Pronunciamentos

MIRIAM ABRAMOVAY, Socióloga. Coordenadora da Área de Juventude e Políticas Públicas da Faculdade Latino Americana de Ciências Sociais - FLACSO-RJ.

Discurso

Comenta o tema: "Segurança nas Escolas: por uma cultura de paz", dentro do 2º painel.
Reunião 35ª reunião ESPECIAL
Legislatura 17ª legislatura, 1ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 15/10/2011
Página 132, Coluna 1
Evento Fórum Técnico: "Segurança nas Escolas: por uma cultura de paz".
Assunto EDUCAÇÃO. SEGURANÇA PÚBLICA.
Observação No decorrer do seu pronunciamento, procede-se à exibição de "slides".

35ª REUNIÃO ESPECIAL DA 1ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 17ª LEGISLATURA, EM 4/10/2011


Palavras da Sra. Miriam Abramovay

Bom dia a todas e a todos. Queria muito agradecer o convite do fórum para estar aqui com vocês, conversar, discutir e trocar algumas ideias. Não é muito 40 minutos, mas vamos tentar. Se o tempo esgotar, vocês cassam a minha palavra, porque professor sempre fala demais, como vocês sabem. Gostaria muito de permanecer com vocês os três dias. Seria fascinante participar dos grupos de trabalho, porque é isso que mais gostamos de fazer. Quer dizer, tudo o que fazemos é para ter influência e importância nas políticas públicas. Infelizmente, não será possível estar com vocês, mas vou deixar o meu “e-mail” e “site”, para continuarmos a dialogar.

Gostaria de dizer que sou da Flacso, organismo internacional com sede em muitos países da América Latina, que trabalha com pesquisas e cursos de mestrado, doutorado. Hoje vem trabalhando muito o tema da violência nas escolas, efetivamente com algumas propostas muito interessantes de projetos de convivência escolar, como disse a Profa. Ceres, com quem conversei um pouco. Estou trabalhando nesse tema há muitos anos - há mais de 10 anos, trabalhei pela Unesco e outras organizações. Estou com a Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais - Flacso - e trabalho nesse tema há mais ou menos um ano e meio. O que é interessante e que me chama a atenção nesse último trabalho com a Flacso é a nossa proposta de convivência escolar, tema muito amplo de intervenção e mudança nas escolas, de trabalho com professores, alunos e pais que vem sendo muito mais requisitado nos pequenos Municípios que nos Estados e Capitais. Essa é uma mudança que ocorre desde a época da Unesco. Na época em que realizei pesquisa para a Unesco, éramos muito mais requisitados nas Capitais. Ou seja, houve uma interiorização da violência não só geral, como também nas escolas, que é algo para o qual queria chamar a atenção.

O que foi falado aqui anteriormente pelos participantes e pela Mesa já é matéria de discussão sobre a violência nas escolas. Foram expostas aqui diferentes concepções e ideias, mas podemos deixá-las para uma discussão mais geral, após o término da reunião, pois penso que teremos tempo para isso. Quero começar a conversar com vocês sobre o que é escola. Se pensarem o que é a escola no século XXI, podemos continuar dizendo que escola é um lugar de aprendizagem, principalmente o único local ou espaço público - isso é fundamental - a que crianças, adolescentes e jovens terão acesso. Evidentemente a família é o lugar de socialização primária. Há jovens que participam de outras instâncias, de algumas ONGs ou de partidos políticos, mas não existe nenhuma organização pública por onde todos passem, a não ser a escola. Por isso, ela vai tendo cada vez mais importância na vida das crianças, dos adolescentes e dos jovens. Além de ser um lugar de aprendizagem, é também um lugar de socialização fundamental, pelo que eu disse anteriormente, ou seja, pela possibilidade de convivência não só com os pares, mas também com adultos, pela possibilidade e pela diversidade cultural, econômica - um pouco menos - e de vida que existe em cada um desses espaços escolares. E é um lugar de humanização também: é dentro da escola que se deve aprender que cada pessoa, adulto, criança ou adolescente é um sujeito especial, é um sujeito particular e singular. Isso é fundamental, porque é assim que as nossas crianças e professores devem se sentir lá dentro. A escola efetivamente é um lugar em que se ensina a pensar. E pensar significa muita coisa, inclusive transgredir, e transgredir regras. Isso é fundamental no processo de pensamento. A escola é o lugar do uso da palavra. Portanto, ela é um lugar fundamental na vida de crianças, adolescentes e jovens. No entanto, o que vem acontecendo com ela e com a nossa educação?

Evidentemente vivemos um processo de democratização da educação. Hoje todas as crianças ou 98% delas, apesar de muitas vezes não permanecerem na escola, passam por esse espaço. Claro que entram, saem, abandonam, pois existem evasão e repetência escolar; é um longo e doloroso processo. Mas essa escola, no entanto, continuou um pouco parecida, como a Beatriz falou, e não sabe o que fazer hoje. A população que entrou nas escolas nos últimos 40 anos, nos últimos 30 anos, nos últimos 20 anos não estava dentro delas. A nossa escola foi uma escola de elite, e os nossos professores foram formados para trabalhar com pessoas, com meninos e meninas que eram a elite brasileira. Ou seja, o choque dessa democratização, dessa popularização das nossas escolas e essa falta de mudança na formação dos professores para saberem lidar com essa mudança cotidiana muitas vezes levam a um processo de violências cotidianas dentro do nosso espaço escolar.

Quando falamos em violência, a que nos referimos? Como vocês sabem, violência é um conceito muito amplo. Se estivéssemos num grupo de trabalho e se se fizesse um exercício perguntando a cada um de vocês o que é violência, constataríamos que o conceito e o sentimento de violência muda de indivíduo para indivíduo. Evidentemente há questões comuns, e uma delas é o sentimento de violência que temos. Ou seja, vivemos na sociedade um sentimento de violência. Se perguntarmos que século foi o mais violento da história, sempre vamos responder que é o nosso; qual tempo histórico é o tempo da violência, quando houve mais violência nas escolas, vamos responder que é hoje, agora, o tempo em estamos vivendo.

Precisamos ter alguns pontos para começarmos a discutir o conceito de violência. O primeiro deles é que se trata de um fenômeno complexo, multifacetado. Como já disse, não há apenas uma percepção de violência. Para muitos autores, violência é aquilo que está no Código Penal. Dá-nos muito prazer ouvir da segurança pública que violência não é só o que está no Código Penal, é mais do que isso. Agora, o que está no Código Penal é aquela violência dura. Como diz um autor chamado Chesnais, essa violência está ligada à criminalidade, mas há outros tipos de violência. Devemos ter certeza de que a violência atinge direta ou indiretamente todos os atores da sociedade. Com certeza alguém aqui, se não foi assaltado, tem algum primo ou algum filho que já foram, já levaram o casaco ou dinheiro de alguém em algum lugar, alguém já sofreu sequestro-relâmpago etc. Esse não é um fenômeno particular do Brasil, é um fenômeno global.

A violência nas escolas também é um fenômeno global. Ela não está só no Brasil ou na América Latina. Não estou falando dessa violência que vemos nos Estados Unidos, em que um “serial killer” mata 15 pessoas. Não é isso, não é da violência de Realengo que estou falando, mas da violência do cotidiano. É muito importante saber que essa violência nas escolas pode ser desconstruída.

Existe na nossa sociedade o que se chama de cultura da violência. Há duas questões em relação a essa violência que vemos no dia a dia nas escolas. A primeira é que ela é supervalorizada, principalmente pela mídia. Vocês veem essa realidade e convivem com ela. A mídia vende e não vai divulgar que um aluno xingou um professor ou que dois alunos tiveram uma briga entre eles. A mídia vai divulgar quando há crimes dentro das escolas ou situações-limite dentro delas.

Essa cultura da violência também é muito alimentada pelo consumismo e pelo individualismo, principalmente quando pensamos em adolescentes e jovens. Vivemos em uma sociedade de consumo, vivemos em uma sociedade em que o ideal é um ideal do eu, do individual e em que estamos dizendo a nossos adolescentes e jovens que eles têm de consumir a todo momento. E eles têm de consumir o quê? Tudo o que há de melhor.

Quando trabalhamos dentro de uma escola, temos de pensar principalmente não só no que ela está passando, porque muitas vezes não consegue contrapor outra mensagem a essa mensagem que a sociedade está passando a essas crianças, adolescentes e jovens. Essa é uma das contradições existentes nas escolas, ou seja, vivemos em uma sociedade profundamente adultocêntrica. Nossos valores são os valores dos adultos. A escola é muito autoritária não só em termos de comportamento. Muitas vezes, ao contrário, as regras não são claras nas escolas. Mas ela é autoritária no tocante a pouco diálogo, no tocante a pouco conhecimento.

Gosto de contar uma história. Quando há alguma entrevista sobre a violência nas escolas, uma das últimas entrevistas importantes que dei foi a que apareceu no “Fantástico”, um menino dando uma voadora em uma Diretora. Acho que o caso era de Minas. Depois de uma longa entrevista de mais de uma hora - evidentemente eles exibem só 2 minutos -, a mais longa que já fiz, perguntei ao repórter: “Quando tudo isso aconteceu...” - acho que eram quatro casos, um da voadora, outro de meninos que puseram fogo na escola, outro da menina brigando e as mães entrando na briga também, e do quarto caso não me lembro. Enfim, quando terminei a entrevista, perguntei: “Vocês conversaram com quem?”. “Conversamos com os Diretores”. “Vocês conversaram com os alunos para saber o que aconteceu?”.

Semana passada aconteceu de novo. Daqui a pouco vocês vão ver que exponho os últimos casos de violência durante a semana, e vocês vão ficar boquiabertos. Realmente, é uma coisa impressionante. Por que uma criança, um jovem, um adolescente bota fogo em uma sala de aula? É para aparecer? É para se exibir? É porque ele odeia a escola? É porque ele quer queimar todos os alunos? O que está acontecendo? Isso nunca tem resposta. Por que um adolescente que é suspenso dá uma voadora em uma Diretora e isso é filmado? Deveria ser crime também. Ele não só dá uma voadora na Diretora como faz questão de que filmem para ele aparecer na internet, ou seja, hoje esse menino é mundialmente conhecido. Voltam novamente a questão do exibicionismo e a questão da nossa sociedade, que é a sociedade do aparecer, da visibilidade, do ter de aparecer. Como será que a escola tem possibilidade de responder a essas questões? Quero deixar muito claro e dizer que não há culpas. Todos estão sofrendo nas escolas. Os atores das escolas sofrem, mas os pais sofrem, os alunos sofrem. Temos de prestar atenção quando pensamos em políticas públicas. Quando falamos em violência nas escolas, temos de pensar em todas as manifestações de violência. De que violência estamos falando? Acho que estamos evoluindo um pouco para tentar esquematizar as violências nas escolas, o que não é fácil. Chegamos ao consenso de delimitá-las em três tipos.

Esse é o esquema, veremos que um tipo de violência permeia outro. Muitas vezes é difícil falar de violência, como veremos, porque ela está incorporada aos três tipos. Mas, para análise e para podermos pensar, falaremos primeiro da microviolência, que é aquela que ocorre no cotidiano, que se propaga, principalmente, através das relações sociais e também dos mecanismos, hábitos, de tudo que é considerado como natural e normal no ambiente escolar. Ou seja, a microviolência é a que quebra todo aquele cotidiano que consideramos como o da convivência escolar; é a violência mais de agressão verbal, de xingamentos, de pequenas agressões, de pequenos maus-tratos; não é aquela violência que está no Código Penal.

O segundo tipo de violência é a simbólica. É o conceito do Bourdieu, que vários de vocês já devem ter estudado. Segundo esse conceito, existe uma violência inerente ao abuso de poder; é uma violência repetitiva a que o outro não pode responder. O outro não responde, sente-se mais fraco, mas, quando responde, não é uma violência. Muitas vezes podemos confundir violência simbólica com “bullying”, pois também no “bullying” o outro não consegue responder. É uma violência que se dá de forma repetitiva, com o ator da violência sendo mais forte, seja física, seja psicologicamente etc. Não trabalho com “bullying”, trabalho exatamente com violência simbólica. Chegou-se à visão de que tudo é “bullying”, ou seja, existe na Assembleia, na casa da gente, mas não é isso. O autor que trabalhou o conceito de “bullying” é norueguês, é o Olweus, e estudou só a escola e a relação entre os pares. O “bullying” só existe entre pares; não existe entre professor e aluno ou entre pai e filho. Enfim, prefiro trabalhar com o conceito de violência simbólica.

Também há a violência dura, que está no Código Penal. São atos de violência que têm relação com armas e ameaças. A ameaça, evidentemente, também pode ser uma violência simbólica ou uma microviolência; depende da forma e da maneira como é praticada e de quem é sua vítima.

Já falei sobre o “bullying”, não vou repetir. Agora começarei a categorizar os diversos tipos de violência. O primeiro é a ameaça. Sabemos que a ameaça tem muita magnitude no espaço escolar. Qual é o perigo da ameaça? Ela gera um clima de medo nas vítimas. Na maioria das vezes, a escola não consegue percebê-la, não consegue se dar conta dela. Em relação à maioria das violências, a não ser as físicas, que são as violências duras, a escola não se dá conta desses fenômenos. Ou seja, ou ela os coloca debaixo do tapete ou não consegue visualizar o que está acontecendo no seu cotidiano. Ela sabe que há problemas, mas não sabe de onde vêm. Muitas vezes a escola também trabalha com a lei do silêncio. Isso está muito claro nas pesquisas sobre furto. Existe o furto na escola, e um grande número de alunos e professores já foram furtados dentro das escolas. E, quando perguntamos a alunos e professores o que eles fazem quando isso acontece, a resposta é sempre a mesma: nada. Os alunos dizem que a Diretora não fala nada, e os professores pedem aos alunos para terem mais cuidado. Vemos, por exemplo, professores que se culpam por terem perdido o celular porque o deixaram sobre a mesa, como se a escola pudesse ser um lugar de furto. A escola não pode ser um lugar de furto. E aí começa a lei do silêncio. Fingem que nada acontece, e tudo é aceito. Além disso, as regras também não são claras, e isso prejudica imensamente a escola.

Para exemplificar as ameaças, vou falar da relação aluno-professor. Comumente os alunos ameaçam o professor com a frase “Vou te pegar lá fora”. Isso faz parte das várias pesquisas que fizemos. É certo que existem páginas e páginas de frases com ameaças, mas essa é uma frase emblemática. Também existem as ameaças entre alunos, feitas da seguinte forma: “Vou te pegar lá fora”; “Vamos te bater”; “Vou mandar matar”; “Se você contar para alguém, eu te mato”. Na pesquisa, aluna jurada de morte ameaçou com faca. Outros exemplos de ameaça de aluno contra professor: “A senhora vai ter o seu”; “Vou passar fogo naquela professora”; “Vou riscar o carro dela todinho”; “O senhor está muito folgadinho, e a sua família vai ver o que vai acontecer”. É emblemático.

Na última pesquisa realizada, verificou-se que 12,6% dos professores em Brasília, quase 13%, já tiveram seus carros danificados, com pneus furados etc. Nos fenômenos de violência, 1% já é muito. As pessoas ligadas à segurança pública podem dizer isso com mais propriedade. Isso é algo que também diz respeito às relações sociais. Muitas vezes a violência começa com a nota que é dada ao aluno, ou com o chamamento dos pais à escola, para reclamações, ou com a suspensão do aluno. Tudo isso gera violência e agressão.

Sobre agressões físicas, sabemos que elas são preocupantes. Posteriormente falaremos dos gêneros das agressões físicas. No Brasil e em toda a América Latina existe a cultura do revide, da força, da ação e da reação. A agressão física é cotidiana, ela acontece fora e dentro das escolas, isto é, ela está presente no dia a dia das escolas. O “slide” exemplifica melhor essa realidade.

Agressão de aluno contra aluno: bater a cabeça, puxar o cabelo, empurrar, chutar, dar paulada, ferir, dar soco e pontapé, quebrar o nariz, jogar pedra e tijolo, cuspir na cara etc.

Agressão de aluno contra professor: empurrão, cadeirada, espancamento.

Professor contra aluno: apertão, empurrão, tapa na cara e outros mais.

Não há anjos dentro das escolas, mas atores sociais com reações que não são aceitáveis. Não há um só culpado pelo que acontece dentro das escolas, e não há formas não violentas de resolução de conflito. Isso não é válido só para projetos de mediação de conflitos: é uma técnica fascinante e fundamental para as escolas. Temos de ter muito mais que isso; temos de saber o que está acontecendo nas escolas; temos de ter diagnósticos, formação efetiva de professores sobre esse tema e projetos de intervenção. Quando falo intervenção, quero referir-me a projetos de trabalho nas escolas. Somente por meio desse trabalho vamos conseguir melhorar essa situação.

Temos outros exemplos de violência física contra os professores.

Sobre as meninas, sobre as questões de gênero, o que vem aparecendo nas pesquisas nos chama a atenção, porque as meninas vêm mudando seu papel, vêm mudando seu gênero. É claro que esse papel vem mudando na sociedade - disso não temos dúvidas. No entanto, ainda existe nas meninas a sensação de que, para terem poder, precisam ser iguais aos meninos, fazerem o que os meninos fazem, por meio da força e da brutalidade. Elas querem aprender a brigar, aliás, brigam muito dentro das escolas; querem afirmar-se; querem ser reconhecidas por meio dos mesmos símbolos de poder com que são reconhecidos os meninos. Numa das pesquisas que realizamos, perguntamos aos professores e aos alunos quem era mais violento, as meninas ou os meninos. Estatisticamente, são os meninos. Se olharmos um pouco os mapas da violência, quem mais morre e mata são os meninos. Em nossa sociedade, há uma diferença brutal nos mapas. No entanto, esse comportamento das meninas de quererem ser iguais aos meninos faz com que os adultos nas escolas digam que, hoje em dia, as meninas são mais violentas.

Vamos pular o furto e ir para as armas. Elas também são símbolo de poder. Em nossa sociedade, são geradoras de medo e trazem um sentimento de vulnerabilidade para o outro. Armas sempre entram nas escolas. Perguntamos aos informantes, na penúltima pesquisa que fizemos, se já haviam visto armas na escola, e mais de um terço dos professores respondeu que sim. Por que entrar com arma na escola? A literatura vai nos mostrar que armas são símbolos de poder e entrar com elas na escola significa poder. Muitas vezes, os alunos nem pretendem utilizá-las, apenas mostrá-las. Isso acontece principalmente com as meninas. Porém, numa briga, como temos visto nos noticiários, podem ser utilizadas. Arma também significa vida bandida, porque há muito “sex appeal” em nossa sociedade, e vida bandida significa ter dinheiro, estar ligado a tráfico, a dinheiro e a outras possibilidades. Infelizmente, como sociedade, não estamos conseguindo contrapor-nos a essa exaltação da arma e do consumo como símbolos de poder.

Ouvimos um depoimento sobre vários tipos de armas, principalmente de meninas que trazem tesouras de ponta para a escola. Os meninos trazem giletes. Efetivamente, as pessoas levam armas para dentro da escola por exibicionismo. Outra questão relacionada à violência diz respeito ao tráfico de drogas. É uma grande preocupação. Muitos já morreram e foram perdas muito sentidas por adultos e colegas devido ao tráfico não só no entorno como também dentro das escolas. A escola é um espaço democrático. Porém, o que encontramos nos depoimentos não é efetivamente o traficante, mas o irmão, o primo, o tio dele, que se aproveitam para fazer isso. É uma coisa que efetivamente acontece dentro das escolas. Essa é uma violência de fora para dentro das escolas e é muito difícil de controlar. É uma violência que requer a presença de forças de segurança de fora para dentro.

Aproveitando o que foi dito pela Brenda - ela acha que a situação da escola vai melhorar se se colocar mais polícia lá dentro -, quero dizer que está provado internacionalmente que não são as medidas de força que vão mudar o quadro de violência dentro das escolas. A segurança tem de estar dentro da escola quando existe algum acontecimento especial. Quem vai resolver as questões cotidianas da escola não vai ser, não pode ser e não é a polícia. Os professores têm de estar preparados para discutir o assunto e para empreender ações que não tenham a ver com a segurança pública. O tráfico de drogas é uma delas.

O segundo complicador é a presença de gangues, como já foi dito. Temos feito muitos estudos sobre gangues, e não existem gangues formadas dentro das escolas, mas nelas existem pessoas que pertencem a gangues. Isso também causa uma grande desestabilização. No entanto, temos de saber do que estamos falando, e quero citar o exemplo da última pesquisa que realizamos, que chegou a mencionar a questão da gangue. Aliás, aqui também existe essa gangue - estou falando de Brasília -, seu líder era mineiro e se chama Lua. A escola estava toda pichada com a palavra “Lua”. Quando perguntamos aos professores e à Diretora se havia gangue na escola, eles disseram que não. Nós discutimos com ela e dissemos que alguém deveria ter entrado ali, porque esse era o nome de uma gangue. Ela disse: “É o nome de uma gangue? Não acredito, porque suspendi um menino da escola cujo apelido era Lua”. Vejam a falta de conhecimento do que é a cultura juvenil, do que é ser jovem, do que acontece dentro das escolas. Desentendimentos e aberrações podem ter lugar no cotidiano das escolas.

Estávamos falando um pouco das chamadas violências duras, as que estão no Código Penal. Outro tipo de violência que existe no cotidiano das escolas e também na nossa sociedade é a discriminação. Vivemos numa sociedade de classes, discriminatória, que registra muitos problemas com a homofobia, com o racismo. Evidentemente, a escola é um espelho disso e teria de ser um contraponto a essas questões. Quando falamos de discriminação, tenho uma reflexão a fazer: fomos feitos e criados de que maneira? Não quero dizer que os professores ou os demais presentes pensem dessa forma, estou falando da sociedade brasileira. É uma forma masculina de pensar, uma estrutura em que as classes sociais são privilegiadas e em que, muitas vezes, pensamos com a cabeça do privilégio. É uma sociedade em que o bonito é ser branco e heterossexual e o normal é ser católico. Não quero dizer que todos pensem dessa forma, mas que a sociedade brasileira se pauta nesses valores.

Ao falarmos de projetos de convivência, a primeira coisa em que devemos pensar é que não existem dois iguais no mundo, no Brasil, em lugar algum. A diversidade é uma questão fundamental e é muito fácil falar a respeito, mas muito difícil praticá-la em nosso cotidiano, em nossas casas, em nossas vidas. Ao falar de diversidade, temos de pensar que todos são diferentes. Mais do que isso, que as pessoas têm o direito de ser diferentes. A partir daí, podemos tratar de diferentes temas. Ao falar de gênero, pensamos que, apesar de a escola ter mudado, ainda falta muito. Os padrões culturais muitas vezes permanecem. Nós, sem querer, estamos a todo momento reafirmando a masculinidade e a feminilidade. Como fazemos isso? Há escolas em que, por exemplo, nas aulas de educação física, a turma é separada. Quando se questiona o porquê, respondem que as meninas não têm força e que os meninos podem machucá-las. Enquanto isso, as meninas reclamam que gostariam de jogar futebol, mas não têm direito a essa prática. Há ainda aulas de xadrez em que a professora separa os meninos das meninas sob alegação de que os meninos têm raciocínio mais rápido, são mais capazes de resolver os problemas com mais velocidade do que as meninas. Ou seja, reafirmam-se nas escolas crenças de gênero que, na maioria das vezes, não são cientificamente comprovadas. Não é porque a menina tem o cérebro maior ou menor, o lado esquerdo ou o direito, que não seja capaz de jogar xadrez. Tudo isso deveria ser colocado em xeque dentro das escolas, mas não é.

Sobre a homofobia, que é a aversão que a sociedade tem em relação aos homossexuais, nem é preciso citar exemplos. Anteontem, mais uma vez, bateram em jovens homossexuais na Avenida Paulista, em São Paulo. Tudo isso também com base numa concepção de que existe uma sexualidade correta e normal, assim como existe uma religião, assim como existe o ser homem e o ser mulher. Nas pesquisas realizadas com os jovens dentro das escolas, constatou-se que os homens são mais homofóbicos do que as meninas. De modo geral, nas pesquisas em que perguntamos “quem você não gostaria de ter como colega de classe?”, os homossexuais aparecem nos primeiros lugares. O racismo é outro fenômeno da sociedade brasileira. Estamos num país profundamente racista. Os apelidos e brincadeiras com esse tipo de apelo são feitos no cotidiano, mas, se perguntarmos às professoras e aos alunos, responderão que não são racistas. No entanto, há aquele que sofre racismo. Realizamos uma pesquisa com a Profa. Mary Castro sobre o racismo no Brasil e verificamos que a questão do cabelo é um sofrimento fundamental no que diz respeito às meninas. Os meninos são chamados de picolé de asfalto, cabelo ruim, cabelo bombril e outros apelidos. A sociedade tem de cuidar muito dessas questões. Há discriminação quanto à pobreza, à roupa, à aparência, à religião e à pessoa com deficiência, mas não será possível tratarmos disso agora.

Finalmente, é preciso olhar com muito cuidado a questão da discriminação. Quando a escola deixa passar e adota a lei do silêncio quando há discriminação, não está exercendo a sua função pedagógica e se torna um espaço negativo para a mudança de comportamento. A violência tem relação com a qualidade de ensino e cria um sentimento de não relação com a escola, de vulnerabilidade, de ausência de vontade de ir à aula, de falta de possibilidades e de quebra da questão das amizades na escola.

Gostaria de dizer a vocês o que o Paulo Freire sempre dizia: devemos ter uma escola onde haja boniteza e alegria. Não falei sobre as condições físicas, mas elas são óbvias. Sem elas, não teremos escola de qualidade.

Finalmente, deixo o meu “site”, o meu contato por “e-mail” na Flacso e o contato pessoal. O Diretor da Flacso, Dr. Pablo Gentili, pediu que eu cumprimentasse vocês. Temos todo o interesse em trabalhar com vocês e em disponibilizar todos esses anos de experiência, para que tenhamos uma sociedade e uma escola com mais qualidade de ensino e relações sociais mais efetivas. Esperamos que a escola faça parte da boniteza e da alegria da vida dos professores, dos alunos, dos pais - sobre os quais não chegamos a falar - e de todos nós.

- No decorrer do seu pronunciamento, procede-se à exibição de “slides”.