DEPUTADO LELECO PIMENTEL (PT)
Discurso
Legislatura 20ª legislatura, 3ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 29/10/2025
Página 61, Coluna 1
Indexação
Proposições citadas PEC 24 de 2023
26ª REUNIÃO EXTRAORDINÁRIA DA 3ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 20ª LEGISLATURA, EM 24/10/2025
Palavras do deputado Leleco Pimentel
O deputado Leleco Pimentel – Se esta fosse uma aula de filosofia, nós teríamos condições de explicar o que é hipocrisia. Mas vamos lá. Se a gente não tivesse se acostumado com a couraça de quem participa dos movimentos populares e sabe de que lado da história está, eu até me intimidaria.
Eu queria agradecer a vocês. Vocês sabiam que, dentre nós, aqui, existem companheiros que estão dedicando a vida? Quero fazer uma referência ao Movimento pela Soberania Popular da Mineração – MAM –, na busca por territórios livres da mineração. É bom saber que existe um bocado de gente preocupada em saber no que vai resultar a Operação Rejeito, que ainda vai levar um bocado de gente para a cadeia. Na Câmara Federal, há gente que sabe que não foi presa porque estava com decoro. Então a hipocrisia se mistura com decoro, sabiam?
Quero trazer para vocês, companheiros e companheiras de luta, que é pouco provável que a gente tenha mudado a cabeça e a arrogância de muitos aqui. Não batam palma, por favor.
É pouco provável nós conseguirmos mudar a cabeça de alguém que está até agora sem se pronunciar por aqui. Eu quero dizer que, no Portal da Assembleia Legislativa, há uma pesquisa aberta à população, em que mais de doze mil pessoas se manifestaram contra a retirada do direito do povo de se posicionar por meio de referendo e outras trezentas pessoas se manifestaram a favor. São 12 mil pessoas contra 300. Eu ajudei a fundar um instituto de pesquisa ligado à Universidade Federal de Ouro Preto nos idos de 1999, o Núcleo de Estudos Aplicados e Sociopolíticos Comparados – Neaspoc. Fizemos pesquisas durante muitos anos. Eu acompanho essa metodologia de ouvir a população e posso acrescentar que uma pesquisa quantitativa como essa, direta, aponta alto grau de participação. A população de Minas Gerais rejeita essa votação, que está sendo enfiada a fórceps na cabeça e na goela do povo. E vou lhes dizer: algumas das manifestações que ali foram colhidas dizem respeito ao modo como o povo sabe… Nós temos hoje uma empresa que, se estivesse só fazendo investimento, pagando os servidores e colocando água com qualidade nas torneiras, teria a sua existência e a sua permanência como empresa pública justificadas. Só isso já bastaria. Mas, para quem gosta de lucro e para aqueles que se encantam como serpentes pelo capital, essa empresa é lucrativa. Ela gera dividendos. É por isso que a turma do BTG, que acabou se firmando num outro grupo econômico, está de olho nela. O saneamento neste nosso país… Infelizmente, aquilo que para nós era um marco regulatório e nos fazia ter esperança, mas se transformou em instrumento para que o capital tomasse conta do saneamento, virou também inimigo do povo. Nós não podemos aceitar essa falácia de que há um marco regulatório do saneamento no País, porque ele se transformou num instrumento das elites e do capital.
A pesquisa trouxe algumas pessoas, e eu quero citar alguns nomes para elucidar a importância do debate que a gente está fazendo. Enquanto o mundo inteiro prevê os erros das privatizações, Minas Gerais caminha na contramão da história. Em diversos países, como aqui já foi dito, a estratégia de sucatear a empresa pública fez com que a população perdesse a confiança para dar continuidade àquilo que lhe pertence, a bem da soberania. Olhe a gente aprendendo com o MAB! Eu tenho certeza de que o Movimento dos Atingidos por Barragens, que também apoia essa luta e que sempre trouxe para nós esse grito de que água e energia não são mercadorias, já tinha sintetizado nessa frase o grande risco de deixar na mão de políticos – exatamente estes, que têm responsabilidade – essa forma que faz com que o povo ainda tenha condição de vida, sobretudo os mais pobres.
A quem interessa a privatização da Copasa? O povo, no portal, trouxe algumas respostas. Eu queria refletir com vocês. José, de Peçanha, disse: “Os deputados não devem silenciar o povo que os elegeu. Vimos, no caso da Enel, em São Paulo, como a privatização precariza o serviço das estatais. O povo mineiro é contra a privatização da Cemig e da Copasa e tem direito de votar contra essa postura absurda”. Essa é uma frase das milhares que nós colhemos agora, no site da Assembleia Legislativa de Minas Gerais.
Eu vou dizer mais. O Alexsander, daqui, de Belo Horizonte, fez a seguinte reflexão, Sandro: “O serviço público foi sucateado. O governador e os seus amigos deveriam perguntar à população, principal destinatária do serviço público, sobre a satisfação. Se foi uma gestão de excelência para o cidadão, não há o que temer. O projeto de retirar o poder do povo é moralmente duvidoso. Se o Zema gosta tanto de mentir e dizer que é eficiente, mande-o botar, então, uma enquete para o povo perguntando o que acha da gestão dele e dos cupinchas dele à frente da Copasa”.
O Nísio Miguel Torres de Miranda – e nós conhecemos bem esse companheiro e as posturas que ele tem – faz a seguinte reflexão: “Água não é mercadoria, é direito humano. Não à privatização! Já vimos o que aconteceu com a Sabesp. Se insistirem nessa loucura, teremos que ir às ruas”. E o que vocês estão fazendo? Transformando a Assembleia em rua! Isso aqui não é feudo! Isso aqui não é lugar de casta! Isso aqui é rua!
O público presente nas galerias – Eu não vou embora! Eu não vou embora! Eu não vou embora!
O deputado Leleco Pimentel – Nem eu! E não vou me render à hipocrisia! Eu não assumi aqui nenhuma postura machista e não ataquei nenhuma deputada. Não venham com conversa fiada para cima de mim. Não à hipocrisia! Sem referendo, sem democracia! Sem referendo… (– Manifestação nas galerias.)