LUÍS ANTÔNIO CHAVES, Diretor-Geral do Instituto de Terras de Minas Gerais - ITER.
Discurso
Comenta os temas: "Diagnóstico da Reforma Agrária no Brasil" e
"Reforma Agrária em Minas Gerais".
Reunião
35ª reunião ESPECIAL
Legislatura 15ª legislatura, 1ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 06/12/2003
Página 45, Coluna 1
Evento Fórum Técnico: "Reforma Agrária em Minas: Impasses e Perspectivas."
Assunto REFORMA AGRÁRIA.
Observação Participantes dos debates: Sandro Márcio Baltazar, Augusto Ferreira Fraga, João Cesário Leão, Reginaldo Cardoso Santos.
Legislatura 15ª legislatura, 1ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 06/12/2003
Página 45, Coluna 1
Evento Fórum Técnico: "Reforma Agrária em Minas: Impasses e Perspectivas."
Assunto REFORMA AGRÁRIA.
Observação Participantes dos debates: Sandro Márcio Baltazar, Augusto Ferreira Fraga, João Cesário Leão, Reginaldo Cardoso Santos.
35ª REUNIÃO ESPECIAL DA 1ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 15ª
LEGISLATURA, EM 24/11/2003
Palavras do Sr. Luís Antônio Chaves
Sr. Presidente, componentes da Mesa, representantes dos
movimentos sociais e todos os presentes, essa iniciativa, elogiada
por todos, tem o objetivo de identificar a real situação da
reforma agrária em Minas Gerais e buscar soluções. Esperamos sair
daqui com alguns avanços para que possamos fazer frente a essa
situação bastante divulgada, sobretudo com relação aos números.
Gostaria que fosse exibido o mapa dos trabalhadores das famílias
acampadas em Minas Gerais, apenas para esclarecer que não se trata
de divergências com relação aos números que o INCRA apresenta e
que estão na cartilha desse fórum, porque trabalhamos em Minas
Gerais com dois INCRAS, o INCRA de Minas e o INCRA do entorno de
Brasília. Esse INCRA de Brasília trabalha no Noroeste de Minas
Gerais com os números que aparecem no mapa, e o INCRA daqui não. O
número de famílias que apontamos, hoje, flutuante, como o Marcos
Helênio disse, aproxima-se das 15.500 famílias acampadas. Em mais
de 20 anos de assentamento do INCRA em Minas Gerais, ele assentou,
aproximadamente, esse número de 15 mil famílias. No andar atual da
carruagem, levaríamos mais de 20 anos para conseguir atender a
essa demanda.
Ora, é preocupante porque, primeiro, não se vislumbram, hoje,
meios para se atender a uma demanda desse vulto. Temos de
reconhecer que esse problema se agravou com o Governo Lula, em
razão da expectativa criada de que ele faria a reforma agrária, e
muitos entenderam que faria imediatamente. Aliadas a isso estão
algumas falhas que temos de reconhecer e que aponto como erros do
Governo na condução do processo, como, por exemplo, o cadastro das
famílias acampadas, que foi implementado pelo Governo atual. No
Governo anterior, vimos aquele fantástico cadastro pelos correios,
quando se propagandeou que em 90 dias o trabalhador que quisesse
ter um pedaço de terra teria o seu desejo atendido. Em Minas,
foram mais de 70 mil cadastros. No Brasil todo foi uma cifra
absurda. E esse cadastro foi jogado no lixo. O Governo atual
inventa também um cadastro, com alguns agravantes, como a promessa
de prioridade no assentamento e cadastramento para receber cestas
básicas.
O que vimos? Saltamos de um universo, no final do ano passado, de
seis mil famílias acampadas em Minas Gerais para mais que o dobro.
Pessoas desempregadas do centro urbano e profissionais liberais
aposentados que viviam mal com a sua renda fizeram fila nos
movimentos e ocuparam uma beira de estrada, uma propriedade,
vislumbrando, quem sabe, resolver o problema. Devemos entender
que, não necessariamente, o desempregado tenha de buscar emprego
no campo. É isso o que ele quer? Muitas vezes, não. É a situação
que impõe isso a ele, que, muitas vezes, ajudará a produzir talvez
a anti-reforma agrária porque, quando ele receber o pedaço de
terra, verá que não era isso que ele queria, mas o emprego na
cidade, onde está acostumado. Ele quer buscar a sua expectativa de
melhora de vida no centro urbano e não no campo.
Cada falha cometida no processo incentiva aqueles que se opõem à
reforma agrária. Isso é munição para eles. Se observarmos um dos
primeiros assentamentos em Minas Gerais - e talvez ele esteja em
condições deploráveis -, veremos que se transforma em uma campanha
anti-reforma agrária. Estão vendo como não dá certo? Não adianta.
As pessoas assentadas desapareceram, sumiram, já não estão lá,
venderam, trocaram. Costuma-se dizer que trocam por bicicleta, por
sanfona velha, etc. É assim que funciona a anti-reforma agrária.
Queremos que a reforma agrária funcione e dê certo e sabemos que
isso pode ocorrer. Temos exemplos fantásticos em Minas Gerais, mas
por que o número de conflitos é preocupante? Existe em Minas mais
de uma dúzia de movimentos sociais de luta pela terra, e esses são
os principais. A outra dificuldade é que existem movimentos que
surgem nas periferias, muitas vezes coordenados por um candidato a
Vereador ou a Prefeito. Ele reúne um grupo e parte para a
ocupação. Esse é também um problema para nós que temos a missão de
dialogar, de intermediar e de buscar soluções.
O outro diz respeito à criação do Fórum Permanente para Questões
Agrárias, que hoje é tido como exemplo para o Brasil. Vemos, mais
ou menos, como ele funciona: a Vara Agrária, o Ministério Público,
o INCRA, a Procuradoria-Geral do Estado, a Secretaria da Reforma
Agrária, o ITER, a Polícia Militar e a Delegacia Especializada
para Conflitos Agrários. Colocamos embaixo convidados específicos
porque o fórum é aberto. No entanto, existem algumas instituições
que participam efetiva e constantemente. Outros participam
eventualmente. Dependendo do problema, convidamos os movimentos,
os proprietários, enfim, outros órgãos do Governo para nos
ajudarem a solucioná-lo. O fórum resolve o problema de imediato,
porque consegue apaziguar os ânimos, e os números em Minas provam
isso: um dos poucos Estados da Federação onde não ocorreram mortes
em decorrência de conflitos agrários. Há Estados onde ocorre mais
de uma dúzia de mortes, em decorrência dos confrontos. Procuramos
aqui o diálogo, mas ele não resolve o problema, apenas adia,
protela, joga para a frente.
O INCRA, como foi visto, não tem condições e estrutura para
atender a toda essa demanda. O que ocorre quando o Governo não
consegue acompanhar os movimentos? A ocupação de terras produtivas
é um processo justo e legítimo de pressão; no entanto, em
decorrência dessa pressão, o Governo não tem condições de atender
à demanda de forma organizada, planejada e que possa, de fato,
resultar num assentamento digno, em que todos produzam, com apoio,
educação, saúde, etc. E por quê? Os movimentos, no desespero de
conquistar um pedaço de terra, pois estão na beira das estradas há
anos, topam qualquer coisa e até pressionam o INCRA a desapropriar
uma área. Muitas vezes, depois de desapropriada, percebe-se que
aquela área não era ideal e que não se prestava àquele tipo de
assentamento. Essa área é negociada nas audiências da vara
agrária, há a negociação direta, a compra e a venda, e, depois,
percebe-se que não era ideal para assentar aquelas famílias. Vemos
essa forma de pressão como um problema, pois resulta em
assentamentos que estão embaixo de lonas há anos e não conseguem
produzir a contento.
Temos aqui uma demonstração do que o ITER se dispõe a fazer, com
um exemplo do financiamento chamado Empreendimentos Econômicos
Solidários, para os agroindústrias, que visa a contribuir para o
processo de reforma agrária em Minas. Esses projetos foram
financiados, em sua maioria, com recursos da Loteria Mineira.
Queremos retomar esse tipo de investimentos, porque tem dado
certo, é um empreendimento que gera renda, agrega valores aos
produtos e contribui para a fixação do homem no assentamento,
trazendo melhores condições de vida.
Somos cobrados em relação às terras. O INCRA já disse que Minas
Gerais tem 11.000.000ha de terras devolutas. Por que não as
disponibilizamos para a reforma agrária? Onde estão essas terras
devolutas? Hoje, trabalhamos com um universo enorme de posseiros;
o IBGE indica mais de 140 mil posseiros em Minas Gerais. Eles
ocupam uma pequena parte de terras devolutas, são posseiros que
sobreviveram a duras penas durante anos, talvez séculos, porque
foram perseguidos desde a chegada dos colonizadores, que
priorizaram o latifúndio, privilegiando quem tinha dinheiro. Os
posseiros foram perseguidos até recentemente; esconderam-se nos
grotões, onde as máquinas e os tratores não puderam chegar.
Estamos titulando essas pessoas, como uma prioridade absoluta do
Governo. Fecharemos o ano com a entrega de 2 mil títulos, que
variam de 1ha a 50ha. São pequenas áreas de terras, em que
sobrevivem mal; mas, com essa titulação, poderão adquirir sua
cidadania e buscar algum melhoramento para sua propriedade. Essa
titulação é gratuita. No ano passado, esta Casa aprovou a Lei nº
14.313, que prevê gratuidade total para essas famílias receberem o
título e assim serem fixadas na terra. É uma forma de o Estado se
redimir do privilégio concedido ao latifúndio, em detrimento
dessas famílias que foram escorraçadas ao longo dos anos.
Estamos destinando outra parte de terras a empreendimentos
públicos e sociais. A maior parte delas é destinada à construção
de escolas, quadras poliesportivas, reservas ambientais, postos de
saúde, hospitais, clubes, parques, fábricas, galpões, enfim, há
uma destinação social. Pela primeira vez neste Governo, estamos
criando reservas agroextrativistas das terras recuperadas das
reflorestadoras - portanto, colocando-as à disposição das famílias
que vivem no entorno e que, de certa forma, foram expulsas dessas
terras pelas reflorestadoras. Essas famílias terão essas terras
disponibilizadas pelo Estado, como reconhecimento dos erros
praticados no passado.
O grande problema dessas terras - quero chamar a atenção do Poder
Judiciário - é que estão ocupadas e registradas em cartório. São
os latifúndios que se formaram ao longo dos 500 anos do império do
latifúndio.
Muitos latifúndios se formaram a ferro e fogo, com matança de
índios, com a exclusão de posseiros pobres, com a exclusão dos
negros libertados de suas correntes. Em Minas Gerais chegamos a
ter latifúndios com mais de 100.000ha.
Essas áreas estão registradas em cartório, portanto o Estado não
pode dispor delas imediatamente. Temos de buscar um caminho
jurídico. E assim estamos fazendo. Estamos fazendo a investigação
da origem daquele documento apresentado em cartório. Estamos
localizando a origem dessa grilagem, todas feitas em conluio com
notariais de cartório.
O problema é que encaminhamos o processo à Procuradoria-Geral do
Estado, que por sua vez ajuiza ação discriminatória pleiteando a
devolução desse patrimônio ao poder público, e a justiça não se
manifesta. Temos milhares de hectares de terras ajuizados, e a
justiça não se manifesta. É a mesma justiça que muitas vezes
emperra o processo de reforma agrária na ponta da desapropriação,
criando mil formas e entraves para não desapropriar uma área, é a
mesma que muitas vezes pede um segundo laudo para investigar a
produtividade daquela terra, nomeando como perito um engenheiro
civil.
Temos de entender que, se a justiça não modificar essa visão
quanto às propriedades, não vamos avançar. Não adianta termos um
projeto fantástico do Governo se o Judiciário, por outro lado,
emperra. A justiça tem de parar de ver a propriedade com os olhos
do Código Civil, da propriedade absoluta, do direito absoluto
sobre a propriedade; tem de aprender a usar mais a fantástica
Constituição Federal, que veio, de certa forma, dar um caráter
mais público e social à propriedade. A desapropriação, muitas
vezes, é feita em cima de um latifúndio que não cumpre uma função
social. Essa desapropriação tem um caráter de premiação que recebe
aquele cidadão que herdou as terras, muitas vezes, de quem
expulsou posseiros, matou e saiu com a grana no bolso. Os
critérios têm de ser modificados, dependendo do grau e da forma de
utilização da propriedade. Por exemplo, a degradação ambiental.
Temos que buscar o instituto da expropriação, assim como ocorre
nas culturas de drogas, refino de cocaína, plantação de maconha.
Temos que buscar outros meios de conquistar terras. A justiça tem
de julgar as ações discriminatórias do Estado, porque senão vamos
ouvir eternamente que o Estado possui tantos milhões de hectares
de terra, e não sabemos sequer mostrar onde estão.
O Brasil não conhece sua malha fundiária. Com 500 anos de atraso,
estamos implementando um convênio envolvendo o Ministério do
Desenvolvimento Agrário, o INCRA, financiado com recursos do Banco
Mundial, para que façamos um cadastro fundiário nacional, e ele
vai conhecer sua malha fundiária. Sem isso ele não vai conseguir
desenvolver um projeto de reforma agrária sério, porque não
conhece a potencialidade desta terra, onde estão as terras
disponíveis, as condições em que se encontram, os bolsões de
pobreza, de minifúndio. Não se fala em desapropriar minifúndio
porque o Estatuto da Terra já previa a reorganização fundiária. O
objetivo da reforma agrária era acabar paulatinamente com o
latifúndio e o minifúndio. O Nordeste tem muitos bolsões de
minifúndio de 1 ou 2ha. Não sobrevivem. É uma miséria absoluta no
campo. Também temos de reordenar esse minifúndio.
Mas, repito, o latifúndio tem de ser atacado; temos de quebrar a
espinha dorsal desse latifúndio que se implantou a ferro e fogo.
Não estou discutindo se a propriedade é produtiva ou não;
simplesmente não podemos conviver com latifúndios que são maiores
do que um país. Aliás, país algum do mundo conquistou usa
independência econômica sem atacar a raiz do latifúndio. Então,
vamos buscar construir não o império do latifúndio, mas o império
da justiça social, onde todos possam viver tranqüilos e com alguma
dignidade.
Queremos trazer para o debate, portanto, a sugestão de que se
proponham alterações na legislação, por exemplo, relativamente aos
entraves ambientais. Não se pode colocar um empreendimento
econômico de um grande projeto, com 50 pivôs centrais sugando água
do rio, ou o projeto de uma enorme agroindústria no mesmo patamar
de um assentamento com dez famílias. Mas a área ambiental os
nivela. O licenciamento ambiental, com toda aquela burocracia,
coloca-os no mesmo patamar. E posso dizer que há inúmeros projetos
dependendo apenas do licenciamento ambiental.
Bem, o tempo é curto, e gosto de ser rigoroso. Portanto, encerro
aqui a minha exposição.