LEONEL BRIZOLA, Presidente Nacional do Partido Democrático Trabalhista - PDT.
Discurso
Comenta o ato público em defesa dos recursos hídricos brasileiros e o
lançamento da Frente Parlamentar "Jorge Hannas" contra a Privatização de
Furnas Centrais Elétricas S/A.
Reunião
60ª reunião ESPECIAL
Legislatura 14ª legislatura, 1ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 22/12/1999
Página 19, Coluna 4
Assunto RECURSOS HÍDRICOS. PRIVATIZAÇÃO.
Legislatura 14ª legislatura, 1ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 22/12/1999
Página 19, Coluna 4
Assunto RECURSOS HÍDRICOS. PRIVATIZAÇÃO.
60ª REUNIÃO ESPECIAL DA 1ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 14ª
LEGISLATURA, EM 10/12/1999
Palavras do Sr. Leonel Brizola
O Sr. Leonel Brizola - Minha saudação especial ao Presidente
desta Casa, Deputado Anderson Adauto, a cujo chamamento procurei
acorrer, como todos que aqui se encontram. Saúdo o Senador
Alencar, o Prefeito Célio de Castro, a Deputada Erundina, o
Deputado Genoíno, todos os integrantes desta Mesa, o meu
companheiro Vivaldo Barbosa, os representantes de todos os
partidos que integram essa frente, as entidades populares, os
trabalhadores, as entidades empresariais, enfim, as nossas
autoridades do interior, todos quanto pessoalmente, ou em
delegações comparecem, a esse encontro.
Quero dizer a todos que de toda parte deste País há um pensamento
voltado para Minas. A história é estranha, como nos dizia há pouco
o Dr. Aureliano. A história é insondável e às vezes não nos damos
conta de que está convivendo conosco e que nós, num dado momento,
estamos contribuindo para ela.
Estou seguro de que, a esta altura, o povo mineiro já pressentiu,
mas, quem sabe, ainda há pouco a generalidade das pessoas aqui não
havia se dado conta do que estão fazendo: escrevendo uma página
que vai ficar como página de bronze na história brasileira, como
outras que os filhos de Minas escreveram. O tom da história é
assim, quando menos verificamos, está ao nosso redor.
Creio que há, neste momento, um processo que se localizou aqui em
Minas, do qual faz parte toda a Nação brasileira. E com ele
comungam muitos povos do Terceiro Mundo. E muitos milhões de
homens e mulheres, embora lá no Primeiro Mundo, pensam como nós.
Há quantos anos estamos buscando uma saída para esse quadro que
está aí! E não chegamos a compreender como é que se estabeleceu.
Mas a história é assim. Com outros povos isso tem ocorrido. Tão
insólito, tão surpreendente, tão insensato, tão absurdo, é tudo
isso que vem ocorrendo no nosso País. Como tem sido difícil para o
nosso povo, e também para nós, entender o que vem ocorrendo com o
nosso País, admitir que essas decisões venham sendo tomadas pelos
nossos governantes. Vários governos se passaram, sucessivas
legislaturas, nossos Deputados, nossos Senadores. Quando invoco
essa realidade, estou invocando também as exceções, porque tem
sido difícil. No decorrer da nossa história nunca vivemos uma
situação como essa, porque os nossos governantes - uns melhores,
outros piores - jamais enveredaram por um caminho com tantos
absurdos, com tantas decisões para as quais não temos outra
qualificação senão a de “vende-pátria”, de entrega do patrimônio
público, de traição nacional, de enganação do povo brasileiro, de
desinformação de tudo aquilo que, no uso da nossa razão, não
conhecíamos, pois não fazia parte da tradição brasileira.
Agora, esse processo está tomando clareza. A “Folha de S. Paulo”,
que é um jornal responsável, de grande tradição, publicou, como
manchete principal, um balanço das privatizações, demonstrando que
o Brasil está ensejando mais recursos a esses grupos
internacionais que estão assumindo serviços públicos da maior
importância, ensejando mais recursos do que conseguiu arrecadar
com todas as vendas que executou até agora. Não quero dizer outra
coisa para quem queira interpretar. A “Folha de S. Paulo”, um
órgão privatista e, por conseguinte, insuspeito, está reconhecendo
que tudo isso foi um grande engano, que tudo foi uma grande
leviandade, que tudo foi uma grande irresponsabilidade. E, por que
não dizer, com gente tão preparada como essa que tem ascendido a
postos de administração, que tudo isso não passou de atos de vende-
pátria, de vende-interesse público, de vende o futuro do nosso
povo? Por que não dizer, também, que tudo foi uma onda de
corrupção que não conseguíamos jamais conceber na nossa
imaginação? Porque atrás dessas decisões assodadas, decisões sem
um mínimo de preparação, como tem sido da tradição brasileira,
excluindo praticamente o Poder Judiciário de tudo, o que é isso,
senão coisas obscuras que não representam senão atividades
corruptoras, atividades que não se sustentam à luz do dia. Nosso
País, hoje, não é o mesmo de 10 ou 12 anos atrás, tal a gravidade
das decisões tomadas. Quero dizer que estou plenamente de acordo.
Apoio a referência feita aqui, há pouco, desta tribuna. Nós, povo
brasileiro, há de chegar o dia em que vamos levar às barras dos
tribunais, ao banco dos réus, toda essa gente que não tinha o
direito de fazer isso com o nosso povo, sacrificando o futuro de
nossos filhos e de nossos netos.
Mas minha presença aqui, perante vocês, meus compatriotas, é para
expressar nossa solidariedade com o povo mineiro, com seus
governantes, com seus dirigentes de todos os setores e de todas as
instituições. Para nós, de outros Estados, a impressão que temos é
a de que o povo mineiro já está unido. Há uma união, senão
expressa por todas as partes, implícita em Minas Gerais. E quando
o povo mineiro se une é o prenúncio de que algo de importante está
para acontecer. Quando se une como uma só pessoa qualquer dos
Estados da nossa Federação, também há o prenúncio de uma questão
importante a acontecer. Mas, no caso de Minas, pela sua carga
histórica, pela massa histórica que está sobre os ombros dos
mineiros de todas as gerações dos tempos que vivemos, é de se
prever que algo de importante está para acontecer. Venho para
dizer, não só em nome dos meus companheiros, meus camaradas de
partido de Minas, nossos Deputados Estaduais, dirigentes regionais
e municipais do nosso partido, nossos Vereadores, nossos
Prefeitos, nosso representante federal, como também em nome de
toda a nossa bancada federal, unanimemente, tanto na Câmara quanto
no Senado.
E quando digo isso digo também em nome do partido, nacionalmente.
Se houver uma voz discordante, que haja. Serve para confirmar a
regra. Estamos com vocês, mineiros, que representam, neste
momento, todos nós, que sentimos que neste solo sagrado, onde se
sonhou este País, esta Nação, a nossa independência, o nosso
futuro, em tempos idos, recentemente surge alguma coisa
insondável, mas que, para nós, é uma luz que começa a cintilar no
fundo de toda essa escuridão. E o povo brasileiro vê tudo isso
como uma esperança. Estava sendo muito difícil não só entender
esse quadro de insensatez, mas também sair dele. Todos esses
interesses que foram se estabelecendo aqui, sob o controle
internacional, cada dia vão criando uma situação mais complicada e
mais difícil para o nosso País, porque atrás deles estão as nações
desses interesses, que dão cobertura, abertamente, à atuação
dessas corporações. Quando jovem ainda, governei o meu Estado
natal, o Rio Grande do Sul. Tive de enfrentar uma situação normal
para um governante que quer proporcionar energia para as
atividades econômicas e para sua população. Comunicação através do
desenvolvimento do sistema de comunicações telefônicas, ou
qualquer outro campo, quando enfrenta situações embaraçosas,
bloqueios, desenvolvimento, não tem outra coisa a fazer a não ser
enfrentar essas dificuldades. Podia ser uma empresa nacional,
podia ser sul-americana, européia, americana ou o que fosse. Não
vacilei em aplicar a legislação brasileira de que dispunha. Não
tinha outro caminho, por não conseguir cooperação. Tudo era
privado, e não consegui fazer com que investissem, com que
desenvolvessem, e lá ficavam e não queriam entregar nada. Não tive
outro caminho senão expropriar e retomar aqueles serviços públicos
que pertenciam ao Estado, especialmente a energia e a telefonia,
quando vi gigantescas corporações, precisamente aquela no campo da
telefonia, que depois derrubou o Presidente Allende, no Chile. Não
me dava conta, porque atuava de coração limpo, em nome da lei, em
nome daquilo que era justo. Mas para esses interesses não há
justiça. Marquei o meu destino com aqueles dois atos. Imaginem que
eram empresas que tinham sucatas. Uma rede telefônica não valia
nada para grande parte da população, que a colocava para poder ter
uma comunicação precária. Assim também a rede de energia elétrica
e as fontes de energia que possuíamos com base no carvão. Mas para
eles, não. Era uma espécie de propriedade da qual não queriam
abrir mão.
Não é o caso de aqui relatar, mas não imaginam o que passei para
poder consolidar aquela decisão. Pude contar com a presença do
Poder Judiciário, mas quero dizer também que se a situação fosse
como agora, se tivessem criado as manipulações que podem
desenvolver sobre o Poder Judiciário neste momento, não teria
conseguido rigorosamente nada. Porque teriam cassado as liminares
e as decisões que os Juízes singulares da base do Poder
Judiciário, de forma independente, haviam concedido ao Estado para
defender a população.
Recentemente, assistimos a um escândalo relacionado a isso - a
cassação em massa das liminares concedidas pelo Brasil afora
contra esses crimes que praticaram contra a Nação. Por
conseguinte, vivemos uma situação de anormalidade, porque a nossa
Nação está ameaçada. Todos os seus índices são precários, críticos
e ameaçadores. Os fatores de sacrifício e de decadência que recaem
sobre o nosso povo estão aí, à vista. Nos penalizamos e sofremos
quando vemos que o futuro das nossas crianças, das novas gerações,
a cada dia vai se estreitando mais.
Povo mineiro, quero mais uma vez insistir, o destino está
colocando em suas mãos a oportunidade do desencadeamento de uma
reação nacional, de uma resistência nacional que só os insensatos,
os negocistas, os corruptos, os aproveitadores desses tempos que
vivemos, aqui de dentro, contra as forças que estão lá fora, não
têm idéia do quanto vale. Por conseguinte, Sr. Presidente, nossas
congratulações por sua iniciativa; congratulações, Srs. Deputados,
pela formação dessa frente.
Essa frente é muito maior do que a que estamos vendo com as
assinaturas que criaram esse manifesto. Essa frente está sendo
ampliada pelo apoio que vai ter do povo brasileiro, por toda
parte. Isso vai frutificar, desenvolver-se e vai levantar uma
solidariedade em torno do povo de Minas, que, não tenho dúvida em
afirmar, vai ser o fim desse nefando neoliberalismo que caiu
ingratamente sobre o povo brasileiro.
Povo mineiro, enfrente. Vocês já marcaram os destinos desta
Nação. Quis Deus que fossem vocês os depositários de um contexto,
de um processo que recaiu sobre este Estado glorioso e querido da
Federação brasileira. Vamos resistir. Há pouco, em rápido diálogo,
ainda lembrávamos que o que temos a fazer neste momento é
resistir. O estado de anormalidade são eles, os poderes indevidos
que estão fazendo recair sobre nós, quando teimam em nos impor
ônus desse tipo, que contrariam os direitos inarredáveis do povo
brasileiro, como esse de não querer a entrega de suas águas, essa
riqueza básica para a vida. Eles teimam em nos oprimir. Devemos
responder-lhes com a resistência. Se amanhã tiver que se
transformar num movimento de desobediência civil a atos
insensatos, povo de Minas, siga em frente, em nome da nossa
história e de nossos antepassados. Verão, como em nenhum momento
de suas trajetórias, a solidariedade que terão de todo o povo
brasileiro. Essa solidariedade vai ser o fim desse período infame
que caiu sobre nós. Muito obrigado.