JOÃO BATISTA DE OLIVEIRA, Subsecretário de Direitos Humanos da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social e Esportes.
Discurso
Comenta o trabalho desenvolvido pela Subsecretaria de Direitos
Humanos da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social e
Esportes, como parte da apresentação do painel "A construção
da política de educação e direitos humanos em Minas Gerais."
Reunião
69ª reunião ESPECIAL
Legislatura 15ª legislatura, 3ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 24/11/2005
Página 39, Coluna 1
Evento Ciclo de Debates "Educação em Direitos Humanos".
Assunto EDUCAÇÃO. DIREITOS HUMANOS. ADMINISTRAÇÃO ESTADUAL.
Legislatura 15ª legislatura, 3ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 24/11/2005
Página 39, Coluna 1
Evento Ciclo de Debates "Educação em Direitos Humanos".
Assunto EDUCAÇÃO. DIREITOS HUMANOS. ADMINISTRAÇÃO ESTADUAL.
68ª REUNIÃO ESPECIAL DA 3ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 15ª
LEGISLATURA, EM 11/11/2005
Palavras do Subsecretário João Batista de Oliveira
Sr. Deputado Roberto Ramos, Vice-Presidente da Comissão de
Direitos Humanos da Assembléia Legislativa; prezados componentes
da Mesa; senhoras e senhores, Sr. Presidente, ontem estivemos na
abertura deste ciclo e fizemos uma saudação inicial. Hoje,
apresentaremos um pouco do nosso trabalho na Subsecretaria de
Direitos Humanos.
Início falando da criação da Subsecretaria de Direitos Humanos de
Minas Gerais, na reforma administrativa promovida pelo Governador
Aécio Neves, em 15/4/2003. Dentro da Subsecretaria de Direitos
Humanos, temos uma Superintendência de Direitos Humanos, que
possui três diretorias: uma de conscientização e educação em
direitos humanos, outra de proteção dos direitos humanos e
inclusão social, e uma diretoria de mobilização e monitoramento de
ações.
Dentro da Subsecretaria de Direitos Humanos, temos a
Superintendência da Criança e do Adolescente. Aqui faço um
parêntese pela importância de o tema “criança e adolescente”
entrar na organização da Subsecretaria de Direitos Humanos. Eu,
como Subsecretário, sou Presidente do Conselho Estadual dos
Direitos da Criança e do Adolescente.
Temos ainda a Superintendência da Juventude. Na estrutura da
Sedese, temos nove conselhos, dos quais sete estão na
Subsecretaria de Direitos Humanos. Só o Conselho de Esportes e o
Conselho Antidrogas estão nas subsecretarias temáticas.
Há o Conselho dos Direitos Humanos, o Conselho da Criança e do
Adolescente, o Conselho da Mulher, o Conselho da Juventude para a
Integração da Comunidade Negra, o Conselho do Idoso, o Conselho de
Direitos Difusos, em fase de implantação, e o Conselho das Pessoas
com Deficiência, todos vinculados à Subsecretaria de Direitos
Humanos, reforçando a atuação de uma secretaria de direitos.
Há algumas execuções diretas de prestação de atendimento, mas a
nossa natureza visa à defesa e à garantia dos direitos. A
Subsecretaria de Direitos Humanos é dirigida por militantes de
direitos humanos. Temos trabalhado a questão da educação em
direitos humanos, até porque o decreto determinou que essa questão
deve ser prioridade da Secretaria, o que tem facilitado nosso
trabalho.
Temos desenvolvido trabalhos referentes aos valores e à formação
de uma cultura da dignidade humana. Relataremos as atividades
desenvolvidas com esse foco. Procuramos tratar a educação de
natureza permanente sempre nessa direção. Cada ação da Secretaria
não significa um fim em si mesmo. Quanto às ações desenvolvidas
pela Subsecretaria de Direitos Humanos, o objetivo é a
transformação da sociedade, buscando uma nova realidade, a cultura
da justiça, da fraternidade, da paz e do respeito aos direitos.
Procuramos fazer com que os educadores em direitos humanos não
sejam apenas transmissores de conhecimento. Buscamos isso em nosso
trabalho externo com escolas, universidades, comunidades,
associações, sindicatos e comunidades rurais. As pessoas que
participam das capacitações, os instrutores e aqueles que realizam
essa missão, esses trabalhos, sempre aprendem muito e voltam com
muita coisa na bagagem, que passa a fazer parte do nosso conteúdo.
Enfocamos a incapacidade de perceber as conseqüências. Não só por
desinformação, mas principalmente por má-fé daqueles que não
acreditam em direitos humanos, não concordam com o rótulo direitos
humanos. Então, como é que a população percebe essa questão dos
direitos humanos e que os valores de direitos humanos não servem
apenas para uma pessoa? Um direito violado de uma pessoa tem de
ser de interesse de toda a sociedade. Daí a percepção de que
direitos humanos não significa que eu ou fulano não sofrerá
nenhuma violação. Qualquer violação a qualquer pessoa da sociedade
significa uma violação de direitos humanos. Todavia, no Brasil
temos enfrentado grandes dificuldades. Aliás, pessoas que têm seus
direitos violados são solidárias; mas deixam de ser quando ocorre
violação dos direitos humanos de outrem.
Direitos humanos é educação formal, e educação não formal são os
movimentos sociais. Houve grande avanço em Minas Gerais. Citarei
uma pesquisa de quatro anos atrás, encaminhada pelo Dr. Manoel
Conegundes, ex-Secretário Adjunto de Justiça de Minas Gerais.
Trata-se de uma pesquisa realizada nas universidades de Minas
Gerais. De maneira assustadora, 40% dos universitários concordam
com a tortura como método de investigação. Então, se os alunos das
universidades pensam assim, imaginem o cidadão comum, que acaba
sendo manipulado! Apesar de não ser um estudo atual - foi feito há
quatro anos -, temos toda a metodologia que foi utilizada; estava
arquivado na Secretaria. Também de maneira assustadora, vimos que
43% dos entrevistados concordam com o fechamento do Congresso
Nacional, e que grande número concorda com o linchamento de
pessoas que cometeram crimes hediondos, crimes que revoltam a
opinião pública. Temos a fonte, os alunos pesquisados.
Gostaria de fazer um comentário sobre o referendo das armas, que
deu um belo exemplo de deseducação em direitos humanos nas duas
partes. Temos responsabilidade nesse processo, por estarmos num
espaço pedagógico, como este, e um programa de TV usar meias
verdades ou não-verdades para manipular. Ninguém disse, por
exemplo, que o direito à vida e à defesa pessoal é matéria de
direitos humanos; ninguém disse para a população pobre de Belo
Horizonte, de Minas Gerais e do Brasil que uma pessoa gasta
R$3.000,00 para ter arma de fogo - o seu preço é de
aproximadamente R$1.000,00, mais licença de R$1.000,00, registro
de R$300,00, fora o curso de treinamento de tiro. As duas frentes
não aproveitaram o tema como espaço pedagógico; promoveram a
deseducação em direitos humanos com dinheiro público. Não estou
tomando posição de uma ou de outra frente. Registro apenas que o
poder da mídia é muito importante e às vezes contrário à educação
em direitos humanos - isso foi dito ontem.
Recebemos, com muita alegria, a notícia de que o Ministério
Público Federal concedeu liminar contra a Rede TV, suspendendo a
transmissão do programa do João Kléber, por colocar os
homossexuais em posição de desvantagem na sociedade, promovendo o
ridículo. Temos de usar o Ministério Público como ferramenta da
sociedade. Essa ação do Promotor Sérgio Suiama, da Promotoria dos
Direitos Humanos, conseguiu suspender a transmissão de um programa
de televisão e fazer com que a Rede TV pudesse adequar a sua
programação. Isso foi fundamental para que outras ações ocorram
nesse sentido. Apesar do monopólio da mídia no Brasil, temos
esperança de contar com a televisão e com a imprensa de modo geral
trabalhando a favor da sociedade.
A proposta da Subsecretaria é trazer o tema “direitos humanos”
para o cotidiano das pessoas, que sofrem violações ao morrer nas
filas de espera de uma cirurgia programada para seis meses, ou
quando a cadeira de rodas de uma criança não passa pela porta do
banheiro. A população não entende isso como violação dos direitos
humanos. Precisamos mostrar mais para a população que a moradia
inadequada, como em áreas de risco, e a questão ambiental são
matérias de direitos humanos.
O estigma que se criou sobre direitos humanos, de que são uma
defesa de direito de bandido, interessa a quem os viola. Ao
terminar a apuração do referendo, o Sr. Fleury, ex-Governador de
São Paulo - aquele dos 111 assassinatos no Carandiru -, disse que
pretende propor novos plebiscitos, para a redução da maioridade
penal, na eleição do próximo ano. Há pessoas que defendem a
realização de um plebiscito para a não-maioridade penal.
Isso tudo é muito perigoso, principalmente para os mais pobres.
Como muitas vezes eles não têm acesso à informação adequada,
terminam votando contra os seus próprios interesses e mantendo
privilégios.
É preciso trazer o tema “direitos humanos” para o cotidiano das
pessoas e fazer com que a população (...) O maior defensor de
direitos humanos não são os nossos ícones. Aliás, não deveria ser
o Deputado Durval Ângelo, a Sra. Helena Greco, o Sr. Paulo Sérgio
Pinheiro, mas sim cada cidadão. Os nossos ícones de direitos
humanos devem ser a fonte inspiradora e alimentadora dos nossos
sonhos e das nossas esperanças.
O cidadão comum resolve procurar a Comissão de Direitos Humanos,
os Deputados Roberto Ramos ou Durval Ângelo, como se ele próprio
não pudesse fazer a defesa dos direitos humanos. Propomos essa
mudança, para que seja matéria do cotidiano das pessoas. Dessa
maneira, conseguiremos fazer com que os que atuam hoje como
referência estadual, nacional e internacional em direitos humanos
- pensadores e os que promovem ações fundamentadoras nessa área -,
sirvam para alimentar essa luta e os nossos sonhos.
Quero mostrar agora algumas realizações. Recentemente, no mês
passado, implantamos em Belo Horizonte o escritório de direitos
humanos de Minas Gerais como política pública. O nosso Estado é o
único da União a possuir um escritório de direitos humanos como
política pública de direitos humanos. Ele funciona na Defensoria
Pública de Minas Gerais para cuidar desses casos mais
emblemáticos, advogar em direitos humanos e formar recursos
humanos. Uma das funções desse escritório é trabalhar com a
capacitação de lideranças comunitárias e de formadores de opinião.
Em São Paulo, há um outro escritório de direitos humanos, que é
da USP. O de Minas Gerais é o único como política pública de
direitos humanos. Temos um trabalho permanente também como
programa de governo, a campanha contra o abuso e a exploração
sexual de crianças e adolescentes. Já chegamos aos 853 Municípios
do Estado. Ela é permanente. O nosso Disque Direitos Humanos
recebe 15 mil chamadas, aproximadamente, por ano. Houve um pico de
até 400% no número de denúncias de abusos e de exploração sexual
contra crianças e adolescentes. Isso significa que estamos
formando um capital social. A população está chamando para si a
responsabilidade de denunciar. Chegamos à conclusão de que não
havia como promover a delação pela delação. Terminamos com o
Disque SOS Criança e Disque Denúncia e os transformamos em Disque
Direitos Humanos. Quando a pessoa liga, não está promovendo uma
delação, mas sim exercendo a garantia de direitos, ou seja, defesa
de direitos humanos. Até o nome mudamos para que o Disque Direitos
Humanos servisse como ação de cidadania, e não simplesmente como
meio de delação.
Hoje os resultados são muito efetivos e concretos em relação a
esse trabalho realizado em Minas Gerais. Temos também o pagamento
das indenizações às vítimas de tortura. Há uma lei estadual da
qual fui relator, nesta Casa, como Deputado Estadual. Este ano já
indenizamos 120 pessoas, mais do que em todos os anos anteriores.
Estamos negociando recursos financeiros a duras penas. De maneira
muito sábia, o conselho que define as indenizações sempre optou
pelo máximo, nunca aplicou valores diferentes, porque não dá para
quantificar a dor de ninguém. Quando promovemos essa indenização,
promovemos como uma reparação, perante a sociedade, à violação de
direitos. Entendemos essa indenização como um efeito pedagógico, o
Estado fazendo “mea culpa” e mostrando para a sociedade que as
coisas mudaram. Essas pessoas são mártires da democracia
brasileira e deveriam estar sendo convidadas para freqüentar as
universidades, a fim de contar histórias para essa turma da
pesquisa que teve como resultado 40% a favor da tortura; são
cidadãos anônimos, heróis vivos que nem sempre recebem
reconhecimento. Na Subsecretaria de Direitos Humanos, estamos
procurando fazer essa reparação e reconhecer publicamente a
importância desses heróis brasileiros. São mártires da democracia,
que às vezes estão ao nosso lado, e de quem não conhecemos a
história bonita e de fé que tiveram no Brasil.
Estamos concretizando as negociações para a implantação do
Memorial de Direitos Humanos como um centro irradiador,
transformador da sociedade. Já catalogamos boa parte dos
documentos da época da repressão. O Memorial será um centro que
irá contribuir com pesquisadores, estudantes e com quem quiser
conhecer, contar ou recontar essa história no futuro. Já estamos
bem adiantados quanto a implantação.
Estamos também na reta final para a implantação, como política
pública, do Centro Estadual da Diversidade Sexual. Como Deputado
Estadual, fui autor da lei na Assembléia Legislativa, e, apesar de
Minas ter fama de conservadora, o projeto foi aprovado por
unanimidade. Se Minas é conservadora, nesse ponto não foi. Já
estamos alugando um bom imóvel para a implantação do Centro da
Diversidade Sexual, com a dignidade que o tema, a militância e as
pessoas merecem.
Nosso lema do Disque-Direitos Humanos de Minas Gerais é “um só
número, todos os seus direitos”. Juntamos o Disque-Denúncia, o
Disque-SOS, todos os “disques”, que passaram a ser “um só número,
todos os seus direitos”.
Queria fazer um comentário final, emitir uma opinião pessoal
sobre um fenômeno que está começando a acontecer no Brasil e em
Belo Horizonte. Não se trata de uma opinião de Estado. Felizmente,
em Belo Horizonte a coisa é muito bem fundamentada. Estou falando
da questão da esmola no Brasil, do trabalho infantil. Existem
pessoas e instituições sérias trabalhando pela erradicação do
trabalho infantil. Nós também trabalhamos com esse objetivo. Temos
que ter algum cuidado para que essa onda que começou no Sul do
Brasil não tenha a questão da esmola simplesmente como uma maneira
de lavar as mãos e virar as costas para uma chaga da sociedade.
“Não dê esmola, procure uma instituição.” Estão mandando orçamento
para a instituição atender essas crianças? Temos que tomar cuidado
para que isso não funcione como um espaço pedagógigo de informação
para promover uma espécie de limpeza étnica: “Saia da esquina,
porque os turistas que vêm ao Brasil não podem te ver na esquina
pedindo esmola e fazendo malabarismo”.
Para encerrar, gostaria de citar uma obra de Guimarães Rosa - os
mineiros apreciam muito Guimarães Rosa -, em que aparecem os
bandos, os bando do mal e os bandos do bem. Os bandos do bem foram
formados para impor justiça, por absoluta ausência de Estado. Um
de seus grandes personagens, que aparece na história de Augusto
Matraga, chama-se Joãozinho Bem-Bem - uma espécie de líder de um
bando do bem. O referido personagem dizia o seguinte: “Homem meu
só mata morte que eu autorizo. E morte que eu autorizo é legal”.
Fazendo um paralelo, se o seu vizinho lhe empresta um dinheiro e
lhe cobra 10% de juros, você poderá denunciá-lo como agiota e ele
irá preso. Mas, se o seu banco lhe faz um empréstimo a juros de
20%, você não poderá denunciá-lo porque ele é um agiota oficial. O
agiota que o governo autoriza é legal.
Se houver um programa público que distribua esmolas para toda a
população, as pessoas poderão recebê-las, por tratar-se de uma
esmola oficial. Mas as esmolas recebidas nas ruas não são legais,
portanto, não devem ser recebidas. Temos de tomar cuidado com
isso, porque são coisas que sempre prejudicam o lado mais fraco.
Mais uma vez, gostaria de ressalvar que não estou falando da
campanha que está sendo feita em Belo Horizonte, já que ela tem
fundamento científico. A Prefeitura oferece programas para essas
crianças. No Brasil, os pobres sempre vivem das migalhas. Por isso
devemos tomar cuidado para não fazer com que só valha a esmola
oficial. Obrigado.