Pronunciamentos

DEPUTADO CRISTIANO SILVEIRA (PT)

Discurso

Critica o governador Romeu Zema por vídeo pedindo doações para tratar criança diagnosticada com Distrofia Muscular de Duchenne - DMD - em vez de agir como responsável pelo sistema de saúde estadual. Manifesta indignação com a morte de mãe, filha e avó no Município de Belo Horizonte, ligando o caso à falta de políticas públicas de cuidado. Critica vetos do governo a proposições voltadas à pauta das mulheres e denuncia o aumento dos feminicídios e homicídios de mulheres negras em Minas Gerais. Questiona o silêncio da maioria dos deputados e da imprensa diante da desassistência social e da banalização da dor humana no Estado.
Reunião 27ª reunião ORDINÁRIA
Legislatura 20ª legislatura, 3ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 15/05/2025
Página 27, Coluna 1
Indexação

27ª REUNIÃO ORDINÁRIA DA 3ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 20ª LEGISLATURA, EM 13/5/2025

Palavras do deputado Cristiano Silveira

O deputado Cristiano Silveira – Prezados colegas parlamentares, público que nos acompanha, quero hoje usar esta tribuna para relatar aos colegas o meu espanto, na última sexta-feira, quando assisti a um vídeo do governador Romeu Zema. Eu imaginava que já tinha visto de tudo com relação ao governador e achava que ele já tinha chegado aos limites daquilo que a gente chama, não de razoável, mas de bizarro.

Desde a época em que nós falamos que o governador estava fazendo chacota com as pessoas que estavam enfrentando dificuldades para comprar alimentos, porque o preço dos alimentos estava caro, achávamos que ele não faria nada pior. Lembro que, naquele momento, ele pegava a banana e dizia: “Olha, eu vou comer banana com casca”. Achamos que o governador não faria nada pior quando ele falou que tinha que pegar uma escada para pegar uma manga, porque o passarinho, o jacu estava disputando a fruta com ele; e também desde quando ele entrou em polêmica sobre uma camisa, se perguntando: “Minha camisa da seleção é amarela ou minha camisa é vermelha? Como vai ser isso?”. Enfim, eu achei que já tinha visto tudo. A gente vê isso tudo, além de mentiras, porque agora, mais recentemente, com relação às operações dos escândalos no INSS, ele também mente.

Mas vocês não vão acreditar: ele conseguiu se superar, foi além do que vocês podem imaginar. Vocês podem falar: “Eu já vi de tudo”. Não, ele se superou. Eu vi o governo do Estado de Minas Gerais gravar um vídeo com uma família: uma criança que precisa de atendimento médico, o pai e a mãe. Alguém poderia imaginar o seguinte: o governador está gravando o vídeo para dizer, como gestor do orçamento do Estado, aquele que tem que cumprir a lei, dar garantia à saúde, à segurança, ao bem-estar; como aquele que está sentado na cadeira, com a caneta na mão, diante de um orçamento bilionário, diante de uma família que vive uma situação dramática, com o seu filho: “Deixe comigo que eu vou resolver o problema, o Estado de Minas Gerais vai resolver o problema”. Ora, gente, ele gravou o vídeo para dizer que estava colaborando com uma campanha on-line, uma vaquinha na internet. O governador, sabendo que era uma criança com uma doença grave, numa condição grave, no vídeo, juntamente com essa família, disse: “Eu estou aqui para pedir a sua ajuda, para você fazer um Pix”. Eu nunca vi um negócio desse em todo o tempo que tenho de vida pública! Desde que comecei a me entender por gente e a acompanhar a política, eu já vi tanta coisa bizarra, tanta coisa bizarra, mas o próprio governo do Estado pedir à sociedade que contribua com uma vaquinha para ajudar uma criança a comprar medicamento a fim de fazer um tratamento, para mim, foi o fim da picada!

Diante disso, veio à minha cabeça tudo aquilo que a gente vem falando nos últimos anos: dinheiro, governador, para atender as pessoas, para atender uma criança que precisa de atendimento médico, não existe, mas, para o senhor aumentar o próprio salário em 300%, existe; dinheiro para atender uma criança que precisa de atendimento médico, de maneira urgente, não existe, mas, para dar benefício para bilionário, dono de locadora, existe; para aumentar orçamento de publicidade, existe; para pagar buffet de luxo, conforme já falei um monte de vezes, com camarão, filé e o diabo a quatro, existe.

Mas ele tem a cara de pau de gravar um vídeo ao lado de uma família, para pedir ao povo que ajude, numa campanha, numa vaquinha, a cuidar da saúde de uma criança. Esse é o governador de que vários colegas parlamentares têm sido base de sustentação. Toda vez que os colegas votassem uma dessas matérias esdrúxulas que ele traz aqui e coloca todo mundo, digamos, com a calça na mão… Aqui está cheio de projetos que votamos por unanimidade. O governo veta e, depois, há muitos colegas que têm que ficar aqui morrendo de vergonha, dizendo que não podem ficar contra o governo, que não dá para votarem contra o veto do governo. Ficam morrendo de vergonha! Deveriam dizer: “Ah, está bem, nós vamos votar, mas o preço para a gente votar esse tipo de matéria é exigir que este governo tome vergonha na cara e comece a cuidar das pessoas como deveria”.

Até que ponto o povo de Minas Gerais vai aguentar esse tipo de coisa, essa chacota, esse achincalhamento, essa banalização da dor do outro, das condições de saúde e da integridade da vida das pessoas? Não é possível que só eu estou enxergando isso. Não é possível que sou só eu que subo a esta tribuna para falar sobre isso e que, para todo mundo, está tudo normal! Honestamente, a gente não está na vida pública para compactuar com esse tipo de coisa. Não é possível! É preciso dizer a ele para sair da internet, do TikTok, do YouTube e começar a governar Minas Gerais. Se bem que é difícil pedir isso agora, na segunda metade do segundo mandato, se ele não fez isso nem sequer no primeiro mandato. Como governador, é um grande artista, um grande ator. Conseguiu enrolar e enganar muita gente durante um tempo, sem fazer entregas e sem cumprir suas palavras e promessas de campanha.

O mesmo governador que disse que era contra o aumento de imposto, aumentou imposto; o mesmo governador que disse que era contra regalias, usa das maiores benesses do governo do Estado; o mesmo governador que disse que todo ano o servidor ia ter reajuste, não cumpriu o que prometeu para o servidor do Estado. Mas até que ponto as pessoas vão achar que isso é natural, que é normal? Até que ponto vão naturalizar esse tipo de coisa?

E a situação é mais dramática que isso. Vamos além. Quero trazer para vocês outra situação que também me incomodou muito nesse final de semana. Todo mundo sabe que o último domingo foi o Dia das Mães. Vários de nós estivemos com a nossa mãe – refiro-me àqueles que ainda têm mãe –, vários de nós estivemos com nossa família, na medida do possível, celebrando a vida, celebrando a presença, celebrando o cuidar. Foi isso. Mas vejam vocês uma matéria que foi publicada pela Itatiaia: “Família morta no Barro Preto. Mulher encontrada morta nesta sexta-feira, dia 9, com sua mãe e filha, dentro de um apartamento em Belo Horizonte, deixou carta antes de falecer. A informação foi colhida no local da ocorrência pela reportagem da Itatiaia. Daniela Antonini, de 40 anos, escreveu que estava com muitos problemas. Ela enfrentava dificuldades financeiras e estava devendo o aluguel. Além disso, disse que vivia uma situação conturbada com o pai de sua filha e que estava sem dinheiro para custear o tratamento da criança. Giovanna Antonini, de 2 anos, sofria de uma doença chamada atresia do esôfago, condição em que o esôfago não se desenvolve completamente, e precisava de uma sonda no estômago para se alimentar. A mãe de Daniela, identificada como Cristina Antonini, de 66 anos, também faleceu no episódio. Dentro do apartamento, quatro cachorros da família também foram encontrados sem vida”.

Deputado Leleco, o senhor, que está prestando atenção ao que estou trazendo, percebeu a gravidade? Claro que ainda há questões que precisam ser elucidadas, mas, a princípio, estamos falando do caso de uma mãe, de uma criança de 2 anos com uma doença, um problema no esôfago, de uma avó e de quatro cachorros dentro de casa. Ela havia deixado uma carta dizendo que não aguentava mais, que não tinha dinheiro. E isso, Leleco, fez com que eu me lembrasse de que, há poucos dias, aqui, nós votamos a tentativa de derrubada do veto do governador a uma política, a uma emenda que apresentamos, que estava sendo chamada de Cuidar de Quem Cuida. Se as pessoas que, ao votarem pela manutenção do veto do governador, não entenderam por que o Cuidar de Quem Cuida é importante, basta que leiam essa matéria. Mãe, avó, criança e seus animais: todos mortos porque não foram cuidados, porque ninguém cuidou, porque o Estado não cuidou.

Chegamos a um ponto em que precisamos fazer a seguinte pergunta: o que estamos fazendo em relação a essas pessoas? O que estamos fazendo em relação à proteção e ao cuidado da vida? O que nós, agentes públicos com bons salários, com mordomias nesta Casa, paga pelo dinheiro público, estamos fazendo, enquanto mães estão morrendo dentro de casa porque não recebem cuidado? Mãe, filha e avó estão morrendo dentro de casa porque não recebem cuidado. E, quando a gente tem a oportunidade de propor alguma coisa aqui: não. O pedido do governador, do secretário de governo e do líder de governo é mais importante do que a vida, do que a dignidade humana.

Confesso que fiquei chateado “pra caramba”. Nós estamos insistindo tanto nisso, tanto. E não conseguimos ser ouvidos. Há, claro, as boas exceções dos colegas que não se curvam. Inclusive há colegas que são da base de governo e que, mesmo sob o custo de às vezes não terem uma emenda extra paga, de terem ameaça de alguém que possam ter indicado ao governo, mantêm-se firmes, porque há questões que são inegociáveis. O governador Romeu Zema diz para esta família aqui e para outras tantas que estão morrendo todos os dias, que estão em depressão, que estão em ansiedade: “A vida de vocês não importa, não importa. O que importa é dar dinheiro para os meus amigos empresários. O que importa é cuidar da elite mineira. O que importa é aumentar meu próprio salário. Vocês não importam”. Repito: uma mãe, uma filha de 2 anos, uma avó de 66 anos e quatro animais. É isso que estamos vivendo no Estado de Minas Gerais. E esta Assembleia, infelizmente, na sua maioria, está se calando diante dessas atrocidades, dessas covardias.

Eu não imaginava que viveria isso, que viveria isso aqui, no Parlamento, como deputado. Já passei por um governo, por dois governos e estamos no terceiro governo. Vou dizer: ainda quando não era deputado, eu já era dirigente partidário, já era agente político. Fui vereador, fui vice-prefeito. Sempre acompanhei a política no Estado de Minas Gerais. Estou dizendo: estamos chegando, neste estado, a uma situação de barbárie nunca vista, pelo menos na história recente da democracia em Minas Gerais.

E, para não dizerem que não há como as coisas ficarem piores… Desculpem-me pelo fato de minha presença e minha fala hoje não serem das mais simpáticas, das mais belas, do fantástico mundo de Zema, do Estado colorido, do Estado em que está tudo bem, do Estado organizado. Os problemas vão além. Vamos trazer mais problemas. Vejam vocês: violência contra as mulheres. (– Lê:) “Violência contra as mulheres. Atlas da Violência 2025, divulgado nesta semana com os dados de 2023. Minas Gerais teve 280 feminicídios, um aumento de 2,9% em relação ao ano anterior. É um dos estados com o maior número de feminicídios”. Traduzindo: mulheres estão morrendo, estão sendo assassinadas pelos seus companheiros, por pessoas próximas. Vejam os dados: 64% dos crimes foram cometidos dentro de casa. Violência contra mulheres negras. O homicídio de mulheres negras cresceu 22% em Minas Gerais, enquanto no Brasil caiu 25%. No mesmo período, aumentou, em Minas Gerais, que é o retrato da falta de justiça social.

Minas Gerais teve um aumento de 8,4% nos homicídios em geral, enquanto no Brasil houve uma redução de 4,3%. Cadê a eficiência do governo Zema? Quero lembrar que, mais uma vez, apresentei aqui, nesta Casa, a proposta de um auxílio transitório para mulheres vítimas de violência, que dependem economicamente do agressor, mulheres que vivem sob o mesmo teto do agressor, mulheres que não conseguem sair de casa com os filhos porque dependem economicamente do agressor. A proposta era que o Estado pudesse disponibilizar um auxílio, para que essas mulheres pudessem ter, durante um período, o apoio do Estado, para tentar iniciar uma nova vida. Sabem qual foi a resposta do governador e de ampla maioria da sua base? “Não, nós não queremos esse tipo de política. Que as mulheres que sofrem violência se virem.” É por isso que nós amargamos esses dados estatísticos tão graves.

E vou dizer mais para vocês: nos próximos dias, discutiremos mais um veto do governador a uma proposta que apresentei para que a mulher em condição de situação de violência, servidora pública, tenha o direito de ser transferida, tenha o direito à remoção para outro lugar, porque tem que se afastar do agressor. Resposta do governador: “Veto”. É isso mesmo. É isto que vocês ouviram: “Veto ao auxílio transitório à mulher vítima da violência. Veto ao direito da mulher ter remoção, quando em condição de vítima de violência. Veto ao cuidar de quem cuida, que são as mães cuidadoras, as mães solo, que estão no Estado de Minas Gerais. Veto a tudo que tenta proteger e salvar a vida humana, especialmente de um público mais vulnerável no nosso estado, as mulheres”. Minas Gerais não está enxergando isso? O Parlamento mineiro não está enxergando isso? Boa parte da imprensa não está enxergando isso? O que está acontecendo aqui?

É importante falar do Propag, porque é dívida do Estado. É importante falar de pedágio em rodovias, de criação de agências também. Mas falar de quem está morrendo, no estado que é campeão de feminicídio, de uma mãe em situação de desespero, que tira a própria vida, da filha e da avó não é importante? Será que isso é menos importante discutir do que a burocracia estatal? Fica a reflexão. Espero não ser a única voz a denunciar isso aqui, porque a situação é grave.