INOCÊNCIO DUARTE DE OLIVEIRA, Membro da Comissão Histórica da Causa de Beatificação do Cônego Lafayette da Costa Coelho.
Discurso
Transcurso do 40º aniversário de falecimento do Cônego Lafayette da Costa
Coelho. Comenta a abertura do processo de sua canonização.
Reunião
283ª reunião ORDINÁRIA
Legislatura 14ª legislatura, 3ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 26/09/2001
Página 19, Coluna 4
Assunto HOMENAGEM. RELIGIÃO.
Legislatura 14ª legislatura, 3ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 26/09/2001
Página 19, Coluna 4
Assunto HOMENAGEM. RELIGIÃO.
283ª REUNIÃO ORDINÁRIA DA 3ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 14ª
LEGISLATURA, EM 19/9/2001
Palavras do Sr. Inocêncio Duarte de Oliveira
Exmo. Sr. Presidente da Mesa, Deputado Olinto Godinho, 3º Vice-
Presidente da Assembléia Legislativa, representando o Presidente
desta Casa, Deputado Antônio Júlio, na pessoa de quem cumprimento
os seus demais colegas e todas as autoridades presentes. Ao povo
de Santa Maria Maior e aos demais presentes, nossas saudações.
Em nome do povo fiel, vamos tentar expressar o que representa
para nós o servo de Deus Lafayette da Costa Coelho.
Seria muito melhor representado se um dos seus parentes ou
contemporâneos aqui estivesse, mas não nos esquivamos, porquanto
diamantinense, membro da Comissão Histórica Diocesana e, até há
poucos dias, Defensor Público na comarca que fora sua paróquia,
também sou como um seu neto, já que meu pai, órfão de pai aos 9
anos de idade, teve dele grande ajuda educacional e para a própria
subsistência.
Minha mãe, grande amiga, assistiu-o na hora da morte, enquanto
ele me abençoava ainda no ventre dela.
Peço vênia para, extrapolando a incumbência, falar em nome de
todos os moradores dos antigos locais visitados, em seus mínimos
rincões, pelo saudoso Pe. Lafayette, pois foi por esses esforços
que nasceu o Santo Cônego.
Como definir o Santo Cônego, hoje servo de Deus, Lafayette da
Costa Coelho, nosso homenageado?
É uma tarefa hercúlea. Sozinho, impossível.
Para ser fiel à história e à cronologia, não poderia deixar de
lembrar os esforços de Pe. Euler nos anos 70 - pós-80 de Pe. Ismar
- e, atualmente, do nosso Bispo Diocesano, D. Emanoel Messias de
Oliveira, que abraçou a causa, levando-a a Roma no ano passado,
bem como de nosso pároco, Pe. Luiz Barroso, Presidente da Comissão
Histórica, e dos demais membros do Tribunal Eclesiástico.
Por isso, em louvor à incontida alegria de todo o povo da Diocese
de Guanhães, que se sente vangloriada, tomarei emprestadas letras
do seu primeiro Bispo, D. Antônio Felippe da Cunha: “ cheguei à
conclusão de que ele é um santo. Santo, porque fiel à Igreja, fiel
aos seus compromissos de padre para com o povo de Santa Maria do
Suaçuí. Parece-me que Cônego Lafayette, que não tive a honra de
conhecer em vida, era um homem todo de Deus e do povo. Sinto que,
o dia todo, punha-se a serviço de Deus, de maneira plena e de
forma incondicional. Era um homem paciente e alegre, sempre
voltado para o interesse de todos”.
Não era, pois, sem tempo o reconhecimento necessário do povo
mineiro, pelo que agradecemos a homenagem, na pessoa do Exmo. Sr.
Presidente desta Mesa.
Agradecemos também os esforços e pedidos do Exmo. Sr. Deputado
Durval Ângelo, subscritor do requerimento primevo. Esta Casa
Legislativa ganha espaço estadual, nacional e internacional ao
promover tão justa homenagem.
Tenham certeza de que os valores que o Cônego Lafayette defendia
- simplicidade, obediência, humildade, santidade, dedicação,
serviço fraterno, visita familiar, entre outros -, com temperança
e fortaleza, transporão nossas fronteiras.
A notícia do “Santo” Cônego, levada pelos migrantes e seus
descendentes, já chegou a vários Estados, e não há uma família
sequer nas localidades pelas quais passou que não tenha recebido
uma grande graça sua.
Mas quem é Lafayette da Costa Coelho? Foi no dia 10/11/1886 que a
Vila do Príncipe, atual Serro, viu nascer o sexto filho, entre
oito, do Sr. José da Costa Coelho (Juca Paraguaio) e D. Júlia
Felisbina de Jesus.
De família simples, marcada pela oração, pelo serviço e pela
vocação que fizeram dois Padres e uma freira, entre os irmãos, a
etimologia de Lafayette já denunciava a fraca condição pessoal de
saúde e o bastião forte interior.
Os seus primeiros estudos foram feitos no Serro, e, apesar de ter
tido dois namoros “de janela”, com Maria Gabriela e Maria Nazaré,
o professor primário Lafayette foi chamado pela porta por uma
terceira Maria, a padroeira paroquial e mineira, Maria Maior,
tendo ingressado no Seminário Diamantinense no ano de 1908, aos 22
anos de idade, levando dos parentes o apelido de “Frade”.
Desempenhava-se melhor nas disciplinas Teologia Moral, Direito
Canônico e História da Igreja, pilares de sua fé e de seu futuro
trabalho, chegando ao diaconato em 8/4/15 e, dois anos depois, em
15/4/17, ao presbiterato, dia em que, segundo o jornal “Estrela
Polar”, recebeu do aluno Francisco Silva a seguinte saudação
profética do que seria a sua vida, entre outras palavras:
“Sois padre. Ides espalhar entre os ricos e os pobres, entre os
orgulhosos e os humildes, a doutrina santa do Evangelho e trazer
ao seio da religião e da Igreja as ovelhas desgarradas. Sois
aquele que entrará no mais rico palácio como na mais humilde
choça. Tereis lenitivos para as dores e as misérias dos
indigentes”. (“Estrela Polar” de 22/4/17.)
Foi determinada pelo Bispo sua ida, no mesmo mês de abril, para
auxiliar seu conterrâneo, Pe. José Maria dos Reis, na então
Paróquia de Santa Maria do São Félix, que abrangia quase 2.000km2,
inóspita, sem estradas ou recursos, região carente até hoje.
Pe. José Maria dos Reis, baluarte mineiro na luta pela escola
pública, mesmo doente e fraco, foi um burilador do neo-sacerdote,
seu auxiliar por quase dois anos.
Lafayette assume integralmente a Paróquia após 12/4/19 e continua
sua obra. Desde então começamos a ver as graças oriundas das suas
mãos, que hoje estendem-se da Diocese de Guanhães a todo o povo
mineiro, quiçá ao Brasil.
Pe. Lafayette não tinha nenhum apego material, ficando apenas no
resíduo mínimo para a sobrevivência; mesmo assim, ajudou na
formação de vários paroquianos, quatro dos quais se ordenaram
Padres, um deles o meu tio, Pe. Jaime.
Conduzia-se por três regras de vida muito simples. A primeira,
servir ao próximo, a quem se dedicava com esmero.
A segunda, não deixar para depois, seja dia ou noite, chuva ou
sol. As canseiras, cravos nos pés, hérnias, úlceras, trabalho
quase solitário, longas distâncias percorridas, trilhos de animais
e chapadas, matas e vales, montaria em lombo de burro ou, às
vezes, quando havia estrada, em jipe de terceiros, nada era
empecilho ao socorro ao irmão. “Descansar, só lá no céu”, dizia,
acolhendo em si as palavras de D. Joaquim Silvério de Souza, seu
Bispo ordenante, e não deixando o sol encontrá-lo na cama.
A terceira regra era um espinho na sua vida. Doía-lhe deixar a
Paróquia para atender a chamados episcopais. Atendia sem se
importar nem com o próprio estado de saúde, sob ordens médicas de
permanência. Era o teste de sua obediência.
Em 25/7/47, foi o Pe. Lafayette nomeado Cônego, por D. Serafim,
Arcebispo de Diamantina. Tamanho foi o reconhecimento popular que
o título substituiu o nome e, pelos anos 50, foi considerado um
verdadeiro santo por todos os que o conheciam, enquanto ele
preferia fazer-se um humilde operário, sem deixar de ser pastor.
Revelou-se o taumaturgo na expressão popular “Santo Cônego”.
Até 21/9/61, foram 44 anos de trabalhos só na Paróquia, dedicados
ao povo, a quem ia, e ao que vinha de longe, para os ofícios e
para as bênçãos do seu pastor. Cumpriu-se a ordem direta de Jesus:
ide, ensinai e celebrai.
Lafayette não foi um apático, mas ativo, inteligente e
incentivador das obras pias e das causas públicas.
Na direção paroquial, teve também oportunidade de aproximar-se
desta Casa mineira e de acontecimentos de cunho político, mesmo
sem ser partidário. A esse respeito, destacamos o trabalho de
emancipação política dos Municípios de Santa Maria do Suaçuí e São
Sebastião do Maranhão, a oficialização de escolas públicas, a
criação e instalação de casas bancárias e da comarca, a eleição de
seu afilhado de batismo, Prefeito e, depois, Deputado, Nacip
Raydan Coutinho, médico e destacado político cujos projetos até
hoje prosperam e produzem frutos no Centro-Nordeste mineiro.
Assim, através deste afilhado Deputado, manteve estreito
relacionamento com a Casa Legislativa, nela deixando algumas de
suas idéias de aproximação dos anseios populares, de respeito ao
indigente, da necessidade de se votarem leis para o povo e do
papel do político de estar a serviço da causa pública.
Se falasse aqui, por vários dias, sobre a obra e a vida do Cônego
Lafayette, sobraria muito mais para ser falado. Abstenho-me,
dizendo que o “Santo Cônego” cativou o povo, cativou a “loucura de
Deus”. Fê-la produtiva, forte e vibrante, dentro dos corações de
seus fiéis, dando-lhes apenas um lembrete, através do qual
incentivou crianças e adultos no trabalho eclesial individual e
coletivo: “Sejam zelosos filhos do Coração de Jesus e de Maria”.
Falei do “santo”, cujos milagres ele continua fazendo a todo
instante, a qualquer hora do dia ou da noite, para quem pede com
fé.
Encerrando, não poderia deixar de erguer um brado à Diocese de
Guanhães e de convidar todos para se unirem a Santa Maria do
Suaçuí, na oração e no trabalho pró-beatificação, pois essa é a
nossa causa mineira, bem como para visitarem seu túmulo,
especialmente, às segundas-feiras, nos dias 21/9 e 10/11, quando
as manifestações populares tomam gosto original.
Esse é o servo de Deus Lafayette da Costa Coelho, a quem rendemos
nossas homenagens. Ele, para nós, será sempre o “Santo Cônego”.
Muito obrigado. Tenho dito.