HELOISA GRECO, Coordenadora do Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania. Coordenadora dos Trabalhos.
Discurso
Coordena a realização dos debates.
Reunião
32ª reunião ESPECIAL
Legislatura 16ª legislatura, 3ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 12/09/2009
Página 46, Coluna 2
Evento Ciclo de debates: "30 Anos de Luta pela Anistia Política no Brasil".
Assunto DIREITOS HUMANOS.
Observação Participantes dos debates: Betinho Duarte, Douglas Krenak, Gladson Reis, Marina Freitas, Daniela Oliveira, Virgílio de Mattos, Ângela Mendes de Almeida, Suzana Keninger Lisboa, Deputado Durval Ângelo.
Legislatura 16ª legislatura, 3ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 12/09/2009
Página 46, Coluna 2
Evento Ciclo de debates: "30 Anos de Luta pela Anistia Política no Brasil".
Assunto DIREITOS HUMANOS.
Observação Participantes dos debates: Betinho Duarte, Douglas Krenak, Gladson Reis, Marina Freitas, Daniela Oliveira, Virgílio de Mattos, Ângela Mendes de Almeida, Suzana Keninger Lisboa, Deputado Durval Ângelo.
32ª REUNIÃO ESPECIAL DA 3ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 16ª
LEGISLATURA, EM 28/8/2009
Palavras da Sra. Heloisa Greco
Debates
A Sra. Coordenadora - Depois dessas belíssimas intervenções que
completam esse quadro do estado de ascensão permanente contra os
territórios da pobreza e o resgate da impunidade, que acabou
consolidando a tortura como instituição neste país, passaremos
para as intervenções do Plenário. Mais uma vez, quero destacar a
importância deste Plenário. Há aqui turmas inteiras do grande
Colégio Estadual Central, em que estudei e lecionei.
É importante a presença desses jovens. Saúdo os companheiros de
antigamente - a Rosa, o Costinha, o Willian Santos -, e a Deputada
Cecília Ferramenta, pela passagem meteórica pela Mesa, que está
conosco também. Passaremos a palavra aos inscritos. Há 12
inscrições. Aproveitaremos ao máximo o debate. Há algumas
intervenções orais, que consideramos mais importantes.
O Sr. Presidente - Ainda estão sendo recolhidas as perguntas dos
telespectadores.
A Sra. Coordenadora - O primeiro inscrito é o Betinho Duarte,
Presidente do Comitê Brasileiro pela Anistia.
O Sr. Betinho Duarte - Bom-dia a todos. Gostaria de apresentar-
lhes o Irani, um sobrevivente da luta contra a ditadura militar.
Caro Durval, cara Bizoca, Virgílio, queridas Suzana e Ângela,
caros jovens, queria falar como professor, mas não temos como
fazer isso em um debate como este. Ontem desabafei, porque somos
sobreviventes da luta contra a ditadura militar. Hoje continuarei.
A Suzana falou sobre a questão da revanche. Suzana, revanche seria
fazermos o que fizeram conosco: dependurar no pau de arara,
assassinar, estuprar. Você está entendendo? Revanche seria isso. A
grande maioria não sabe o que o ex-marinheiro Cb. Anselmo, um dos
revoltosos de 1964 que virou o maior traidor da esquerda
brasileira, fez com sua esposa, que estava grávida do seu filho.
Ele a entregou, bem como a vários companheiros. Montaram uma
farsa, dizendo que foram mortos em tiroteio. É mentira. A esposa
foi morta na tortura. Lerei trecho do livro “Soledad no Recife”,
para que vocês não achem que estou apresentando versões. Digo a
verdade. No livro consta que ela foi encontrada em um barril,
completamente torturada, destruída. O filho que esperava do Cb.
Anselmo, traidor da esquerda brasileira, estava no fundo do
barril. Suzana, revanche seria isso. Não queremos revanche. Queria
trazer para o debate a questão: Quem são os responsáveis pela
tortura? O Virgílio falou a respeito dos métodos utilizados pelos
torturadores. É importante falar sobre disso. Fizemos uma
simulação em frente ao Dops. Havia uma lei que fechava o Dops, mas
nenhum governo a implementou. Fizemos um cadeado de isopor... (- É
interrompido.)
O Sr. Presidente - Para selar o Memorial dos Direitos Humanos de
Minas Gerais.
O Sr. Betinho Duarte - A Bizoca se lembra da manifestação que
fizemos. Levamos um cadeado do tamanho de um bonde. Aliás,
apanhamos naquele dia. Confesso a vocês com toda sinceridade,
Bizoca que admiro muito o pessoal do Teatro do Oprimido, mas
entendi pouco. Temos de ser mais claros, mais explícitos. Naquela
época, os nossos companheiros eram dependurados no pau de arara.
Pimentinha era um magnético que produzia eletricidade de baixa
voltagem e alta temperagem. Afogamento. Um amigo meu, Virgílio,
teve sua cabeça enfiada numa privada. Deram descarga com tudo o
que estava ali. Isso era o afogamento. A cadeira do dragão era
pesada, tinha assento de zinco e terminal para receber choques
elétricos. Empurravam as pernas do preso para trás, ferindo-as
continua e progressivamente. Colocavam presos em ambientes de
baixíssima temperatura. Insetos, animais, cobras e jacarés eram
colocados nas solitárias junto aos presos. Enfiaram ratos e
objetos nas vaginas de muitas mulheres, além de produtos químicos;
elas eram estupradas. Houve muitos vexames sexuais.
Durval, apontamos os torturadores dos presos políticos, aqueles
que estão lá em baixo. Ontem falei em Davy Hazan. O Tarci Menezes
prendeu-me em 14/3/1978. Quero trazer a esta Mesa, Durval, os
responsáveis pela tortura. Se hoje o Estado brasileiro está nos
pedindo perdão e desculpa é porque a ditadura militar torturou,
matou, assassinou e desapareceu com os nossos companheiros. Eles
são os responsáveis.
Ontem trouxe aqui um diálogo do ditador. Muita gente do nosso
meio chama Figueiredo de Presidente, chama o Geisel de Presidente.
Que Presidente porcaria nenhuma! São ditadores! Deram o golpe em
1964. São assassinos.
Quando fui buscar o Presidente da Comissão, em Confins, fiquei
pasmo, porque lá há uma fotografia de Tancredo e do ditador
Figueiredo. Isso é um abuso, uma afronta. É uma afronta ter um
retrato do Figueiredo em Confins. As fotografias desses ditadores
deveriam ser banidas. Lá há uma fotografia enorme do Figueiredo
inaugurando o aeroporto.
Voltando a essa questão de quem são os responsáveis, tirei uma
página do livro do Hélio Gaspari, que narra o diálogo que o Geisel
teve com o Ten. Cel. Germano Pedroso. Vou ler literalmente o que
está escrito aqui. “Pegaram alguns? Perguntou Geisel. Pegamos,
pegamos. Foram pegos quatro argentinos e três chilenos, respondeu
Pedroso. E não os liquidaram? Há muito tempo. Há elementos que não
adianta serem deixados vivos aprontando. Infelizmente, é o tipo da
guerra suja, em que, se não se lutar com as mesmas armas, perde-
se. Eles não têm o mínimo escrúpulo. O Geisel respondeu: é, o que
tem de fazer, nessa hora, é agir com muita inteligência, para não
ficar vestígios nessa coisa”. O AI-5, como o Virgílio falou, foi o
golpe no golpe. Aí se sacramentou a tortura. Quero saber quem
estava lá e digo a vocês quem foi a favor, votou e assinou o AI-5,
Durval. Não podemos nos esquecer dessas pessoas, porque elas estão
aí hoje, algumas sendo até homenageadas. O Ministro do Trabalho
daquela época, Jarbas Passarinho, aparece em páginas na imprensa,
inclusive mineira, posando como democrata. Sobre o Sr. Delfim
Netto, que era Ministro naquela época, dizem que hoje é assessor
do Lula. Quem são os responsáveis, então? Será que são só aqueles
que estão lá? Hoje nas cadeias se tortura, e será que são só
aqueles que estão lá os responsáveis?
Terminando, quero mais uma vez deixar uma reflexão para vocês.
Eles estão aí, vivos, e nós temos que nos lembrar disso. Ontem
lembrei-me de que, em maio, fizeram uma missa de 30 anos para um
dos maiores torturadores do País, que cometeu inúmeras atrocidades
em São Paulo, o Fleury, e havia vários policiais, Virgílio. Até
não entendo, Durval, como um padre celebra uma missa para um cara
que está no inferno, porque é lá que ele está. Será que o padre
acha que, com a missa, vai tirar esse torturador, esse bandido do
inferno?
O Sr. Presidente - Esse deve ser o famoso pecado contra o
Espírito Santo, que está no Evangelho; não tem perdão.
O Sr. Betinho Duarte - Será que esse padre pensa assim, senão
teremos de ir para outro lugar. Se cada missa tirar um torturador
do inferno, Suzana, teremos de pedir exílio novamente.
Para terminar, quero dizer que, nessa missa, estava presente o
Cb. Anselmo. Aliás, conversei com o autor desse livro, que se
chama “Soledad no Recife”, o Urariano Mota, e o Cb. Anselmo o está
intimidando, Durval. Quer dizer, em 2009 ainda estamos sendo
intimidados, perseguidos. Não me interessa, Suzana, quem está
ausente, mas os presentes. Temos de respeitar os que estão aqui. E
a luta continua. Tenho certeza, Suzana, de que um dia seremos
vitoriosos. Fomos parcialmente vitoriosos, mas um dia seremos
completamente. E os corpos daqueles 163 desaparecidos, dos quais
até agora descobrimos 4, suas famílias vão poder enterrar. Vamos
conseguir a anistia ampla, geral e irrestrita. Muito obrigado.
A Sra. Coordenadora - Com a palavra, o companheiro Douglas
Krenak, do Conselho dos Povos Indígenas de Minas Gerais, para
pergunta oral.
O Sr. Douglas Krenak - Erehé! Saudações indígenas a todos os
presentes. Cumprimento a Mesa e as autoridades. Meu nome é Douglas
Krenak, mas na minha aldeia eu me chamo Thã. Estou muito feliz de
participar deste grande evento na Assembleia e agradeço à Casa
pelo convite feito a mim e também ao Conselho dos Povos Indígenas
do Estado de Minas Gerais.
Eu queria falar alguma coisa antes de lançar a minha pergunta à
Mesa. Os povos indígenas, assim como todos os não indígenas que
sofreram com a ditadura, também passaram por muita atrocidade,
violência, por muito do que foi falado aqui hoje e por muitas
coisas mais. Sou neto de um guerreiro que morreu no exílio, num
antigo horto florestal do Município de Carmésia, que era um lugar
de treinamento de militares. Também sou filho de Waldemar Krenak,
que passou por esses exílios e também pelos maus-tratos da
ditadura militar. Hoje é atual administrador da Funai de
Governador Valadares.
Eu queria perguntar à Mesa e às autoridades presentes qual a
forma que nós, povos indígenas, também podemos participar
ativamente dessa luta pela anistia política no Brasil, uma vez que
a ditadura militar não fazia distinção de raça, cor ou gênero
daqueles que lutavam pelos seus direitos. Meu povo sofreu durante
esse período e, na minha aldeia, foi construído um reformatório
indígeno para aqueles povos que eram julgados infratores e lutavam
contra o esquema militar.
O meu povo tinha uma terra no Vale do Rio Doce, que, na época da
ditadura militar, foi titulada e trocada, sendo o meu povo exilado
para vários lugares do Brasil. Aliás, o meu avô e vários líderes
foram para o Município de Maxacalis, Bahia, São Paulo, região do
Rio Araguaia, Mato Grosso, enfim para vários lugares do Brasil, e
até hoje ainda existem parentes líderes morando no exílio, pois
não conseguiram retornar para suas terras de origem. Ainda há um
sofrimento muito grande. Primeiro, eles não conseguem retornar
para o seu local de origem e, segundo, há ainda um medo muito
grande de sofrer novamente repressões militares. Até hoje passamos
por abusos e chacotas no nosso Município, feitas por descendentes
daqueles opressores militares.
Quero fazer uma pergunta para a Mesa: de que forma nós, do
movimento indígena, podemos participar dessa luta pela anistia,
uma vez que também sofremos com a ditadura? Meu avô morreu no
exílio. Ouvi aqui conversas e falas sobre a tradição de enterrar
entes queridos. Nós também temos isso, e hoje sofremos na nossa
comunidade. A minha família é liderança de religião, e hoje não
temos sequer o direito de trabalhar os nossos rituais religiosos,
uma vez que meu avô foi enterrado fora da sua terra de origem,
fora do local onde desejou, há muitos anos, ter lutado e vivido.
Ele morreu no exílio, angustiado pela sua volta à terra de origem,
a fim de comer o peixe chamado cascudo e seu fubá suado, comida
tradicional feita no Vale do Rio Doce.
Fico até um pouco emocionado, porque passamos, na nossa
comunidade, por coisas absurdas que eram ocultas em toda a
sociedade. Houve casos de estupro e tortura. Eles decepavam a mão
e as pernas dos indígenas e faziam várias outras coisas. Meu pai
serviu de treinamento para cães dos militares, que eram soltos
atrás das crianças. Enfim, se eu for dizer aqui tudo o que
aconteceu, daria para escrever um livro de atrocidades. Entreguei
um documento ao Deputado André Quintão, mas posso também
disponibilizá-lo para os representantes da Mesa, caso queiram
saber mais detalhes sobre a ditadura militar ocorrida na minha
aldeia e também com os povos indígenas do Estado de Minas Gerais.
Creio que os governos do Estado de Minas Gerais e do Brasil têm
uma dívida muito grande com os povos indígenas, porque sofremos a
ditadura militar e os fatos foram ocultos, absurdos e com reflexos
até hoje, a saber os nossos territórios que nos foram retirados
para serem doados para grandes latifundiários da época, a
destruição e pichação dos nossos locais sagrados e o fato de
termos ainda parentes morando no exílio. Recentemente, com muito
sacrifício, meu pai conseguiu buscar um grande pajé da nossa
aldeia que estava exilado, no Mato Grosso. Isso não foi fácil,
porque ele ainda tinha muitas lembranças das atrocidades que
sofrera na minha terra. Hoje se encontra conosco, e realizamos um
trabalho muito forte com ele para voltar a nos ensinar todas as
tradições do nosso povo. Ele ainda tem medo de todo o processo que
sofreu, durante o período da ditadura. Enfim, gostaria de pedir
informações à Mesa sobre como poderemos participar dessa luta pela
anistia política no Brasil, uma vez que a ditadura também foi
praticada contra os povos indígenas, principalmente contra o meu
povo Krenak. Obrigado.
A Sra. Coordenadora - O Gladson Reis, do Grêmio Estadual Central,
dirigiu uma pergunta à Mesa. Seria importante que a apresentasse
oralmente, mas ele não está presente. A pergunta é a seguinte:
“Por que têm tanto medo de abrir os arquivos da ditadura?”.
A Marina Freitas, da Escola Estadual Governador Milton Campos,
apresentou a seguinte pergunta: “Em todos os tempos da ditadura,
as mulheres foram fortemente atacadas. Peço às mulheres da Mesa
que falem um pouco sobre a resistência feminina em tempos em que
sua sexualidade era usada contra si própria”.
A Daniela Oliveira, da Escola Estadual Governador Milton Campos,
apresentou a seguinte pergunta: “Apesar de já terem passado 30
anos da aprovação da Lei de Anistia, as mulheres do País são
torturadas em seus domicílios. Por que são tão brandas as punições
vigentes?”. Ela se refere à Lei Maria da Penha.
Como sou coordenadora, enquanto vocês pensam nas respostas a
essas questões, responderei ao questionamento do Douglas Krenak,
pois o seu depoimento foi muito contundente. Somos um pouco
responsáveis por essa invisibilidade da questões, principalmente
das ligadas à trajetória dos povos originários do Brasil, que
estão em fase final de extermínio. Nós, do Instituto Helena Greco
de Direitos Humanos e Cidadania, podemos nos articular para
recuperar essa história. Estamos à disposição, pois temos de
pensar em uma maneira de propor um ciclo de debates, para tratar
quase exclusivamente dessa questão, que é importante e está na
mais sombria invisibilidade. Eu não deveria interferir nisso, pois
os meus companheiros da Mesa deveriam discutir a questão, mas é
importante levantarmos esse problema.
O Sr. Virgílio de Mattos - Gostaria somente de falar sobre uma
passagem histórica. Betinho, não sei se você se lembra que, quando
falávamos do João do Calção, que era o ditador Figueiredo, um
sujeito apoplético interferiu, na escadaria da Igreja São José, e
você me disse: “Calma, calma, deixa ele falar. Deixa ele falar o
que ele quiser”. Não sei se você se lembra disso. A função da
memória é esquecer, mas a minha não funciona. O companheiro
perguntou sobre o medo de se abrir os arquivos. O medo é o óbvio.
Um ex-Ministro me disse que esses arquivos não existem mais e que
estão nas mãos dos torturadores. Eu acredito em saci, em Papai
Noel, mas dizer que esses arquivos não existem, eu estou fora. É
óbvio que esses arquivos existem, e eles têm medo de que, ao
tomarmos ciência ou consciência disso, possamos partir para cima
mesmo, pois a tortura, tecnicamente, é um crime de lesa-majestade,
imprescritível, inafiançável e insuscetível de graça ou anistia.
Vocês podem conferir isso em sua Constituição, para não dizerem
que isso está escrito somente na minha.
O que me apavora mais é ouvir dizer que essas punições são
brandas e que as leis deveriam resolver os problemas. Perdoem-me o
adjetivo, mas essa patética Lei Maria da Penha não funciona dessa
maneira, pois as mulheres continuam sendo espancadas e
violentadas, e não serão as leis penais que garantirão os seus
direitos. Temos de mudar essa estrutura de pensamento, de machismo
e de consumo. Temos de mudar a cabeça, o coração e a mente das
pessoas. A lei penal, sinto muito, não mudará nada. Agora, não dá
para ouvir dizer que as punições são brandas, pois elas são
pesadas. O simples fato de a pessoa passar pelo moedor, ou seja, o
processo penal não irá recompor a violência sofrida, significa que
pagará um preço alto demais. O importante é a mudança da
personalidade. Não é apenando as pessoas que vamos mudar esse
outro flagelo, que é a violência física contra a mulher.
A Sra. Ângela Mendes de Almeida - Farei uma observação genérica,
porque foi feita uma pergunta sobre a questão dos arquivos, o
companheiro mencionou o problema indígena e fizeram duas perguntas
sobre a questão feminina.
A minha avaliação do governo Lula está bem abaixo de zero, não
porque não tenha feito algumas coisas positivas, mas as negativas
ganham. Algo muito importante que está acontecendo é essa
concordata com o Vaticano, que irá introduzir, de forma mais
forte, o ensino religioso, que tem ligação com uma questão muito
importante e que considero fundamental para o movimento das
mulheres, ou seja, a luta pela legalização do aborto. Essa é a
primeira observação. De um lado existe essa luta contra as
violências sofridas pela mulher. Creio que toda violência
doméstica contra a mulher - que não chamaria de tortura - deve ser
objeto de solidariedade dos movimentos das mulheres. Por outro
lado, a questão do aborto é uma luta civilizatória, que vai para a
frente. Se as mulheres forem donas do próprio corpo, conseguirão,
de maneira melhor, evitar a violência doméstica. Nessa questão das
penas e da aplicação da Justiça, os crimes praticados pelos
pobres, quaisquer que sejam, são objeto de penas bastante duras.
Um elemento de cultura e a presença de advogados fazem com que um
Daniel Dantas - estou citando apenas um exemplo, poderia citar
outros - tenha privilégios, enquanto uma quantidade incomensurável
de pobres estão presos sem julgamento, e seus familiares, como
disse o Dr. Virgílio, são castigados e perseguidos com humilhações
inenarráveis.
A Sra. Suzana Keniger Lisboa - Temos muita responsabilidade, como
sociedade, pela não visibilidade da questão indígena. É sempre
muito importante vocês estarem presentes para nos cutucar, a fim
de nos lembrarmos de que temos deixado de falar sobre esse
assunto. Quanto aos arquivos, o principal medo se deve ao fato de
o Estado brasileiro haver cometido esses crimes. Quem mandou
matar, quem mandou torturar, quem mandou arrancar cabeças, quem
mandou desaparecer com os corpos foi quem estava na direção deste
país. O Estado brasileiro é responsável, os agentes que torturaram
são responsáveis, mas a responsabilidade maior é do Estado
brasileiro. O medo é da punição, da execração e de que os crimes
sejam conhecidos na sua totalidade. Aquele foi um período de
afirmação. A resistência das mulheres foi fundamental. Tenho muito
orgulho de ter participado da luta armada. Fui guerrilheira,
fiquei quase 10 anos na clandestinidade. Foi um período difícil,
mas foi um período de conquista. Existem situações que perduram.
Essa foi uma época em que as mulheres começaram a se inserir de
forma diferenciada no cotidiano brasileiro. Acho que a resistência
feminina foi fundamental. Maria Amélia de Almeida Teles, na
Coleção Primeiros Passos, tem um livro muito interessante sobre
isso: “As Mulheres na Resistência”. Não queremos que as punições
sejam maiores, queremos mudar a cultura. Não é que um tapinha não
dói. Um tapinha dói muito.