Pronunciamentos

DEPUTADO JÉSUS TRINDADE

Discurso

Presta homenagem à memória do ex-presidente Tancredo Neves, por ocasião do primeiro aniversário de seu falecimento.
Reunião 10ª reunião ESPECIAL
Legislatura 10ª legislatura, 4ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Publicado em 22/05/1986
Indexação

10ª REUNIÃO ESPECIAL DA 4ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 10ª LEGISLATURA, EM 18/4/1986

PALAVRAS DO SR. DEPUTADO JÉSUS TRINDADE

O SR. DEPUTADO JÉSUS TRINDADE - Exmo. Sr. Deputado Dálton Canabrava, DD. Presidente da Assembléia Legislativa do Estado de Minas Gerais; Exmo. Sr. Deputado Carlos Cotta, aqui também na qualidade de representante de S. Exa. o Sr. Governador de Estado, Hélio Garcia; Exma. Sra. Risoleta Tolentino Neves, viúva do grande mineiro e notável brasileiro Tancredo Neves, hoje aqui homenageado pelo povo do Estado de Minas Gerais e também por toda a Nação Brasileira, já que vai falar como voz maior, nesta tarde, a representar o Brasil, o Sr. Ministro da Justiça, Paulo Brossard. Dª Risoleta, cujas virtudes e cuja heróica solidariedade e resistência tanto comoveram o Brasil e fizeram de sua pessoa, sem dúvida nenhuma, o modelo, o protótipo da mulher brasileira.

Exmo. Sr. Ministro Paulo Brossard, DD. Ministro dos Negócios do Interior e Justiça, nosso orador oficial de hoje; Ilustre Desembargador Hélio Armond Werneck Cortes, Digno Presidente da mais alta Corte de Justiça do nosso Estado; Ilustre Deputado Sérgio Ferrara, DD. Prefeito Municipal da nossa Capital; meu caro colega, Deputado Pedro Gustin, meus senhores, minhas senhoras, Srs. Deputados.

“Solta Pedro I o Brado da Independência, fundando um novo Império, e o caboclo, de cócoras; assina a Princesa Isabel a Lei Áurea, que alforria e redime uma raça, e o caboclo, em cócoras. O Marechal Deodoro derruba um trono e proclama a República, e o caboclo ainda acocorado”.

Estas são palavras do incomensurável Rui Barbosa, em “Questão Social e Política do Brasil”. Dir-se-ia que foram repetidas, tempos após, pelo Ministro Osvaldo Aranha, do primeiro Governo Vargas, que afirmara ser o Brasil um deserto de homens e de idéias".

Senhores,

Esse Brasil desses dois momentos, referidos pelos mencionados ilustres e grandes patrícios, já não é, para me valer aqui de uma expressão do Carlos Drumond de Andrade.

O Brasil mudou! Duas passagens históricas recentes, bem recentes mesmo, provam-no e comprovam-no: 1964 e 1984.

Como que a comprovar a existência de uma psicologia coletiva, de uma alma coletiva, a que se referira Gabriel Tarde, em ambas as oportunidades os brasileiros saímos às ruas aos borbotões, em massa, de tal modo que a gente se lembrava do livro de Victor Kravechento, "Escolhi a Liberdade", onde se diz que, em certas ocasiões moscovitas, parecia que as casas foram todas viradas ao avesso, jogando-se as pessoas e moradores para fora.

No primeiro ensejo, buscava-se o fim de um desgoverno; eram, sobretudo, as denominadas “Marchas da Família com Deus pela Liberdade”; no último, ainda tão recente, desejava-se terminar com um governo autoritário, envelhecido e já repudiado. Foi a campanha das “Diretas Já”, e do "Muda, Brasil".

O povo todo, a Nação inteira clamava por mudanças. E é aqui que surge, ou melhor, ressurge o grande Tancredo Neves, pois já era tão nosso conhecido, de Minas e do Brasil.

Natural da histórica, culta e querida São João del-Rei, ali começara, como vereador, a sua notável carreira política, a sua rica vida pública, trazendo preciosos benefícios ao Estado, ao País e à sua gente, no exercício dos mandatos de Deputado Estadual, Federal, Senador, Governador e nas funções de Secretário e Ministro de Estado. Elegeu-se Presidente da República, mas o destino não lhe permitiu a posse.

Se é verdade que a história não se faz ou não se escreve em um dia, igualmente não se descreve num momento. Sobretudo, é impossível narrá-la, à maneira de um repórter que testemunha o fato, pois a História, que o grande Cícero definiu como "a mestra da vida e a luz do mundo", não é me raramente factual, mas, digamos, continental, posto contenha elementos duradouros, de natureza sócio-político-ideológica.

Senhores,

Nós ainda estamos vivendo os acontecimentos vibrantes e emocionantes em que se envolveu, como figura central e exponencial, o já tão saudoso Presidente da República, Dr. Tancredo de Almeida Neves.

Se aplicarmos bem os ouvidos, atentamente, ainda poderemos escutar, como que ecoando e ressoando em todos os quadrantes pátrios, aquela sua voz inconfundível e reconhecível a largar frases e conceitos inesquecíveis, soltos das tribunas mais altas e dos palanques populares, sempre revelando não só a sua cultura, mas, principalmente, a grande preocupação com os infortunados, os desvalidos da sorte, os sofridos operários e trabalhadores. Com o destino da Pátria, enfim, certo de que com a população majoritariamente empobrecida e sofredora, não se construiria uma grande Nação. Nós mesmos, alguns anos atrás, ao comentarmos, aqui desta tribuna, a frase do ex-Presidente Médici: “o País vai bem, mas o povo vai mal”, reveladora também de sua preocupação com o social, tivemos a ocasião de afirmar que não entendíamos a construção de um palácio para nele residir um mendigo.

Quem não se lembra de: “dívida se paga com dinheiro e não com o sacrifício popular”; ou de: "nós não nos vamos dispersar". E de tantas outras expressões e discursos primorosos, inclusive lembrando Tiradentes, Mártir da Independência, seu famoso conterrâneo: "Se quisermos, poderemos todos reunidos construir uma grande Pátria".

Ao tomar posse no Governo do Estado, abriu o seu histórico pronunciamento, fazendo uma revivência do lema da Inconfidência Mineira, atualizando o "Libertas quae sera tamen", dístico da bandeira estadual, assim: "Mineiros, o primeiro compromisso de Minas é com a liberdade".

O Presidente Tancredo Neves tinha, naturalmente, um conceito filosófico profundo do que vem a ser a liberdade. De certa feita, sendo S. Exa. ainda Senador, tive a alegria de encontrá-lo numa fila de embarque no avião para Brasília, aproveitando a sua honrosa companhia nesse vôo. Pude então verificar que Tancredo aceitava e adotava o conceito de liberdade esposado pelo famoso Fulton Sheen, que em seu livro "Problemas da Liberdade" a define como um dever, não um poder. O notável mineiro, o extraordinário e tão saudoso Presidente, sem dúvida aquele que mais conquistou e emocionou a gente brasileira, concordava sem hesitar que o homem é um ser intrinsecamente liberal, ou o animal político, de Aristóteles, mas que a liberdade plena traz consigo, de modo indissociável, a responsabilidade total. Não há falar só em direito, sem as correspondentes obrigações.

Minas e o Brasil ficaram a dever ao Presidente Tancredo Neves uma das mais belas páginas da nossa história. Inteligente, culto, liberal, moderado, pôde e soube liderar a Nação num difícil momento de transição.

Quando o povo se mostrava já insensível, apático e indiferente à causa pública, resultado da péssima conduta do governo anterior, surgiu Tancredo Neves a repor-lhe o sentido de brasilidade, a infundir-lhe nova fé e esperança, a restituir-lhe até o entusiasmo. E todos sabemos a significação etimológica deste termo, que quer dizer Deus interior. Aquele que tem entusiasmo possui Deus dentro de si.

Com Tancredo, os brasileiros voltaram não só a cantar hinos cívicos, mormente o Nacional, como até a rezar em praça pública.

Muitos contribuíram para essa total mudança, que recolocou o Brasil não só no estado de Direito, mas reabriu à Nação os seus melhores e mais desejáveis caminhos, que são os da esperança e da certeza nos destinos vitoriosos da Pátria.

É de inteira justiça que eu, falando em nome do Partido da Frente Liberal, mencione o nome honrado e digno de seu fundador e presidente honorário, esse outro grande mineiro e brasileiro, Aureliano Chaves, cuja união e apoio a Tancredo Neves foram decisivos e imprescindíveis à realização dessa recuperação, dessa verdadeira revolução moral e cívica que então se iniciou neste País e que prossegue hoje também, graças a esse notabilíssimo Presidente José Sarney, companheiro de chapa e sucessor do ilustre e querido extinto.

Senhoras e Senhores,

O pensador Ernesto Hello escreveu, logo no princípio de seu interessante e belo livro "El Siglo, Los Hombres Y las Ideas", que, em Paris, todos conjugam a expressão verbal "No tener tiempo". Diria que isso já não é privilégio parisiense; também não me devo alongar. Primeiro, porque desejamos todos ouvir os outros oradores; depois, porque Tancredo é e será sempre tema inesgotável.

Afonso Arinos terminou a sua notabilíssima saudação ao acadêmico Tancredo Neves, que se empossava em nossa Academia de Letras, citando curiosa e saborosa quadra do historiador Hiram de Barros Latif.

Peço eu licença a todos para encerrar esta corridíssima alocução em homenagem ao imortal Presidente Tancredo Neves com esta simples e emotiva quadrinha, que brotou de meu coração e escorregou de meus lábios, no fatídico e tristíssimo 21 de abril de 1985:

Ao longe o sino ecoa,/ Na São Francisco, de São João/ Ele não tange à-toa/ Morreu Tancredo, nosso irmão!