MARCOS FLÁVIO LUCAS PADULA, Juiz de direito titular da Vara Cível da Infância e da Juventude da Comarca de Belo Horizonte.
Discurso
Legislatura 18ª legislatura, 1ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 23/04/2015
Página 3, Coluna 1
Assunto HOMENAGEM.
Proposições citadas RQN 7038 de 2014
Normas citadas DNE nº 152, de 2014
4ª REUNIÃO ESPECIAL DA 1ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 18ª LEGISLATURA, EM 17/4/2015
Palavras do Sr. Marcos Flávio Lucas Padula
O Sr. Marcos Flávio Lucas Padula - Boa noite a todos. Exmo. Deputado Antônio Carlos Arantes, autor do requerimento que solicitou a concessão desse título e que, neste ato, representa o o presidente da Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais, deputado Adalclever Lopes; Exmo. Desembargador Herbert José Almeida Carneiro, presidente da Associação de Magistrados Mineiros - Amagis; Exmo. Desembargador Tarcísio Martins Costa, do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais, e presidente de honra da Associação Brasileira dos Juízes da Infância e da Juventude; Exmo. Desembargador Wagner Wilson Ferreira, do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais, presidente da Coordenadoria da Infância e da Juventude - Coinj; Exma. Sra. Maria de Lourdes Rodrigues Santa Gema, promotora de justiça da Infância e Juventude Cível de Belo Horizonte; Exmo. Vereador Professor Wendel, da Câmara Municipal de Belo Horizonte; minha esposa Lourdinha, companheira de mais de 25 anos, quase meu tempo de magistratura; querida filha Veridiana, que reside no exterior e não pôde estar presente por motivos profissionais e de distância, mas que neste momento nos acompanha neste evento pela internet; queridos pais Domingos e Edeli; queridos irmãs e irmãos, Cecília, Valéria, Glauco, Marcelo e Márcio; queridas cunhadas e cunhados, Ilda e Débora, Miguel e Ricardo; queridos sobrinhos, Leonardo, João, Manuela e Bernardo; prezados servidores da Vara da Infância e da Juventude da Comarca de Belo Horizonte; prezados advogados, especialmente os que militam na Vara da Infância e da Juventude; prezados servidores do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais; demais autoridades presentes; caros amigos e amigas; boa noite.
Gostaria de iniciar minha manifestação com algumas frases do incomparável escritor mineiro João Guimarães Rosa, que mais que escritor é um filósofo. “O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e, daí, afrouxa, sossega e, depois, desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. Afinal há é que ter paciência, dar tempo ao tempo. Já devíamos ter aprendido, de uma vez para sempre, que o destino tem de fazer muitos rodeios para chegar a qualquer parte. Tudo, aliás, é a ponta de um mistério, inclusive os fatos, ou a ausência deles. Duvida? Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo.”
Inicialmente, gostaria de manifestar, de forma expressa, a grande honra que sinto em receber esse título de Cidadania Honorária de Minas Gerais. Por ocasião da minha manifestação na cerimônia de recebimento da cidadania da capital mineira, apresentei a minha firme convicção de que, de forma invisível e até mesmo misteriosa, não só estamos todos vinculados e somos dependentes uns dos outros, mas também a nossa própria essência é formada por nossas relações, e encontramos no outro a nossa razão de ser. Como comentei, nenhum homem é uma ilha. Hoje posso afirmar, com toda certeza, que boa parte da minha essência foi formada por Minas Gerais.
Como dizia outro grande mineiro, Otto Lara Resende, jornalista e escritor: “Ultimamente, passaram-se muitos anos”. Esse é o peso da idade. Hoje estou com 52 anos de idade, dos quais 26 foram passados em Minas Gerais. Posso dizer com certeza que pelo menos metade do que sou, ou talvez mais da metade, não apenas como profissional, mas também como pessoa, se deve à minha vivência em Minas Gerais. A minha realização vocacional como juiz de direito se deve às Minas Gerais. Se hoje recebo essa homenagem pelos serviços prestados às alterosas, devo dizer que apenas retribuo a oportunidade que este Estado me concedeu de crescimento profissional e espiritual.
Reconheço a importância da formação familiar e acadêmica que tive nos meus primeiros anos de vida em São Paulo, mas, se essa formação que tive de meus pais e mestres pôde produzir frutos, isso se deu graças aos caminhos que me foram abertos em Minas Gerais.
Ao final do meu curso acadêmico de direito, tomado por dúvidas quanto à minha vocação, realizei uma viagem, diria, de autodescoberta, ou de peregrinação, às cidades históricas. Em Ouro Preto, por um acaso do destino, conversei com um desembargador, que me esclareceu de forma muito simples as minhas dúvidas. Após, decidi por tentar a carreira da magistratura. Logo em seguida, quando voltei da viagem, a primeira coisa que vi foi o anúncio do concurso em Minas. Um ano depois, eu já estava morando em Minas Gerais, iniciando o meu trabalho na pequena cidade de Guapé, na região de Furnas. Depois moramos em Paraisópolis, Sul de Minas, em seguida, em Uberaba e, por fim, fui promovido, em 2002, para a capital, como auxiliar da então Vara Única da Infância e da Juventude, como pupilo do desembargador Tarcísio Martins Costa, que me iniciou nas dificuldades e nas agruras do juiz da infância e da juventude. Dois anos após, assumi a então vara única, que depois foi desmembrada em Vara Cível da Infância e da Juventude e Vara Infracional da Infância e da Juventude.
Sinto orgulho de pertencer, de certa forma e, é claro, de modo modesto, ao famoso café com leite, ou seja, ao destino entrelaçado de Minas Gerais e São Paulo, tão relevante para o Brasil, desde a República Velha até momentos mais recentes de nossa história.
É verdade que, no passado, em alguns momentos históricos, os caminhos de São Paulo e Minas Gerais nem sempre se coadunaram, mas isso não diminui a importância dos dois estados. Porém, no presente, ambos os estados estiveram juntos e firmes à frente do movimento de retorno à democracia, obra de dois grandes homens públicos: Tancredo Neves e Ulysses Guimarães, este conterrâneo da cidade de meu pai, Rio Claro.
Minas é a terra da liberdade, e, em grande parte, é essa a lição que se aprende na terra das montanhas. Mas não podemos nos esquecer também de que na bandeira de Minas, junto à cor vermelha do ideal revolucionário, há o triângulo, que simboliza o Espírito Santo, ou seja, junto ao ideal da liberdade vem também a religiosidade e a espiritualidade, o que traz em si um senso de percepção da profundidade da vida.
Essa espiritualidade foi, sem dúvida, testada nos longos anos de magistratura, mas principalmente nos anos de Justiça da Infância e da Juventude. Dos 25 anos de juiz, quase 20 foram vividos na Justiça da Infância e da Juventude, desde 1995, em Uberaba, e, a partir de 2002, na capital. Embora por muitos considerado um cargo sacrificado e desgastante - e de fato é -, também proporciona satisfação e alegria quase impossível de se explicar. Quando conseguimos mudar o destino de uma criança, é uma felicidade. Quem trabalha na Infância sabe do que estou falando, é algo que não tem comparação. E testa constantemente a nossa coragem e paciência, como dizia Guimarães Rosa. Coragem para enfrentar e lutar por tudo que podemos mudar e melhorar, e paciência para aceitar o que não podemos modificar. É claro que também discernimento, para saber a diferença das duas situações.
Todo cargo público gera responsabilidade, mas acredito que decidir a vida de uma criança nos faz sentir como poucos o peso da responsabilidade e de como a liberdade deve ser sempre sopesada com a espiritualidade e conduzida com coragem e paciência. É estranho, depois de tantas lutas pelo bem-estar e recuperação das famílias, principalmente das famílias carentes, e pela acolhida de crianças por meio da adoção, que hoje eu esteja sendo acolhido também como filho adotivo de Minas Gerais.
Na pessoa do deputado Antônio Carlos Arantes, gostaria de agradecer a todos os digníssimos parlamentares desta colenda Casa Legislativa, legítima representante do povo de Minas Gerais, a grande honra de me tornar esse filho adotivo das Minas Gerais.
Por questões familiares, eu e minha esposa tivemos a felicidade de conhecer e de conviver com o deputado Antônio Carlos Arantes e sua família, pessoa de grande sensibilidade e religiosidade; pessoa equilibrada e ligada de coração à vida simples e autêntica do campo. Acima de tudo, possui disponibilidade de ouvir o próximo e se envolve de forma sincera e comprometida com todos aqueles que procuram sua ajuda. Posso testemunhar isso pela minha vivência pessoal. Acho que, se tivesse de nomear uma pessoa que representasse mais fielmente a nobreza do mineiro, é logo o nome do deputado Antônio Carlos Arantes que me vem à mente.
O que posso mais dizer? Claro que nunca poderei dizer ser totalmente mineiro, pois, evidentemente, tenho minhas origens. Essa dignidade cabe àqueles nascidos nas Alterosas. Contudo, posso ao menos almejar e compartilhar as qualidades que vi, vivi e que espero possa ter aprendido algumas delas, pelo menos.
O sentimento de vida interior, a simplicidade, a humildade e a hospitalidade - o receber na cozinha, o lugar mais acolhedor da casa; a vontade de agradar, mas esquivar-se para evitar agrados; a alegria de estar junto à natureza - o pôr do sol atrás das montanhas, o canto do bem-te-vi anunciando mais um dia; o apreciar os prazeres simples, a boa comida, em especial a deliciosa culinária mineira - comer o pão de queijo verdadeiro, de polvilho mesmo, saído do forno e beber café feito na hora, disso, como todo mundo sabe, realmente faço questão; é saber ser persistente, sem nunca ser prepotente; é levar a vida sem pressa de chegar, pois o que vale mesmo é a viagem; é olhar a vida com mais amor; é gostar de Minas, tão longe do mar, mas pertinho do céu.
Ser mineiro é falar “Ô trem bão danado sô! Brigado proceis todos”. Viva para Minas Gerais! Viva para a liberdade!