MARCOS RODRIGUES DA SILVA, Professor de Sociologia da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC.
Discurso
Comenta o tema: "Brasil 2000: Realidades e Perspectivas".
Reunião
65ª reunião ESPECIAL
Legislatura 14ª legislatura, 2ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 08/04/2000
Página 28, Coluna 2
Evento Ciclo de Debates: Repensando o Brasil 500 Anos Depois.
Assunto CALENDÁRIO.
Observação Participantes dos debates: Lauro Souto, Ricardo Barbosa, Andréia Cristina Alcântara, Luciane Silva, Ana Costa, Otaviano José e Maria Lúcia.
Legislatura 14ª legislatura, 2ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 08/04/2000
Página 28, Coluna 2
Evento Ciclo de Debates: Repensando o Brasil 500 Anos Depois.
Assunto CALENDÁRIO.
Observação Participantes dos debates: Lauro Souto, Ricardo Barbosa, Andréia Cristina Alcântara, Luciane Silva, Ana Costa, Otaviano José e Maria Lúcia.
65ª REUNIÃO ESPECIAL DA 2ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 14ª
LEGISLATURA, EM 17/3/2000
Palavras do Sr. Marcos Rodrigues da Silva
Gostaria de agradecer a esta Casa por ter-se lembrado de nós, do
Sul do País. Venho de Florianópolis, uma província distante desses
Estados tão grandes. Agradeço porque valoriza muito o trabalho que
vimos desenvolvendo por ali, também em nível nacional, e pelo
debate desse tema.
Levantaremos algumas questões na mesma linha seguida há pouco.
Existem algumas perspectivas, sim, mas também alguns desafios
sobre os quais temos de ponderar nesse repensar o Brasil 500.
Sinceramente, fiquei contente com esse verbo repensar, porque não
vamos comemorar nada, isso já é um grande passo que Minas está
dando e esta Casa está fazendo, porque não está comemorando. Quero
parabenizá-los porque esse verbo é muito importante. O momento não
é de comemorar nada, mas de repensar muito.
Quero, então, nessa faceta desse grande cenário, os 500 anos,
fazer um recorte particular; se me permitem, entrarei por um viés
afro-brasileiro. Creio que é preciso repensar essa população que
está nesses 160 milhões, como foi ressaltado há pouco, com tanta
ênfase. Somos uma parcela significativa nesse cenário pela
expressão que é ainda invisível no cenário - e a invisibilidade
não é feita por acaso, tem um cunho que é exatamente esses 120
milhões -, mas, se esses 120 milhões se tornarem visíveis, serão
realmente a cor desse Brasil, e não a cor do capital.
Creio que esse é o grande papel que temos de fazer primeiro.
Repensar, a partir dessa perspectiva. Então, vou trabalhar nos
próximos 17 minutos, nessa perspectiva. E vou trabalhar com cinco
questões bem pontuais, depois poderemos conversar sobre elas.
A primeira, que considero importante, é tirar essa idealização da
escravidão no Brasil. É atitude perene em nossa consciência sempre
nos vermos como escravos e falarmos dos escravos. Entendo que essa
fase já está superada há muitos anos, mas não está superada na
memória histórica. Então, temos um saudosismo e um gosto de
trabalhar a africanidade no Brasil a partir da senzala ou do
pelourinho como alvo de tratamento do sofrimento, da lamúria, da
dor. Creio que esse espaço já está superado, só que não estão
superadas nossas práticas de organização. Acredito que essa
questão da idealização do homem negro e da mulher negra a partir
da escravidão faz parte de uma literatura que ainda vende muito, e
é uma temática que alguns de nossos amigos de academia gostam de
trabalhar e de fazer pesquisas. Por isso vai bem e vai casada com
a lógica da conquista, da dominação. Esse é um primeiro dado que
temos de eliminar no processo de construção dos desafios para o
próximo ano 2000. Se não superarmos essa lógica, creio que vamos
continuar mais 100, mais 500 anos considerando sempre essa
invisibilidade dos seres homem negro e mulher negra neste País.
Não vou me alongar muito, porque é um tema que tem de ser
excluído, ou não conseguiremos trabalhar. Se continuarmos nos
pautando nessa discussão, ou seja, olharmos o africano que veio
para a diáspora e o tomarmos como identidade do afro-brasileiro
hoje, nós nos perderemos. Entendo que há aí uma questão de fundo
profundamente histórica e de identidade. O africano que foi
espoliado de sua identidade, resgatado de seu espaço, de seu
hábitat foi colocado aqui com uma lógica de exploração, porque
tinha tecnologias importantes para aquele momento. Não veio para
cá para ser escravo, veio porque tinha novas tecnologias, naquele
momento. Sabia dominar tecnologias que o conquistador não sabia.
Mas, se pegamos a literatura, temos uma visão tão estapafúrdia,
que parece que veio para cá só como boçal, como imbecil. Isso não
é verdade. Veio para construir uma sociedade do capital, de
exploração de bens e de consumo, porque dominava as tecnologias,
para trabalhar aquilo que o dito dono da terra não sabia manusear.
Então, aí tem toda uma questão de novas tecnologias há 500 anos,
que temos de discutir, para desmontar essa ideologização do negro
boçal. Se quiserem trabalhar por aí, podem contar comigo como
parceiro.
Mas também temos de entrar com um recorte importante, que é a
questão do afro-brasileiro, o que significa ser brasileiro e homem
negro ou mulher negra. Isso num debate que está aberto e precisa
ser discutido com mais pontualidade, sobre a questão da identidade
nas diversas regiões deste País. Aparentemente, só ficamos no
litoral, construímos uma identidade muito particular no litoral
brasileiro e nos esquecemos de entrar para o interior do Brasil,
onde há um afro-brasileiro com novas práticas, que vem se
construindo nesses últimos 100 anos.
O segundo ponto que gostaria de ressaltar é a questão das
estratégias de luta e resistência, que estão perenes nesses anos
todos que estamos construindo, de 500 anos da população negra
neste País. Sempre trabalhamos com o processo de resistência,
marcado muito pelo quilombismo, mas chegamos a um ponto em que se
desgastou essa categoria, e nos esquecemos de trabalhar outras
formas de resistência que estão presentes hoje e vão desafiar
totalmente a luta de confronto frente ao capital, que, cada vez
mais, se “hegemoniza”, cada vez mais, absorve o discurso das
populações que estão na luta de resistência. Creio que, aí, a
população afro-brasileira tem um dado a contribuir nos movimentos
sociais e está contribuindo de forma silenciosa. Precisamos
ressaltar isso, que são as formas de mediação de organizações
coletivas e de organização da memória da história oral.
Creio que deve haver aqui alunos de História, de Geografia:
atenção! Estamos muito presos à literatura escrita, à forma de
registrar, apenas. E a tradição oral que esse povo manteve até
agora, dos mais velhos? Na África, é fundamental ter a voz dos
ancestrais, dos maiores. No Brasil, é fundamental resgatarmos esse
aspecto, para manter, inclusive, essa política de resistência, que
mantém essa população negra viva, organizada em vários guetos, que
não são guetos tratados para dentro, mas jogados para fora, como
políticas de intervenção.
Entretanto, frente à lógica do capital, cada vez mais hegemônico,
colocam-se como grupos que, em alguns momentos, rotulam-nos,
inclusive, de racistas. Isso é o cúmulo. Quando 1% detém o
controle de quase tudo, como podemos ser racistas frente a essa
lógica? Mas é possível rotularmos qualquer forma de organização de
comunidade negra de racismo. Ontem, à noite, estava no Município
de Criciúma, região em que houve uma grande resistência dos
mineiros, a 3 horas de Florianópolis. Estava em um clube
construído em 1937 pela população negra da cidade, celebrando um
projeto de luta comunitária daquela população: a criação de
cooperativas populares para cabeleireiras e cozinheiras afro e
tecelãs. A comunidade festejava a organização de todas essas
cooperativas de autogestão. O grupo era negro, e a festa era para
os negros, mas toda a sociedade estava presente por desconfiar que
havia algo estranho acontecendo. Estavam presentes o Prefeito, o
Reitor da Universidade, enfim todo o aparato logístico da
sociedade civil. Aquele evento mudava a rotina, pois não estávamos
ali para reivindicar, mas para apresentar novos projetos a um novo
modelo de sociedade. Eles tiveram que nos reconhecer com uma
identidade nova, diferente daquela voltada para o Zumbi de
Palmares, que foi um ideal e que, agora, está adaptado ao modelo
de confronto frente a essas lógicas de exclusão que estamos
vivendo no momento. Foi e é possível fazer resistência, mas
precisamos estar atentos à existência de novos métodos, que são o
grande desafio para esse novo milênio. Como resgatar esses métodos
de resistência e como estabelecer as práticas e estratégias?
Devemos colocar esse desafio para a comunidade negra, mas também
para toda a sociedade, a fim de que possam perceber que existem
estratégias novas e que não estamos na mesma lógica que aquela
construída a partir da literatura do escravo dolente, improdutivo,
e não pensador. Há uma produção que está latente.
Um terceiro elemento importante, que é o mais desafiador, é o
processo de construção, na mídia, cujo editorial é profundamente
hábil, de uma genealogia do racismo antinegro, ou seja, há um
crescimento forte de construção de um racismo antinegro, diluído
de tal forma que, hoje, não enfrentamos mais alguém que nos
agride. Lembro-me de uma frase que ouvi, ao conhecer o Bispo
Desmon Tutu em 1988, em São Paulo. Na época, ele dizia, em uma
reunião com D. Paulo Evaristo Arns: “Bom, uma coisa tenho que
agradecer à África do Sul: lá, o “apartheid” é direto, eu sei quem
vai me discriminar. Vocês aqui estão lascados, pois não sabem quem
vai discriminá-los a cada momento.” Aqui o apartheid é totalmente
adverso. Nunca sabemos qual o primeiro que nos pegará na esquina,
e isso é terrível. Se eu sair correndo desta Casa, com certeza,
serei preso, sem saber por que, pois não podemos correr sem sermos
considerados bandidos. Essa é uma característica deste País: há
uma construção genealógica estabelecida, e temos que desmontá-la
imediatamente. Esse é um dos grandes desafios que decorre do
quarto elemento, que aqui colocarei associadamente: temos que
repensar as formas de sistematizar os projetos pensados na década
de 80. Quando estudamos a economia dessa década, constatamos que
os economistas ligados à lógica do capital neoliberal consideram-
na perdida. Mas, se fizermos uma memória histórica a partir dos
movimentos sociais, veremos que essa foi uma década de
crescimento. Se houve perda de capital, para nós houve ganho. Nos
anos 80, embatemos grandes enfrentamentos de organização
comunitária e criamos o senso de identidade e de co-
responsabilidade, entrando para a década de 90 com perspectivas de
pensar o movimento de forma mais aberta às políticas públicas, aos
direitos civis e à auto-estima, temas que desenvolveremos,
principalmente, nesta década. Além disso, passamos a desenvolver
políticas alternativas à lógica do capital excludente. A década de
80, rotulada como perdida, permitiu a operacionalização das
políticas públicas. Hoje, temos uma série de municípios no Brasil
que têm, em suas leis orgânicas, a lei de ensino em que se
introduz a história da África. Isso não foi construído nos anos
90, mas na década de 80. A Secretaria de Estado da Educação de
Santa Catarina, por exemplo, introduziu em seu programa de ensino
a disciplina da história da África. Essa política foi defendida
com muita dificuldade, naquele Estado em que todos pensam não
existir negro. Lá, 6% da população é negra, e é um Estado
exemplar. Em outros Estados, como Minas Gerais, a negritude tem
uma expressão mais relevante, mas, em Santa Catarina, daqui a
quatro dias, estaremos assinando o primeiro tombamento de um
quilombo. Pode parecer impossível, mas esse Estado tem um quilombo
e terá mais dois daqui a pouco. O seu nome é Quilombo do Sertão
dos Valombos(?), que tem 110 anos de história nunca contada no
Estado.
O quinto e último ponto a ser colocado refere-se aos grandes
desafios abertos para a população e para nós, que ficamos
pensando, elaborando e intervindo. É um desafio fundamental
trabalhar, hoje, com o discurso da democracia. O movimento negro
conseguiu trabalhar eficazmente o discurso contra a ditadura, mas
não tem o mesmo sucesso com relação ao discurso da democracia, que
é muito complexo. A democracia consegue abrir um fronte de
liberdade na intervenção, porém deixa-nos desarmados se não
conseguirmos suprir os elementos anteriores: reconhecer a questão
da idealização e ideologização no tema da escravidão; repensar as
estratégias de enfrentamento construídas pela população negra nos
últimos anos; e não esquecer a existência de um tratado de
genealogia anti-racismo, antinegro.
Então, essas questões são fundamentais dentro do processo
democrático. E aí entra o projeto político nacional.
Não se pode pensar hoje que um grupo, um movimento, faz o
processo de transformação do País. É preciso pensar nas instâncias
de representatividade, nos fóruns. As entidades negras precisam
ter um pouco mais de seriedade em seus fóruns de
representatividade, porque, ultimamente, estão nos cobrando
representatividade. Mas creio que temos muita, presente entre nós
e latente, tanto nos movimentos sociais como nos movimentos mais
orgânicos e representativos institucionais e sindicais, e, de
forma mais densa, no próprio movimento com as suas instituições
representativas. Porém, precisamos ser mais astutos ao trabalhar
com a democracia, porque ela faz com que nos percamos,
principalmente um movimento como é o nosso, sempre colocado à
margem das discussões, fora da agenda de prioridades.
Outro elemento importante é que as desigualdades econômicas,
presentes e latentes, nos deixam marcas daquela política de que
quanto mais pobre melhor. Creio que esse é um desafio. Ontem,
senti-me muito gratificado de ver que uma série de comunidades
negras já percebe que, apesar do mercado, apesar de a lógica
capitalista ser cada vez mais excludente, há uma forma bastante
coletiva e estruturada de reagir, intervir e até detonar esse
mercado.
Isso não é simples, é um sonho, mas é possível. Agora, não é o
sonho do capital, mas de uma população que tem uma identidade, um
processo ideológico, uma história de antepassados, uma
ancestralidade. Tudo isso tem que ser construído de forma
harmônica, e vejo que esse é o grande desafio para nós, que
fazemos história, debate econômico: pensar um outro jeito de ser
num país onde só se pensa de um modo: explorar, explorar e
explorar. Não existe outra forma de pensar quando saímos daqui
para fora.
Mas existe uma forma afro-brasileira de pensar, sim. Ela está aí.
Ontem, percebi essa possibilidade, e ela é orgânica, não
individual. E pode romper. Tenho duas experiências. Uma delas é a
minha tese de doutorado, que estou concluindo - vou para a banca
daqui a poucos dias -, que é o grupo dos cafusos. Não sei se vocês
os conhecem. A comunidade cafusa é composta por negros que estão
em Santa Catarina, muito próxima a Blumenau.
Sempre conto isso para as pessoas verem como as coisas acontecem.
Se não abrirmos os olhos, elas passam, e ninguém vai perceber.
Esse grupo está presente e tem uma produção de erva-mate já em
torno de 300 pés, frente a uma comunidade de alemães e italianos
que trabalham com a fumicultura. Todos estão morrendo de câncer de
pele e tudo o mais.
Com a crise tabagista, italianos e alemães estão empobrecendo, e
uma comunidade negra está surgindo com o grande capital. Daí
surgem os jargões sociais:” os negros sujos podem ficar ricos; os
negros que fedem a fumaça são perigosos.” Aí, há um confronto,
duas grandes situações. Primeiro, o produto produzido difere da
lógica do capital emergente. Além disso, é produzido de forma
coletiva, na terra coletiva, numa distribuição de bens coletivos e
de uma forma de intervenção no capital internacional na Alemanha.
Eles não vendem para o intermediário ou para aquele que está
próximo. Isso está sendo feito pelas populações negras. Então, é
possível, sim, quebrar essa hegemonia.
Por último, diria que o grande desafio, neste momento, é a luta
contra os movimentos xenófobos e racistas. Aí há um outro lado, em
que uma pequena burguesia profundamente violenta está surgindo,
emergindo. Já estava na Europa, mas agora se reorganiza e ataca
aqui. São os “skinheads”. Só em Florianópolis, onde moro, há
quatro grupos de “skinheads” organizados. Dois deles estão dentro
da Universidade Federal de Santa Catarina, reúnem-se, organizam-se
e propagam: negros, prostitutas, aidéticos vão ter que ser
eliminados. E isso inclui a mim, que sou professor deles.
Então, são situações emergentes com as quais precisamos de
cuidado. Estou falando de situações coletivas, mas há também o
outro lado, em que estão se organizando de forma estruturada. Não
são filhinhos de gente simples, mas desse grupo de 1% - pelo menos
em Santa Catarina - da classe média rica, e vivem muito bem
organizados, comem muito bem e estão se estruturando muito bem
para nos matar. Portanto, há algumas questões com as quais
precisamos tomar cuidado nessa lógica do capitalismo, como a
estrutura de luta xenófoba contra nós. Precisamos pensar com muito
carinho sobre isso.
Esses são os grandes desafios que abordo. Penso que repensar o
ano 2000 dentro de uma perspectiva afro-brasileira é repensar
esses grandes desafios. Muito obrigado.