DEPUTADO PADRE JOÃO (PT)
Discurso
Comenta a importância da agricultura familiar e destaca programas de
apoio à atividade. Solicita a inclusão da reforma agrária como aspecto
da política fundiária, na competência da Comissão de Política
Agropecuária e Agroindustrial. Comenta a questão do êxodo rural e a
imigração ilegal de mineiros para os Estados Unidos e países da
Europa.
Reunião
12ª reunião ORDINÁRIA
Legislatura 15ª legislatura, 3ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 22/03/2005
Página 38, Coluna 4
Assunto AGROPECUÁRIA. REFORMA AGRÁRIA. ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA.
Normas citadas LEI nº 14614, de 2003
Legislatura 15ª legislatura, 3ª sessão legislativa ORDINÁRIA
Publicação Diário do Legislativo em 22/03/2005
Página 38, Coluna 4
Assunto AGROPECUÁRIA. REFORMA AGRÁRIA. ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA.
Normas citadas LEI nº 14614, de 2003
12ª REUNIÃO ORDINÁRIA DA 3ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 15ª
LEGISLATURA, EM 16/3/2005
Palavras do Deputado Padre João
O Deputado Padre João* - Sr. Presidente, saudações especiais aos
nobres colegas e ao público das galerias, farei breve reflexão a
respeito da importância da agricultura familiar no Brasil,
especialmente em Minas Gerais. Falarei também sobre a nossa
esperança e sobre o que ocorreu nos últimos tempos.
A agricultura familiar é responsável por cerca de 10% do PIB
nacional, o que corresponde a R$156.600.000.000,00 para a economia
brasileira. Ocupando apenas 30% da área, os estabelecimentos
familiares foram responsáveis por quase 40% do valor bruto da
produção agropecuária nacional. Ou seja, estou falando da produção
de feijão, leite, milho, mandioca, suínos, cebola e fumo. No que
se refere a alguns itens, a produção foi superior a 50%. Esses
dados são importantes. A agricultura familiar assegura o acesso ao
alimento, bem como garante sua qualidade, pois não utiliza
agrotóxicos. Ademais, os produtos encontram-se mais próximos do
município.
Destacamos o programa Compra Direta da Agricultura Familiar, por
meio do qual tanto o produtor quanto as entidades saem ganhando.
Realizei um trabalho social com numerosas entidades, isto é,
creches, hospitais filantrópicos e asilos. Testemunhamos a luta
dessas entidades para garantirem a alimentação. Por intermédio
desse programa, o que é comprado da agricultura familiar no
município é doado às entidades. Segunda-feira atrasada, estive em
Barbacena para acompanhar esse processo, ver quem está entregando
os alimentos e quem os está recebendo. Trata-se de um importante
programa do Governo Federal; logo, temos de reunir forças a fim de
garantir mais recursos.
Reconheço também o grande apoio que a agricultura familiar
recebeu. A Lei nº 14.614 surgiu de um projeto de lei de autoria do
companheiro Adelmo Carneiro Leão e da atual Prefeita de Teófilo
Otôni, Maria José Haueisen. É essa lei que garante apoio
financeiro às escolas famílias agrícolas. Não podemos falar de
agricultura familiar se não concedermos aos jovens formação
específica, que os oriente a permanecer no campo. Hoje as grandes
universidades - inclusive a federal -, às vezes viabilizam ao
jovem certa ruptura, pois não há, na propriedade, um trabalho
orgânico, voltado para a agricultura familiar. Por meio da
pedagogia de alternância, o jovem fica 15 dias na escola e depois
volta para a casa de seus pais, para o sítio, para a propriedade,
onde pode aplicar o que aprendeu.
O art. 3º da lei fala do apoio financeiro do Estado às escolas-
famílias agrícolas; todavia, justamente o campo que fazia
referência à origem dos recursos foi vetado pelo Governador.
Tentamos derrubar o veto; realizamos, por sinal, uma audiência
pública. Formamos uma equipe com a Secretaria de Educação para
elaborarmos outro projeto. Fizemos a minuta de um decreto e, no
início do ano passado, a encaminhamos ao Governador, a fim de
resolver o problema do apoio financeiro. A partir do dia 3/3/2005,
passamos a contar com um decreto que regulamenta a Lei nº 14.614.
Por intermédio do FUNDEF, é garantida uma bolsa a cada aluno da
escola-família agrícola.
O critério é pertencer a uma escola-família agrícola, com
pedagogia de alternância, tendo como entidade mantenedora uma
associação de pais e alunos. Isso fortalece a agricultura familiar
deste Estado, e esperamos que a Secretaria da Educação, por meio
de resolução, encaminhe esses recursos para nossas escolas-
famílias agrícolas.
Sr. Presidente, homenageio o Secretário especial para assuntos da
reforma agrária, companheiro Neider e aproveito para apresentar
requerimento à Mesa solicitando que, quanto à Comissão de
Agricultura e Pecuária, seja incluída, na alínea “c”, que trata da
política fundiária, também a reforma agrária. O Regimento Interno
não aborda essa questão. Então que se faça constar, além de
política fundiária, reforma agrária.
Solicito ainda que seja acrescentado à letra “f” que trata da
segurança alimentar e nutricional sustentável, o crédito agrícola
e a política de abastecimento e agricultura familiar, como
competência da Comissão de Política Agropecuária e Agroindustrial
desta Casa. Estou cobrando posição da Mesa sobre esse requerimento
feito em 2003 quanto à alteração na parte que trata da competência
e do papel dessa Comissão.
Pedimos a constituição de uma comissão especial para a segurança
alimentar nutricional sustentável, e trabalhamos com um projeto de
lei, que veio com mensagem do Governador, que instituía a lei
orgânica de segurança alimentar nutricional no Estado de Minas
Gerais. Nosso Estado tem tudo para ser o primeiro do País a ter
lei orgânica de segurança alimentar. Esperamos que, por meio dessa
comissão especial ou por qualquer outra forma, possamos trabalhar
bem esse projeto de lei no interior do Estado.
Também solicito a criação de uma frente parlamentar de defesa e
fortalecimento da agricultura familiar no Estado de Minas Gerais,
reconhecendo sua importância para todos os mineiros e para o
Estado. Todo alimento que consumimos, como o café da manhã e o
almoço, vem do trabalho da mulher e do homem do campo, que precisa
ser valorizado e respeitado.
Precisamos nos empenhar cada vez mais e apoiar créditos e
políticas de agricultura e assistência técnica mais próximas e
adequadas a cada região deste Estado.
Os instrumentos que temos são a comissão permanente, a frente
parlamentar e a própria comissão especial, pelas quais
garantiremos uma alimentação adequada e produtos livres de
agrotóxicos e com preços mais acessíveis. Cada cidadão deve ter
acesso ao alimento em quantidade, em qualidade e regularidade.
Peço empenho da Mesa e espero o apoio dos nobres colegas nos
trabalhos que estão por vir, seja na Comissão Especial, seja na
mudança do Regimento Interno, com referência à competência da
Comissão de Agroindústria e Pecuária.
A maneira de garantir o reinado da paz e da tranqüilidade é
possibilitar que o nosso jovem permaneça no campo. Em algumas
áreas é forte ainda o êxodo rural. Sabemos que a ausência de uma
política ou a deficiência de uma política pública nessa área
trazem esse resultado. O jovem, antes de terminar, os estudos
pensava em vir para Belo Horizonte ou ir para São Paulo. Hoje,
grande parte da nossa juventude pensa em ir para Portugal ou para
os Estados Unidos. Na próxima quarta-feira, teremos uma audiência
pública para ouvir os jornalistas que levantaram essa questão, que
também está sendo abordada em uma novela da TV Globo. Ouviremos as
jornalistas Maria Clara e Fernanda Odila, do “Estado de Minas”, o
Alan Rodrigues, da “IstoÉ”, além de Eduardo Morato, Procurador da
República em Minas Gerais.
Teremos oportunidade de analisar essa situação vergonhosa,
principalmente com a descoberta de um cemitério clandestino nos
Estados Unidos onde estão enterrados vários mineiros e pessoas do
Brasil. Esse pessoal foi aliciado ou até enganado com a promessa
de segurança para chegar aos Estados Unidos; mas essa segurança é
falsa.
Conhecemos algumas famílias que empenharam casas, terrenos e bens
para entregar a essas agências, que também denominamos de
“coiotes”. Nossos cidadãos acabam ficando pelo caminho ou nem
voltam. Contaremos com o apoio da companheira Deputada Elisa
Costa, de Governador Valadares, região onde essa migração
clandestina é bem maior. Defendemos, porque achamos que todo
cidadão tem o direito de ir e vir, mas deve haver segurança; não
há por que devam ir de forma ilegal.
Vemos ainda a esperteza dessas agências, que estão saindo de
Governador Valadares e indo para o Sul de Minas. Trata-se de uma
questão séria. Esta Casa, em sintonia com a Câmara e com o Senado
Federal poderá, talvez até por meio de uma CPI, apurar e punir as
pessoas, não responsáveis, mas irresponsáveis, que causam esse
grande problema às famílias, ao Estado e ao País. Muito obrigado.
* - Sem revisão do orador.