DEPUTADO DALTON CANABRAVA, presidente
Discurso
Legislatura 10ª legislatura, 4ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Publicado em 22/05/1986
Indexação
10ª REUNIÃO ESPECIAL DA 4ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 10ª LEGISLATURA, EM 18/4/1986
PALAVRAS DO SR. PRESIDENTE (DEPUTADO DÁLTON CANABRAVA)
O SR. PRESIDENTE - Meus senhores, há um ano, tangidos pelo sofrimento e marcados pela dor, os mineiros choravam a morte de um dos filhos mais ilustres das Gerais: a morte de Tancredo de Almeida Neves.
Hoje, quando a Assembleia Legislativa de Minas realiza esta cerimônia para reverenciar-lhe a memória, o sofrimento e a dor já não mais subsistem com tanta intensidade. O sofrimento que tocou tão fundo a alma mineira vai, aos poucos, cedendo lugar à ternura. E a dor, gradativamente, é substituída pela saudade. Não uma saudade atormentada pela tristeza; não uma saudade atropelada pelo desespero. Mas uma saudade que se marca, sobretudo, pelo seu forte conteúdo de movimento, de esperança, de vida.
Sim, mineiros, Tancredo sobrevive!
A cada dia, cresce de dimensão a importância de seu legado político e se dilata a significação de sua enorme figura histórica. Há pouco menos de dois anos, era o Brasil um País triste e à beira de um confronto que a todos parecia irreversível. Agora o Brasil é um outro país, um país sério, habitado por um povo que redescobriu a alegria de viver; que renovou a personalidade ao se reencontrar com a própria cidadania. O Brasil é um país reconciliado, onde os contrários começam a se respeitar e a se tolerar dentro do regime de pluralidade ideológica e partidária que nos convém. O Brasil, finalmente, é o país que caminha, liberto das peias do obscurantismo, rumo a seu destino de grandeza, de independência e de glórias. Foi a sabedoria de Tancredo Neves que tornou possível esse legítimo e autêntico milagre do Brasil.
Criticado asperamente por uns, contestado severamente por outros, Tancredo soube, como poucos, colocar o ideal da Pátria acima de qualquer veleidade pessoal, montando pacientemente e com habilidade extraordinária a obra política que haveria de libertar o Brasil da ditadura e restabelecer a democracia entre nós. De um lado, setores da esquerda atiravam-lhe pedras, acusando-o de fazer aliança com as áreas mais conservadoras e retrógradas da sociedade; por outro lado, segmentos da direita, evidentemente inconformados com a liquidação melancólica do arbítrio, tentavam comprometê-lo com a esquerda, visando barrar o reencontro do Brasil com a democracia.
Os fatos a todos provaram que na concepção universalista de Tancredo, os interesses maiores da Nação deviam predominar acima de qualquer preconceito de ordem ideológica, filosófica ou partidária. E o interesse maior da Nação, naquele momento histórico, era encerrar, sem traumas e convulsões, um regime de força que se prolongava por penosos 20 anos.
Venceu Tancredo!
Vencemos nós!
Venceu a Nação!
Aí está, vibrante, cheia de vida, esta Nova República, que vai resgatando, sob a inspiração de Tancredo Neves e o comando seguro e competente de José Sarney, todos os compromissos celebrados com o povo nas memoráveis campanhas pelas diretas já.
A exploração, nas suas vertentes externa e interna, entra em colapso. Na vertente externa, a Nova República pôs fim ao festival de intervenções do FMI, reabilitando a soberania da Pátria no domínio econômico. Na vertente interna, decretou-se o fim de um lamentável período de manipulação de preços e da tresloucada especulação financeira.
Sim, mineiros, Tancredo sobrevive!
Começa a se desenhar no horizonte o Brasil que ele quis. O Brasil que nós queremos. Alegre, digno, descontraído, justo.
Esta homenagem que rendemos a Tancredo não seria, entretanto, honesta se à sua figura não vinculássemos a pessoa ímpar e extraordinária de Risoleta Neves. Amiga inseparável, companheira fraterna, a vitalidade de D. Risoleta explica, em essência, a vitalidade de Tancredo Neves como elemento multiplicador de energia e de força.
À Risoleta Neves, e a seus filhos, rendemos, pois, a homenagem do Poder Legislativo de Minas, neste marco importante da história da Pátria.
Nosso agradecimento final se dirige às autoridades que compareceram a esta Casa, prestigiando esta cerimônia, e, particularmente, ao Ministro Paulo Brossard, pela envergadura que a sua presença conferiu a este evento. A todos, muito obrigado!
A Presidência anuncia aos senhores, em especial à Fundação Tancredo Neves, que vai lançar, hoje, o seu caderno de pesquisa e informação "O Poder Legislativo Segundo Tancredo Neves". Consta dele um discurso inédito, que foi pronunciado em 1980, pelo Senador Tancredo Neves, e que não pôde merecer a correção das notas taquigráficas pelo autor, acumulado com trabalhos intensos. Por isso mesmo, é um pronunciamento sem aquela beleza do retoque final, mas é um depoimento sério, precursor do ideal da Nova República, e vai servir como contribuição do Poder Legislativo à memória histórica de Minas Gerais. A Presidência entrega à Fundação Tancredo Neves este documento para que ele permaneça, de maneira definitiva, como o foram as fotografias ontem exibidas na grande mostra do Palácio das Artes, como um documento importante da memória histórica da gente brasileira. A fixação da memória histórica é condição "si ne qua non" da civilização.