DEPUTADO PADRE JOÃO (PT)
Discurso
Comenta o julgamento pelo Supremo Tribunal Federal - STF - da questão da
demarcação contínua da reserva indígena "Raposa Serra do Sol", do Estado
de Roraima - RR. Comenta os impactos ocasionados pela monocultura ao meio
ambiente.
Reunião
18ª reunião ORDINÁRIA
Legislatura 16ª legislatura, 3ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 26/03/2009
Página 88, Coluna 3
Assunto ÍNDIO. DIREITOS HUMANOS. JUDICIÁRIO. MEIO AMBIENTE.
Legislatura 16ª legislatura, 3ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 26/03/2009
Página 88, Coluna 3
Assunto ÍNDIO. DIREITOS HUMANOS. JUDICIÁRIO. MEIO AMBIENTE.
18ª REUNIÃO ORDINÁRIA DA 3ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 16ª
LEGISLATURA, EM 19/3/2009
Palavras do Deputado Padre João
O Deputado Padre João* - Sr. Presidente, telespectadores que nos
acompanham pela TV Assembleia e nas galerias ontem e hoje, dois
dias importantes para todo o povo brasileiro. Ontem, no STF, o
Ministro Marco Aurélio Melo proferiu seu voto, e hoje é dia de o
Presidente Gilmar Mendes votar. Nove Ministros do STF já votaram.
Trata-se de uma novela que vem se arrastando desde 2005. Temos de
reconhecer a coragem e a ousadia do Presidente Lula ao definir,
por meio de um decreto, a demarcação das terras indígenas na
reserva Raposa Serra do Sol. Trata-se de uma área com uma
população de aproximadamente 19 mil pessoas. Nesse grupo, estão
apenas 41 famílias brancas, produtoras de arroz, que vieram, ao
longo do tempo, encurralando e tentando expulsar os índios,
dificultando a vida da população que está na região há séculos e
séculos.
O que está em questão é a demarcação contínua, e é nesse sentido
que nove Ministros já foram favoráveis, em comum acordo, à decisão
da Presidência da República por meio de decreto.
Era de se esperar os votos do Ministro Marco Aurélio e do
Ministro Gilmar Mendes fossem contrários aos interesses da
população indígena. O Ministro Gilmar Mendes vai surpreender-me
se, nesta tarde, votar a favor do que é justo, ou seja, se votar
favoravelmente à demarcação contínua, garantindo, assim, a paz na
área de reserva que fica em Roraima. Esperamos que com essa
decisão se encerre uma história de conflito entre os grandes
produtores da monocultura de arroz e os povos indígenas.
Na semana passada, desta tribuna, falei das grandes injustiças
registradas na história do Brasil em relação aos povos indígenas,
quando os europeus aqui chegaram e aos afro-descendentes. O
governo - neste caso o Presidente Lula - desde 2005 procura
reparar as injustiças e diminuir as desigualdades; porém, a
Justiça, justamente de quem a população espera algo positivo,
posiciona-se contra esse processo. Ainda bem que, até agora, dos
11 Ministros, 9 já se manifestaram favoráveis, apoiaram o decreto,
garantindo, assim, a paz em Raposa Serra do Sol, em Roraima.
Considerando-se o jeito de viver dos indígenas, sabe-se que
precisam de uma área maior. Eles já trabalham um pouco com
agricultura e pecuária. A CNBB fez um bom trabalho, uma campanha
para aquisição de matrizes bovinas para os indígenas. Portanto, há
um esforço, mas, por maior que seja sua adaptação a uma nova
cultura, eles precisam de maior extensão de terra - a área, lá,
chega a cerca de 1.700.000ha. Se compararmos essa extensão com
algumas áreas do nosso Estado que se encontram nas mãos de uma,
duas ou, no máximo, três grandes empresas que trabalham com a
monocultura do eucalipto, que também gera exclusão, êxodo das
famílias, concentração econômica, de renda, veremos que não se
trata de área tão grande assim. De acordo com dados do Iter, mais
de 11.000.000ha estão nas mãos de empresas que se dizem
reflorestadoras. Esse processo resiste há mais de 25 anos, e elas
não cedem sequer parte dessas terras para a prática da agricultura
familiar. Ademais, não permitem que os agricultores retirem dessas
áreas podas de desbrotas nem galhos de eucalipto que já estão no
chão, apodrecendo, e que podem ser aproveitados como lenha.
Vemos grandes injustiças, mas a nossa grande esperança, no dia de
hoje, é encerrar esses conflitos em uma área de reserva indígena
em Roraima, em Raposa Serra do Sol. No caso, garantiremos
definitivamente a paz, com a superação de todo conflito.
Serei, como disse, surpreendido se o voto do Presidente do STF
for favorável aos indígenas. Mas daqui desta tribuna fazemos o
nosso apelo ao Ministro Gilmar Mendes para que isso ocorra. De
qualquer forma, mesmo que ele vote contrariamente, serão 9 votos a
2, com 9 votos favoráveis aos indígenas.
Aqui declaro que reconhecemos a importância do decreto do
Presidente Lula em 2005, garantindo a demarcação contínua e
reassentando ainda os produtores de arroz instalados na área.
No caso, estamos certos de que teremos não somente grande ganho
social, mas também ambiental. Por quê? Porque hoje temos clareza
de que, mesmo quando se trata de uma monocultura na agricultura -,
por exemplo, de um produto importante para alimentação, como o
arroz -, essa monocultura é danosa para o ambiente. Isso, porque
destrói a biodiversidade, que é a garantia que se tem de um
controle natural de insetos que disseminam determinadas pragas. A
monocultura, mesmo a do feijão, destrói a biodiversidade. No caso,
acontece infestação de pragas, o que exige uso de veneno. Assim,
temos um grande problema, porque há produção em grande escala,
muito por hectare, mas produz-se alimento com mais veneno. Que
importância tem para o ser humano, para a vida essa produção,
mesmo sendo de alimento?
Hoje vimos pelo noticiário como aumentou em Minas Gerais o
percentual de pessoas com câncer. Podemos detalhar todo esse
diagnóstico. Perceberemos que, onde há maior concentração do uso
de venenos ou de agrotóxicos, o índice de pessoas com câncer é bem
maior. Basta chegar à região de Barbacena e Carandaí, que o xará
João Carlos conhece bem, onde se tem usado bastante veneno, e as
pessoas de 40, 50 anos têm a pele parecida com a de uma pessoa de
60 anos, uma pele envelhecida. Neste último domingo estive na
Feira dos Agricultores e questionei essa situação.
Essas questões nos são muito claras e nos levam a combater a
monocultura, o uso do veneno, sobretudo na produção de alimentos.
Temos de produzir alimentos para a vida, ou seja, para garantir a
saúde e a vida.
Cresce a cadeia do capitalismo quando se busca produzir em larga
escala, em grande quantidade, um alimento de certa forma
envenenado. Alem disso, ocorre o fortalecimento dos grandes
laboratórios, uma vez que se fazem necessários remédios caros, que
muitas vezes nem sequer são cobertos pelo SUS. Esse modelo
econômico, que sobrevive à custa de vidas de trabalhadores e
trabalhadoras, precisa ser mudado, e essa mudança ocorrerá pelo
campo. Assim, acreditamos na população indígena da Raposa Serra do
Sol, que, com certeza, em vez da monocultura do arroz, produzirá
uma diversidade de alimentos, que garantirão saúde para o seu povo
e para outros povos.
O Ministro justificou a não-demarcação contínua alegando que
favoreceria a integração dos povos, o que não é verdade, já que,
ao contrário, preserva-se a cultura dos indígenas. Não temos hoje
problemas de relacionamento entre as raças. Além disso, tem
aumentado muito o respeito e as oportunidades para todas as raças,
o que garante harmonia nas diversas regiões do Brasil. São dadas
oportunidades, no sentido de reparar injustiças, como no caso das
cotas para a população afrodescendente. A concessão dessas cotas
visa tratar de forma diferenciada o que é diferente, considerando
diferentes aqueles que não tiveram as mesmas oportunidades ao
longo da história. Reparar as injustiças é indispensável. Somos
todos iguais perante a Constituição, embora infelizmente, nos
primeiros séculos, as diferenças tenham sido acentuadas. Para hoje
se garantir a igualdade, é necessário tratar de modo diferente
aqueles que não tiveram as mesmas oportunidades. Quem sabe o
Ministro Gilmar Mendes - para, pelo menos, sinalizar sensibilidade
ou mesmo se redimir com os movimentos - vote de forma favorável à
demarcação contínua da área, garantindo toda a reserva para a
população indígena? Faço esse apelo querendo ser surpreendido, uma
vez que todas as suas ações e palavras têm sido para incriminar as
minorias e, sobretudo, os movimentos sociais. São essas as minhas
considerações, Sr. Presidente.
* - Sem revisão do orador.