JOSÉ GERALDO DE FREITAS DRUMOND, Reitor da Universidade Estadual de Montes Claros - UNIMONTES.
Discurso
Legislatura 14ª legislatura, 4ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 17/05/2002
Página 18, Coluna 3
Assunto CALENDÁRIO.
Proposições citadas RQS 1595 de 2002
170ª REUNIÃO ESPECIAL DA 4ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 14ª LEGISLATURA, EM 7/5/2002
Palavras do Sr. José Geraldo de Freitas Drumond
Exmo. Deputado Wanderley Ávila, que, para nosso orgulho e satisfação - uma incrível coincidência -, neste momento, preside este ato solene e é um ilustre ex-aluno nosso; Secretário Antônio Salustiano Machado, quando a nossa universidade pertencia ao sistema de ciência e tecnologia, V. Exa. sempre nos apoiou e está representando o Governador Itamar Franco, que tem decididamente apoiado a Universidade Estadual de Montes Claros, haja vista que, em duas memoráveis circunstâncias, lá esteve, sediando o seu Governo na universidade, além de outros atos efetivos de apoio à UNIMONTES; ilustre Secretário Ângelo Oswaldo, com a sua argúcia e denodado descortino, tem nos apoiado também; ilustre Secretário Carlos Patrício de Freitas, que também tem comparecido ao Norte de Minas e à nossa universidade, visitando a instituição e o hospital universitário, e apóia decididamente as ações nele efetivadas - esses ilustres Secretários representam, qualitativa e competentemente, todo o secretariado do ilustre Governador Itamar Franco; Exma. Vereadora Fátima Pereira de Macedo; Sr. Deputado Gil Pereira; permita-me, ainda, ilustre Presidente, cumprimentar, de coração, a bancada norte-mineira, da UNIMONTES, por meio dos Deputados Arlen Santiago, Carlos Pimenta, Dimas Rodrigues, Doutor Viana, Gil Pereira, Luiz Tadeu Leite, Márcio Kangussu, José Braga e Wanderley Ávila; assim, quero crer que cumprimento todos os Deputados desta Casa; ilustre ex-Deputado Carlos Pereira, constituinte que deu origem a nossa UNIMONTES; digníssimas autoridades universitárias; ilustre Vice-Reitor Paulo César Gonçalves de Almeida; digníssimos Pró-Reitores; Diretores de centros acadêmicos e de órgãos suplementares; ilustre Prof. Sebastião Vieira Filho, Presidente do Conselho Curador da nossa universidade; ilustres Pró-Reitores e chefes de gabinete da nossa co-irmã, a UEMG; ilustre Dr. Nafitale Katz, Diretor Científico e Presidente em exercício da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais; Prof. Wilson Ramos, Diretor-Geral da Fundação de Apoio à UNIMONTES; ilustre comunidade acadêmica, aqui representada por professores, servidores técnico-administrativos e estudantes; ilustres ex-alunos, que têm dado grande satisfação e orgulho à nossa universidade, a quem cumprimento por meio do Dr. Fernando Elói de Almeida; senhoras e senhores: Minas Gerais é o Estado síntese da nacionalidade brasileira e berço da liberdade conquistada com o sangue dos inconfidentes de Vila Rica, quando a colônia ainda era um imenso e desconhecido território, mas já alvo da cobiça internacional.
A descoberta do ouro e do diamante, na alvorada do século XVIII, fez de Minas o maior centro econômico do reino de Portugual, cuja riqueza ultrapassou a metrópole, tornando incandescente a cobiça do colonizador.
Graças ao ouro e ao diamante, brotados generosamente de suas entranhas, Minas experimentou uma das maiores migrações humanas já registradas na história pátria. Com efeito, em um século - de 1700 a 1800 -, as quantidades de ouro extraídas desse rico solo superaram tudo quanto havia sido produzido em todo o planeta, inclusive as minas do rei Salomão.
Na busca incessante de ouro e pedras preciosas, apareceram as primeiras vilas e cidades, escrevendo-se a história da novel civilização brasileira. Destarte, surgiram Mariana, Vila Rica, Congonhas, São João del-Rei, Diamantina e Serro, entre inúmeras outras que evocam, até os dias atuais, quer no seu casario, quer nas suas serpenteadas ruelas, quer na arte de Aleijadinho e nos poemas de Marília de Dirceu, quer nos caminhos capistranos de Chica da Silva e nas fontes sulfurosas do Araxá de D. Beja, além de muitas outras, as lembranças de um pujante processo de interiorização e urbanização jamais vistos no Brasil.
Foi em Minas Gerais que se desenvolveu a primeira organização de uma classe média interiorana - constituída por juízes, militares, profissionais liberais, comerciantes, artesãos, artistas e intelectuais -, até então inexistente no restante do País, ainda submetido a relações do senhorio com o trabalho escravo, que aqui criaram uma estrutura político-administrativa idealizada pelo colonizador para impedir outra saída dos lucros da mineração que não fosse em direção a Portugual.
O Brasil de então voltou-se para o eldorado de Minas, o seu maior pólo de convergência econômica. Para o Rio de Janeiro, exportávamos ouro e recebíamos mercadorias e negros africanos; de São Paulo, chegaram os bandeirantes, atraídos pelos nossos minerais; do extremo Sul, os tropeiros gaúchos traziam carne bovina e cavalos para o transporte; do Nordeste, chegavam os fazendeiros baianos e pernambucanos, com o gado bovino e produtos agrícolas. Do Maranhão, do Piauí e do Pará, vieram os curraleiros. Gente proveniente de todos os quadrantes do território nacional, atraída pela nossa riqueza, encontrava-se nessas encostas e nesses vales recortados por belas montanhas, propiciando aos mineiros o papel de forjar uma nação amalgamada de negros, brancos, índios e mestiços, que, apesar das profundas desigualdades sociais, mas atraídos pela mesma cobiça, passaram a cultivar uma mesma língua.
Minas, Estado síntese da nacionalidade, berço da liberdade, terra de poetas e estadistas que ajudaram a fundar a Nação, hoje responde pela segunda economia nacional. Somos 15,5 milhões de brasileiros habitando 853 municípios, um Estado do tamanho da França, unindo brasileiros de norte a sul, leste a oeste.
“Minas são muitas”, diria o grande Guimarães Rosa, poeta do sertão; como o Norte de Minas, que é um espaço privilegiado, em que nasceu e se desenvolveu uma destemida civilização: a civilização sertaneja, do cerrado às barrancas do São Francisco. Que o diga Guimarães Rosa, no seu emblemático “Grande Sertão: Veredas”: “Sertão. Sabe o senhor: sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar. Viver é muito perigoso...”
Foi no sertão de Minas que baianos e paulistas, estes capitaneados por Matias Cardoso e Fernão Dias Paes, se encontraram à cata de pedras preciosas, exterminando as tapuias e os caiapós, ocupando o território e estabelecendo grandes fazendas de criação de gado para sustentar as zonas mineiras do ciclo do ouro, principalmente Vila Rica, Diamantina e Sabará, fornecendo a famosa carne de charque, hoje batizada de carne-de-sol, tão famosa quanto outrora.
Uma das características culturais mais tocantes da gente sertaneja, habitante destas paragens de Minas, é a sua cordialidade, a sua lhaneza no trato, a sua hospitalidade e a sua generosidade, que sempre ensejam saudade a todos que um dia têm a oportunidade de experimentar o seu cenário.
Foi neste cenário que nasceram as manifestações culturais mais antigas do povo mineiro, que perduram até os dias atuais, sob a forma de congado, catopês e marujada. É Montes Claros, que comemora, na segunda quinzena do mês de agosto, o ciclo do Rosário, a sua maior celebração cultural sertaneja. Na região norte-mineira, pode-se assistir à dança de São Gonçalo (rito dedicado às mulheres idosas em busca de casamento), as Cavalhadas (que é uma narrativa das lutas entre mouros e cristãos pela posse da Terra Santa) e as folias de Reis, de São Sebastião e de outros santos.
Outra grande característica desta região, dádiva divina, é o rio São Francisco, descoberto no ano de 1501 pelo navegador Américo Vespúcio. Suas águas se originam e se avolumam no território mineiro, deslizam generosamente rumo aos Estados da Bahia, de Pernambuco, Sergipe e Alagoas. Dos seus afluentes, vieram os bandeirantes; da sua foz, chegaram gado e curraleiros da Bahia e de Pernambuco. Escorregando sobre o seu leito, os vapores - as famosas “gaiolas” - levaram e trouxeram víveres, notícias, progresso, as gentes e suas paixões. É em suas entranhas que ainda se escondem os peixes mais suculentos da culinária brasileira.
Polarizando toda a região está a cidade de Montes Claros, o coração robusto do sertão mineiro, a urbe de ousados cidadãos que geograficamente habitam o Sudeste, mas que nunca deixaram de ser nordestinos na esperança de uma vida melhor e, principalmente, na solidariedade e na dignidade próprias dos peregrinos da Terra de Canaã. Para o antropólogo e professor da Universidade de Brasília, Luiz Tarlei de Aragão, Montes Claros é uma cidade do sertão do Norte de Minas onde se encontram dois fortes elos significativos da formação social do brasileiro: a herança bandeirante e a tradição nordestina.
Cidade centenária, de gente pura e de coração largo, cuja acolhida é certa e a amizade sincera, Montes Claros um dia elegeu como utopia fazer surgir uma grande instituição social, capaz de dar asas aos seus sonhos de um porvir melhor: a Universidade Estadual de Montes Claros.
Terra benfazeja, fértil em brasileiros ilustres, como o poeta Augusto dos Anjos, o antropólogo Darcy Ribeiro, o cantor Beto Guedes e tantos políticos que se destacaram e ainda se destacam na Assembléia Legislativa, na Câmara e no Senado, bem como nos Poderes Executivo e Judiciário. Terra de mulheres fortes e determinadas, como Tiburtina, mas bonitas e faceiras, como as moças brejeiras que enfeitam as janelas e ajardinam as praças, tão belas, cheirosas e viçosas como as flores e os frutos dos campos das Gerais de Minas.
De Tarlei de Aragão, já citado: “Montes Claros de Minas é museu a céu aberto da história social do Brasil, agasalhando em seu espaço as duas faces antinômicas e hegemônicas de nossa formação social, relíquia do Brasil-colônia e dos ‘caminhos de povoamento’”.
Deputados, foi nesta Casa do povo de Minas que nasceu a Fundação Universidade Norte-Mineira, em 24/5/62. Nessa época, Montes Claros e respectiva região constituíam uma só e imensa área, isolada física, social e culturalmente do restante do Estado e do País, equivalendo-se a um verdadeiro enclave de subdesenvolvimento, que, aliado aos vales do Jequitinhonha e Urucuia, desafiava a inteligência dos governantes mineiros.
A existência de uma universidade pública regionalizada, comprometida desde o nascedouro com o progresso e a melhora da qualidade de vida das populações de seu entorno, era tudo o que sonhava o cidadão norte-mineiro, até que, no dia 24 do mês de maio do ano de 1962, quando, pela Lei nº 2.615, de autoria do então Deputado norte-mineiro Cícero Dumont, veio à luz a primeira instituição de educação superior do Norte de Minas.
Criar uma universidade naquela geografia significava, categoricamente, uma corajosa decisão política, que tinha o objetivo de instrumentalizar a sociedade e o poder público, por meio de uma instituição capaz de influir decisivamente nas desejadas mudanças político-sociais da região, tornando-se verdadeiro centro irradiador de conhecimento e cultura.
Foram 40 anos de lutas, memoráveis lutas. E de vitórias, inquestionáveis vitórias, que culminaram com a transformação daquela instituição na UNIMONTES, pelas mãos dos constituintes mineiros de 1989, acolhendo a manifesta vontade de um povo ansioso por ver materializado o seu sonho maior - o de dotar Montes Claros e o Norte de Minas de um pólo de educação superior com qualidade suficiente para alavancar o seu futuro.
Hoje não se duvida mais que ambientes constituídos por instituições de geração do conhecimento, onde ocorre o avanço tecnológico em articulação com o setor produtivo, são capazes de promover um rápido e definitivo progresso material para as populações que neles residem.
A presença de uma universidade como centro gerador e facilitador da transmissão de conhecimentos repercute diretamente na produtividade das pessoas, como bem demonstrou o Nobel em economia, Robert Lucas, em sua teoria do crescimento endógeno.
A UNIMONTES representa, hoje, a única universidade existente na macrorregião Noroeste de Minas Gerais a oferecer uma concentração tão elevada de cursos de graduação e pós-graduação, e cuja área de influência alcança uma extensão territorial equivalente a quase metade do Estado, acima do Paralelo 18, em todos os seus quadrantes.
A UNIMONTES detém mais de 80% de todas as vagas e 90% de todo o alunado de curso superior dessa macrorregião, albergando estudantes nas áreas de saúde, educação, ciências sociais aplicadas, ciências humanas e ciências exatas e tecnológicas, no “campus”- sede de Montes Claros, bem como nos seus “campi” de Januária, Janaúba,
Pirapora, Almenara, Salinas e nos 50 núcleos onde oferece cursos de licenciatura emergencial para mais de 300 municípios consorciados.
Pode a UNIMONTES orgulhar-se de ter contribuído para com a educação superior de mais de 18 mil cidadãos norte-mineiros, tendo atingido uma extraordinária marca, que supera em 80% o número de estudantes originários da sua região e 92% de seus egressos, permanecendo fixados na sua área de atuação, promovendo mais progresso. Hoje, a sua comunidade universitária está constituída por mais de 11 mil estudantes, matriculados em centenas de cursos de graduação, pós-graduação, extensão e de ensino técnico-profissionalizante, onde atuam 1.800 servidores, entre professores e pessoal administrativo.
Esse inventário de incomparável e imponderável riqueza cultural se une à riqueza material que move a roda da economia dos municípios-sede de nossas unidades, aumentando em cerca de 25% a sua arrecadação.
Deputados, esta prestigiosa homenagem que a Assembléia Legislativa faz à UNIMONTES, antes de representar o reconhecimento do criador à sua criatura, representa uma incomparável afirmação política de uma decisão acertada, que traduz a imprescindibilidade da classe política não só da democracia, mas também, ainda e sobretudo, de fazer ecoar os gritos de independência do povo de Minas, das muitas Minas que necessitam, mais que antes, de se encontrar através da justiça social.
No meu abraço emocionado, pessoal e institucional, deixo consignados o reconhecimento dos professores, funcionários e universitários da UNIMONTES, uma universidade sertaneja, universidade barranqueira, universidade dos montes e vales. Uma universidade das Gerais de Minas. Deus lhe pague.