DEPUTADO VANDERLEI MIRANDA (PMDB)
Discurso
Comenta manifesto publicado nos jornais sobre classificação indicativa
dos programas de televisão e critica reportagem publicada no jornal "O
Tempo" sobre prostituição.
Reunião
62ª reunião ORDINÁRIA
Legislatura 16ª legislatura, 1ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 19/07/2007
Página 64, Coluna 4
Assunto COMUNICAÇÃO. CULTURA. TELECOMUNICAÇÃO.
Aparteante GETÚLIO NEIVA.
Legislatura 16ª legislatura, 1ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 19/07/2007
Página 64, Coluna 4
Assunto COMUNICAÇÃO. CULTURA. TELECOMUNICAÇÃO.
Aparteante GETÚLIO NEIVA.
62ª REUNIÃO ORDINÁRIA DA 1ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 16ª
LEGISLATURA, EM 10/7/2007
Palavras do Deputado Vanderlei Miranda
O Deputado Vanderlei Miranda* - Sr. Presidente, Srs. Deputados,
Sras. Deputadas, senhores e senhoras profissionais da imprensa,
senhores e senhoras que da galeria acompanham o nosso trabalho,
honrados servidores da Casa, querido e fiel telespectador da TV
Assembléia, meu boa-tarde.
Sr. Presidente, tentarei ser sucinto. O que me traz à tribuna é o
manifesto que está circulando nos jornais de hoje. Registro que
meu pronunciamento não é contra esse manifesto. Aliás, o manifesto
é um direito democrático, mas apresentarei algumas considerações,
para que possamos refletir.
O Departamento de Justiça, a classificação, os títulos de
qualificação do Ministério da Justiça estão preparando uma
portaria de classificação para os programas de televisão. Isso tem
gerado uma discussão, até filosófica, a respeito do que pode e do
que não pode, do que é permitido e do que não é permitido. Sempre
que se fala em fiscalização ou qualquer que seja o termo usado,
para que possamos, de alguma forma, filtrar e manter a qualidade e
o objetivo principal dos meios de comunicação, quer escritos, quer
falados, quer televisivos, se invoca e se desenterra um defunto do
passado, que foi o período ditatorial, quando havia censura. E
tudo se confunde com censura quando se fala de um mecanismo ou da
produção de um mecanismo que permita que a programação da
televisão brasileira cumpra o princípio constitucional dos meios
de comunicação.
Uma página inteira de um jornal fala dessa questão. Não citarei o
nome do jornal, pois creio que isso está em todos os jornais de
circulação no Estado e, imagino, no Brasil. O manifesto vem
assinado por dezenas de pessoas, como atrizes e pessoas ligadas
aos movimentos de bairros. Aliás, são nomes muito conhecidos. Esse
manifesto diz: "Classificação indicativa sim, impositiva não. A
democracia em que vivemos é fruto de uma árdua luta, uma conquista
a ser permanentemente defendida e preservada". Concordo em gênero,
número e grau. "O Estado Democrático de Direito é a maior proteção
da sociedade e da família". Também concordo integralmente com
isso.
A Constituição brasileira, em seu art. 5º, Capítulo I - Dos
Direitos e Deveres Individuais e Coletivos, IX, estabelece: "É
livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica
e de comunicação, independentemente de censura ou licença". O
inciso X do art. 5º estabelece que são invioláveis a intimidade, a
vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito
à indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua
violação. O inciso XI do referido artigo estabelece que a casa é
asilo inviolável do indivíduo, ninguém nela podendo penetrar sem o
consentimento do morador, salvo em caso de flagrante delito ou
desastre ou para prestar socorro ou, durante o dia, por
determinação judicial.
Muito bem, no momento em que discutimos aqui a questão da
classificação, a pergunta que faço para reflexão é sobre qual tipo
de comunicação estamos falando. Será que estamos falando daquela
comunicação que tem por base os princípios constitucionais, que
estão muito claros aqui, em nossa Carta Maior, mais precisamente
no Capítulo V, art. 221, que fala da comunicação social? O art.
221 estabelece o seguinte. (- Lê:)
"Art. 221 - A produção e a programação das emissoras de rádio e
televisão atenderão aos seguintes princípios:
I - preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e
informativas;
II - promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção
independente que objetive sua divulgação;
III - regionalização da produção cultural, artística e
jornalística, conforme percentuais estabelecidos em lei;
IV - respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da
família".
É em cima disso que desejo basear a minha reflexão ao lado de V.
Exas. e dos telespectadores da TV Assembléia.
Quando avaliamos esse manifesto legal, amparado no que a
democracia nos dá como direito, será que esse manifesto defende os
meios de comunicação que são comprometidos com esses valores
estabelecidos na nossa Carta Magna ou, como bem disse o Deputado
Durval Ângelo, vamos dar o banho na criança e jogá-la fora junto
com a água? Qualquer iniciativa é válida para filtrar a podridão
que vemos hoje nos meios de comunicação, especialmente na
televisão e na internet.
O Deputado Durval Ângelo prima pelos valores familiares. Existe um
programa chamado Beija Sapo, em que homens beijam homens e
mulheres beijam mulheres. Que contribuição um programa como esse
dá para a construção de valores, ao ser exibido na televisão? É
isso o que quero questionar, e não o manifesto.
Os absurdos não param por aí, pois há um programa de televisão em
que uma mulher toda tatuada ensina os nossos adolescentes a fazer
sexo, induzindo-os a isso, num momento em que há uma campanha
dizendo que sexo com crianças e adolescentes é crime. Mas ela está
lá, com a cara na televisão, violando lares - recinto inviolável -
e levando esse tipo de programação. Qual a contribuição desse tipo
de programa? Onde está classificado esse tipo de programa? O que é
isso? A que serviço se presta? Que cultura é essa, Deputado Rêmolo
Aloise?
Quando vemos na televisão casais em cenas de sexo explícito, no
período da tarde, que contribuição a televisão está dando? Estou
falando apenas da televisão, mas também gostaria de falar dos
jornais. Aliás, quero chamar a atenção de V. Exas. para esta
notícia que tenho em mãos, deixando um pouco de lado a televisão.
Estamos lançando, nesta Casa, a Frente Parlamentar em Defesa da
Família, exatamente para discutir o resgate dos valores
familiares.
O jornal "O Tempo", de ontem, traz uma matéria dizendo que garotas
de programa saem da rua e invadem a internet. São duas páginas
falando de prostituição "on-line", de hotéis tradicionais com
cardápio e várias notas a respeito dessa chamada prostituição
moderna. Isso está na internet. Vejam aqui a fala sensata de um
advogado que diz: "Vista grossa".
Essa é a definição do advogado Alexandre Atheniense, a quem
parabenizo desta tribuna pela lucidez com que fez sua observação.
"Vista grossa" é a definição que esse especialista em direito de
informática dá ao tratamento das autoridades em relação aos
"sites" que fazem propaganda ou agenciamento de prostituição via
internet. Ele explica que a prática é discriminada na legislação
brasileira pelo Código Penal e, independentemente de sua
divulgação, deve passar por fiscalização. O advogado diz que o
modelo de prostituição promovido na internet não se diferencia de
outros - a internet é apenas outro ambiente. A prática continua
capitulada no art. 230 do Código Penal como atividade ilícita.
Para não gastar muito tempo tratando de outras situações,
falaremos de dois meios de comunicação apenas: a televisão e a
internet, que estão hoje dentro das nossa casas - a internet, em
escala menor, e a televisão, na quase totalidade dos lares do
País. Elas veiculam cenas que ferem frontalmente o que está
garantido às famílias na nossa Constituição. Quem fará a defesa
destas famílias, Deputado Getúlio Neiva? Quem levantará a voz para
buscar o resgate dos valores da família?
O art. 254 do Estatuto da Criança e do Adolescente diz:
"Transmitir através de rádio ou televisão espetáculo em horário
diverso autorizado ou sem aviso da sua classificação". O art. 255
estabelece: "Exibir filme, "trailer", peça, amostra ou congênere
classificado pelo órgão competente como inadequado às crianças ou
aos adolescentes admitidos ao espetáculo". Quem fará a defesa de
nossos adolescentes? Em nome deste defunto chamado ditadura, todas
as vezes que se fala em mecanismos para produção de uma televisão
que de fato não core a família brasileira...
Não gosto de novela, mas, noutro dia, passando os canais, vi uma
cena com uma prostituta, que está fazendo o maior sucesso. Ela
discutia com uma pessoa na rua dizendo: "Você é muito ruim de
cama. Já fiquei com meninos de 15 anos melhores do que você". Meu
Deus do céu! Estamos numa campanha distribuindo adesivos,
trabalhando com caminhoneiros, dizendo que sexo com criança e
adolescente é crime, e uma novela vai ao ar com uma personagem que
interpreta uma prostituta dizendo: "Você é muito ruim de cama. Já
fiquei com meninos de 15 anos melhores do que você". Não estou
tirando nem acrescentando palavras.
Creio que todos aqui tenham filhos, adolescentes ou adultos. Assim
que for lançada a Frente Parlamentar em Defesa da Família,
realizaremos uma audiência para que venham aqui Promotores,
principalmente da Vara da Infância e da Juventude, Juízes,
representantes do segmento da comunicação, porque quero exibir 10
minutos de vídeo referente à programação da TV. Serei sincero,
buscarei cenas que fazem qualquer pessoa de bom-senso, que ainda
tem um restinho de pudor, enfiar a cabeça debaixo da mesa, porque
é esta a televisão a que os nossos filhos estão assistindo.
O que estamos discutindo quanto à classificação é a comunicação
séria, comprometida com os princípios da nossa Carta Maior, ou a
podridão que hoje, talvez exagerando, ocupa 90% da nossa
programação?
O controle remoto foi um avanço com o intuito de permitir que o
constrangimento seja menor. Quando a cena surge, podemos mudar de
canal; todavia, se estamos na sala ou no quarto com nossa
criancinha, nosso filho adolescente, nosso filho menor e somos
surpreendidos, ou seja, invadidos, temos frontalmente ferido um
dos princípios constitucionais, que diz que o lar é um ambiente
inviolável e intocável - aliás, termo que já foi utilizado hoje
nesta tribuna. Se há algo intocável, podemos dizer que é o lar,
que infelizmente está sendo agredido e invadido, fazendo com que
os valores sejam totalmente jogados na lama.
O Deputado Getúlio Neiva (em aparte) - Deputado Vanderlei Miranda,
gostaria primeiramente de cumprimentá-lo pela vibrante defesa da
família. Estamos com V. Exa. à frente da defesa da família.
Realmente precisamos colocar limites tanto no que é levado a cada
casa, a cada lar, quanto no comportamento das autoridades,
daquelas que realmente importam para a vida da sociedade.
V. Exa. tem uma vantagem sobre mim e a maioria dos Deputados desta
Casa: nunca foi processado pelo Ministério Público. V. Exa. não
sabe a dor que sentimos nem o constrangimento para a nossa família
e para os amigos, ao sermos acusados por algo que não devemos.
Essa também é outra chaga. V. Exa. compara bem. No Ministério
Público, há pessoas que achavam que eram deuses; e agora, pela
carta do Procurador-Geral, no pé da segunda página, temos a
certeza de que sabem que são deuses, são intocáveis.
Então, permitiria V. Exa. que fizéssemos uma digressão, comparando
o desacerto da sociedade brasileira. O que está acontecendo? Há
pessoas que se acham mais importantes que as outras; e Poderes que
se acham mais importantes que os outros. A democracia perde-se em
distância no momento em que ainda nem conseguimos reafirmar-nos.
Depois de 21 anos de ditadura, encontramos dificuldade em fazer
que as autoridades dos vários Poderes entendam que o tripé da
democracia vem da Grécia e de Roma, ou seja, é milenar. Precisamos
dar suporte a isso na Assembléia Legislativa.
Estamos numa caminhada bastante complicada e difícil, num momento
em que, lamentalvemente, a mídia tende para a defesa do Ministério
Público, enquanto mostramos o prejuízo que esse órgão está
causando à sociedade brasileira e à divisão tripartite dos
Poderes. Essa carta do Promotor Jarbas em que solicita a retirada
do Projeto de Lei Complementar nº 17 é uma obra-prima de insulto
ao Poder Legislativo. Deve estar muito ao gosto dos que desejam
fazer imprensa espetacular e tomar partido exatamente de um Poder
que se exacerba, extrapola e, sobretudo, fabrica a pauta da nossa
imprensa. É muito mais fácil para o jornalista pegar uma denúncia
do Promotor, porque este tem garantias e é inatacável - aliás,
agora também é intocável -, pois não pode ser processado, não
responde pela Lei nº 5.250, de imprensa, nem pelo Código Penal.
Além disso, não paga nem as custas do processo, quando perde 90%
das ações, nem honorários advocatícios. Diferentemente de nós,
que, quando processados e perdemos, temos de pagá-los. Realmente
estão acima da verdade, mas não podem estar acima de Deus nem
intocáveis.
Eu pediria vênia ao nobre Deputado Vanderlei Miranda, que atacou
uma questão tão séria quanto a que estamos atacando: o problema da
família.
Estamos preocupados com as famílias das pessoas que ainda têm
coragem de ser candidatos a cargos eletivos neste país. É preciso
muita coragem, pois, no momento em que se candidata, abre-se mão
de toda a sua estrutura familiar, do seu recinto, da sua casa, do
seu ambiente de trabalho. Enfim, abre-se mão da vida; o lar e a
pessoa física ficam violados. Ficamos abertos para ser a todo
instante achincalhados, insultados por Promotores de Justiça, que
não se responsabilizam por seus atos, o que é mais incrível.
Denunciam falsamente, perdem as ações no Tribunal de Justiça ou no
Supremo Tribunal Federal, denunciam, e não pagam por isso. Ao
contrário, a única forma de penalizar um Promotor de Justiça é
promovê-lo para uma comarca de melhor instância. Estou dizendo
isso com conhecimento de causa. Três Promotores da minha cidade,
tão logo me denunciaram, foram promovidos: dois para Belo
Horizonte e um para Ipatinga. É só brigar com o Prefeito, denunciá-
lo, que é promovido. Isso ocorre em muitos casos.
Então é preciso que tomemos um tempinho de V. Exa., Deputado
Vanderlei Miranda, para não deixar morrer esse assunto. Parece-me
que houve um arrefecimento em razão das emendas apresentadas, do
projeto de lei que está tramitando e do pedido de retirada do
projeto, do Procurador-Geral do Ministério Público. Preocupa-me
quando as pessoas se acomodam e deixam morrer um assunto sem que
esteja acabado.
Os Promotores de Justiça estão acima do bem e do mal, acima do
Judiciário, do Legislativo e do Executivo. Eles não prestam contas
a ninguém por suas ações, nem tampouco pagam por seus erros,
quando cometidos, achincalhando a imagem e a vida pública de um
cidadão. Minha preocupação é essa. Poderemos voltar a esse assunto
outras vezes.
Não queria concluir, mas o Presidente não nos permitiu ingressar
com mais um art. 70. Tínhamos chance de mais um ainda e,
conseqüentemente, de prolongar essa discussão até mais tarde.
Deixemos para amanhã, quando tomaremos as providências para que
esse assunto não morra e para, ao discutir a matéria, também
discutir as emendas que foram apresentadas, uma por uma, a fim de
chegarmos a um consenso de atuação nesta Casa.
Lamento, nobre Deputado Vanderlei Miranda, que alguns Deputados
queiram derrotar o Projeto de Lei Complementar nº 17, no seu
"caput", apenas porque querem impedir que haja uma gratificação ao
Promotor de Justiça.
Continuo defendendo a idéia de que o Poder Legislativo não deve
imiscuir-se nos assuntos financeiros internos do Ministério
Público. Ele pode fazer o que quiser com o seu dinheiro, pois o
orçamento é dele. Temos de tomar providências, no futuro, aqui na
Assembléia, a fim de que passe a prestar contas desse dinheiro.
Não estou aqui para meter o bico onde não me cabe. O que queremos
é regularizar, reformatar, melhorar as condições de trabalho do
Ministério Público, sobretudo para que não insultem
permanentemente a classe política e prejudiquem tanto a Justiça em
Minas Gerais. A Justiça está sofrendo terrivelmente, porque os
Desembargadores, os Juízes têm de olhar aqueles processos longos,
cheios de acórdãos, de súmulas, mas sem raciocínio e sem provas.
Dessa forma, está-se prejudicando a Justiça neste Estado. Então
queremos providências quanto a isso.
Agradecemos a V. Exa. Concordamos com toda a interferência que V.
Exa. fez. Concluo para que V. Exa. termine seu raciocínio. Muito
obrigado.
O Deputado Vanderlei Miranda* - Apóio integralmente esse
manifesto. O que quis, na verdade, com esse pronunciamento, foi
expor uma questão, a fim de que a sociedade reflita. O manifesto
está trabalhando no sentido de preservar e de manter a liberdade
de comunicação da comunicação saudável, comprometida com os
valores da Carta Maior, ou, ao se preocupar com o direito e a
liberdade de expressão, não está se preocupando com o lixo que
temos hoje nos meios de comunicação. Essa é a reflexão que
proponho.
Desta tribuna, falarei quantas vezes forem necessárias contra esse
modelo de comunicação pernicioso, desestruturador e degradante da
família brasileira, porque a minha Constituição, a Constituição do
meu país diz que os valores da pessoa e da família devem ser
preservados. Muito obrigado, Sr. Presidente.
* - Sem revisão do orador.