Pronunciamentos

RODRIGO PIMENTEL, Autor do livro "Elite da Tropa". Consultor de Segurança. Ex-Capitão do Batalhão de Operações Policiais Especiais - BOPE - do Estado do Rio de Janeiro - RJ. Comentarista da área de segurança da Rede Globo de Televisão.

Discurso

Comenta o tema: "Defesa Social".
Reunião 8ª reunião ORDINÁRIA
Legislatura 17ª legislatura, 1ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 05/03/2011
Página 85, Coluna 1
Evento Fórum Democrático para o Desenvolvimento de Minas Gerais.
Assunto SEGURANÇA PÚBLICA. DESENVOLVIMENTO SOCIAL.

8ª REUNIÃO ORDINÁRIA DA 1ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 17ª LEGISLATURA, EM 17/2/2011

Palavras do Sr. Rodrigo Pimentel




Passaremos a palavra agora ao Rodrigo Pimentel, a quem agradecemos muito pelo esforço. O Rodrigo está com a agenda cheia; participou de um programa no Rio de Janeiro, no horário do almoço, e fez questão de ainda vir para cá. Ele é consultor em segurança, escritor e ex-integrante do Bope. Em nome da Assembleia Legislativa e de todos os participantes deste fórum, agradecemos muito pela sua presença, Rodrigo, especialmente pelo esforço feito para estar aqui conosco. Muito obrigado.

Palavras do Sr. Rodrigo Pimentel

Deputado João Leite, obrigado pelo convite. Agradeço também a todos que estão nesta Mesa. Na verdade, diariamente sou comentarista do “RJTV”, da TV Globo.

Tivemos mais um problemão no Rio de Janeiro, entre tantos que ocorrem naquela cidade. Espero que esse seja o último. Muitos policiais civis e militares - não sei se acompanharam - foram presos, o que causou desconforto à cúpula de segurança. O caso virou notícia e, se é notícia, precisa ser debatida para que possa gerar reflexão e promover mudanças. Eu comentava hoje no RJTV esse fato bastante desagradável.

Sou ex-policial militar do Batalhão de Operações Especiais e autor do filme “Tropa de Elite 1” e do argumento de “Tropa de Elite 2”. Fiz o roteiro do 1, mas não o do 2. Escrevi dois livros, que são “best sellers”, sobre segurança pública. Tentarei de alguma forma contribuir com o debate. Todo debate sobre segurança pública gera transformação e reflexão. Este momento, então, já é o início de um processo de mudança muito positivo.

Deputado, o senhor falou sobre campos de futebol iluminados. Não temos nenhuma certeza sobre segurança pública, tema que começamos a estudar no Brasil há aproximadamente 17 anos. São pouquíssimos os doutores em segurança pública. A única coisa que sabemos é que a mancha criminal se aplica exatamente a um mapa de falta de alternativas de esporte, lazer, educação e cultura.

Essa é a única certeza que temos. Alguém pode dizer: “Pimentel, e a desigualdade social?”. Não temos essa certeza. Hoje os bairros do Rio de Janeiro de maior desigualdade social são os mais seguros da cidade, como Ipanema, São Conrado e Copacabana. Se a lógica da desigualdade social produzisse violência urbana, esses seriam os bairros mais violentos da cidade. Diriam: e o desemprego? Não, o Rio de Janeiro, que hoje é a cidade do Brasil com a segunda menor taxa de desemprego, é muito violenta. Então o desemprego, de forma isolada, não determina a violência. Perguntarão: o que é então? Não se sabe, estamos pesquisando, identificando.

No início do século XX tivemos problemas no Rio de Janeiro: a malária e a febre amarela. Antes de combatermos essas doenças, fundamos a Escola Nacional de Saúde, onde formamos nossa crítica e entendemos o problema, que era o mosquito. Assim, desenvolvemos várias soluções, como a de limpeza urbana, de remoção de pessoas, a qual foi um pouco ruim, pois surgiram as favelas. Houve a solução da vacinação e várias outras soluções. Primeiro formamos nossa crítica, depois buscamos entender o que estava acontecendo. Na segurança pública, o que houve foi tentativa e erro, tentativa e erro, tentativa e erro. Agora, vamos aprender com os fracassos e sucessos dos amigos, dos companheiros. Buscaremos soluções e tentaremos entender o que aconteceu.

Dra. Andréa, há aproximadamente dois anos acompanhamos o caso de um Delegado de uma cidade do Rio de Janeiro, Nova Iguaçu. A senhora conhece essa história. O Dr. Zaccone tinha 70% dos presos - até mesmo de condenados - em sua delegacia, que funcionava como carceragem. A cidade não possuía um presídio. Ele resolveu alfabetizar esses presos. Para isso, contou com a ajuda do Município, que cedeu os professores e, depois, montou a biblioteca. No ano seguinte, ele teve índice zero de fugas. Acabou com a fuga, com os motins, e a cidade teve uma queda de 12% do número de homicídios. Ele reduziu a taxa de reinserção, de volta do preso à cadeia.

Alguém pode perguntar: “Doutor, quanto custou essa solução?”. Não custou nada. O Município tinha o professor, e os livros foram doados. Não se tratava de uma solução do Estado nem da União. Não foram necessárias ações do Ministério da Justiça nem do Pronaf, mas sim o entendimento de um Prefeito, que hoje é Senador, o Lindberg, e de um Delegado de Polícia, Orlando Zaccone, que hoje é responsável pelas carceragens da Polícia Civil do Rio de Janeiro, que ainda possui carceragens.

Ainda não estudamos o que está acontecendo. Entrei para a polícia logo após a queda do Muro de Berlim. Existia no mundo a ideia da guerra às drogas. O novo inimigo mundial do mundo ocidental não era mais o comunismo, mas as drogas. Desenhava-se a Operação Colômbia. Os Estados Unidos destinariam bilhões de dólares para enfrentar a cocaína na Colômbia, para que ela não chegasse ao seu quintal.

Isso foi reproduzido no Brasil, mais potencializado no Rio de Janeiro, com incursões diárias nas favelas de lá. Centenas de policiais e milhares de jovens morreram nessa guerra, uma média de 400 policiais por ano mortos no Rio de Janeiro em operações policiais. Centenas de inocentes, balas perdidas, com operação só em favela. Íamos buscar o resultado palpável disso. Sabemos hoje que, com muita operação policial, muita energia e muita morte, conseguimos retirar 10% da cocaína que estava circulando. Se tiro 10% da cocaína que está circulando, não consigo produzir sequer a inflação do produto. O produto continua com o preço estabilizado. Então para que isso? Bom, então vou retirar as armas da favela. Realizarei centenas de operações com foco nas armas. Mas as armas continuam entrando via Paraguai, e o Brasil continua exportando armas para o Paraguai. Engana-se quem acha que o AR-15 e o AK-47 são armas de bandidos. A arma dos bandidos é a pistola Tower fabricada em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. A munição do bandido é CBC.

Quando a polícia do Rio de Janeiro tomou o Complexo do Alemão, toda a munição apreendida era fabricada em São Paulo e exportada legalmente para o Paraguai. Será que aquela operação foi tão bonita? Fui o primeiro a aplaudir, entusiasmado - sou entusiasmado mesmo - com a recuperação de um território. O Alemão é uma cidade de 220 mil habitantes. Seiscentos bandidos que o aterrorizavam instalaram ali uma ditadura. Lógico que aplaudi, sou um entusiasta. A população gostou. Fui ao Alemão e pude ver que a população adora uma operação policial, apesar de alguns policiais realizarem saques, invadirem casas, roubarem televisores. Mas tudo bem, os moradores gostavam. Acabou a era do morador subjugado.

Quinze dias após a operação do Alemão, uma Delegacia de Repressão ao Crime Organizado realiza uma operação e prende policiais militares e civis que vendiam armas para o Alemão. Será que a operação do Alemão era necessária ou era necessária uma depuração do aparato policial do Rio de Janeiro? Já que o Alemão chegou àquele nível, a operação do Alemão era necessária. Mas depois vamos focar no aparato policial. É evidente que o Rio de Janeiro só chegou a 600 bandidos numa favela em função da polícia. Mas que polícia é essa? Vamos imaginar uma Polícia Civil que teve cinco chefes nos últimos cinco anos, sendo que dois presos e condenados, um a 28 anos de cadeia e outro a 12 - Álvaro Lins e Ricardo Hallak. O Subchefe foi preso anteontem. Então, do “staff” da Polícia Civil do Rio de Janeiro, há três presos em cinco anos, em nível de chefe e subchefe, e há cinco afastados. Não vamos prejulgar porque logicamente estão sendo investigados ainda, mas pode ser que outros chefes de polícia sejam presos.

Será que o problema está no homem? Será que ele é uma maçã podre ou é o cesto que está contaminando a maçã? Será que essa polícia tem controle, tem transparência, tem salário digno? O Governador nomeou uma Delegada muito boa ontem no Rio de Janeiro, a Delegada Marta Rocha, por quem tenho carinho. É uma pessoa doce e muito competente, conhece muito a polícia e tem uma história de lisura. Mas ela está indo para uma estrutura contaminada. Está-se assentando em uma cadeira em que cinco pessoas se assentaram nos últimos cinco anos e foram exoneradas, e duas foram presas. Essa é a nossa grande discussão.

Posso falar um pouco de Tropa de Elite, do livro e do filme. Tenho que promover o debate para haver mudança. Então fazemos um roteiro. Não vou dizer que o primeiro roteiro foi um fracasso. Pergunto quem viu o Tropa de Elite pirata. Sessenta e seis milhões de brasileiros viram, e aqui foram só duas pessoas.

Conseguimos. O filme não foi um sucesso no cinema, mas o foi na pirataria. Atingiu 60 milhões de brasileiros. Tivemos a promoção do debate em vista do filme. Se é obra de ficção ou não, verificamos ali uma polícia politizada, em que Deputados indicavam chefes de polícia e Comandantes de batalhões. Houve a promoção de uma mudança. O Governador do Estado, assim que assumiu, proibiu Deputados de indicar Delegado e Comandante de batalhão. Conseguimos, assim, com o filme, uma mudança significativa para a polícia do Rio de Janeiro.

O “Tropa de Elite 2” teve 12 milhões de espectadores. Evitamos a pirataria tomando alguns cuidados. Assistiram a ele, possivelmente, as classes A, B e C, pois a classe D não vai ao cinema, lamentavelmente por ser muito caro. Apresentamos a milícia ao Rio de Janeiro e ao Brasil. Até então as pessoas as entendiam como aquela novela da Globo em que havia a favela da Portelinha. Ali havia um cara gente boa, representado pelo Antônio Fagundes, um justiceiro de uma comunidade. Descobrimos que esse justiceiro criava um curral eleitoral, andava armado, matava e cobrava taxa de proteção. Expulsava, sim, os traficantes, mas adotava os seus hábitos, explorando a venda de bujão de gás com ágio de 25% talvez, o sinal de TV a cabo e obrigava o morador a tê-lo. Descobrimos, também, que o homicídio no Rio de Janeiro estava caindo como um todo. Não sei se o homicídio em BH está aumentando ou caindo. No Rio de Janeiro, nas regiões dominadas pelo tráfico, a taxa de homicídios está caindo, mas aumentando nas regiões dominadas pela milícia. Descobrimos, depois, que parte significativa da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro foi tomada por esses milicianos. Se não fosse tomada alguma providência, algo em torno de 20% da Alerj seria hoje formada por milicianos. Mas a parte boa das Polícias Militar e Civil do Rio de Janeiro que não foi contaminada prendeu esses Deputados. Pela primeira vez, a Polícia Civil do Rio de Janeiro consegue alcançar um Deputado, e da base do governo, o qual frequentava o gabinete do Governador havia pelo menos seis meses antes da prisão, ou seja, o Governador deu independência a essa polícia, o que nunca havia ocorrido no Estado.

Então temos uma polícia independente, o que ajudou um pouco e freou essa milícia. Temos um polícia ainda com um salário muito ruim, com pouca transparência e com pouco controle. Corrupção no mundo todo se combate com transparência, controle e salário digno. Nada mais enfrenta a corrupção.

Estamos caminhando. Descobrimos que o verdadeiro inimigo do Rio do Janeiro, o inimigo potencial já não está nas favelas, mas dentro dos aparatos policial e governamental. É isso que é o “Tropa de Elite 2”, o filme que vem com o lema “O inimigo agora é outro”. Ontem o José Padilha estava apresentando o filme no Festival de Berlim e lhe perguntaram se haveria o “Tropa de Elite 3”. Ele disse que já estava acontecendo em tempo real no Rio de Janeiro, não precisava, portanto, fazê-lo. Na verdade, estou fazendo o roteiro, foi um dos motivos que dificultou a minha vinda aqui hoje. Além da Rede Globo, estou envolvido no roteiro do terceiro filme. É difícil escolher, porque a cada dia se tem uma história nova.

O aprendizado é que temos o debate sobre a violência, como o que estamos tendo aqui, a produção de massa crítica. Temos de formar pessoas que não são policiais militares nem Delegados. Lamento, colegas policiais militares, não somos especialistas na dinâmica da violência, não entendemos como ela acontece, como ocorre e por que surge. Quem estuda esse fenômeno é o pesquisador urbano, que vai entender o motivo pelo qual a violência está surgindo em algum ambiente.

O “crack” chegou ao Rio de Janeiro para valer nos últimos cinco anos, somente por uma facção criminosa, o Comando Vermelho. O ADA e o Terceiro Comando não vendem “crack”. É até interessante. Quando chegamos a uma favela dominada pelo ADA, há uma faixa gigantesca: não insista, não vendemos “crack”. Isso ocorre em Vigário Geral, por exemplo. A polícia não tirou.

Mas o “crack” chegou ao Rio de Janeiro, e o número de roubos de rua está caindo, assim como o homicídio. Talvez isso ocorra em função de políticas públicas bem-conduzidas. Mas o “crack”, que no mundo todo fez aumentar o número de roubos de rua e o latrocínio, no Rio de Janeiro não teve esse efeito. É uma dinâmica que temos de estudar, pesquisar e entender. O filme, o debate e a conversa podem conduzir a esse caminho.

Citarei o Estado do Piauí, pois é interessante. Historicamente, a esquerda dizia: “Não vamos aumentar o efetivo da polícia nem investir em cadeias porque a violência acaba quando dividimos o bolo e acabamos com a desigualdade social.” Observando o Piauí, ele foi, no governo Lula, o Estado de maior transição entre classes sociais, ou seja, mais pessoas saíram das classes E e D e migraram para a C. É o Estado onde foram gerados mais empregos relativos no Brasil; que mais enriqueceu relativamente no País nos últimos oito anos; e onde a violência mais aumenta. Então, o Piauí prova que não existe nenhuma relação entre desigualdade social, pobreza, geração de renda e violência. Partiremos para soluções práticas.

Hoje existem muitos Deputados neste Plenário que, se Deus quiser, daqui a dois anos serão Prefeitos em vários Municípios do interior. E esperarão uma solução dos governos estadual e federal, mas não sabem que a solução local é a mais eficaz, mais barata, mais próxima do local onde vivemos. Não é preciso esperar o Estado, mas buscar uma solução local, que pode ser iluminação ou, até mesmo, circuito tecnológico de “set” de TV.

Por que São Paulo e não Minas Gerais, por que São Paulo e não Rio de Janeiro, por que São Paulo e não Rio Grande do Sul está tendo os melhores números de redução da violência no País? Porque os Municípios desse Estado perceberam isso há 20 anos. As Prefeituras se engajaram num processo de redução da violência. São casos maravilhosos, independentemente de orientação política e partidária. Há o belo caso de Diadema, de Praia Grande e de várias cidades de São Paulo, onde os Municípios assumiram que segurança pública é um problema local.

No Rio de Janeiro tínhamos um equipamento cultural chamado Lona Cultural, do ex-Prefeito César Maia. Eram lonas circenses, baratíssimas, que ele instalava em regiões de IDH baixo. O local onde as lonas eram colocadas deveriam ter iluminação em seu entorno, não era possível colocá-las no escuro. A partir disso, as pessoas começavam a circular e a frequentar o local, tendo uma opção de lazer e cultura à noite a preços baixíssimos. Os “shows” eram feitos por bons cantores da MPB, não por um qualquer. Eram pessoas ou bandas que se apresentavam na Zona Sul, Ipanema ou Copacabana, bandas como Titãs ou Paralamas, que cantavam em uma lona de realeza a R$4,00, R$5,00 ou R$6,00 o ingresso, subsidiado. Um ano depois, na primeira vez que o estudo de segurança pública publicou o número de homicídios, descobriu-se que, no entorno das lonas, esse número havia caído. E não havia polícia, eram apenas lonas culturais.

Dizem: “Pimentel, parece ingênuo o que está falando, pois o Rio de Janeiro é uma cidade que tem bandidos que usam fuzil”. É lógico que tem. O Globocop filma a fuga dos 600 bandidos com fuzis, sendo que para apenas 150 havia anotações criminais; os outros 450, se a polícia os prendesse, meia hora depois não poderia levá-los presos, pois não havia nenhum inquérito policial arrolado. Ou seja, era um jovem qualquer que largou sua arma no chão, tomou um banho e foi para a casa, e estão lá no Alemão até hoje. Sei quem são, pois vou ao Alemão com certa frequência. Aquele que não olha no meu olho, que baixa o olho e tem vergonha de me olhar, sei que é bandido. Alguns conversam comigo; eles não sabem, mas dizem claramente que sua opção pelo bandidismo é cultural, que queriam ser do Comando Vermelho ou do Bope, era o seu sonho. Falam isso. Olha que coisa doida. É lógico que ele quer “status”, o fuzil, a menina bonita. Isso Alba Zaluar explicou há 15 anos nas pesquisas antropólogas.

Quando MV Bill, que é “rapper” e não sociólogo, fez o filme “Falcões”, entrevistou 100 jovens no Brasil e perguntou: “Por que você entrou nesta vida?” Respondiam: “Entrei nesta vida porque queria um ‘ipod’, um tênis Nike, uma Honda Bis, um cordão de ouro.”

Ninguém responde que entrou nessa vida porque estava passando fome. Isso é impressionante. Disse-lhe: “Você devia tabular isso, fazer disso uma obra científica, porque essa é a realidade do crime das Capitais brasileiras. Há materialismo, uma necessidade de pertencer a algo especial e bonito.” O roubo famélico, como no “Os Miseráveis”, de Victor Hugo, não tenho visto no Rio de Janeiro. Não sei se ocorre em outros Estados do Brasil. Talvez em Minas Gerais sim, mas, no Rio de Janeiro, certamente não. Aliás, o que ocorre no Rio é uma inversão de valores, de ideias, de necessidades de pertencer e ter algo, e de partir para a vida do crime.

Por isso, doutora, acredito na recuperação. Trabalhei com ex-bandidos no filme “Tropa de Elite”. Na empresa da minha esposa, havia um ex-bandido trabalhando, o Romerito do filme “Tropa de Elite 1”. Quando terminou a sua prisão, levei-o para trabalhar comigo. Portanto acredito que dá para fazer. Na verdade, tem de ser feito sem conservadorismo, muita calma, paciência e isenção.

Finalizando, gostaria de falar para os senhores o que está acontecendo hoje no Rio de Janeiro. Em busca de resultados imediatos, a Polícia Civil do Rio foi buscar na Polícia Militar o que tinha de pior, como policiais que haviam sido excluídos por desvio de conduta e chacinas. Na verdade, montou uma equipe especial na Polícia Civil de 40 policiais militares a sua disposição - aliás, estavam na Polícia Civil há 10 anos. Esses policiais militares trabalhavam nas delegacias especializadas da Polícia Civil em combate na favela, a Delegacia de Combate às Drogas e a Delegacia de Repressão a Armas e Explosivos. Entretanto, a Delegacia de Repressão ao Crime Organizado, que é a delegacia do filme “Tropa de Elite”, descobriu que, ao mesmo tempo que apreendiam armas e faziam prisões espetaculares de 10, 15 bandidos, essas delegacias revendiam-nas para outras facções. Tudo isso está constatado nos grampos telefônicos. Aliás, é absolutamente louco ouvirmos um policial dizer, numa conversa, ao traficante: “Monte um negócio aí para ficarmos bem na televisão hoje”. Esse era o nível do diálogo. O Chefe de Polícia foi exonerado. Não é razoável afirmarmos aqui que estava envolvido, mas os homens envolvidos estavam lotados em seu gabinete. Batemos palmas para essa equipe. Aliás, confesso que bati palmas quando essa equipe invadiu o Morro do Alemão no dia 28 de novembro: “Parabéns! É isso mesmo. Tem de ser assim”. Não tinha nem de chegar naquele nível. Se aquela equipe não existisse, o Alemão não chegaria naquele nível. Ficamos sem conhecer isso, pois o nosso jornalismo investigativo policial é precário. Geralmente os nossos jornalistas investigativos policiais são quase policiais, pois são envolvidos pelos Delegados, Capitães e Coronéis, dão uma versão muito chapa branca e não sabem analisar o que está acontecendo, não sabem analisar profundamente o que não está funcionando. Logo, pensamos que estava tudo bem, mas, na realidade, estava tudo muito mal, ruim. Quem pode analisar isso com mais profundidade é um livro, ou seja, uma obra literária, um filme. Assistam ao filme.

Quando fui a um outro Estado, um colega me perguntou: “Então é assim?” Respondi: “Não, não é assim, é pior, muito pior do que o filme ‘Tropa de Elite’.” Pelo amor de Deus! É muito pior. Na capa do jornal “Extra” de hoje, do Infoglobo, há quatro policiais militares - aliás, o mais velho tem 27 anos - negociando com a Polícia Civil um helicóptero e dois blindados para tomarem a Favela da Coreia, a fim de que lá fosse estabelecida uma milícia. Pelo grampo telefônico, vê-se que são policias militares. Para o mal, já estão absolutamente integrados. Dizem: “Ah! Vamos integrar as polícias”. Não é, pois já estão integradas. Mas, para fazer coisa boa e elaborar a redução do crime, não.

Mas a notícia boa, gente - e eu posso falar isso com grande tranquilidade -, é que, pela primeira vez, no Rio de Janeiro, tem-se uma política de segurança pública. Considerando-se tudo o que eu disse aqui, temos um Secretário que está acima de qualquer suspeita, pela primeira vez. Porque o outro Secretário nosso, Deputado Federal, foi eleito com voto de milícia. Ele sabe que falo assim dele, sempre falo, que foi eleito com voto de área de milícia. O outro Secretário nosso foi condenado à cadeia, por formação de quadrilha. Eram dois Secretários: um eleito com voto de milícia, outro condenado, ex-Governador do Estado; e o chefe de polícia, preso. Pela primeira vez, no Rio, olhamos para a Secretaria de Segurança Pública e verificamos que existe ali uma seriedade, uma meta, um planejamento a longo prazo; conseguimos acreditar em quem está sentado à frente daquela Mesa. Essa é a notícia boa do Rio de Janeiro.

A outra notícia boa é que o número de homicídios no nosso Estado está caindo. Não como em São Paulo, que está com aproximadamente 9,8 homicídios para cada 100 mil habitantes. O Rio de Janeiro está com aproximadamente 35, mas já chegou a 50. Aqui está com quanto? Creio que Belo Horizonte está pior do que o Rio de Janeiro, não está, em números relativos? Quero saber o número de homicídios para cada 100 mil habitantes, por ano. Alguém tem esse dado? Sete seria na Suíça, em Londres. Gente, para um debate qualificado sobre segurança pública, temos de ter esse número na ponta da língua. Senão, mostramos que estamos parados no tempo. Eu só posso medir segurança pública por número de homicídios. Não tenho como medir segurança pública por número de roubos, número de furtos, mas só por número de homicídios. Todos os outros números são subnotificados, as pessoas não relatam tudo. Então, para que eu possa planejar segurança pública, tenho de saber o número de homicídios na ponta da língua. Todo Prefeito de Minas Gerais tem de falar: “Minha cidade está com 14 homicídios, com 16, 17”. É preciso ter uma obsessão pela redução desse número, buscando as mais diversas formas, as ideias mais inventivas, mais interessantes. É isso que tem de ser feito.

Não consigo ver as informações contidas nessas anotações. Não, esse não é o número de homicídios para cada 100 mil habitantes; pode ser no Estado. É possível que seja do Estado. O número da Grande Belo Horizonte não consta aqui.

A Sra. Geórgia Ribeiro Rocha - Aproximadamente 17 a 18 no Estado e, em Belo Horizonte, na Capital, cerca de 27 a 30.

O Sr. Rodrigo Pimentel - Perdão, em Belo Horizonte o número está abaixo do número do Rio de Janeiro. Para a Organização Mundial de Saúde, é considerada violência endêmica se houver acima de 10 homicídios para cada 100 mil habitantes.

O que foi feito no Rio de Janeiro? Pergunto isso para que vocês entendam o que é essa Unidade de Polícia Pacificadora - UPP. O Secretário de Segurança Pública entendeu que se retirasse a cocaína não reduziria a violência, e se retirasse a arma, ela entraria de novo. Então, concluiu: vamos retirar o território. Os bandidos brigavam pelo território; os homicídios eram praticados pela disputa territorial. Então, de nada adiantava realizar milhares de operações para retirar cocaína; de nada adiantava realizar inúmeras operações para apreender armas. O Secretário retirou do bandido o território. A UPP não é nada mais do que isso, Unidade de Polícia Pacificadora. Ao invés de a polícia subir e descer favelas todos os dias, matar gente, criar medo, pânico e confusão, a polícia chega, estabelece-se e não sai mais. Então, isso é a UPP.

Há críticas à UPP? Lógico que sim. Vou a debates, e há pessoas que falam: “Isso é uma mentira, é uma polícia perfumada, e tal”. Vou dar o exemplo da Cidade de Deus, uma favela do Rio de Janeiro com 65 mil habitantes, onde ocorriam 14 homicídios por mês. Isso dá aproximadamente 160 homicídios por ano, para 65 mil habitantes, cerca de 200 ou 300 homicídios para cada 100 mil habitantes.

A favela Cidade de Deus foi pacificada há 16 meses, e, desde o dia em que isso aconteceu, nenhum jovem morreu. Então, quem criticar uma iniciativa dessas deve ser um louco. Salvei 200 vidas humanas em 14 meses, mas há louco que fala mal: “Isso é uma porcaria. Não funciona”. O tráfico continua funcionando? Lógico que funciona. Existe a demanda. Há gente querendo cheirar pó, portanto, há pessoas para vendê-lo. Esse tráfico continua funcionando, mas desarmado, sem disputar território, sem matar, e, ainda assim, de vez em quando, um traficante é preso. A polícia prende em média dois ou três traficantes por semana na Cidade de Deus.

Vocês ouvirão críticas à UPP: “A UPP convive em harmonia com o tráfico”. Isso é uma mentira! Ela prende o traficante, reduz os homicídios, aumenta a especulação imobiliária, aumenta a economia local e começa a produzir empregos. Na Cidade de Deus, uma empresa formal é aberta por dia, desde o dia da pacificação. Ou seja, milhares de empregos já foram gerados depois da pacificação.

Não sei qual é o índice de furto em Minas Gerais. A Cemig poderia informar-nos depois. No Rio de Janeiro, 27% da energia comprada de Furnas é furtada. Só 70% dos cariocas compram energia. Já 30% dos cariocas furtam energia, deixando que os outros paguem a conta. Nas favelas pacificadas do Rio de Janeiro, o furto de energia fica em torno de 1%, ou seja, a lei chegou; a ordem chegou; o emprego chegou; a prosperidade chegou, enfim, tudo isso ocorre em função da segurança pública. Então, é um grande benefício para a cidade e o Estado.

Deputado, estou muito feliz por falar, mas confesso que estou cansado. Ontem eu estava na Bahia, cheguei ao Rio de Janeiro às 5 horas da manhã. Falei ontem na Bahia, no “Bom Dia Brasil” da Rede Globo e também no “RJ TV”. Já são dois dias em que não durmo em casa. Acredito que consegui dar o recado, apesar de a voz estar um pouco baixa.

Estou muito feliz, feliz à beça por estar aqui, na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, debatendo segurança pública, ajudando a promover reflexões e dando um toque nos futuros Prefeitos - com certeza, inúmeros sairão daqui. Eles podem e devem aproveitar as soluções locais, que são as mais eficazes, baratas e rápidas para serem implantadas e as que mais funcionam. Muito obrigado.