DEPUTADO WANDERLEY ÁVILA (PPS), Relator da Comissão Interestadual Parlamentar de Estudos para Desenvolvimento Sustentável da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco - CIPE - São Francisco. Autor do requerimento que deu origem ao evento.
Discurso
Comenta o Projeto São Francisco do Governo Federal.
Reunião
89ª reunião ORDINÁRIA
Legislatura 15ª legislatura, 1ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 25/10/2003
Página 56, Coluna 2
Evento Ciclo de debates: Revitalização e Transposição do Rio São Francisco.
Assunto RECURSOS HÍDRICOS. MEIO AMBIENTE. ADMINISTRAÇÃO FEDERAL.
Legislatura 15ª legislatura, 1ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 25/10/2003
Página 56, Coluna 2
Evento Ciclo de debates: Revitalização e Transposição do Rio São Francisco.
Assunto RECURSOS HÍDRICOS. MEIO AMBIENTE. ADMINISTRAÇÃO FEDERAL.
89ª REUNIÃO ORDINÁRIA DA 1ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 15ª
LEGISLATURA, EM 21/10/2003
Palavras do Deputado Wanderley Ávila
Exmo. Sr. Deputado Mauri Torres, Presidente da Assembléia
Legislativa do Estado de Minas Gerais; Exmo. Sr. José Alencar
Gomes da Silva, Vice-Presidente da República Federativa do Brasil;
Exmo. Sr. José Carlos Carvalho, Secretário de Estado de Meio
Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, representando, neste ato,
o Exmo. Sr. Governador do Estado, Dr. Aécio Neves; meu querido e
estimado companheiro, Deputado Antônio Passos, Presidente da
Assembléia Legislativa do Estado de Sergipe e Presidente da nossa
CIPE-São Francisco, que se faz aqui acompanhar de todos os membros
da CIPE-São Francisco da Assembléia Legislativa do Estado de
Sergipe.
Exmo. Sr. Deputado Gil Pereira, Presidente da Comissão de
Política Agropecuária e Industrial, membro da CIPE-São Francisco e
coordenador dos trabalhos; Exmo. Sr. Vítor Feitosa, Presidente do
Conselho de Empresários para Meio Ambiente da Federação das
Indústrias do Estado de Minas Gerais; demais membros que compõem a
Mesa, Srs. Deputados, Sras. Deputadas, Presidentes de ONGs,
senhores e senhoras que, como nós, têm a preocupação com o assunto
água, telespectadores da TV Assembléia, Exmo. Sr. Vice-Presidente
José Alencar, aproveitamos para abraçá-lo e cumprimentá-lo pelo
seu aniversário.
Como relator da Comissão Interestadual Parlamentar de Estudos
para o Desenvolvimento Sustentável da Bacia do Rio São Francisco -
CIPE-São Francisco -, agradecemos a V. Exa. a participação neste
ciclo de debates, atendendo a convite formulado pela CIPE e pela
Assembléia.
Queremos ressaltar de imediato que esta Casa sempre procurou
estudar, em profundidade, os problemas do rio São Francisco e a
situação ambiental da sua bacia hidrográfica. Não estamos fazendo
uma afirmação vazia. Não foi por outra razão que, em 18/12/91,
instalamos neste parlamento a CIPE-São Francisco, congregando
Deputados mineiros e dos Estados de Alagoas, Bahia, Pernambuco e
Sergipe em um fórum permanente de debates, visando a buscar e a
viabilizar soluções para o desenvolvimento sustentável dessa vasta
porção do território nacional.
Dos 640.000km2 da bacia, Minas Gerais detém quase 240.000, ou
seja, cerca de 40% de seu território. Nessa porção de terras
mineiras está a origem de mais de 70% das águas do Velho Chico.
São elas o maior manancial dos Estados nordestinos que
compartilham conosco a bacia. Como está escrito no protocolo de
intenções que deu origem à CIPE, reconhecemos nossa parcela de
culpa na degradação ambiental da bacia, especialmente pelo
desmatamento associado à produção de carvão vegetal, pela expansão
desordenada da fronteira agrícola, pela presença do grande pólo
minerador do Quadrilátero Ferrífero e pela presença de cidades do
porte de Belo Horizonte, a maior concentração urbana do vale, e de
inúmeras outras cidades-sedes de mais de 500 municípios, que
lançam quase todos os seus esgotos e efluentes industriais nas
águas que drenam para o São Francisco.
A CIPE, em seus primeiros quatro anos de vida, reuniu-se nas
Capitais dos Estados que integram a bacia e em diversas cidades
ribeirinhas, como Pirapora, Petrolina, Juazeiro e Penedo, para
debater temas relativos ao rio, como legislação, gerenciamento de
bacias hidrográficas, uso energético, controle de cheias,
barramentos e seus efeitos, irrigação, pesca e piscicultura,
navegação, lazer e cultura, degradação ambiental, poluição,
assoreamento, desmatamento, saneamento e abastecimento público.
Em 1994, nesta mesma Casa Legislativa, a CIPE promoveu uma
reunião pública para debater com o Ministro Aluísio Alves a
transposição das águas do rio para o Nordeste Setentrional.
Naquela ocasião, o Ministro encabeçava um grupo de autoridades
dispostas a executar a transposição a qualquer custo. As
discussões aqui realizadas demonstraram a necessidade de se
ampliarem os debates de forma a eliminar todas as pendências
necessárias para que houvesse apoio da sociedade envolvida ao
projeto.
Queremos abrir um parêntese para cumprimentar V. Exa., Sr. Vice-
Presidente, pelo espírito de homem público, que vem, por
iniciativa própria, promovendo este debate com todos os
interessados na questão.
Devemos dar testemunhos aqui sobre a solicitação de V. Exa., para
que nos empenhássemos em trazer a este Plenário as representações
de todos os segmentos sociais, a fim de serem ouvidas. Essa foi a
razão para que a CIPE e a Assembléia Legislativa de Minas Gerais
promovessem este ciclo de debates.
Como relator da CIPE, queremos reafirmar a nossa posição de que a
revitalização do rio São Francisco é urgente, extremamente
necessária e pré-requisito da discussão sobre a transposição. É
evidente o nosso entendimento de que a bacia hidrográfica do rio
da unidade nacional é patrimônio de todos os brasileiros.
Portanto, nosso posicionamento não pode ser interpretado como uma
simples defesa de interesses locais. Precisamos de uma
demonstração clara de que a transposição é um projeto técnica e
financeiramente viável e, muito mais que isso, é a melhor solução
para mitigar os problemas causados pelas secas nas áreas
receptoras das águas. Temos de confessar, senhoras e senhores: não
temos hoje essa demonstração.
A CIPE, em seus 12 anos de atividades, tem recolhido testemunhos
de técnicos e especialistas que confirmam a existência de um rio
agonizante, com índices de extrema fragilidade e quase total
comprometimento de sua vazão, com os usos atuais. Os projetos de
engenharia realizados para a transposição do rio São Francisco e
seus correspondentes estudos ambientais feitos por encomenda do
Ministério da Integração Nacional em 2000 foram postos em xeque
pela crise climática que afetou profundamente as geradoras de
hidreletricidade e expôs os problemas da bacia e o sistema CHESF.
Por isso temos a versão atual, que, infelizmente, está muito longe
de sanar as dúvidas que tem a sociedade brasileira em geral e os
barranqueiros em particular.
Viu-se, ao longo da calha do Velho Chico, uma sucessão de usinas
paralisadas ou gerando energia no mínimo de sua capacidade, por
absoluta falta de água. Os reservatórios, especialmente o de
Sobradinho, chegaram aos limites extremos de sua capacidade de
sustentação das vazões. A navegação, que há muitos anos é
extremamente difícil e reflexo claro da agonia do rio, foi
interrompida. Mesmo assim, Sr. Vice-Presidente, os estudos
técnicos afirmam que o rio São Francisco está dividido em dois
segmentos: a montante de Sobradinho - dizem que há um rio ainda
indomado -; a jusante do barramento - os estudos dizem que o rio
está totalmente domado. Entretanto, nesse último trecho,
considerado domado, localizam-se as geradoras da CHESF, que
tiveram de ser paralisadas por falta de água durante a crise
climática.
Estudos afirmam que as águas do rio irão trabalhar em processo de
sinergia com as acumulações de água existentes no Nordeste
setentrional, de forma a permitir uma operação mais eficiente e
com otimização do aproveitamento dos recursos hídricos dos
reservatórios. Segundo tais estudos, atualmente não se podem
aproveitar integralmente os volumes de água reservados em função
das incertezas provocadas pelo clima semi-árido em relação à
reposição dos estoques. Além disso, as águas subterrâneas são
naturalmente limitadas para complementar o suprimento. Os estudos
informam textualmente que “a exploração intensiva desses
reservatórios tende a esgotá-los ou tornar a sua profundidade
excessiva para a exploração econômica da água”. Como explicar,
então, a proposta do projeto de elevar a água do São Francisco, em
uma de captações, a 165m de altura e, na segunda, a 304m, para
ultrapassar os divisores de água do vale do São Francisco e servir
às bacias vizinhas?
O que dizer então do consumo de energia necessário para que o
volume de água previsto pelos projetos possa ser recalcado até o
topo da serra? Ouviremos sempre dos defensores da transposição,
que não vêem necessidade prévia da revitalização do rio como
garantia da existência da água, o argumento de que projetos
similares são comuns em várias partes do mundo. De fato, sabemos
que muitos rios tiveram suas águas transpostas para suprir áreas
carentes de suas vizinhanças. No entanto, é preciso estarmos
atentos para as condições de época em que esses projetos foram
idealizados e implantados. Conforme dito no Relatório de Impacto
Ambiental, até o final da década de 80, na Califórnia, China,
Canadá, Espanha, México e outros, `as transposições foram
realizadas com a finalidade de aproveitar terras férteis, gerar
energia elétrica e equilibrar a oferta de água entre regiões,
buscando proporcionar oportunidades iguais de desenvolvimento
social e econômico às populações residentes nas diferentes
áreas.´.
Aqui, entre o vale do São Francisco e o Nordeste setentrional, há
vários pontos de controvérsia em relação às finalidades citadas. O
mesmo relatório declara que as terras do Nordeste setentrional são
constituídas de solos normalmente rasos e pedregosos, ocorrendo
também solos profundos e pouco profundos, localizados basicamente
no entorno dos rios da região, por onde deverão passar as águas
transpostas. Desses últimos, cerca de 600.000ha foram
identificados como de boa aptidão agrícola. Um rápido olhar sobre
as terras do São Francisco mostra-nos tabuleiros ribeirinhos
contínuos, com solos profundos e de boa fertilidade natural, com
área superior a 3.000.000ha, distribuídos ao longo do vale. O
desnível máximo para recalcar a água necessária à irrigação dessas
terras é de 30m. Sua única limitação às práticas agrícolas é o
déficit de chuvas. Assim, ante tal disponibilidade de solos
francamente irrigáveis nas margens do São Francisco, não se pode
postular a busca de equilíbrio hídrico entre as regiões doadoras e
receptoras, pois o rio está agonizando, e não há como retirar água
nas atuais circunstâncias. A conta é simples: os 600.000ha que
seriam irrigados no Nordeste setentrional significarão uma perda
equivalente a 1.500.000ha nas margens do São Francisco. Portanto,
o que ocorrerá, na prática, é um desequilíbrio, e não oferta de
oportunidades iguais de desenvolvimento social e econômico às
populações residentes nas áreas doadora e receptora.
É preciso ter presente que a pobreza é um traço comum de ambas
regiões. Para comprovarmos isso, basta uma comparação entre os
IDHs dos municípios do vale o os do Nordeste setentrional. Mas,
além desses aspectos, deveremos observar também que os projetos de
transposição implementados até a década de 80 foram idealizados e
realizados sob a ótica do mercado local ou regional para a
colocação dos produtos. Vivemos, hoje, em um mundo de economia
globalizada, com meios de comunicação rápidos e precisos, e em um
mercado global muito exigente em relação aos preços dos produtos
que lhe são ofertados. Por outro lado, nosso País tem defendido
uma posição contrária à prática de subsídios no setor agrícola,
questionando fortemente essas medidas dos Estados Unidos e da
União. Por isso precisamos realizar estudos técnicos que comprovem
a capacidade de competição dos produtos a serem gerados no
Nordeste setentrional com a água da transposição, sem falarmos em
subsídios voltados para essa finalidade.
Queremos enfatizar, mais uma vez, que a transposição só deverá
ser realizada com a comprovação da existência de um excedente
hídrico na bacia, para atendermos ao pressuposto da oferta de
oportunidades iguais de desenvolvimento para as regiões doadora e
receptora.
Caso contrário, em que haja uma decisão política pela
transposição, ficará sempre a indagação dos barranqueiros do São
Francisco sobre as razões que levaram o Governo a ignorar uma
região economicamente subdesenvolvida, mas com amplas áreas de
terras apropriadas para o desenvolvimento da agricultura irrigada,
sob os aspectos de qualidade do solo, luminosidade e relevo
propício à mecanização das culturas. Todo esse potencial está às
margens do São Francisco, que poderia ter os benefícios do
desenvolvimento econômico e social, com aplicação de recursos bem
menos vultosos em comparação com os que se pretende aplicar na
transposição. Temos a ousadia de dizer que o dinheiro que se
pretende empregar na transposição é mais que suficiente para os
projetos alternativos de aproveitamento dos recursos hídricos do
Nordeste setentrional e para aqueles necessários à melhoria da
qualidade de vida dos habitantes do vale do São Francisco. Neste
Plenário, estão presentes diversos técnicos, cientistas e
especialistas capazes de listar inúmeros projetos do Nordeste
setentrional que poderiam ser concluídos com poucos milhões de
reais. Recentemente, o jornal “Folha de São Paulo” informou que o
projeto Russas, no Ceará, que prevê irrigação de 10.000ha, poderia
ser concluído se a ele fosse destinado investimento da ordem de
R$10.000.000,00. Aqui, no vale do São Francisco, poderíamos
implementar vários perímetros de irrigação com projetos já
elaborados pela CODEVASF, que dependem de recursos de pequena
monta para ser viabilizados.
Queremos fazer menção a um desses projetos, o de Jequitaí, em
área vizinha a Pirapora. Trata-se de um barramento de baixíssimo
impacto ambiental, pois o reservatório ficará confinado em um vale
encravado na serra do Espinhaço, com pouquíssimas moradias e
terras agricultáveis. As águas que se acumularão nesse
reservatório poderão gerar 20MW de energia e irrigar entre
35.000ha e 45.000ha de terras de boa fertilidade, topografia
adequada e clima semi-árido.
Projetos como os que estão previstos para o vale do São Francisco
não podem ser relegados a segundo plano para benefício da
transposição. Voltamos a dizer que todas essas obras que visam ao
aumento da produção devem ser conduzidas juntamente com ações de
revitalização da bacia hidrográfica, que deve ser tomada como a
grande unidade territorial de planejamento do desenvolvimento
sustentável.
Todas as ações de revitalização e outras intervenções no São
Francisco têm como fórum apropriado para discussão o seu Comitê de
Bacia Hidrográfica, criado em conformidade com a Lei nº 9.433, de
1997. Somos partidários de que a CIPE - São Francisco se associe
às organizações da sociedade civil para trabalhar pelo pleno
funcionamento desse Comitê. É preciso que o gerenciamento das
águas do “Velho Chico” seja realizado com eficiência e em sintonia
com as expectativas das populações do vale. A participação ampla
de todos os setores sociais envolvidos com a questão da
transposição deve ser assegurada antes de uma tomada de decisão.
Queremos, agora, expor nossos pensamentos como barranqueiros que
somos, assim como vários dos presentes neste Plenário. O volume e
a vazão das águas diminuem assustadoramente nos meses de seca; o
peixe desaparece, agredido pela destruição das lagoas marginais,
seus berçários naturais, e pela poluição do leito do rio; a
navegação se torna quase impraticável, em razão dos bancos de
areia. O rio, ainda corajosamente correndo em meio a uma paisagem
degradada, agoniza. E com isso sofre o barranqueiro, sofre a
natureza, sofremos todos nós, alagoanos, baianos, mineiros,
pernambucanos e sergipanos, que temos a responsabilidade de
transformar essa situação alarmante.
Há outras soluções para a região da seca, que não a transposição.
Uma delas, que defendemos, é o programa Um Milhão de Cisternas,
pelo qual a água da chuva é retida em pequenas e múltiplas caixas
d´água, evitando-se sua perda.
Esse programa age sobre um condicionante decisivo do problema da
seca, o fato de que na região do semi-árido as características do
solo e as altas temperaturas provocam a evapotranspiração, secando
as reservas de água do solo. A chuva é relativamente abundante,
quase sempre acima de 500mm por ano. Nos Estados atingidos pela
seca, os índices de disponibilidade anual de água por pessoa são
razoáveis, o problema é reter essa água e possibilitar que a ela
tenham acesso as pessoas que mais necessitam. Essa mesma água da
chuva, que pode ser captada nas cisternas para o consumo humano,
pode também ser armazenada em pequenos barramentos de cabeceira e
utilizada na produção irrigada de alimentos, com impactos mínimos
ao meio ambiente. São pequenas obras que, disseminadas aos
milhares e aos milhões, garantirão água para as residências, as
lavouras e os animais.
Está aí o rio das Velhas a carregar os esgotos da RMBH e de
outras cidades para o trecho médio do “Velho Chico”. Se chegarmos
a sanear e a revitalizar o rio das Velhas, hoje arrasado pela
poluição, teremos dado ao São Francisco um dos maiores presentes.
E por isso, o barranqueiro vê e apoia projetos como o Manuelzão.
O que vemos, senhores, é o que a “miopia” dos projetos técnicos
não deixa enxergar: a seca no semi-árido e a degradação da bacia
hidrográfica do São Francisco são problemas distintos, com
soluções distintas. O flagelo da seca pode ser resolvido - estamos
convictos disso - com a multiplicação de pequenas obras de
retenção da água que cai sobre a região.
O rio também precisa de recursos. Nos períodos de estiagem, a
redução do nível das águas faz com que mostre as suas entranhas,
ou, como chamamos, nós, os barranqueiros: mostre as suas
“frussuras”. O peixe desaparece da mesa das populações
ribeirinhas; os bancos de areia tornam inviável a passagem das
embarcações; e a natureza, no leito do rio, nas suas margens e nos
terrenos vizinhos, parece recuar ante os efeitos combinados da
seca e da agressão humana. Agressão humana, sim, pois tudo isso
seria controlável, não fossem os males provocados pelo homem no
ecossistema do rio. A estiagem, fenômeno natural, tem
potencializado os seus efeitos pela ação humana, que destrói matas
protetoras, lança esgoto diretamente no leito do rio e dos seus
afluentes, extingue as lagoas marginais, que são os berçários dos
peixes, e retira, sem controle, das já enfraquecidas reservas da
bacia hidrográfica do São Francisco, água para irrigação das
lavouras.
Quem, como nós, cresceu nas barrancas, percebe os efeitos
prolongados dessa agressão ao rio e aos seus afluentes. Não nos
deixemos enganar com as conseqüências temporárias das chuvas de
final de ano. Elas são ilusão passageira. Quem, como nós,
acompanha diuturnamente a situação do São Francisco, sabe que se
trata apenas de efeito transitório. Sabemos que ao final dos
períodos secos é possível cruzar o rio a pé em diversos pontos de
seu curso.
Não nos enganemos. O rio, hoje mais do que nunca, precisa ser
salvo do estado de degradação em que se encontra. O homem que
interveio brutalmente nos cursos d´água que formam a bacia
hidrográfica do São Francisco, para, por ignorância ou despreparo
para a vida, provocar a situação que temos hoje, pode agora
trabalhar para reverter esse estado desolador.
Era essa a nossa expectativa quando do lançamento do Projeto de
Revitalização da Bacia do São Francisco. Mas, inexplicavelmente,
desde a instalação do atual Governo Federal, ouvimos falar
primeiro da transposição. Por isso, mais uma vez elogiamos o
espírito público de V. Exa., por estar aqui para debater a
revitalização.
As ações que defendemos, senhores, são aquelas voltadas para a
revitalização do rio, que ainda aguarda um lugar na agenda dos
projetos nacionais. Nesse sentido, um fato, para nós,
barranqueiros, foi a instalação, no final de 2001, da Promotoria
do São Francisco, fruto de convênio firmado entre o Ministério do
Meio Ambiente e o Ministério Público Estadual. Essa Promotoria,
iniciativa pioneira no âmbito da fiscalização, tem como função
adotar medidas administrativas e judiciais para melhorar a
qualidade e a quantidade das águas da bacia do São Francisco.
Esses são os pontos que consideramos relevantes. A alma dos
barranqueiros, que, como nós, acompanha a situação do São
Francisco, sofre junto com o rio. Está em nossas mãos, de todos os
brasileiros, evitar que um projeto de alto potencial de risco para
o vale do São Francisco, como a transposição, seja levado adiante
sem estudos técnicos consistentes, amplamente discutidos com a
sociedade brasileira. Por outro lado, Sr. Vice-Presidente, a
revitalização do rio é medida urgente e imprescindível. Podemos
afirmar, sem medo de errar, que ela é consenso entre os
brasileiros. Cabe a nós, agora, a tarefa de debater os planos e os
programas necessários para tornar a dar vida ao São Francisco e a
prover os meios de realizá-los. Muito obrigado.