JOÃO PIMENTA DA VEIGA FILHO, Ministro de Estado das Comunicações.
Discurso
Transcurso do 100º aniversário de nascimento do ex-Governador Milton
Campos.
Reunião
99ª reunião ESPECIAL
Legislatura 14ª legislatura, 2ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 19/08/2000
Página 27, Coluna 2
Assunto HOMENAGEM. ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA.
Legislatura 14ª legislatura, 2ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 19/08/2000
Página 27, Coluna 2
Assunto HOMENAGEM. ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA.
99ª REUNIÃO ESPECIAL DA 2ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 14ª
LEGISLATURA, EM 16/8/2000
Palavras do Sr. Pimenta da Veiga
Exmo. Sr. Presidente, Deputado Bilac Pinto; Sr. Secretário Ângelo
Oswaldo; Sr. Ricardo Pimenta; Srs. Senadores José de Alencar e
Francelino Pereira; Sra. Maria Regina Campos Horta; Sr. Roberval
Borges, Diretor dos Correios; prezado Prof. Raul Machado Horta;
Sr. ex-Governador de Minas Gerais Rondon Pacheco; Sr. Ministro do
Supremo Tribunal Federal e ex-Ministro da Justiça Oscar Dias
Corrêa; Dr. Celso Mello Azevedo, ex-Prefeito de Belo Horizonte;
Dr. Carlos Elói, ex-Deputado desta Casa e ex-Presidente da CEMIG;
Deputado Odelmo Leão; Dr. Orlando Vaz, ilustre advogado; Sr. Vice-
Prefeito de Belo Horizonte; Srs. Conselheiros do Tribunal de
Contas de Minas Gerais; Prof. Aluízio Pimenta, ex-Ministro da
Cultura; minhas senhoras, meus senhores, inicialmente, desejo
destacar a importância da homenagem prestada pelos Correios ao ex-
Governador Milton Campos. Esse ato, simples como foi, na verdade
reveste-se de grande conteúdo, porque procura perenizar a memória
do homenageado. A Empresa de Correios, grande empresa nacional, a
cada ano destaca algumas instituições e pessoas que devem ser
homenageadas com a edição de selos. Estou feliz porque, nesta
semana, é a segunda vez que venho a esta Assembléia, para
participar de uma homenagem. São dois grandes brasileiros:
primeiro, Gustavo Capanema. Hoje, Milton Campos.
Esse selo não fica restrito a Belo Horizonte, a Minas ou ao
Brasil. Certamente, correrá por vários países, e é uma pequena
contribuição. É dever de nosso Estado guardar o exemplo, a memória
e os gestos do ex-Governador Milton Campos. Devo dizer que falar
em um curto espaço, espremido entre a erudição e o talento do
Prof. Raul Machado Horta e, a seguir, substituído nesta tribuna
pela genialidade do Ministro Oscar Dias Corrêa, deixa-me, sem
dúvida, preocupado. Exatamente por isso, não tentarei imitá-los,
até porque conhecem o homenageado muito melhor do que eu, já que
ambos tiveram o privilégio de sua convivência pessoal.
Não tenho, portanto, nenhuma intenção de demonstrar
originalidade. De resto, é muito difícil falar de alguém da
estatura de Milton Campos. Desejo, assim, apenas destacar alguns
fatos. O primeiro é a extensão de sua personalidade. Não foi
apenas - e já seria muito - Governador de Minas, mas também um
grande político. Foi, além disso, advogado, jornalista e pensador.
Destaco, de modo especial, a sua capacidade administrativa. Mas
outros também foram bons administradores, ocuparam posições como
Milton Campos e tiveram qualidades parecidas. Por que, então, sua
personalidade é tão destacada? Por que se transformou nessa
referência em nosso Estado? Certamente, são muitas as razões, mas
vou aqui mencionar, segundo meu juízo, três delas, que terão
robustecido esse destaque: a correção e integridade de seu
caráter, a eficiência administrativa no Governo do Estado e,
sobretudo, algo que aprendi, desde cedo, ser atributo
indispensável aos grandes homens públicos: a coragem pessoal.
Milton era ameno no trato, mas revelou, ao longo de sua vida, atos
de grande coragem pessoal. Poderia citar vários, mas vou me ater a
alguns poucos. Um deles foi aqui mencionado pelo Prof. Raul
Machado Horta e se trata do fato de, em tempos difíceis do regime
militar, ousar divergir. Divergiu pela ação, às vezes, pelo
silêncio, e construiu algumas afirmativas como a seguinte: “Foi
por isso que divergi do AI-5 e, com maioria de razão, de sua
conseqüência, que foi o AI-12”. Hoje parecem palavras fáceis, mas
quem viveu aquele arbítrio sabe a dificuldade de pronunciá-las
naquele instante. Mais adiante, nesse mesmo pronunciamento, disse
ele: “Deixou-se à margem a chamada classe política, mas é inútil
tentar proscrevê-la, pois ela existe hoje e existirá sempre”.
Mas quero, ainda, referir-me ao episódio de sua candidatura à
Vice-Presidência da República. Quero fazer dois registros de
situações ocorridas no curso da campanha, Senador que era por
Minas, disputando a eleição com João Goulart. Um é, certamente, do
conhecimento público, mas o outro talvez tenha sido ouvido por
poucas pessoas. O primeiro deles ocorreu quando Milton Campos
afirmou que, se perdesse a eleição para a Vice-Presidência em
Minas Gerais, deixaria o Senado, porque interpretaria a posição do
eleitorado mineiro como uma negativa do mandato que havia
conquistado. Tive o trabalho, há muitos anos, de ir, para resolver
uma discussão que surgiu em torno desse assunto, à biblioteca da
Câmara dos Deputados, a fim de verificar a exata votação de Milton
em Minas. Ele ganhou aqui e, por isso, manteve-se Senador. Mas não
apenas disputou a Vice-Presidência, mas também colocou em jogo seu
próprio mandato de Senador.
Nesse mesmo episódio, ouvi algumas palavras de alguém que sempre
prezei muito e que foi contemporâneo de Milton Campos e seu
adversário político, mas que tinha por ele profundo respeito: meu
pai. E, nessa mesma eleição para a Vice-Presidência - jamais
esqueci -, em nossa casa, aqui em Belo Horizonte, meu pai disse,
numa reunião de família: “Melhor seria que, nessa eleição,
ganhasse a UDN”. Ele, fundador do PSD, referiu-se desse modo à
eleição, porque concluiu que seria melhor para o Brasil. Milton
tinha essa capacidade, superava até as arraigadas diferenças
partidárias daquela época.
Para ainda dar uma palavra sobre a eficiência administrativa de
Milton Campos, agora, com tantas publicações e notícias a respeito
dessa figura extraordinária, estive analisando seu governo, tempo
que não pude acompanhar, mas que vejo agora pelos olhos da
história, e constatei algo que deve ser proclamado: a clara
evidência da visão moderna do administrador Milton Campos. Ele
planejou o Estado, compreendeu, desde aquela época, o que se
defende hoje: que o Estado deve ser ágil e mantido dentro das
responsabilidades fiscais. Por isso esta homenagem que quero fazer
a ele, concluindo com um pensamento que me parece muito
interessante: Milton Campos foi um destaque em sua geração, que
não foi uma geração qualquer, mas das mais brilhantes que Minas
produziu e que o Brasil conheceu. Uma geração que, além dos nomes
citados, era composta de Gustavo Capanema, Gabriel Passos,
Francisco Negrão de Lima, Mário Casassanta, Abgar Renault, João
Alfonso, Ciro dos Anjos, Afonso Arinos de Melo Franco, Emílio
Moura, Pedro Nava, Rodrigo Melo Franco de Andrade, companheiros de
geração, entre outros, como o Dr. Celso Melo Azevedo, muito mais
moço, e o Governador Rondon Pacheco. Notável foi a definição que
fez dele Carlos Drummond de Andrade, seu companheiro de geração.
Disse dele, numa definição primorosa: “Milton Campos foi o
orientador involuntário e despretensioso da nossa geração”. Essa é
a verdade. Muito obrigado.