DEPUTADA BEATRIZ CERQUEIRA (PT)
Discurso
Legislatura 20ª legislatura, 3ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 29/10/2025
Página 81, Coluna 1
Indexação
Proposições citadas PEC 24 de 2023
26ª REUNIÃO EXTRAORDINÁRIA DA 3ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 20ª LEGISLATURA, EM 24/10/2025
Palavras da deputada Beatriz Cerqueira
A deputada Beatriz Cerqueira – Olhem, a gente está chegando, todos nós já sabemos, à reta final, porque é o último encaminhamento antes da votação. Eu queria falar, de forma muito franca, com os colegas deputados. Quando a maioria do nosso bloco estava ali avaliando o cenário do que pode acontecer nos próximos dias, ouvi um comentário que me incomodou profundamente, que era: “O que nós estávamos fazendo estava comprometendo os companheiros”. Não sei quem ficou comprometido com o quê. A gente só está aqui de madrugada por decisão de vocês. Desculpem-me a franqueza. Vocês quiseram votar nesta semana.
Quando nós terminarmos, ou vamos a pé, se moramos perto daqui, ou vamos de carro para as nossas casas. Olhem para a galeria. Essa galera não está de carro, fora a galera que está na área externa, num frio da madrugada. A manchete da calada da noite foi produzida pelo governo, e a gente tem que conversar com os manifestantes para que eles não respondam às provocações, porque a criminalização fica na conta da classe trabalhadora que vem para cá, pois ninguém vem aqui de bom grado.
Houve um determinado momento em que ficou parecendo que a culpa é nossa, porque a gente está falando. Que inversão inacreditável. É sério que, quando foi marcado para as 18 horas, vocês acharam que iam chegar aqui, votar e ir para casa? Que não ia haver debate, que não ia haver resistência? É o nosso direito mínimo de resistir. E é o direito mínimo de fazer o debate, porque ninguém responde nada. Ninguém responde nada. Qual é a proposta sobre o emprego desses trabalhadores com a privatização? Ninguém responde. Como vai ficar a situação de casas populares e hospitais cuja água a Copasa não corta, mesmo que estejam inadimplentes com ela? Quem responde? Silêncio. Por que não foi possível aceitar a regra de que, em situações de corrupção, essa empresa estaria impedida de concorrer para privatização? Silêncio. Os municípios deficitários que votam em nós: como é que vai ficar a situação dos municípios deficitários em que muitos colegas são majoritários? Ninguém responde. Ou seja, a gente vai votar daqui a pouco a retirada de um referendo da Constituição, e ninguém responde nada.
Quando o governo veio, ele veio obrigado, ficou pelo tempo que foi possível, fez falas genéricas e foi embora. A fala da deputada Bella é aquela fala de que vamos nos lembrar por muito tempo quando precisarmos falar: “Nós avisamos.” Não há sucesso na privatização. A questão é se isso vai acontecer em um curto prazo ou se vão segurar, passar as eleições de 2026, para a conta chegar na casa das pessoas; se as demissões acontecerão depois de outubro de 2026; se o corte de água dos hospitais inadimplentes ocorrerá depois de outubro de 2026. Ninguém responde, ninguém debate. Estamos avançando com uma mudança na Constituição sem debate, porque só nós usamos o microfone. Nós estamos usando na obstrução, mas em que momento houve debate sobre essa privatização ou sobre essa PEC? Na comissão especial, só a gente fala. E na Comissão de Constituição e Justiça? Quantos debates aconteceram na Comissão de Constituição e Justiça? Não há debate, e lamento profundamente.
Eu lamento profundamente, mas a escolha de fazer a reunião na madrugada não foi nossa. E acho que, apesar de esta ser uma pauta tão impopular e tão desgastante, nós tratamos com profundo respeito este Plenário, todos os colegas e o público que está aqui e que vai voltar na madrugada ou nem sei em que condições vai voltar. Já ocupei muitas vezes essa galeria. É constrangedor, porque você fica horas em pé. Muitas vezes, você não vai ao banheiro, porque, se for, não sabe se volta. Você fica sem o direito a uma fala qualificada ao microfone, para todo mundo. Você fica nos ouvindo e falando palavras de ordem, num protesto. Nós não precisávamos chegar à reta final desta legislatura entregando à população mineira uma privatização sem nenhum debate público, nenhuma discussão pública. Essas questões que eu levantei…
Gente, vamos fazer uma privatização de uma estatal que vai receber R$11.000.000.000,00. (– Manifestação nas galerias.) Quem explica isso? Está tudo bem? São R$11.000.000.000,00. Uma estatal vai ser privatizada e vai fazer demissão, porque isso faz parte. E não é possível haver tarifa justa numa privatização. Eu trouxe tanta coisa para dizer de todas as experiências de privatização… Como é que nós saímos de uma CPI, que investigava irregularidades da Cemig, para privatizar a Copasa? Nós estávamos nessa pauta outro dia, defendendo a Cemig. Por isso, investigamos as irregularidades que eram praticadas. Vou ficar só com uma matéria: “Copasa é eleita uma das melhores empresas de saneamento da América Latina.” Nós vamos destruir uma das melhores empresas de saneamento da América Latina. A votação vai ser sobre isso.
Ao finalizar, quero agradecer muito a todos vocês pela disposição, pela greve de três dias que vocês deflagraram e pela madrugada – porque fazer obstrução com a galeria vazia é muito difícil, mas, com a galeria cheia, sentimos que não estamos sozinhos. Isso faz muita diferença. Então quero agradecer aos trabalhadores da Copasa e aos movimentos, que se organizaram em tão pouco tempo para fazer este processo de resistência.
Quero dizer, gente, que o que nós precisamos fazer depois desta madrugada é reorganizar a turma, definir novas estratégias e continuar a luta, porque só perde quem abandona a luta. Nós não vamos abandonar a luta. Nós não vamos abandonar a Copasa, porque a Copasa é do povo mineiro. Sigamos fazendo a luta necessária. Não à privatização da Copasa e não à privatização da Cemig. Nós já estamos alertando: um parlamento que privatiza a Copasa e que não se importa em fazer esta votação na madrugada também privatiza a Cemig. O que vai impedir que a pauta da privatização da Cemig seja a próxima? O que impede que, no mês que vem, na semana que vem… Não há compromissos firmados sobre isso. Quem privatiza a Copasa privatiza a Cemig. Então fiquemos atentos, com muita unidade, porque se abrem a porta da privatização, abrem-na para todas as privatizações.
Estamos lidando com grupos econômicos com muito poder político e muito poder econômico. A diferença desses poderes é que eles não colocam a cara para o debate, eles não colocam a cara para as discussões, eles não usam o microfone. Mas eles operam de acordo com os interesses e as conveniências que têm e que não são os interesses do povo mineiro. Parabéns a todos nós que estamos fazendo a luta e que continuaremos a fazê-la por todo o tempo necessário. Viva a Copasa! Viva a classe trabalhadora organizada na luta em defesa do patrimônio do povo mineiro e na defesa da Constituição!
Finalizo, presidente, e esta será a minha última participação. Que momento é este em que se tem que ter a galeria cheia para defender a Constituição que o Parlamento, parece-me, vai rasgar daqui a pouco? Obrigada.
O presidente (deputado Tadeu Leite) – Obrigado, deputada Beatriz.