RAIMUNDO PEREIRA, Editor da revista "Reportagem".
Discurso
Comenta o tema: "O contexto sociopolítico e o significado do golpe de
64".
Reunião
4ª reunião ESPECIAL
Legislatura 15ª legislatura, 2ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 13/04/2004
Página 32, Coluna 4
Evento Ciclo de Debates: "Resistir Sempre - 64 Nunca Mais".
Assunto ADMINISTRAÇÃO FEDERAL. ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA. DIREITOS HUMANOS.
Legislatura 15ª legislatura, 2ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 13/04/2004
Página 32, Coluna 4
Evento Ciclo de Debates: "Resistir Sempre - 64 Nunca Mais".
Assunto ADMINISTRAÇÃO FEDERAL. ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA. DIREITOS HUMANOS.
4ª REUNIÃO ESPECIAL DA 2ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 15ª
LEGISLATURA, EM 31/3/2004
Palavras do Sr. Raimundo Pereira
Inicialmente, quero agradecer e dizer aos companheiros de Mesa
que é uma grande honra estar presente em um ato de tanta
relevância, com pessoas que, durante todos esses anos,
participaram dessa luta e estão, como disseram, dispostas a
continuá-la para mudar este País e, de algum modo, reparar o
enorme dano causado pelo golpe militar de 1964.
Considero a minha presença aqui não uma honra pessoal, mas uma
homenagem à imprensa popular, que existiu neste País em inúmeras
fases, como em 1964, e está presente até hoje, mas que precisa do
apoio de vocês para continuar a existir.
Para caracterizar o período do golpe, já se disse mais do que o
suficiente. A Suzana, o Sr. Hélio Bicudo, o Prof. Pimenta, o
Quartim e o José Maria, companheiro de jornalismo, falaram - e
muito bem - sobre esses problemas. Só acrescentarei três fatos. Em
primeiro lugar, no mundo, o passado está presente. Em 1964, era
estudante de Engenharia em São José dos Campos e fui expulso da
escola. Até hoje não houve anistia no ITA. Os expulsos nem são
reconhecidos como expulsos. Depois, fiz Física, quando aprendi que
o passado, ao contrário do que pensamos, está presente. Quando
olhamos para o sol, o que vemos é sol de 8 minutos atrás, porque a
luz se propaga com velocidade finita. Einstein mostrou que é um
engano dos sentidos mostrar que o passado não está presente. O
mundo real é mais complexo do que imaginamos. O passado está
presente.
É impossível deixar de pensar no Governo Lula quando lembramos do
Governo Goulart. Claro que Lula é muito diferente, é um ex-
operário, participou da luta operária como dirigente, reitera
continuadamente seu compromisso com a luta da qual participou. Mas
dirige um Governo híbrido, com companheiros nossos de luta, como
José Dirceu e Aldo Rebelo, de cuja amizade até hoje tenho orgulho.
Mas o Governo Lula nomeou para postos-chave elementos da Direita.
Para o Banco Central, nomeou um homem do capital financeiro
internacional. Sua aposentadoria de R$700.000,00 por mês é apenas
um detalhe, porque ele foi operador do Banco de Boston em
operações lesivas ao Brasil.
Uma reportagem de dois anos atrás repete essa afirmação, mas não
foi investigada. O Senador Antero Paes de Barros, com propósitos
conservadores, levantou uma informação objetiva. Hoje, o Brasil
luta por um certo controle de capitais, uma das poucas
possibilidades que tem de sair da crise financeira que atravessa.
Há relatório de um inspetor do Banco Central dizendo que as
operações do Banco de Boston, na época em que o Meirelles era
operador em Boston, eram lesivas ao Brasil. E a lei deveria ser
mudada. Não é uma lei, mas uma CC-5. A CC-5 não nos permite
esquecer João Goulart, pois são operações fraudulentas do Banco
Central contra a Lei Federal nº 4.131, de 1962, de Jango Goulart.
Há um parecer da Procuradoria da República denunciando Gustavo
Franco e Gustavo Loyola como os cabeças de uma operação que
transformou a Lei Federal nº 4.131, que está em vigor, sem
autoridade legal para isso, porque portarias e normas do Banco
Central não podem alterar uma lei no seu espírito. O espírito
dessa lei é o de restringir a movimentação do capital estrangeiro,
mas se transformou numa lei absolutamente permissiva, e Henrique
Meirelles, como Presidente do Banco Central, está levando isso
adiante.
Recentemente, fez nova portaria para permitir a transferência de
dinheiro entre o Brasil e o exterior por meio de TED. Ora, no
debate realizado na Câmara, com a participação da revista
“Reportagem”, a Deputada Federal Clair disse que o Congresso tem a
obrigação de pedir a cassação dessa nova circular, porque é um
prosseguimento das artimanhas de Gustavo Franco e outros.
Então, ao Governo Lula temos de dizer, como se diz para os
companheiros, com precisão e firmeza, que este caminho não tira o
País do buraco. Um operador do Banco Central (...) Não pela
pessoa. O Meirelles pode ser uma pessoa de excelente trato, mas a
questão é política, e não, pessoal. Quando falamos no Governo
Lula, não podemos nos esquecer do Governo João Goulart, porque o
Governo Lula acabou de aprovar uma lei de reforma do setor
elétrico brasileiro. Um pouco como propagandista da “Reportagem”,
porque vivemos de assinaturas e não posso perder esta
oportunidade, pois a revista é pouco conhecida, quero dizer que
nossa última reportagem de capa trata da reforma do sistema
elétrico brasileiro promovida pelo Governo Lula. Assessorado pelos
melhores lutadores do movimento popular e democrático nessa
matéria, escrevi um artigo que ainda tem debilidades - é
necessário que se faça uma análise maior, porque o assunto é
complexo -, mas me arrisco a dizer que essa não é uma reforma, mas
uma meia contra-reforma para se chegar a uma conciliação, em um
esforço de desmonte do sistema estatal. O Governo Lula não tem
coragem política de fazer as estatais voltarem a comandar o
processo de geração de energia no País, que foi paralisado pelo
Governo Collor, que colocou as estatais no plano de privatização,
num processo aprofundado pelo Fernando Henrique, que colocou as
grandes geradoras estatais no plano de desestatização. E o Governo
Lula não teve coragem de enviar para o Congresso, em seu projeto
de reforma, um artigo que tirasse as estatais do plano de
privatização. Isso foi discutido na véspera, na hora de anunciar a
medida, com a presença do Lula. A Ministra Dilma, o Dirceu e o
Aldo Rebelo queriam que isso fosse colocado no projeto; o Palocci,
não. Finalmente, Lula optou pelo Palocci e mandou o projeto para o
Congresso sem tirar Furnas, a ELETRONORTE e as outras geradoras
estatais do plano de privatização. Depois, no Congresso, o
Deputado Federal Fernando Ferro afirmou que o Governo teria de
demiti-lo do cargo de relator da medida, porque não aceitaria que
isso não fosse colocado, já que fazia parte de sua tradição e de
sua história política; assim, não se curvou, e, finalmente, a
Fazenda recuou.
Ora, o Governo hesita em coisas fundamentais. Evidentemente, como
disse o Quartim, estamos apenas levantando questões e não devemos
fazer afirmações de que não tenhamos certeza. Ora, estou fazendo
afirmações de que tenho certeza, mas o significado político de
tudo isso é mais complexo. Não que não tenha desejado, mas não sou
um militante político. Sou um jornalista, e isso é algo
limitativo. Até gostaria de ter sido um grande político, mas não
sou e não o serei mais, porque, com o tempo que tenho, decidi me
concentrar em fazer um jornalismo cada vez melhor, já que sempre é
possível aprimorar. De qualquer maneira, gostaria de fazer essas
observações.
Outra observação que gostaria de fazer diz respeito à questão da
opinião pública, que o Quartim abordou de uma forma muito
interessante, ressaltando a discussão sobre se foi um golpe
político ou um golpe militar. Quando o PT, em 1999, (...)
Quando ficamos mais velhos, conseguimos alguns privilégios. Ano
que vem, quero fazer uma matéria sobre o PT: para onde vai o PT?
Quero fazê-la no aniversário do PT. Portanto, já comecei meu
trabalho de reportagem. Tenho algumas idéias e pistas. Caso
consiga, será matéria de capa da revista “Reportagem”, pois os 25
anos do PT são uma data importante.
Tive oportunidade de discutir a questão com o meu amigo José
Dirceu, logo depois que comandou o congresso do PT em que se
decidiu a saída do partido do movimento Fora FHC. Trabalho com a
opinião pública, importante para o jornalismo, principalmente o
popular. O jornalismo burguês tenta aturdir o trabalhador com
novidades, para que não pense. Já o jornalismo popular tenta ver
as novidades mais profundas, difíceis de serem vistas nas
aparências, e dá outras perspectivas.
Fizemos um bom trabalho, que está na revista “Reportagem”, em um
artigo assinado por Breno Altman sobre esse congresso do PT em
Belo Horizonte. Todos os grupos do PT, salvo o diretório do
Paraná, apoiaram o Fora FHC. O Dirceu já era Presidente eleito do
PT, o Milton Temer não tinha tanta força. O Dirceu fez questão de
derrotar o Fora FHC. Esse movimento era apoiado pelo PCdoB, pelo
PSB, por setores do PMDB, pelo PDT e por todo o mundo. O que o
Dirceu fez? Conseguiu reverter a situação: tirou das obrigações do
PT a participação no Fora FHC e a substituiu por um movimento
popular que apenas apoiava o Fora FHC.
Valter Pomar, crítico do PT, escreveu um texto interessante
dizendo que o PT se transformou num partido de retaguarda, pois
partido de vanguarda, no meu entendimento, é um bando de
militantes e estudiosos que tentam orientar o povo para que veja
adiante. Então, para ser um partido de vanguarda, tem de estar à
frente. Com isso, o PT, conforme disse o Valter Pomar, transformou-
se num partido de retaguarda.
Discuti com o Dirceu, porque entendia que o PT estava se curvando
à opinião pública. Para a opinião pública, era feio dizer que o
Presidente Fernando Henrique Cardoso havia cometido
irregularidades que exigiam um processo de “impeachment”. A
revista “Reportagem” apoiou a idéia de que Fernando Henrique havia
cometido muitas irregularidades que precisavam ser investigadas.
Na época, o Presidente Fernando Henrique tramou contra os
interesses nacionais secretamente. O País estava quebrado. Se um
historiador contar a história com mais detalhes, veremos que saíam
milhões e milhões de dólares por dia. Ele chamou o Fischer do FMI
e fez um acordo para aprovar a LRF depois das eleições. O Fernando
Henrique fez um discurso no Itamaraty voltado para o exterior,
falsamente dirigido para dentro do País.
Na minha opinião, isso tinha de ser esclarecido politicamente,
pois poderíamos afastá-lo por traição aos interesses nacionais ou,
pelo menos, o atacaríamos politicamente. Isso, para a opinião
pública, é complicado.
Então, o PT resolveu ganhar com a opinião pública. No meu
entendimento, pelo que aprendi em todos estes anos tentando fazer
bom jornalismo popular, isso é ceder na questão central da
informação popular. Na informação popular, a aparência não é a
verdade. Muitas vezes, a opinião do povo brasileiro oscila
enormemente. Num momento, considera o Lula o máximo; já noutro,
pode considerá-lo chefe de um Governo de ladrões por causa do caso
Waldomiro, bem explorado pela imprensa.
Os conservadores controlam os meios de comunicação de um modo
absurdo, gigantesco, muito mais do que antes. A chance de o povo
mudar a situação atual é ter um partido com sólidas ligações com o
povo, capaz de resistir a essa enxurrada de mentiras diárias. E o
Presidente não vai fazer isso depois; ele precisa de uma boa
imprensa antes, porque os conservadores não se vão afastar, o
poder não vai mudar antes de se mudar o poder político. Quando
você tem o poder político nas mãos é que você tem que fazer essas
grandes mudanças. O PT tem o poder político nas mãos. Ele não tem
que tolerar a covardia de um Ministro da Defesa. Não estou falando
em covardia pessoal, e, sim, em covardia política do Ministro da
Defesa, que escreve um artigo na “Folha de S. Paulo” de hoje sem
mencionar o golpe dos gorilas em 1964, sem fazer nenhum protesto.
Ele faz isso por covardia política. É preciso coragem política
para enfrentar os problemas tais como eles são. Não adianta tentar
ganhar o poder via Duda Mendonça, porque o Duda Mendonça é um
mentiroso. Não é nada pessoal, mas a sua técnica é a da mentira.
Se você ganha assim, é um ardil. Lula está perdendo o poder que
ele ganhou dessa maneira, e é preciso recuperá-lo.
Encerro dizendo que o Lula precisa de uma imprensa popular.
Estamos pedindo esse apoio. Não é feio pedir apoio a um
companheiro, porque faz parte dos compromissos.
O meu último comercial: No aniversário da PETROBRAS, eu estava lá
batalhando um anúncio para a revista “Reportagem”, que consegui
graças à ajuda do Ildo Sauer, um nacionalista intelectual de
grande valor. E, no aniversário da PETROBRÁS, o nosso anúncio foi
cortado. Eu disse aos meus amigos do Governo que tudo bem, que a
revista “Reportagem” não poderia ter todos os anúncios que a Globo
tem, mas 52 páginas de anúncios na “Veja” e 104 páginas na
“Exame”, no aniversário da PETROBRAS, é muito, principalmente
quando se corta um modestíssimo anúncio que havia na revista
“Reportagem”. Não estou falando porque preciso de R$50,00; estou
falando porque a nossa imprensa tem muito valor. A sua circulação
não mede o seu valor. Não julgamos a nossa atitude e o seu valor
pelo prestígio que dá esta opinião pública manipulada que tem por
aí. Muito obrigado.