Pronunciamentos

SR. JÚLIO GARGANTA, Doutor em Ciências do Desporto. Professor na Universidade do Porto.

Discurso

Comenta o tema: “Desafios na formação de jogadores de futebol: da rua à excelência”
Reunião 91ª reunião ORDINÁRIA
Legislatura 18ª legislatura, 1ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 28/11/2015
Página 61, Coluna 1
Evento II Ciclo de Debates Muda Futebol Brasileiro.
Assunto ESPORTE.

91ª REUNIÃO ORDINÁRIA DA 1ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 18ª LEGISLATURA, EM 10/11/2015

Palavras do Sr. Júlio Garganta

O Sr. Júlio Garganta - Boa tarde a todos. Inicio agradecendo o honroso convite da Assembleia de Minas para partilhar ideias e reflexões com vocês. Eu me propus a desenvolver o tema devido a esse honroso convite. Tentarei lançar algumas pistas para depois, em conjunto, refletir sobre o tema.

Começo falando de algo controverso, embora muitas vezes quase tacitamente aceito, que é o conceito de talento. Do nosso ponto de vista, essa ideia de que o talento é nato tem sido um dos maiores empecilhos ao maior desenvolvimento do futebol e de seus jogadores. Tentarei sustentar de alguma forma que são muito mais importantes a educação, a formação, a cultura e o treinamento do que a genética para a evolução do futebol e dos jogadores, em função do ser humano enquanto gente, não apenas enquanto jogador. De fato, os nossos pontos de vista sobre o talento são extraordinariamente importantes, dado que condicionam o modo de influenciar, identificar e sobretudo desenvolver as pessoas que ocupam os cargos de treinadores, professores, tutores, enfim, quem quer que seja para ajudar alguém a crescer numa atividade, nesse caso concreto, o futebol. A ideia de que o talento é um dom concedido por alguém ou algo externo é de fato algo que tentamos questionar, ou seja, a ideia de se ter ou não talento constitui o tal estorvo para apostarmos em métodos de treino e ensino, para que, de alguma maneira, possamos admitir que o mais importante na transformação das pessoas é o que conseguimos fazer delas e com elas. Por isso, é importante tentarmos distinguir quais são as verdades e as mentiras implícitas no conceito de talento.

De fato, a ideia é reequilibrar. Não venho aqui com a pretensão de dizer que isso é fim, mas, sobretudo, como disse no início, para partilhar algumas reflexões sobre essa questão. O que a ciência nos mostra é que em 27 mil genes que constituem o genoma humano nunca foi encontrado nenhum que estivesse ligado a algum talento em particular, seja no futebol ou no esporte em geral, na música, na matemática, na arquitetura. Não há nenhum cientista, nenhum trabalho publicado, nenhuma evidência de que exista algum gene específico responsável por determinado talento. Isso nos leva a pensar que se as pessoas nascessem com esse gene provavelmente a ciência, ao longo de todos os anos, já teria identificado alguns deles – não falo em todos, mas em alguns.

Por si só, o que se sabe, e todos os trabalhos em diferentes áreas têm-nos permitido concluir, é que os genes não nos tornam inteligentes, nem excelentes, nem rápidos, nem educados, nem deprimidos, nem talentosos, ou seja, eles interagem com o ambiente para mudar a aparência e o comportamento de um indivíduo. Obviamente, algumas características que temos, notadamente do ponto de vista antropométricas, nossa altura, nossa estatura têm um componente genético forte, mas, ainda assim, não são totalmente determinadas geneticamente. É o que a ciência fato tem concluído.

Então, o talento é um compromisso, uma conquista, e não um dom. Essa é a nossa ideia. Há mais avanços com essa possibilidade que nos parece, neste momento, mais de vivência. E vai resultar de uma mistura poderosa de instrução, incentivo e prática constante. É aqui que nós temos que, ao admitirmos que esse é o lado mais importante, vamos, obviamente, apostar muito mais em questões relacionadas com educação, com formação, do que acreditar em outro tipo de forças, no acaso, na genética, na hereditariedade, etc., para dizer que o jogador nasce e depois só temos de esperar que, em algum momento, o seu talento possa eclodir. As coisas, de fato, não parecem ser assim.

Temos verificado que o desporto tem evoluído não à custa da genética, mas porque está treinando e competindo de modo mais eficiente e eficaz. Reparem no exemplo a seguir: em 2004, um senhor chamado Ed Whitlock, com 74 anos de idade, correu a maratona em 2h54min48s. Isto é, correu essa distância 4 minutos mais rápido que o ganhador dos jogos olímpicos de 1896. Há muitas evidências, mas essa é uma evidência forte que nos faz pensar o que aconteceu nesse tempo.

Então, como os genes evoluíram e as coisas evoluem? É, de fato, à custa de como se está treinando, de melhor conhecimento, de tecnologias cada vez mais refinadas que vamos conseguindo aprimorar esse processo. Então, poderíamos perguntar, qual será a experiência a partir de recursos diários e genes comuns? Ou seja, qualquer um de nós é inspirado a ser excelente num determinado domínio? Entendo que sim. Não podemos ser todos excelentes no futebol, mesmo aí, nem todos podem ser excelentes em jogar como centroavantes ou como goleiros, ainda que no futebol haja especificidades tais que seja necessário desenvolver talentos de maneiras diferentes para ser um volante, um centroavante, um extremo ou médio, o que quer que seja, como se houvesse diferentes profissões nesta atividade que é o futebol.

O que a ciência nos tem dito, então, para além daquilo a que já me referi? Não é a biologia que estabelece o patamar que o indivíduo pode alcançar e, por isso, devemos ficar preocupados quando estamos sistematicamente referenciados em noções de natureza lógica para nos dizer que este, aquele ou aqueloutro podem ou não ter talentos. Não podemos nos deixar, do nosso ponto de vista, condicionar por isso. Então, isso é algo que está em aberto, não é algo que está fechado. Essa é uma ideia que me parece importante. Ninguém está preso ao seu patamar original. Daí, a importância da cultura, de entendermos que as pessoas podem sempre mudar quando devidamente orientadas e ajudadas, e não só no futebol. É preciso entendermos quais serão os melhores meios, os melhores modos de o fazermos. Uns podem desenvolver melhor o seu talento na pintura, nas artes plásticas; outros, na arquitetura. No caso, estamos falando do futebol, assunto que nos trouxe aqui.

Qualquer ser humano pode tornar-se melhor por meio da educação e do treino, embora, como vamos ver, haja uma excelência – podemos dizer que é absoluta –, que é atingir o topo, o máximo, o mais alto rendimento que se conhece no atletismo, no futebol ou em outra modalidade. Mas há também uma influência relativa, que é buscarmos ser o melhor possível no segmento que estamos trabalhando. Se estou treinando com meninos ou meninas de 14, 15 anos, é possível desenvolver um trabalho de excelência e é possível alcançar a excelência nesse nível, embora haja outras excelências que estão, digamos, acima dessa do ponto de vista da escala hierárquica no rendimento, obviamente. É importante ter essa ideia em mente.

Portanto, o talento não é algo em si mesmo, é um processo. Daí temos muito as chamadas sessões de detecção de talento ou peneiras. Entendemos que é muito difícil conseguir identificar jogador ou jogadoras em uma, duas ou três sessões. Obviamente, se o jogador ou a jogadora são fora de séries em uma determinada idade, todo o mundo vê isso, até minha vó vê, não é preciso ser especialista em futebol. Mas o problema está com os que não mostram imediatamente que podem vir a ser talentos, que são a maioria. Grande parte dos talentos surgem ou se afirmam como talentos somente mais tarde. Precisam de um tempo maior até aparecerem. O sucesso nem sempre é o que se vê. A ponta do iceberg é o que normalmente vimos, mas a maior área está submersa. No talento isso é uma metáfora, e portanto acontece de forma semelhante.

Quando falamos de excelência, a ideia é pensar que se pode ir à rua até a excelência, seja ela absoluta ou relativa. Começamos a perceber que a excelência tem muitas vias, muitos caminhos. Qual caminho iremos escolher depende de muitas coisas, como do contexto cultural, dos meios de que dispomos, da nossa filosofia de trabalho, das nossas convicções sobre os seres humanos e sua possibilidade de evolução. Mas ela é de fato um complexo de muitas condicionantes.

Aquilo que a ciência tem mostrado, através de vários trabalhos, é que atingir a excelência depende da data e do local do nascimento. O momento e o local em que nascemos podem condicionar sobremaneira o fato de chegarmos ou não a ser talento. Isso é muito importante. A experiência precoce e o tempo dedicado à prática são duas condicionantes importantíssimas. Não se pode ser talento no que não se faz, no que não se pratica, seja com um número de horas significativo e sobretudo com uma qualidade significativa, como vamos ver.

As oportunidades. Quando falamos de sorte, talvez nos refiramos a isso fundamentalmente. Muitas vezes há um fechar ou um abrir de oportunidades, que podem em um determinado momento nos fazer acreditar ou nos afiliar a uma atividade e ganhar mais confiança, ter mais motivação ou acreditar que pode ser possível. Essa questão de abrir janelas das oportunidades ou fechá-las é o que fazem alguns treinadores: por vezes, alguns abrem e outros fecham. É importante perceber como isso acontece e por quê.

A paixão pela superação é algo determinante. Ninguém, no nosso ponto de vista, consegue chegar ao topo de uma atividade e sobretudo, lá se manter durante muito tempo, que é o mais importante, se não tiver paixão por isso. É preciso dedicar muito tempo, é preciso fazer sacrifícios e ultrapassar muitos obstáculos. Por isso essa paixão pela atividade dá um acréscimo à motivação, dá um acréscimo de vontade de seguir aquele caminho, apesar dos obstáculos com que se vão deparando.

Acesso a treino especializado. Obviamente temos consciência de que para que se consiga jogar futebol de alto rendimento, de alto nível; jogar um futebol que agrada a quem o vê e a quem o joga, é muito importante haver jogadores criativos, que não sigam apenas pautas, que não conheçam apenas princípios de jogos em que todos reproduzam as mesmas coisas. Não, queremos jogos diferentes, que tenham diversidade. Isso vai permitir ao futebol sobreviver. Do nosso ponto de vista, se o futebol começar a ser globalizado negativamente, se todos treinarem da mesma maneira, se todos jogarem da maneira semelhante, isso será altamente negativo. Por isso o acesso a treino especializado, de maneira diferenciada, é de fato, uma condicionante que pode nos permitir alcançar patamar de excelência.

O que parece gênio ou criatividade pura resulta de muitos anos de entrega a práticas eficazes. Inicialmente, práticas são espontâneas, daí a importância do jogo de rua, mas depois é necessário treino sistemático, treino especializado.

Escrevemos um livro sobre futebol de rua em que entrevistamos várias personalidades do futebol, alguns treinadores e alguns jogadores brasileiros e alguns jogadores portugueses que jogaram nos mais altos patamares, sobretudo no estrangeiro – na Inglaterra, no Manchester United etc. Todos foram unânimes em considerar que é importante o treino sistemático com uma prática de futebol, digamos, livre, em que se aprende a jogar sem ninguém ensinar, a não ser o próprio jogo. É muito importante, é aí que se aprende a relação com a bola. No futebol ninguém ensina ninguém a passar, a arrematar, a controlar a bola, mas se podem criar condições para que as pessoas aprendam. Isso é o mais importante. O jogo de rua faz com que as crianças que o praticam desenvolvam essa alfabetização, para, depois, mais tarde, vir a ser grandes craques, grandes jogadoras ou grandes jogadores. Sem isso é muito difícil, mais tarde, ser criativo, ter uma relação com a bola diferente, para melhor, etc.

Não duvidamos, quando falamos com treinadores, com especialistas em futebol, que as pessoas olhem para um jogo de crianças e identifiquem talento. “Para mim, essa ou esse são talentos.” Mas o que queremos saber é o que elas ou eles veem quando identificam talento. “O que estamos de fato a identificar? O que é isso de talento, quais são os indicadores que usamos para perceber o que é ou não é talento?”

O que disse há pouco e quem tem condicionado muito esse processo que chamamos de detecção de talentos. Não gosto da expressão, porque parece que estamos a detectar tais, e não é detectar alguma coisa, passar um censor num código de barras e, se der um silvo, um apito, é talento; se não ser, não é. As coisas, de fato, não parecem ser assim. Grande parte dos indivíduos que se tornaram talentos em suas atividades não exibiram sinais precoces de talento. Isso é muito importante que vocês percebam.

Eu trouxe dois filmes para apresentar, mas depois vi que havia alguma incompatibilidade e os suprimi. Mas, a propósito disso, é incrível: eu apresentei um clipe com o Messi, aos 5 anos, em que se reparava que aquele menino era completamente diferente dos outros. A forma como ele jogava sobressaía. Ele era o menor, o mais velho, mas o mais habilidoso, era o que se sobressaía. Todos viam que estava ali, pelo menos, um prodígio. É importante que se distinga, por vezes há alguma confusão entre prodígio e talento. Um prodígio é alguém que até os 10 anos da idade biológica consegue resolver tarefas muito semelhantes às que os adultos conseguem resolver, da mesma forma ou de forma semelhante. Mas há muitos prodígios que, depois dessa idade, não conseguem tornar-se ou firmar-se como talentos; foram prodígios, mas não chegaram a talento. O Messi foi prodígio e chegou a talento; o Mozart, na música, foi prodígio – aos 4 anos compunha, interpretava – e prosseguiu como talento. Mas há muitos casos no mundo – a maior parte – de prodígios que depois morreram, não seguiram por várias razões, e tem a ver com as tais oportunidades, com acesso a treinos especializados, com a paixão pela atividade etc.

Esta é a grande questão: temos estado muito mais preocupados com a seleção do que com o desenvolvimento dos jogadores; andamos muito preocupados em selecionar, em ver quem está, quem é. Mas o mais importante, do nosso ponto de vista, é desenvolver primeiro para selecionar depois, e não o contrário. Temos feito o contrário. E quando digo nós, refiro-me ao mundo, não é o Brasil nem é Portugal. Tem sido uma prática corrente no futebol, andam todos atrás da pepita de ouro, e as coisas não são assim. A pepita, no caso do talento, é algo que se vai transformando, que se vai construindo, não é uma coisa que seja feita a princípio. Mesmo aqueles que revelam condições iniciais diferentes, precisam de trabalho, de acompanhamento, de treino, muitas vezes para não se perderem.

O problema da seleção está nos pressupostos. O primeiro equívoco é este: a melhor maneira de viabilizar os altos desempenhos é escolher os melhores e rejeitar os menos bons à data da seleção. Se tenho um grupo, vamos fazer um teste ou um jogo. Se esses são os melhores, ficam; os menos bons vão embora. As pessoas, habitualmente, o que dizem? “Não há problema, porque, se eles forem realmente bons, mais tarde aparecerão.” Em outras coisas não é assim.

Quando acredito ou seleciono indivíduos em bandos, com a chancela de que são talentos, essas pessoas serão alvo de um foco, melhor atenção, melhor treino, melhores treinadores, melhor competição. Ao fazer isso, estamos dando melhores condições. Aqueles que não foram identificados como talentos ficarão na penumbra e serão alvo de subdesempenho porque não têm tão bons treinadores, tão boas condições, a maneira como nos dirigimos a eles e os comentários que fazemos são completamente diferentes, e as expectativas vão modular o comportamento deles.

Isso quer dizer que, quando fazemos isso, estamos tendo uma tendência para classificar como talentos praticantes que ainda não têm suficiente tempo da instrução à prática. É óbvio que, se eu pegar dois vasos com plantas, olhar para um e para outro e dizer que essas sementes vão dar melhores plantas do que a outra, e coloco uma na garagem, na sombra, e outra no sol, regando e adubando, estancando o caule que começar a crescer, enfim, é óbvio que essa planta será muito mais viçosa, mais bonita, porque estou colocando meu foco ali. Há uma profecia que será autocumprida. As minhas expectativas serão obviamente satisfeitas porque estou colocando minha atenção e meu trabalho naquele campo e não no outro.

Uma das principais questões que têm preocupado os cientistas dos desportos e algumas pessoas que estudam isso é o efeito da idade relativa. Para quem já está identificado com isso, não é nenhuma novidade. Idade relativa e profecia autocumprida têm a ver com o fato de imaginarmos que, em uma temporada desportiva, estão jogando na mesma equipe meninos que nasceram em janeiro e outros que nasceram em dezembro. A distância de maturação de um ano é muito significativa quando falamos de meninos de 10, 11, 12 anos. Muitas vezes o que identificamos não é talento, é maturação. São estágios maturacionais mais avançados, por isso identificamos focos positivos. Mas como vamos dar-lhes mais atenção? Eles vão chegar mais acima do que os outros.

Esse é um grupo de seis crianças de um clube em Portugal. Foram identificados como talentos os três mais altos. O treinador, que era meu estudante, resolveu falar com os diretores e dizer não. Decidiu manter as três crianças que queriam mandar embora, os menores, porque tinham habilidade e muita vontade de progredir, muita paixão. E esses três meninos agora estão jogando na primeira liga portuguesa, enquanto os outros três maiores desapareceram. Há muitos casos como esses. Eram três falsos negativos e três falsos positivos, que iam ficar.

Estou dizendo isso para pensarmos que, muitas vezes, os treinadores se regozijam, dizendo: fui eu que acompanhei e lancei o Neymar. Podemos perguntar quais foram os outros lançados por borda fora. Não sabemos. É mais difícil saber. Mas, de fato, todos nós, incluindo eu, que também já estive nessa situação, mandamos crianças embora que provavelmente teriam potencial para chegar a talento. Isso é algo que nos preocupa.

Se vocês repararem aqui, foi feito um estudo muito importante sobre os efeitos de idade relativa no Campeonato Português, na liga portuguesa, nos três grupos considerados mais significativos em Portugal – Porto, Benfica e Sporting. Os círculos maiores significam a porcentagem de jogadores nascidos no primeiro semestre, e os círculos menores significam os jogadores da primeira liga que nasceram no segundo semestre. Como é óbvio, os jogadores que nasceram no primeiro semestre têm maior probabilidade de ser identificados como talentos, porque são maturacionalmente mais avançados. É o que isso nos diz, mas há muitos estudos como esse mundo afora, centenas deles, que provam isso, não é nenhuma novidade. A seleção de talento precede o desenvolvimento, quando deveria acontecer precisamente o contrário, como há pouco conferimos. É essa a nossa convicção.

David Shenk, que tem um livro editado no Brasil, que comprei no ano passado quando participei de um congresso em Pelotas, diz o seguinte, baseado em evidências e em alguns estudos: “Os atributos necessários para um amplo desempenho em idades baixas não são os mesmos que impulsionam o desempenho na vida adulta”. Então, por que temos de utilizar critérios para identificar talentos em idades baixas que são, digamos, decalcados do rendimento que queremos para a idade adulta? Temos de olhar para eles com outras lentes, com outras diferenças.

A riqueza e a diversidade dos estímulos recebidos são essenciais para se possa consumar a atualização do talento. Daí que a seleção não pode preceder o desenvolvimento, a não ser quando não temos outra possibilidade – quando nos dizem, por exemplo: “Temos 200 crianças e não podemos fazer mais nada a não ser ficar com 50 e mandar embora os outros 150”. Nesse caso, não nos resta nada a fazer. Mas, se pudermos manter as 200 crianças praticando, para ver como evoluem, quem vai dizer qual delas é ou não um talento não sou eu, mas elas mesmas. Com a forma como reagem, como respondem ao treino e às adversidades, como reagem ao fato de serem ou não escaladas para jogar, enfim, como reagem à frustração é que vai nos dizer quem pode chegar lá e quem não tem condições para isso.

Então, do nosso ponto de vista, o mais importante é criar boas oportunidades de exposição ao treino e à competição. O criar boas oportunidades implica que tenhamos gente capaz para fazê-lo. Ou seja, sem uma boa formação de treinadores, não é viável, do nosso ponto de vista, formar jogadores para a excelência, com a proficiência que pede um futebol cada vez mais exigente em vários aspectos – dos pontos de vista cognitivo, físico e até social, relacional. Não é possível formar esses jogadores se não consensualizarmos de fato a importância da boa formação do treinador.

Então, que condições podemos criar para que os talentos despontem e evoluam? Essa é a pergunta que acho importante fazermos, em vez de nos perguntarmos onde estão os talentos.

O Sr. Arsene Wenger, treinador do Arsenal há muitos anos, mais de duas décadas, diz: “Young players need freedom of expression to develop as creative players... They should be encouraged to try skills without fear of failing”. Isso é muito importante. Então, o que estamos a fazer agora, com uma febre de criação de escolas? Elas até podem ser importantes, mas é mais importante percebermos o que essas escolas podem proporcionar aos jovens jogadores e às jovens jogadoras para que cheguem lá em cima e não que comecem a tecnicizar em demasia o processo de ensino e treino. Primeiro, deve-se brincar de futebol; o treino pode esperar. O treino tem que aparecer mais tarde, em vez de se começar logo com a apresentação de esquemas e princípios que intoxicam os meninos e as meninas que estão começando a jogar e os fazem perder o gosto pelo jogo e o gosto pela aprendizagem, o que vai impedi-los de serem criativos mais tarde, de tão reprodutores de padrões e princípios – não passam disso. Do nosso ponto de vista, isso é muito importante.

Então, entre as práticas não formais está o futebol praticado nas ruas, que na Europa – não conheço bem a realidade daqui – está nomeadamente em vias de extinção, obviamente pela supressão dos espaços, por outras solicitações que as crianças vão tendo, que são completamente diferentes e que muitas vezes as privam de ter uma estimulação motora, como tínhamos em nosso tempo, brincando nas ruas. Mas o futebol de rua é um exemplo de como uma atividade auto-organizada e não formal pode ser educativa e proporcionar prazer a quem a prática. Ou seja, mesmo que não esteja ninguém ensinando ali, eles ou elas estão aprendendo com o jogo, e isso é muito importante.

Aqui está o livro a que me referi há pouco sobre o futebol de rua. Nele, questionamos isso e conversamos com vários atletas e ex-atletas, treinadores e ex-treinadores sobre a importância de terem praticado, digamos, um futebol mais informal e, depois, o treino mais sistemático e outras coisas práticas formais, que obviamente são extraordinariamente importantes. É que poderemos saltar, digamos assim, um conceito ou uma instituição que nos parece muito importante.

Quando estamos a falar em talento, de criar a oportunidade, a ideia é olhar um pouco para aqueles que são os denominados viveiros de talento que estão pelo mundo afora. Há um senhor, que devem conhecer, um americano chamado Donald Coyle, que passou cinco anos da sua vida a visitar aquilo que denominou de viveiros de talento: no tênis; no futebol, veio ao Brasil, foi à Rússia verificar alunas de tênis que eram consideradas fora de série, de onde saiam mais mulheres tenistas, por ano, do que nos Estados Unidos ao longo de 10 anos. Então ele disse “tem de ter alguma coisa diferente, vou ver”. Uma professora de piano que foi professora dos melhores pianistas do mundo: “Vou lá ver”. Ou seja, ele foi àquilo que considerou viveiro de talentos e visitou esses países.

E nós devemos nos preocupar com isso, em criar boas condições, tentar identificar o que têm esses viveiros de talentos que proporcionam o aparecimento ou o desenvolvimento de pessoas, dos jogadores, que as capacitam. São as chamadas, se quisermos, empresas qualificantes; quem lá entra corre o risco de se tornar melhor.

E este é um deus, Ajax Amsterdam. O Ajax, nesse momento, como sabem, já foi uma grande equipe. A equipe absoluta dos seniores. Esteve, no tempo do reino do Sr. Rinus Michels, foi considerado o treinador do século pela Fifa. No tempo da Laranja Mecânica, que depois foi treinador da seleção nacional holandesa. Nessa altura tinha uma expressão forte nos seniores. Nesse momento não. É uma equipe que não tem muita visibilidade nesse nível, vai à Liga dos Campeões e não aparece, desaparece. Vai às primeiras fases e depois desaparece. Mas é o melhor celeiro atual, o melhor celeiro dos jogadores do mundo. Os jogadores formado no Ajax, nesse momento, jogam em qualquer modelo de jogo no mundo. Isso quer dizer muito, quer dizer que têm uma formação que lhes permite jogar em diferentes, digamos, com diferente filosofia, diferentes concepções. Têm uma cultura tática, uma cultura de trabalho, uma cultura de treino e uma cultura, digamos, desportiva, que lhes permite estarem pelo mundo e, digamos, conseguirem uma proficiência muito alta. Isso é muito importante.

O outro, queria me referir a este senhor, Ruben Jongking, esteve em Portugal há pouco tempo e ele dizia que no Ajax nem sempre a filosofia foi essa da formação dos jogadores, de apostar muito na formação. Dizia ele: “A nossa forma de pensar mudou do ganhar para o desenvolver”. Ganham algumas coisas, mas perdem outras, mas depois temos de saber o que um grupo pretende. Porque, se nós começarmos a pensar, e muitas vezes esse argumento aparece: “Sim, formam jogadores, mas depois não ganham nada”. Só que depois temos o outro exemplo, que é irrefutável. Estive lá há duas semanas, em La Masia, para entrar em contato um pouco com essa realidade. Eu tinha lido muita coisa, conversado com muita gente, muitos treinadores, mas nunca havia estado, digamos, algum tempo lá imerso, o que é diferente. Estive lá e, de fato, para mim, este é o modelo dos modelos. Embora neste momento talvez as coisas, o nível das equipes tendem a modificar um pouco, devido a políticas de contratações, mas não me compete falar sobre isso agora. Mas a formação mantém o seu padrão e é de fato uma escola fantástica que produziu, entre 2019 e 2013, o que eu considero um dos melhores futebol de sempre, e que resulta em sete jogadores formados em La Masia, que foram campeões do mundo, campeões da Europa, que ganharam várias ligas, ganharam tudo que havia para ganhar, inclusive um treinador que lá foi formado, Pep Guardiola, que ajudou a equipe a chegar aonde chegou. Portanto, o que viemos perguntar é será que em La Masia existem genes especiais ou dons divinos? Por que aprecem lá tantos talentos? Deve haver genes especiais. Ou trata-se de contextos qualificantes que transformam positivamente quem os vivencia.

O fato é que, quem vai lá ver e quem vê aqueles meninos treinarem e jogarem: a sistematização dos conteúdos, a preocupação com os primeiros anos, de serem práticas mais informais e depois adquirirem competências para jogar em mais alto nível, percebe que, de fato, aquilo é um contexto muito rico, que melhora e vai melhorar seriamente as pessoas que lá entram. Então essa é a questão: procurar talentos ou formar para o talento? Quase a terminar. Isto é aquilo a que nos propusemos, de alguma maneira, a sustentar. É preciso favorecer uma cultura de excelência, estando atento ao que é mais importante em cada momento.

Nem sempre o que é importante no início da prática de futebol é o que será importante mais tarde. Temos de ver o que se vai manter, o que é transversal e o que é diferente. E essa diferença varia com muitas coisas nomeadamente com as culturas, com a cultura de cada país, a cultura de treino, a cultura de competição, a forma como as pessoas veem o fenômeno esportivo, nesse caso o futebol.

Então, é importante perceber quem vai regulando capacidade e vontade para poder tornar-se talento. Como disse no início, pode-se chegar por vários caminhos. Temos de ser capazes de escolher o nosso. O Brasil tem de ser capaz de escolher o seu caminho para conseguir voltar a ser e a dar ao futebol aquilo que já deu. Ele tem num potencial incrível. É importante que as pessoas reflitam, e provavelmente esse é um dos debates que podem ajudar nisso, mas não sou propriamente a pessoa mais indicada. O meu contributo é muito, digamos, lateral, porque não conheço bem a realidade. Mas parece-me extraordinariamente importante que se pense um pouco por que muitas vezes uma equipe ou um conjunto de jogadores que tanto prometem não concretiza, digamos assim, o potencial. O que se passa? Entendo que uma das coisas que podem ser mais perniciosas ao futebol, que pode se emancipar e é diferente, como é o caso do brasileiro e do africano, é a ilusão, a tentação perversa de copiar e importar modelos europeus. As pessoas têm de encontrar o seu caminho de acordo com idiossincrasias, particularidades, sua história, e aproveitar o que tem de melhor para crescer ou continuar a crescer. Essa é a minha ideia. De fato, a ausência de prática e a má prática são os maiores inimigos do talento.

Esses livros que alguns, ou muitos provavelmente, já conhecem são muito interessantes para quem quiser aprofundar mais sobre essas questões da forma como o talento pode crescer, digamos, em diferentes atividades.

Essa comunicação ficará aqui disponível para depois os senhores terem acesso a ela, com calma, e verem os livros, por isso passei tão rapidamente.

Então, a ideia é essa. O que temos feito no talento é desempenhado o papel de caçadores, ou seja, andamos à caça de talento. Entendo que devemos ser mais fiscalizadores, buscar, encontrar uma boa isca, escolher uma boa forma de lançar, digamos assim, o anzol e esperar que venham criar condições a fim de que surjam mais peixes para que possamos pescá-los, e não andar tanto atrás de coisas que, por se andar tanto atrás, muitas vezes fogem. É melhor pescar do que caçar talentos, no nosso ponto de vista.

Em síntese – estou quase terminando –, o talento se aprende – essa é a nossa convicção. Não é algo que esteja lá, mas que se tem de aprender, atualizar e ir, digamos, desenvolvendo; requer ambientes estimulantes; necessita de tempo para se exprimir – isso é muito importante. É como um bom vinho. Posso ter boas uvas, mas beber um vinho feito de boas uvas no fim do ano não é a mesma coisa que se ver passar cinco ou seis anos, em que se precisa de um tempo de maturação; não cresce se não lhe damos atenção. Mas há o efeito perverso: excessiva atenção sobre uns desvia a atenção a dedicar a outros. É importante que tenhamos isso em mente.

Então, eu diria que não há escassez de talento, mas há abundância de talento latente. Depois muita coisa dependerá da nossa forma de antever e das possibilidades que temos de criar oportunidades ou desperdiçá-las.

Então, em termos práticos, como se pode semear talento e minorar os tais erros de seleção. A ideia é esta: aumentar a base de praticantes; favorecer cultura de excelência – isso implica ter pessoas bem formadas, e não acredito que se possa ter uma boa formação sem pessoas bem formadas à frente dessa formação –; dar tempo a que possa exprimir-se; e estar atento aos efeitos ilusórios da maturação – essa é uma que todos defendemos na teoria, mas depois, na prática, é mais difícil de se levar a cabo; não hipervalorizar os resultados desportivos.

Não quero, com isso, que se deve dizer aos meninos ou às meninas que não importa ganhar, o que importa é participar. Não! Quando se joga deve-se jogar sempre para ganhar, sempre para fazer o melhor. Não devemos desmoralizar ou desmotivar as crianças, até porque depois não acreditarão nisso. E ficamos do outro lado da barricada.

O importante é não acelerarmos o processo para ganhar. Isso é outra coisa, é outra faceta. O formador, o treinador precisa ver essas prioridades. E, depois, quando terminar, é algo que por vezes vai ficar até para identificar ou ajudar a acumular talentos. Por outro lado, é preciso que os próprios treinadores acumulem talento também e façam o seu trabalho. Que eles próprios tenham sua formação, atualização de competências, reflitam, pensem sobre isso e desenvolvam processos que tenham marca própria. É inevitável. Vemos que as pessoas que estão a nossa frente são pessoas que têm ideias próprias, que ouvem, que aprendem com todos, mas depois encontram o seu caminho, um caminho original.

Queria terminar agradecendo muito a atenção de vocês. Espero que minha fala tenha ajudado. Espero que vocês possam comungar de algumas questões ou até discordar delas. Muito obrigado a todos e a todas.

– No decorrer de seu pronunciamento, procede-se à exibição de slides.