Pronunciamentos

MARCOS RENAULT, presidente da Associação Nacional dos Veteranos da Força Expedicionária Brasileira de Belo Horizonte – Anvfeb-BH – e curador do Museu da Força Expedicionária Brasileira - FEB - de Belo Horizonte

Discurso

Transcurso do 80º aniversário do Dia da Vitória.
Reunião 8ª reunião ESPECIAL
Legislatura 20ª legislatura, 3ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 10/05/2025
Página 4, Coluna 1
Indexação
Proposições citadas RQN 9944 de 2025

8ª REUNIÃO ESPECIAL DA 3ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 20ª LEGISLATURA, EM 8/5/2025

Palavras do Sr. Marcos Renault

Boa noite a todos. Quero fazer uma referência especial ao Coronel Henrique, que abriu esta Casa para que a gente pudesse homenagear os heróis brasileiros que lutaram pela paz, pela liberdade e pela democracia 80 anos atrás. Quero agradecer também ao Cel. Signorini pelas suas ações para que isso tudo pudesse acontecer. Quero cumprimentar o Gen. Fructuoso, comandante da 4ª Região Militar; o desembargador Júlio César Lorens, vice-corregedor Regional Eleitoral do Tribunal Regional de Minas Gerais – TRE; o Brig.-Ar Alexandre Avellar Leal, comandante do Centro de Instrução e Adaptação da Aeronáutica – Ciaar; o CMG Alessandro de Paula Lima, comandante da Capitania dos Portos de Minas Gerais; o Sr. Márcio Lobato Rodrigues, secretário Municipal de Segurança e Prevenção da Prefeitura de Belo Horizonte; e muito especialmente também cumprimento o Sr. Mário Gottardi, nosso homenageado da noite.

Vou ser breve, mas eu teria muita coisa para dizer, porque essa história da vitória do Brasil encerra inúmeras histórias de heroísmo do nosso povo. No princípio dos anos 1940, o povo brasileiro se viu aviltado com os ataques aos navios brasileiros feitos por submarinos italianos e alemães. Mais de trinta navios brasileiros foram postos a pique e 1.474 brasileiros morreram em consequência disso.

A nossa Marinha de Guerra foi a principal vítima dessas ações. Perdemos inúmeros marinheiros. Isso tudo fez com que o Brasil se indignasse. O povo brasileiro foi às ruas exigir uma resposta do governo, que custou a vir, e custou por quê? Porque o Brasil tendia entre os acordos firmados com o lado alemão e com o lado dos aliados. Existe gente que gosta de falar que nós tínhamos uma tendência fascista, uma tendência nazista, mas não tínhamos. O que nós tínhamos aqui? Nós tínhamos um Estado ditatorial, o presidente era o Getúlio Vargas. Qualquer um de nós, naquela época, teria o mesmo sentimento.

A Alemanha, depois da Primeira Guerra Mundial, foi à bancarrota. O povo alemão para comprar um pão na padaria – o que eu vou falar agora não é uma figura de linguagem, mas uma verdade –, levava quase um carrinho de dinheiro para fazer a compra. A inflação era altíssima, e, de um hora para outra, aquele país aparece no cenário mundial, reaparece no cenário mundial como uma superpotência. É um case de sucesso. Ninguém sabia o que estava acontecendo ali, mas isso veio trazer realmente consequências danosas.

O Brasil não optou por alinhar-se com os regimes nazistas e fascistas da Europa. O Brasil, depois dos ataques sofridos por submarinos, volto a repetir, italianos e alemães, veio, então, a se aliar a Estados Unidos, Inglaterra, França, Rússia e outros que compuseram os Aliados, assim chamados, contra os países do Eixo, que eram Alemanha, Itália e Japão.

Muito bem. O povo brasileiro foi para a rua exigir uma posição do comandante máximo da Nação, o presidente, e se criou até aquele dito de que era mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil ir à guerra. Pois bem, o Brasil foi à guerra; foi à guerra, e a cobra fumou. Como bem disse o Coronel Henrique, 25 mil homens saíram daqui para lutar do outro lado do oceano, na Itália. Aí, há quem pergunte: “Por que nós fomos lutar na Itália? O que nós tínhamos a ver com a Itália? A Itália era nossa inimiga”. Há muita gente... Olha, no museu, recebemos professores que ainda falam: “Olha, o Brasil entrou na guerra porque foi obrigado pelos Aliados que afundavam os nossos navios para nós tomarmos uma posição contra os países do Eixo”. Mentira! Aquele que quiser poderá mergulhar no nosso litoral para comprovar o que estou dizendo. Jazem submersos 11 submarinos inimigos nas nossas águas territoriais.

O Brasil foi à guerra com 25 mil homens – aliás, para ser exato, 25.334. Entre esse pessoal, estavam 73 enfermeiras voluntárias, que saíram daqui para cuidar dos nossos homens e também dos nossos aliados. Os norte-americanos falaram para o comando brasileiro: “Olha, vocês têm muitos negros na tropa. Nós não vamos atender os seus negros”. Muito bem. As nossas enfermeiras foram para atender não só os nossos negros como também os negros deles. Houve casos na guerra... Vejam como a ignorância e o racismo fazem com que a pessoa vá à morte! Uma vez, em Bastogne, e o Brasil não lutou lá... Durante a Batalha do Bulge, os norte-americanos estavam em Bastogne, que estava sendo bastante bombardeada pelos alemães, e havia um hospital na cidade. Naquele hospital, havia duas enfermeiras: uma branca e uma negra, uma congolesa belga. Uma vez que o hospital foi bombardeado, a enfermeira branca morreu e sobrou apenas a enfermeira negra. Chegou um soldado norte-americano em estado crítico, em estado de choque, beirando à morte. Quando ela foi prestar-lhe o atendimento, ele falou: “Não. Você não bota a mão em mim. Você é negra”. Chamaram o médico, que tentou fazer com que o cara mudasse de ideia. Ele falou: “Não, não bote a mão em mim”. Ele morreu por ignorância, morreu por racismo. Nós somos rigorosamente iguais. A cor não diferencia ninguém. Nós somos seres humanos, e o Brasil deu aula disso lá.

O Brasil não foi para lá, gente… Quando eu falo isso, falo com muita paixão. Eu me apaixonei pela história da FEB há mais de 50 anos. Quando falo isso, falo porque, durante a guerra, o brasileiro, o oficial brasileiro e o soldado brasileiro se sentavam com negro, branco, japonês, índio, descendente de alemão e de italiano, um ao lado do outro para comerem juntos. Os norte-americanos não entenderam isso. Acabada a guerra, nós passamos a ser até case. Vieram para cá comissões norte-americanas para estudar a questão do relacionamento entre as raças no Brasil. E o Brasil foi bem nisso aí. Seria ufanismo falar que saímos daqui para ganhar uma guerra sozinha. Nós fomos lutar num teatro de operações que era secundário. Àquela época, o principal teatro de operações era a invasão da Alemanha, mas, para que ele pudesse acontecer, precisava-se de gente segurando os alemães em outro lugar. E assim nós fizemos na Itália.

A guerra na Itália não foi moleza, não. A guerra na Itália… Estou voltando de lá agora. No Sul da Itália, desde a invasão da Sicília até a tomada de Roma, morreram 105 mil norte-americanos. Então é uma guerra que… Na Itália, participaram dezenas de nações para tomar o Monte Cassino – e o brasileiro não lutou lá, não. Agora, para tomar o Monte Cassino, foram necessárias forças de nove nações. O Brasil estava na Itália e assumiu uma posição de ataque perante uma defesa que já estava instalada lá durante muito tempo, na Linha Gótica, que fica na altura da Emília-Romanha, nos Apeninos da Itália – e fez bonito, fez bonito. Como o Coronel Henrique bem disse, nós fizemos mais de 20 mil prisioneiros. Nós tivemos heróis, e heróis que poderiam instruir qualquer filme norte-americano. A Broadway podia pegar, por exemplo, a história ou falar de um: o Sgt. Max Wolff. E aqui estou vendo o Prof. Átila, cujo pai estava lá na oportunidade, quando o Max Wolff morreu. Estou vendo ali a família do Cap. Medrado, que tomou 13 tiros em Abetaia. Então, gente, nós temos história de heroísmo para dar, vender e jogar fora; agora não podemos nem vender nem jogar fora. Por quê? Porque, poxa, é a nossa história!

Eu vou ler para vocês uma nota que foi publicada em 1995, no Estado de Minas, por um jornalista cujo nome não vale a pena falar. Vejam vocês que absurdo isso, mas olhem a importância de estarmos aqui hoje, de estarmos celebrando a vitória e a memória dos nossos heróis, assim como renovando o nosso compromisso de não deixar essa história ser esquecida. Eu vou ler a nota. (– Lê:) “Vitória. O Brasil chegou ao cúmulo de participar das comemorações do chamado Dia da Vitória, que, simbolicamente, festejaria a derrota das tropas nazistas na Segunda Guerra Mundial. Os pracinhas nacionais realmente estiveram lá. Só que deram tiros – a maioria sem boa pontaria – contra batalhões de alemães quarentões que pensavam estar lutando contra norte-americanos. Transformamo-nos jornalisticamente em heróis sem sê-los. Quem foram os heróis naquela guerra foram os russos, os ingleses e os alemães”. Essa é a nota que foi publicada no jornal. Quem leu essa nota – e não houve, não se criou a possibilidade de a pessoa ler um direito de resposta que nós, da associação, exigimos do tal camarada – ficou com isso, carregou isso para o resto da vida, multiplicou uma história completamente equivocada para os outros. Ele até colocou lá um pedido de desculpas que não estava à altura do que ele havia dito, mas a associação achou por bem, para não criar mais polêmica, largar o assunto para lá. Mas é isso, gente! Há quem critique a Força Expedicionária Brasileira, mesmo com todo o heroísmo e tudo de bom que ela nos proporcionou, garantindo ao nosso povo o direito de viver em liberdade, paz e democracia. A data de hoje é muito importante, é uma renovação desse nosso compromisso. Nós devemos ser multiplicadores dessa história. Eu não tenho pai, não tenho tio, não tenho avô que tenham lutado na guerra, mas descobri depois que eu tinha um primo longe, que foi um dos caras que subiu, tomou e manteve o Monte Castelo no dia 21/2/1945. Mas a minha paixão pela FEB se dá porque vejo, nesses homens humildes, homens que saíram daqui determinados a trazer o que nós precisávamos, que era o resgate da nossa honra, e assim foi feito.

Então, mais uma vez, quero agradecer a esta Casa, que hoje está dando esta oportunidade de podermos lembrar os nossos heróis e comemorar a nossa vitória. Todo o povo brasileiro, não só os pracinhas que foram para a Itália, mas todos nós, brasileiros, estivemos empenhados na vitória e na luta contra o inimigo. Todo o povo brasileiro se esforçou e foi submetido há vários tipos de racionamento: de combustível, de gás, de manteiga, de carne, de café. As mercadorias chegavam ao Brasil a um preço caríssimo, porque não havia navio que quisesse trazer suprimentos para cá, já que corria o risco de ser afundado. Com isso, o seguro dos navios subia muito, e o preço subiu demais. O povo teve que se adaptar a isso tudo, adaptar-se a normas de segurança. Aliás, há poucos meses, o edifício Acaiaca abriu o seu subsolo, que era utilizado como um abrigo contra bombas, conforme determinava uma lei que o presidente Getúlio Vargas promulgou àquela época.

O povo brasileiro tem muito valor! Sessenta mil homens e mulheres, chamados soldados da borracha, saíram de suas casas e se embrenharam nas florestas do Amazonas para retirar borracha. Numa determinada época da guerra, num determinado estágio da guerra, a Indochina, hoje, Vietnã, aquela área de lá, que era o maior produtor de borracha do mundo, esteve sob ocupação japonesa. Os Aliados ficaram sob o risco de terem a guerra paralisada por falta de borracha, por falta de pneus e tudo. Então os norte-americanos nos pediram, e foi composto, esse contingente de 60 mil homens e mulheres, que andavam, caminhavam 1.000km, 1.500km, da sua residência até o lugar de extração da borracha. Nós conseguimos extrair muita borracha; não foi o suficiente para a demanda mundial, mas estava lá o nosso povo. Desses 60 mil, 30 mil jamais voltaram para as suas casas. Exército, Marinha e Aeronáutica também estiveram presentes na defesa do nosso litoral, fazendo patrulhamento marítimo e aéreo: 180 mil homens do Exército estiveram, de Norte a Sul, evitando que submarinos inimigos viessem para ser abastecidos, porque havia aqui a quinta-coluna.

É isso. Eu já falei muito. Mais uma vez, quero saudar o nosso veterano e quero agradecer ao Henrique pela abertura deste espaço de fala sobre a vitória do Brasil na Segunda Guerra Mundial, fato digno de ser lembrado não só hoje mas também para sempre. Muito obrigado.