferia da Região Leste de Belo Horizonte, Djonga, temos muita coisa em comum, e a sua música Bença sintetiza muito bem isso: “Vai e vai / Ganha esse mundo sem olhar pra trás e vai / Só não esquece de voltar”. E eu me emociono porque também me lembro da minha vó Irene, uma mulher à frente do seu tempo, que sempre me colocou para a frente, mesmo quando o mundo dizia que certos lugares não eram feitos para nós, não eram feitos para negros. A gente vai, mas não esquece de voltar para os nossos, porque não avançamos sozinhos. Voltar para dizer às nossas mães e avós que nenhum passo foi em vão.
Você fala também sobre o privilégio de ter um pai presente, assim como eu também tive. Inclusive, você, Djonga, e o meu pai, fazem aniversário no mesmo dia. Não é coincidência. Acho que a nossa história já se encontrava há muito tempo. Há outra coincidência: a Dra. Gerusa, sua pediatra, que está sentadinha ali e também é pediatra dos meus filhos.
E como precisamos de homens como você, Djonga, que, além de lutar para ser uma referência para seus filhos Jorge e Iolanda, é uma inspiração para milhares de jovens. Inclusive, hoje, pela manhã, eu estava próxima à Escola Estadual Central, e os alunos estavam ali, no horário do intervalo, curtindo o som sabe de quem? Do Djonga.
Em tempos da pandemia de feminicídio, precisamos que os homens cheguem juntos com o compromisso de mudar a realidade da violência em todas suas dimensões. Precisamos que esses movimentos sejam públicos. Além disso, vivemos o papel transformador da educação. E saber, Djonga, que você quis cursar o curso de história porque se apaixonou pelas aulas de um professor de um cursinho pré-vestibular é extremamente inspirador. Eu, no Pré-UFMG, um cursinho popular, trabalhei para garantir o acesso de milhares de jovens de baixa renda às universidades, dediquei minha força de trabalho durante 20 anos. Foi nessa instituição que enfrentei a máfia da educação dos cursinhos particulares, que tentaram fechar o curso pré-vestibular porque ele atrapalhava seus negócios, mas abria a perspectiva de um futuro para milhares de jovens que não conseguiam sonhar em estar no ensino superior, especialmente na universidade federal. E foi a partir desse enfrentamento, em defesa da educação pública e do direito dos mais pobres à universidade, que entrei na política.
Demorou mais de 300 anos para Minas Gerais eleger mulheres negras para nos representar neste Plenário. Na eleição de 2018, quando disputei a minha primeira eleição como deputada estadual, elegemos-nos três mulheres negras: eu, a deputada Leninha e a deputada Andréia de Jesus. E eu chego aqui com o compromisso de amplificar vozes historicamente silenciadas e de garantir vez e presença a corpos que durante muito tempo não se viram representados. Por isso esta homenagem vai além da trajetória brilhante de Djonga na cultura e no hip-hop. Ela é um marco histórico de resistência. É a nossa cara preta que ficará marcada na fotografia da história. Esta homenagem não é trivial; é um divisor de águas. O meu pedido para que esta homenagem acontecesse não é simples. É fruto do meu compromisso de garantir vez e voz a quem por tanto tempo se viu inviabilizado. É um reconhecimento à população negra, periférica e à juventude deste Estado. A periferia não é só o lugar das estatísticas, cuja ausência do Estado promove números horrorosos. E não pode continuar sendo cenário das notícias de tragédias e páginas policiais. A periferia produz arte, pensamento, liderança, futuro, mudança, riqueza, arquitetura, mexe no PIB do nosso estado. Isso mesmo, no PIB, na riqueza. Boa parte da riqueza deste estado é produzida nas periferias.
E hoje esta Assembleia reconhece tudo isso. A Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais reconhece o rapper, escritor e compositor mineiro Gustavo Pereira Marques, o Djonga, por sua trajetória artística singular, marcada pela luta contra as desigualdades e o racismo e pela celebração da força e da resistência da população negra, projetando o hip-hop e a cultura mineira para o Brasil e o mundo. Djonga fez história em 2020 ao se tornar o primeiro rapper brasileiro indicado ao BET Hip-Hop Awards, na categoria de melhor artista internacional. O Heresia foi eleito o melhor álbum de 2017. Em 2022, o Dono do Lugar foi a 4ª maior estreia de rap na história do Spotify Brasil e o 7º álbum mais ouvido do mundo no dia do lançamento. Também empreende. Criou seu próprio negócio, seu próprio selo: A Quadrilha. Além de diversos negócios, fomentando a economia e agora a gastronomia em seu território. Isso é só um pouco das suas conquistas. Vocês sabem bem o peso do Djonga, ponta de lança na luta antirracista.
Cada pessoa presente aqui ajuda a construir um legado coletivo, porque assim é a construção do Djonga. Eu cheguei mais cedo ao Plenário e tive a oportunidade de cumprimentar o meu homenageado, e a primeira coisa que ele me disse foi: “Obrigado pela homenagem. Obrigado por homenagear a minha família”. Esse é o espírito da coletividade mais importante para cada uma e cada um de nós. E a construção desse legado coletivo mostra que as mesmas mãos negras e periféricas que escrevem versos também escrevem leis, que a política institucional nunca mais seguirá sem a nossa presença, porque não existe democracia verdadeira sem a participação popular, sem diversidade e sem justiça racial. Quando um de nós avança, toda a estrutura da sociedade se move, porque, quando sonhar é possível, a mudança acontece. E é isso, Djonga, que você representa: a prova viva de que um menino da periferia pode transformar dor em palavras, palavra em consciência, e consciência em esperança de transformação. Djonga, obrigada por existir, obrigada por resistir e obrigada por coexistir com a gente.